Não existe um consenso que descubra a personalidade, embora nos dias de hoje, existam testes para encontrar uma posição. Cada proposta teórica estuda a personalidade de um jeito, porém ela mantém um padrão estável e uma estrutura sendo sempre ativa e dinâmica.
O padrão estável se refere ao “jeito” que o indivíduo possui na adolescência que se segue ao longo da vida adulta de uma forma aprimorada, e a estrutura é que cada nível tem o anterior como base. Podemos definir a personalidade como uma regularidade (estável) e um conjunto organizado de elementos capazes de traduzir comportamentos, afetos, subjetividade e identidade. É importante ressaltar que a afetividade, a sociedade e a cultura são determinantes da personalidade. Seguiremos a explicar seis perspetivas de abordagem para estudar a personalidade: psicanalista, neo-analista, humanista, perspectiva da aprendizagem, das disposições e psicobiológica.
A psicanalista tem uma perspectiva econômica, ou seja, quer gastar pouco e obter muito rendimento. Freud, seu principal e primeiro pensador, traz a ideia de inconsciente, sendo a personalidade a expressão deste. A personalidade se manifesta como neurótico, psicótico ou perverso. A perspectiva neo-analítica é trazida pelos neo-analistas Jung e Reich, que concordam com a ideia de inconsciente, porém suas ideias se divergem da de Freud; ambos acreditam que o inconsciente não está apenas na mente, mas também se manifesta no corpo. A perspectiva humanista, tratada por Rogers, Perls e Maslow, enxerga a personalidade como uma experiência natural e a aceita da forma que se apresenta, com suas dores e desafios normais em qualquer indivíduo. A perspectiva das disposições são os testes que avaliam a ideia de traços da personalidade, a combinação entre a forma da personalidade se manifestar, e o número na escala, definem a personalidade do sujeito. Por último, a psicobiológica acredita que psique, corpo, química e as ideologias que produzem sentimentos, formam a personalidade.
Iremos falar um pouco mais detalhadamente, embora ainda de forma resumida, sobre as principais ideias dessas perspectivas e sua maneira de contribuir com a teoria da personalidade. Começamos com a perspectiva psicanalista, introduzida por Sigmmund Freud.
Perspectiva Psicanalista - Sugmmund Freud
Sigmmund Freud aborda o id, ego e superego. O id é onde está a energia pulsional, o ego é o eu e o superego é onde estão as cobranças e exigências da sociedade. Essas cobranças são direcionadas de forma recalcada para o inconsciente, fazendo com que isso se mostre de formas desapercebidas. Freud destacou três estruturas de personalidade, embora essa palavra naquele momento não fora usado. As estruturas eram neurose, psicose e perversão. Essas são as formas de personalidade dadas por Freud. Neurótico é a personalidade mais comum, é um indivíduo inseguro que age com tentativas e erros, ele aceita a realidade que acontece e sempre tenta negociar os conflitos pensando em diminuí-los. O psicótico não aceita esperar, a sua realidade é construída com auxílio de alguém, é preciso direcionar como este deve agir, é um indivíduo que não aceita estar errado e muito competitivo. O perverso não nos dá a possibilidade de uma análise, pois este não é empático e não deixa o setting terapêutico fluir. Freud também contribuiu com a teoria da personalidade construindo as etapas psicossexuais (oral, anal, fálica, latência e genital). A catexia significa quando algum indivíduo se fixa numa etapa e tem influencia daquela zona erógena o resto da sua vida.
