A MÁGICA DA NOITE
A noite era mágica!
Ao som do violão falante, das palmas e daquelas vozes melódicas, eu dançava como se aquela madrugada jamais fosse, em algum momento, terminar. Rodopiava com energia e Duda, minha amiga tão querida a ponto de ter se tornado minha irmã de alma, também bailava feliz, balançando seus quadris e jogando os compridos cabelos de tempos em tempos seguindo o compasso da música. Minha saia longa brilhava com o ardor da fogueira, assim como o sorriso de Duda.
Ela seguia firme e forte em sua dança e eu decidi parar por um momento para olhar o celular. Minha mãe viajava, mas mantinha contato, e eu imaginei que podia ter alguma mensagem dela. Eu e Duda dormíamos em minha casa há dois dias, para então retornar àquele lugar com bastante música e dança.
Fui rapidamente até a minha bolsa, pois um moço me esperava para dançar e eu queria aproveitar aqueles momentos, bailar até minhas pernas tremerem de exaustão. Abaixei-me, tirei os cachos da frente do rosto e verifiquei se havia alguma mensagem de mamãe. Nada. Levantei-me e, antes que eu voltasse ao meio dos dançarinos animados, um senhor se aproximou de mim, dizendo:
- Então, o banquete medieval não acontecerá mesmo?
Ele era um professor, e havia falado comigo antes. Se eu não me engano, lecionava história em uma universidade. Eu, também como professora, entendi o que ele me disse durante nossa conversação anterior e talvez aquilo o tivesse impressionado pela minha idade iniciante no quesito lecionar, mas não o dei muita atenção naquele instante, pois queria dançar, ora! Sempre que eu saía da roda dos dançarinos e voltava aos meus pertences, ele se aproximava para dizer alguma coisa.
- Hoje não, o banquete é amanhã — expliquei de novo, paciente.
- Aqui nesse mesmo lugar, neste horário?
- Sim.
- E você estará aqui? — Ele perguntou, baixo, com os olhos vidrados em mim. O professor devia ter seus cinquenta anos, era alto e bem magro, um esqueleto andante, com seus óculos de armações redondas, fundas olheiras de quem só estuda e toma café. Encarava-me com suas expressões serenas de… Professor. E eu, alta, com pernas e braços frenéticos movidos pelo som dos instrumentos musicais, cabelos selvagens e olheiras aparentes (normalmente pelos estudos, mas tornaram-se, durante aqueles dias, o resultado de bailar de Sol a Sol, de Lua a Lua). Ah, mas ali eu não demonstrava minhas expressões serenas de professora. Ali eu mostrava as expressões fortes e vivas dos meus ancestrais, cujas heranças pulsam em mim. Talvez fosse isso que fizesse os outros olharem para mim, não sei.
- Sim, estarei. Dançando ao redor da fogueira, e não no banquete — frisei, de saída.
Antes que eu sequer me virasse, este homem colocou, tímido, a mão no meu cabelo, sem amassar um cacho sequer. Ele olhava a mim, uma moça de dezessete anos que queria apenas dançar, como uma leoa olha para uma zebra, ou como ele devia olhar para o seu banquete medieval: com um certo encantamento e fascínio, no sentido de como alguém olha para uma comida após passar fome. Uma vontade submersa, que quer tanto se manifestar a ponto de fazer as mãos suarem. Ele desceu a mão e tocou na minha cintura, tateando, leve. Havia o brilho nos olhos de alguém apaixonado, mas também aquele desejo sedento de quem tem fome e espera há muito tempo por uma refeição.
Tirei as mãos dele de mim, enojada, e voltei rapidamente para a companhia da música agitada, entrando no meio de Duda e seu par, a perguntar:
- Você viu meu par?
Nós duas saltávamos no ritmo da música.
- Não — ela respondeu, ofegante, com um largo sorriso no rosto — Acho que ele foi pegar vinho!
