Boletim do Mundo Mágico
Meus pés sonham suspensos no Abismo minhas cicatrizes se rasgam na pança cristalina eu não tenho senão dois olhos vidrados e sou um órfão havia um fluxo de flores doentes nos subúrbios eu queria plantar um taco de snooker numa estrela fixa na porta do bar eu estou confuso como sempre mas as galerias do meu crânio não odeiam mais a batucada dos ossos colégios e carros fúnebres estão desertos pelas calçadas crescem longos delírios punhados de esqueletos são atirados no lixo eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente os luminosos cantam nos telhados eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens mas o céu roxo é uma visão suprema minha face empalidece com o álcool eu sou uma solidão nua amarrada a um poste fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota minha alma desconjuntada passa rodando
(do livro de poemas Paranoia, Roberto Piva)
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Ruína Sem encontrar-se. Viajante pelo seu próprio torso branco. Assim ia o ar.
Logo se viu que a lua era uma caveira de cavalo e o ar uma maçã escura.
Detrás da janela, com látegos e luzes se sentia a luta da areia contra a água.
Eu vi chegarem as ervas e lhes lancei um cordeiro que balia sob seus dentezinhos e lancetas.
Voava dentro de uma gota a casca de pluma e celulóide da primeira pomba.
As nuvens, em manada, ficaram adormecidas contemplando o duelo das rochas contra a aurora.
Vêm as ervas, filho; já soam suas espadas de saliva pelo céu vazio.
Minha mão, amor. As ervas! Pelos cristais partidos da morada o sangue desatou suas cabeleiras.
Tu somente e eu ficamos; prepara teu esqueleto para o ar. Eu só e tu ficamos.
Prepara teu esqueleto; é preciso ir buscar depressa, amor, depressa, nosso perfil sem sonho.
Federico García Lorca, in 'Poeta em Nova Iorque'