Perspectiva Neo-analítica - Carl G. Jung
Jung acredita que o inconsciente é influenciado de dentro pra fora e ele se divide em dois: intrapsíquico e interpsíquico. O intrapsíquico diz respeito a nossa psique, é o inconsciente pessoal, enquanto o interpsíquico é algo externo, chamamos de inconsciente coletivo. Diferenciando de Freud, Jung traz a sociedade e o ambiente como fatores importantes na personalidade do indivíduo. Sua perspectiva clínica é voltada para o futuro, preocupa-se com o que o indivíduo pode alcançar, quando ele fala da ancestralidade está buscando o antigo para trazer o atual, essa visão retrospectiva só aparece para auxílio do entendimento dos fatos, a visão prospectiva é descobrir por meio da análise as potências, objetos e mudanças do outro. Jung divide a psique com uma estrutura dinâmica em que inconsciente e consciente se misturam. Os níveis conscientes são a persona e ego, o inconsciente é a sombra, anima/animus, self, inconsciente pessoal e coletivo, complexos e arquétipos. A persona é a primeira ideia que faço de mim mesmo e mostro pra alguém, é a “máscara”, ela é o nível mais consciente e pode ser usada de forma intencional, ou seja, podemos manipular a nossa persona. O segundo aspecto consciente é o ego, é a negociação de como podemos nos posicionar e agir, é a negociação dos nossos comportamentos que fazemos mentalmente; tudo aquilo que eu não souber lidar, vai para o inconsciente, que tem seu primeiro aspecto a sombra. O ego tem função de identidade e continuidade (memória, percepção e experiência com as histórias). A sombra é onde as coisas proibidas e ruins se encontram. Ela ainda está na base do inconsciente então ainda pode ser acessível, ela é o nosso desejo de ataque quando algo nos irrita, mas o ego negocia conosco e conseguimos não atacar. Seu chefe agradece por isso! A sombra é administrável na terapia. Anima/animus, segundo estágio, é onde nosso inconsciente não apresenta antagonismos de gênero, somos feminino e masculino também. Anima são as emoções e sentimentos como feminino no homem e animus é o pensamento e raciocínio como comportamento masculino da mulher. A self é o centro da psique inteira, é onde se encontra o centro da personalidade, pois diz respeito a como resolvemos as coisas, e podemos encontrar aqui nosso potencial do futuro. O inconsciente pessoal e os complexos são as instâncias, os complexos individuais, organização funcional e o dinamismo próprio do sujeito; o inconsciente coletivo e os arquétipos são o que capturamos da sociedade que influenciam no nosso comportamento, é a origem das reações emocionais ancestrais, um depositório. Os arquétipos são as imagens e os conteúdos do passado construídos historicamente que se atualizam e vão para o inconsciente pessoal; exemplo: ideia de bem e mal, ideia de família, etc. O complexo é o conjunto de memórias, sentimentos, pensamentos que se organizam e dão sentido às experiências. Jung só fala do corpo em sua teoria quando está passando pelo anima/animus. Nós avaliamos nossas condições a partir das funções, que se divide em quatro: pensamento (o que é aquilo?), sentimento (que valor tem isso?), sensação (há algo ali.) e intuição (de onde vem isso?). A meta clínica de Jung é o indivíduo alcançar a individuação, torna-lo um ser único, tornar nosso próprio em si mesmo, é o desenvolvimento da totalidade que inclui o desenvolvimento do eixo: ego-self.
Perspectiva Neo-analítica - W. Reich
Outra perspectiva neo-analítica é do Wilhelm Reich, este é o pensador que mais fala do corpo. Ele acredita que o inconsciente pode ser encontrado no nosso corpo através dos 7 segmentos: olhos, boca, pescoço, tórax, diafragma, abdômen e pélvis. Para Reich, as organizações sociais (cultura, família, um padre, um coordenador) produzem as estruturas de caráter. O caráter é composto por atitudes habituais e pelo padrão de respostas pra várias situações de um indivíduo; ele inclui atitudes e valores da consciência, seu estilo de comportamento (ex: timidez) e as atitudes corporais (postura e movimentação do corpo). O caráter é construído pela formação do ego: como nos comportamos e somos conhecidos por isso, ele forma uma defesa contra ansiedade e medo da punição, as organizações sociais vêm como repressão que o caráter tenta combater. Essa repressão atua na formação do caráter ganhando força a ponto de travarem uma luta, quando a repressão ganha, ela reflete no corpo. Sendo o inconsciente formado por repressões, é aí que podemos encontrá-lo, segundo Reich, no corpo. Ele apresenta a sexualidade numa relação direta com o corpo que também está direto ao inconsciente. Para eu obter um resultado psíquico, posso operar nesse corpo. Nos 7 segmentos ja´citados, circula uma energia que começa da cabeça (consciente) para baixo (inconsciente). Através desses segmentos chega-se ao inconsciente, é preciso liberar essa energia, caso contrário o corpo cria uma couraça, que são as forças defensivas organizadas no interior do ego que podem ser naturalizadas e se tornarem cristalizadas quando deixa-se de viver a sexualidade em sua plenitude. Cada couraça tem um trabalho específico, é uma reação específica do corpo, é ela que deve ser tratada em análise. As três excitações básicas do homem são: raiva, ansiedade e excitação sexual. A raiva precisa ser liberta, a ansiedade é natural e a excitação sexual é delicada e constante. São energias que levam a hipertonia muscular, a técnica do Reich é fazer um panorama geral (respiração e manipulação macânica) para que o segmento cristalizado encontre sua plenitude sexual. Reich cita que o caráter pode ser genital - associado a uma presença de economia da libido - ou neurótico - estrutura em que um intenso conflito interno se faz presente, a economia da libido perturbada, além da escassa capacidade sublimatória, que é onde o analista que chegar. Conheça os 7 segmentos e suas respectivas apresentações. 1- Olhos: ligado ao humor; 2- Boca, expressa raiva através do choro e gesto, ligada a agressividade e interação com o mundo; 3- Pescoço, segmento boca ao tórax, é relacionado com a estabilidade; 4- Tórax, se expressa na couraça enquanto inibição da respiração; 5- Diafragma, inibe a raiva e agressividade, quando resolvemos o diafragma também resolvemos a boca, pois estes estão ligados com a respiração, resolver aqui significa pôr pra fora.; 6- Abdômen se relaciona com o medo de ataque, com a ansiedade; 7- O último segmento e principal é a pélvis, responsável pela inibição do prazer sexual. O Projeto terapêutico reichiano é a liberação emocional com ênfase no corpo, é uma mistura de carga, tensão e descarga.