- Dança com a gente, já ele deve voltar — falou o par da Duda, um homem incrível, divertidíssimo e super talentoso. Mais uma alma rara que nós duas encontramos neste mundo complicado. O professor ainda me encarava, eu podia enxergar seu semblante esquelético atrás da fogueira. Voltei-me para o encantamento da música e da dança, sem mais me importar com aquele homem esquisito, porque a noite era mágica e não era ele que a estragaria. Eu havia esperado muito tempo para viver aqueles momentos de puro júbilo, nos quais tudo que eu fazia era dançar com toda a paixão existente na minha alma e coração!
A música, após quase vinte minutos incessantes, acabou. Todos, suados, bateram palmas e o pessoal da dança do ventre, incluindo Duda, comemorou com seus sons característicos, cujos eu também fiz, sem vergonha. Era divertido.
- Eu posso não saber dançar a sua dança do ventre — falei para Duda, tentando respirar devagar, com o coração saltando animado no peito pelo efeito da música longa, sem pausas e com um ritmo agitado — Mas sei fazer este barulho quase bem, apesar de ainda parecer uma galinha desesperada.
- Verdade — ela riu — Vamos pegar bebida?
- Não quero beber, mas vou com você!
Demos os braços e caminhamos até o caldeirão fumegante para que Duda pudesse desfrutar da bebida doce, quentinha e deliciosa.
- Sabe aquele homem? — Aproveitei para falar, apontando — O professor que falou com a gente mais cedo?
- Sim — ela respondeu, tomando um gole da bebida. Nosso suor cintilava pela luz do fogo embaixo do caldeirão — Ele veio atrás de você de novo?
- Veio, ele me deixa receosa e agoniada.
- Por quê? — Duda perguntou, preocupada.
- Pegou no meu cabelo, na minha cintura, olha pra mim como se eu fosse uma comida super suculenta em uma vitrine de restaurante.
Nós duas estremecemos. Aquela era uma sensação horrível.
- Vamos ficar longe dele então — Duda falou, e eu concordei, obviamente. Sentamo-nos com os homens cujos dançaram conosco, todos divertidos como o par de Duda, que fazia parte desse grupo. Eram bons amigos, bailarinos. Nós duas, as intrusas (eu mais intrusa do que Duda por ser bem mais tímida e retraída), gostamos bastante de tê-los conhecido.
- Já já a música volta — falei, animada, para o homem que segurava o violão. Cantamos mais um pouco, o professor ainda a me encarar, mas não mais encantado, e sim com uma certa raiva. “Ele está impaciente” pensei, com um sorriso, pois enfim me sentia segura. Não sou boba. “Quer que eu volte para ver meu celular, quer que eu volte para onde ele está. E isso não farei”.
Um bêbado, que eu conheci quando ainda estava sóbrio, deitou-se ao meu lado e cantou também, tropeçando nas palavras, jogando o braço por cima de mim, querendo abraçar-me, com o rosto perto do meu. Eu o tirei de perto, sem parar de cantar, e me levantei. Os músicos tocariam novamente e eu queria dançar (e tampouco almejava ficar ali com o bêbado).
- Ô cigana bonita! — O bêbado dizia, tentando alcançar-me com a mão.
Nós todos, em risos, voltamos a bailar com alegria e energia. O bêbado seguia deitado onde antes eu estava sentada, às vezes sorrindo para mim, outras vezes apenas me fitando. Eu e Duda trocávamos os pares de tempos em tempos, em uma dança ordenada.
- Antes o professor — falei, ao passar pela Duda em passos rápidos — Agora aquele cara borracho! — Terminei a frase quando voltamos, para depois separar-nos de novo.
- Ele tá de olho em você há muito tempo — ela disse, referindo-se ao bêbado, que, de acordo com ela, queria-me quando ainda sóbrio — Eu o ouvi falando que queria te pegar.
