Chilling Adventures: Rhiannon and A.J Blythe
Não morreram porque Deus não quis.
Rhiannon.
Apesar dos nossos pais serem o exemplo de pessoas abertas e sempre dispostas a fazer todas as vontades dos filhos, só tinha uma coisa que eles não abriam mão de negar, mesmo que eu fizesse beicinho e AJ ameaçasse chorar por um mês: ter um pet em casa.
Eu tinha passado por uma fase… Um tanto quanto violenta quanto a amar patos e a cor amarela quando era mais jovem, a ponto de ter um quarto dessa cor e uma coleção enorme de bichinhos que lembrassem um patinho. Até o dia que eu ganhei um, e ele quase me matou enquanto eu dormia.
— Ninguém gosta de ser tratado igual boneca e ser apertado enquanto dorme. — AJ dizia, justificando o assassinato que quase presenciou quando meu pet teve a intenção de me bicar até a morte. — Esse pano a gente tem que passar.
Desde então, nós não tínhamos mais autorização pra ter animais em casa, mas depois de alguns anos de pressão psicológica e nós dois fazermos ameaças sobre como íamos chorar até morrer, finalmente conseguimos o consentimento.
— Nós não vamos comprar, isso é fato. — Disse para meu irmão, o qual concordou sem nem questionar. — Então vamos adotar.
— Quem sabe um cachorro? Ou um gato?
— Ia ser ótimo se a gente pudesse levar ele pra todos os lugares, já que vai ser de nós dois e eu também quero ver ele quando for pra faculdade. — Pontuei minha exigência, a qual AJ mais uma vez concordou enquanto a gente saia pelos portões da escola.
Nova York tinha um monte de abrigos e ONGs que cuidavam desse tipo de ponte entre animal abandonado e tutor disposto a cuidar, e nós tínhamos mesmo planos de ir até um desses lugares, até uma pessoa desconhecida e aleatória me mandar uma mensagem pelo Instagram, dizendo que tinha visto por aí que eu estava interessada em adoção de bichinhos, e que tinha alguns que talvez eu pudesse me interessar.
— Por que mesmo a gente precisa ir pra casa desse cara com ele, ao invés de ir no nosso próprio carro? — Meu irmão caçula pergunta, chutando as pedrinhas da rua escura enquanto nós dois esperávamos o tal dono dos gatinhos de pijama do lado de fora de casa.
— Algo sobre… Ele achar mais seguro pra gente? Ele disse que vai nos levar e depois nos trazer de volta e ele pareceu realmente legal pra mim. — Justifiquei encolhendo os ombros, sentindo um ventinho no estômago quando a van antiga virou nossa esquina.
AJ.
Eu tinha ficado um pouco curioso quando vi que íamos dividir o espaço dos fundos da Van com caixas de isopor com gelo e uma pá, mas não consegui perguntar ou me lembrar de ter feito isso, muito ocupado em perguntar sobre que tipo de pets aquele senhor com o dobro do nosso tamanho e de meia idade, tinha em casa.
Eu tenho certeza que passei uma boa hora perguntando sobre gatos, e depois falar sobre como achava eles fofinhos e porque achava eles fofinhos, então Rhiannon começou a tagarelar sobre cachorros e como ela amava eles também, e não era como se ele estivesse respondendo interessado ou animado.
Na verdade, ele mandou a gente calar a boca umas duas vezes, assim, do nada, e mesmo assim não parecia nada demais.
— Vai ver ele não gosta de falar enquanto dirige, igual ao papai. — Tirei a justificativa do nada, quando minha irmã ficou assustada com o grito rude e alto que o mais velho deu no banco da frente. — Você contou pro Alexander que finalmente conseguiu achar o abrigo perfeito?
— Na verdade, não. Eu esqueci porque fiquei muito animada com a ideia de fazer cookies de brilho com ele no final de semana. — Minha irmã respondeu com um sorrisinho, checando o próprio celular. — E você, contou pra Marissa ou algum dos seus amigos?
— Sim, mas não que ia ser hoje e nem isso tudo sobre a carona e tal e… Eu meio que tô sem sinal no meu celular agora.
Era bem óbvio que o celular da minha irmã também já não funcionava, mas nem isso abalou a gente. Estávamos certos e ainda super animados com a ideia de adotar um animal de estimação naquela noite e não era a falta de serviço ou horas naquele carro estranho, que iam estragar isso.
Em algum ponto da viagem, o carro parou em um posto, e a gente não conseguia ver nada do lado de fora, até Rhiannon soltar um gritinho agudo e pular do meu lado.
— Olha, tem um filhotinho bem ali!
Ele parecia sozinho, perdido e desorientado, e eu tinha certeza que um carro iria atropelar ele se tivesse tido a oportunidade, então a gente só saiu dos fundos da Van, foi até o filhote e nunca mais soltamos ele.
— Não é a coisa mais adorável que você já viu? — Chamava a atenção dela, sem nem ligar que aquele lugar era totalmente diferente da vizinhança que a gente conhecia.
Foi só questão de tempo pra uma viatura da polícia chegar e o estacionamento do posto de gasolina ficar confuso. A gente nunca mais viu o cara da Van, e um policial gentil ofereceu pra gente uma carona pra casa quando dissemos que éramos menores de idade.
— E foi assim que a gente adotou a Pipoquinha. — Terminei a história na sala de casa, enquanto nossa cachorra dormia no meu colo e eu tinha a cabeça apoiada no colo de Marissa. Rhiannon parecia ter molas nos dois pés quando saiu da cozinha com Alexander e os cookies de brilho que eles tinham feito, roubando o filhote de mim.
— Eu só queria saber se o cara dos gatinhos não ficou magoado quando a gente sumiu e nunca mais entrou em contato.
Na TV da sala, passava uma reportagem, pique plantão da Globo, sobre um serial killer e ladrão de órgãos que tinha sido preso depois de anos sendo procurado por todo país, num posto de gasolina no meio do nada.
E a gente nem se bateu.















