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Rosa Luz Do Canal Barraco da Rosa
Publicado em 17 de fev de 2016
“De uma maneira simples uma pessoa cisgênero é uma pessoa que se identifica com o gênero qual é imposto com o gênero ao qual é imposto socialmente quando nasce. Então, se você é uma pessoa que tem pinto e se identifica como homem, parabéns, você é uma pessoa cisgênera. Se você é uma pessoa que nasceu de pepeca e se identifica como mulher, parabéns, você também é uma pessoa cisgênera, ou cis. Eu, por exemplo, não sou uma pessoa cisgênero porque eu nasci de pau e me identifico como mulher e não como homem como a sociedade impõe. O que significa que eu sou uma pessoa trans, e não cis.
Eu sei que as vezes parece chato todas essas rotulações, essas categorias, essas novas palavras parecem existir todos os dias. Parece mas acho que é muito importante a gente falar sobre essas categorizações. Quantas vezes você já ouviu alguém dizer “ai mas não sei pra que tantos rótulos”. Mas você já parou para pensar que talvez esse pensamento vem de pessoas que ocupam privilégios em nossa sociedade?!
Sociedade funciona de forma hierárquica e desigual.
Nesse sentido PASMEM pessoas cisgênero têm privilégios em relação a pessoas trans. Uma pessoa que nunca ouviu falar nesse tempo e só prova o quão privilegiado você é.
Você pode ajudar o movimento praticando o máximo respeito à diversidade, desconstruindo pensamentos preconceituosos dos seus amigos privilegiados e apoiando as pessoas marginalizadas até porque como eu dizia a um amigo “Nós não somos minorias, somos marginais” (El Calderón) e nisso há uma grande diferença. Além do que quando começamos a praticar o máximo respeito, nós aprendemos a respeitar não somente o nosso corpo, mas também o corpo e o espaço do próximo”
Close entrecortado por luzes, fragmentos de imagem que multiplicam um corpo. Fantasmagoria: persona multiplicada imageticamente cuja voz…
[...] Corpo ao mesmo tempo cindido, inscrito e retomado pela linha vertical tatuada entre a garganta e o ventre. Coluna vertebral vertida das costas para a frente, para o fronte, como o mundo invertido em que vivemos, e que, por isso mesmo, é necessário inverter de outro modo pelas artes. Como revelado ao entrevistador: “meu trabalho é a arte da oralidade. Através da oralidade utilizo a técnica artística que for. Travesti periférica tratada como lixo em certos lugares e como rainha em outros. Procuro a descolonização dos nossos corpos”.
[...] “Sou uma mulher artista afrolatina. Sangue negro e indígena correm minhas veias”, nos diz, apenas para em seguida afirmar: “Estou apenas tentando existir sem estereotipar minha existência. Na minha mente, sempre penso: ‘Poderia ser a Rosa Luz puta, ou a Rosa Luz traficante, ou a Rosa Luz bandida’”. Poder ser isso e aquilo, isso ou aquilo, isso, aquilo e mais. Muitos nomes para descrever a miríade de identidades que, ainda assim, não podem captar uma das identidades que Rosa, a Luz, reclama com maior força: a de “pomba-gira”, figura “de caminhos abertos”.
[...] Nas malhas desses registros de si, “existem várias identidades que habitam o nome Rosa Luz. Algumas dessas identidades são projeções que o outro tem sobre mim. Isso se dá pelo fato de eu ter bastantes seguidores que frequentemente acompanham recortes e fragmentos da minha existência”.
Fazer música, nas encruzilhadas das opressões e da resistência, se converte em lance inesperado numa partida de cartas marcadas — ocasião de tomar a própria voz como fonte de poder:
IMPORTANTE : Rosa Luz: Não sou cantora, mas faço rap. Uma coisa não anula a outra, mas não sou cantora. Nesse sentido, sinto que alguns processos criativos se assimilam ao processo criativo do cantor, outros não. Em alguns momentos da construção do meu EP passei por processos de criação na música envolvendo o eletrônico, a métrica, o flow, o looping. Por outro lado, às vezes só tenho vontade de vomitar a letra na cara da sociedade. Tem música que pra mim é mais sobre a performance (alguns músicos se contorcendo por dentro, mas faz parte), outras músicas para mim são mais sobre as ideias, e no momento estou tentando encontrar o equilíbrio: pois venho de uma criação artística onde o improviso sempre foi chave essencial para agora trabalhar com o ensaio, a repetição. Tem sido massa e muito chapante.”
Mas é nesse lugar intermediário entre a identidade e a não-identidade — de gênero, de lugar, de língua — que Rosa Luz afirma querer construir sua identidade afrolatina:
Rosa Luz: O discurso feminista e a diáspora negra na América Latina são questões que perpassam minha existência de maneira direta ou indireta, e um grande exemplo disso é o próprio festival Latinidades, a qual tive oportunidade de me apresentar cantando letras que envolvem negritude, a luta pela igualdade de gênero e a necessidade de descolonizarmos nossos corpos e reafirmarmos nossas identidades afrolatinas.”
Descolonização de seu corpo, esquecendo a própria língua e origem nacional, falando línguas e ocupando terras de colonizadores (como é o caso da flânerie-diáspora de Brazilian bitch), revertendo-as contra imperativos e persistências coloniais. Esquecimento e perda (afirmativos) em meio ao caleidoscópio da des/identidade que contesta os esquecimentos comandados e perdas infligidas (violências que tentam subalternizar). Esquecimento contra esquecimento, perda contra perda, para no fim mostrar que o rap, como lugar de memória e identidade, não é apenas um lugar desejado, forjado e de imersão. Assumir musicalmente a própria voz é assumir também o limite do que se pode lembrar e projetar publicamente de si:
“Thiago Cazarim: Atualmente, muitos ativistas têm pautado a ideia de que grupos subalternizados devem poder fazer ouvir sua voz. Isto tem um sentido político muito importante, mas gostaria de saber como a art(iv)ista Rosa Luz gostaria de que sua voz — num sentido sonoro e musical — fosse apreciada artisticamente. Você poderia comentar a respeito?
Rosa Luz: No momento não tenho me importado muito com a crítica especializada de arte, nem com os ‘apreciadores’ das galerias. Minhas ideias no rap são diretas, não tenho nenhuma palavra pra esconder. É um grito pra uns, é cuspe na cara para outros. Então, apenas gostaria que a branquitude ficasse caladinha e escutasse as ideias que vocês vão saber do que estou falando.”
Ambiguidade nova, a da voz que fala e cala. Ambiguidade ainda materialidade de suas ideias diretas, viscerais (grito, cuspe). A voz orgânica do corpo descolonizado; as ideias diretas, sem intermediários: assim como no ziguezague entre identidade e não-identidade, a ironia aqui também deixa sua marca — na voz orgânica e nas ideias diretas já midiatizadas e mediadas. Inclusive com as ferramentas dos adversários (o Estado, a colonização, a branquitude) — embora com a astúcia que apenas os sobreviventes possuem. Astúcia de não ter um nome apenas, mas, se necessário, rejeitar todos os nomes. Ou então (astúcia novamente) escolher, dentre tantos possíveis e indesejados, qual deve ser o nome de Rosa.