- Nos sonhos dele, só se for — ri, rodopiando com meu par de dança, que me respeitava e, por isso, agradava-me. Ele era um rapaz um pouco mais velho do que eu, talvez dois ou três anos, apenas, o mais novo do grupo dos homens bailarinos. Era tímido como eu e gente boa.
Vi Duda rir também, rodando com seu par. A dança ordenada de troca-troca acabou e a outra que se seguiu foi expressada por nós, os dançantes, como algo mais intenso. Duda e seu par faziam movimentos da dança do ventre com harmonia, as pessoas aplaudiam. Eu e meu par mesclamos o flamenco dele com o meu ballet, em passos simétricos e contrastantes, irrompidos, de tempos em tempos, por palmas e as minhas exclamações para incentivá-lo a sentir a música como eu.
Foi uma dança silenciosa, sem nenhuma conversa paralela, apenas com a energia da música a tomar nossos corpos. Por isso eu amo bailar!
Quando essa se acabou, aplaudimos novamente. Olhei ao redor e notei, com alívio, que o professor não mais estava ali. Saltitei alegre aos meus pertences e vi a mensagem da mamãe:
“Eu te amo, filha!”
“Eu também te amo, mama!” respondi, sorrindo. Era madrugada no Rio de Janeiro também, ela certamente se divertia tanto quanto eu!
A madrugada acabaria e o Sol nasceria. Os músicos guardavam seus instrumentos, as pessoas se despediam sorrindo, o bêbado cambaleava em direção à sua barraca, provavelmente, pois ele devia estar acampado no evento como muitos outros (e como eu e Duda gostaríamos de estar).
- Olá — falei aos músicos, com um enorme sorriso, pois exalava alegria — Queria agradecer antes que vocês fossem embora! Obrigada, de coração, pelas músicas! Foi maravilhoso dançar ao som de vocês!
- Foi ótimo — disse um deles, o que tocava violão — E a gente só conseguia olhar para você! Que dança, que sentimento! Você é cigana, né? Ah, sabia, sentindo a música desse jeito, de verdade, só podia ser cigana! Opre rroma!
Os outros concordaram, ainda guardando os instrumentos. Eu, envergonhada, mas feliz pelo elogio, agradeci de novo e despedi-me, desejando que eles pudessem espalhar boa música e sentimentos por onde fossem, pois é isso que nós, pessoas que transitam nas noites mágicas, fazemos.
- Duda — chamei — Como vamos para casa?
- Não sei — ela riu, e eu ri também.
- Vamos ver se algum Uber tem coragem de entrar em Avalon — brinquei.
Enquanto esperávamos, com esperança, que a nossa quarta tentativa de chamar um motorista desse certo (pois a festa acontecia em um local longe da cidade e já era alta madrugada, fator que definitivamente desencorajava os motoristas do Uber com razão, nos os culpo), eu falei:
- Foi mágico, Duda, foi mágico. Eu podia fazer isso todos os dias, todas as noites, mesmo sabendo que nós estamos fisicamente cansadas. Mas é tão bom, eu me sinto viva, finalmente! Viva de verdade, porque a noite é mágica, a dança é mágica. A vida é mágica.
- Mágica, bom uso de palavras! Mágica porque o tempo passou diferente, porque foi tudo muito, muito bom, porque eu me diverti tanto e senti aquela energia incrível!
- Também! Mágica porque, além de eu ter me sentido viva, também por ter visto além do que eu normalmente consigo ver. E isto pode ser considerado um tipo de mágica, né?
- Sim — ela concordou, sorrindo — Vamos voltar amanhã?
- Claro!
- E esperaremos ansiosamente pela dança da noite!
- Com certeza! Ah, Duda, mira, finalmente um motorista aceitou a viagem!
Nós comemoramos como o pessoal da dança do ventre faz, na alta madrugada, suadas e felizes no meio daquela noite mágica.
- Alice Storm, 17 de outubro de 2018, contando um fato ocorrido em outubro de 2017
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