Perspectiva Psicossocial - Eric Erikson
Saindo da perspectiva psicossexual, temos o Eric Erikson, com a perspectiva psicossocial. Ele tem uma perspectiva de futuro, uma esperança que leva para frente, os conflitos de uma fase ajudam para os conflitos que ainda virão. O ambiente é uma influência de suporte no desenvolvimento, a influência social favorece o indivíduo, mas não o determina. Para Erikson, a personalidade evolui em 8 estágios que apontam uma relação entre indivíduo, família e cultura. Diferente dos já citados, ele envolve fielmente o outro no desenvolvimento da personalidade. Cada estágio possui aspectos sintônicos (favoráveis) e distônicos (perturbadores) e também possuem uma força básica para o luto frente aos conflitos. Apresentarei agora os 8 estágios com a descrição sintônico x distônico. O Estágio 1 (1 ano) tem a Confiança x Desconfiança (oral-sensorial); quanto mais contato físico, mais segura a criança se sente, a confiança nos cuidadores geram segurança e conforto físico. Se o adulto não volta, ela cria desde então dificuldades para confiar no outro, a força básica é a esperança. Estágio 2 (2-3) Autonomia x Vergonha/dúvida (anal-uretral muscular); criança aprende a explorar o ambiente e vivencia pequenos fracassos e vergonha por repressão paterna, nesse aspecto ela precisa desenvolver habilidade para lidar com fracasso e sucesso, a força básica é a vontade. O Estágio 3 (3-6) tem o aspecto sintônico como Iniciativa e distônico como Culpa; é a idade dos jogos onde ela aprende a interagir através de brincadeiras, desenvolve sua criatividade e nota suas próprias ações, aprendendo a manipulá-la, ex: se seu comportamento é negativo pro outro ela não faz mais, nessa fase é preciso estabelecer metas e moralidade; a força básica é o propósito. Estágio 4 (6-12) Atividade (produtividade/deligência) X Inferioridade: o foco é na educação e aquisição de habilidades sociais, regras de cooperação, jogos e expansão de interações sociais da criança, a força básica é a competência e como Freud, Erikson acredita no período de latência nessa idade. O Estágio 5 (puberdade até a vida adulta) Identidade X Confusão de identidade, é o desenvolvimento da identidade do ego, com inúmeras experimentações de papéis e crenças, é quando busca da identidade sexual, ideológica e ocupacional; é preciso se achar num grupo parecido, a confusão da identidade inclui situações difíceis como o conflito na autoimagem, dificuldades de lidar com o tempo para executar tarefas, rejeições, a força básica é a fidelidade às ideologias religiosas, políticas e sociais. O Estágio 6 (adulto jovem) Intimidade X Isolamento; a força básica é o amor, pois o indivíduo quer conquistar esse valor, a intimidade é a capacidade de unir-se ao outro, quando não consegue ele se isola; a intimidade só se alcança a partir do estabelecimento do ego. Estágio 7 (31 aos 60) Generatividade X Estagnação: esse é o modo sexual da procriatividade, a generatividade é o interesse e cuidado pela próxima geração, um filho seria um projeto estável, mas também há outras formas de projetos que precisa de cuidado; a generatividade é advinda do encontro sexual e afetivo com o parceiro, o trabalho e a construção de projetos estáveis de vida. No estágio 6 eu levo em consideração o outro e agora no 7, eu cuido dele; a força básica aqui é o cuidado. O Estágio 8 (velhice) Integridade X Desespero: é o sentimento de totalidade e coerência, quando mantém o controle sobre o próprio sentimento de si, apesar da redução da potência física e intelectual; o desespero é quando não vê esperança por causa das eventuais perdas e dos sentimentos relacionados à finitude de vida; a força básica é a sabedoria. 1 ano: CONFIANÇA X DESCONFIANÇA fb: Esperança / 2-3: AUTONOMIA X VERGONHA/DÚVIDA fb: Vontade / 3-6: INICIATIVA X CULPA fb: Propósito / 6-12: DELIGÊNCIA X INFERIORIDADE fb: competência / Adolescente: IDENTIDADE X CONFUSÃO DE PAPEL fb: fidelidade / Adulto Jovem: INTIMIDADE X ISOLAMENTO fb: amor / Meia idade: GENERATIVIDADE X ESTAGNAÇÃO fb: cuidado / Idade Adulta Ulterior: INTEGRIDADE X DESESPERO fb: sabedoria.
Perspectiva Humanista - Carl Rogers
Da perspectiva Humanista vamos falar do Carl Rogers (ACP, abordagem centrada na pessoal). Ele apresenta um tripé: congruência, aceitação incondicional e empatia.. O Humanismo valoriza a qualidade e potência do homem. O triste acontece e deve ser encarado de forma natural. O humanista precisa estar perto do outro, pois é caloroso. Nessa perspectiva o crescimento nunca dá passo pra trás pois é um espaço alcançado que não se pode perder, o crescimento ou é ocorrido naturalmente ou congelado. O fluxo experiencial é você sempre se atualizar, é o fluxo das experiências e ninguém pode fazer isso por você. Os obstáculos para o crescimento e para o fluxo experiencial é tudo aquilo que impede o crescimento sozinho do indivíduo: os pais, a escola, os grupos sociais. O Terapeuta precisa fazer as tarefas para que o outro também faça depois, o setting terapêutico se dá como um espelhamento, é preciso devolver para o paciente o que ele falou de uma forma diferenciada, é preciso olhar para o outro e por isso o setting é organizado como face a face para ambas as partes controlar e aquecer. A congruência é uma experiência falada, pensada e vivenciada de uma forma alinhada. Penso, sinto, falo na mesma direção, a neurose se instala quando digo uma coisa e penso outra. A partir da atualização dessa congruência, ela não se torna algo pensado, é automático e você passa a agir com congruência sem negociações. Abertura + Consciência + Comunicação: você ouve, leva em conta e comunica. A Aceitação Incondicional é aceitar a experiência do outro como uma verdade incondicional, aceita por inteiro, ele nunca vai estar mentindo, pois aquilo é a verdade dele. A empatia é ser capaz de mergulhar nessa experiência do outro e trazer pra sua própria experiencia, é preciso vivenciar a história junto do cliente. A pessoa do psicólogo se relaciona com a pessoa do cliente. O psicólogo precisa saber espelhar através da fala, ser claro e franco e desenvolver esse comportamento no paciente. O ambiente clínico é voltado para simbolização, é onde se pensa e reflete. O manejo clínico se dá de duas formas: experiência não simbolizada e experiência simbolizada. A não simbolizada é quando não é tão próximo, a simbolizada é trazer pra minha própria experiência e dar cor. A abordagem centrada na pessoa (ACP) não é diretiva, não há regras, comunica como vier e precisa sempre congelar o fluxo experiencial. A tendência atualizante é desenvolver a congruência do outro, para ele se aproximar dele mesmo, o ser é auto atualizante. Toda experiência está no campo fenomenal, a self é o que diz respeito as experiências auto referentes. Campo fenomenal: soma de toda experiência referente a mim ou não; self: apenas o que diz respeito a mim. O self se divide em dois: self ideal e real. O real é saber a real capacidade do indivíduo e o ideal é ser mais que sua capacidade. O fluxo experiencial é a passagem do ideal para o real, atualizar é um processo contínuo. Quando você aprende você cresce, o ideal vira real e um novo ideal se forma para um novo crescimento surgir. A percepção das experiências, a comunicação e a adequação dos selfs é a fórmula da saúde - meta clínica. Saúde significa congruência: ter abertura (ideia) e consciência disso (consciência) e poder comunicar ao outro.
Aqui foram abordadas algumas das principais teorias sobre a personalidade, lembrando que cada uma possui seu manejo clínico, seu setting terapêutico e sua forma de entender o outro. As abordagens possuem seus diferenciais e divergências, no entanto, todas elas visam a saúde mental do outro.
Teoria da personalidade, quinto (5º) período.