O Caso do Fantasma e do Corpo
Doce melancolia, o cacete, tudo desmoronou num castelo que nem ratos querem morar.
Fizemos um trato: nada de fatos, nada de verdades limpas.
Temos pano pra manga, mas essa merda não dura uma semana; foi um mês longo demais, agitado demais.
Enquanto aquela lambida vinha, a morte — aquela vadia — estava sentada no canto, esperando.
Eu não tinha dias, talvez nem horas; era o fim e eu sabia disso.
O sangue descia pela escadaria da catedral, um rastro vermelho no mármore frio.
Não existia prece no mundo que trouxesse de volta a vontade de continuar nesse lugar.
As pontas dos meus dedos formigavam e, mesmo com essa chuva desgraçada lá fora, minha boca estava seca como um deserto.
Olhei para cima, para as estátuas de gesso daqueles santos de olhos vazios.
Eles pareciam entediados com a minha agonia, como se já tivessem visto sangue demais para uma noite de terça-feira.
Deus devia estar ocupado demais ignorando as dores do seu pequeno mundo.
Tentei cuspir no chão daquela catedral, mas a saliva não veio; o sagrado não merece nem o meu desdém.
O silêncio ali dentro era pesado, uma redoma de vidro que não deixava o barulho da vida entrar, só o cheiro de mofo e de pecados mal resolvidos.
Se houvesse um paraíso, com certeza teria uma placa de “proibida a entrada” com a minha foto nela.
Apertei o ferimento e ri sozinho: se o vinho era o sangue de Cristo, o meu sangue era apenas um vinho barato estragado escorrendo pelo ralo.
Puxei o cigarro de tabaco, apertado, todo amassado, um resto de vício entre dedos trêmulos.
Olhei para cima, não como quem reza, mas como quem solicita a Deus aquele maldito momento.
Risquei o fósforo e o fogo subiu, aquecendo brevemente meu rosto no meio da chuva.
Por um segundo, me senti acolhido, um acalento de mãe que eu já não lembrava como era.
Nossa Senhora me observava do alto, um olhar triste cravado no filho jogado na escadaria da igreja que levava o seu nome.
E aquele caso ainda estava lá, pendurado: uma menina que nunca voltou para casa.
Mas, de alguma forma, o peso sumiu; eu sentia o caso solucionado dentro do meu próprio fim.
Fiz minha parte naquela sociedade patética e hipócrita, e o sangue no mármore era o recibo.
Dei a última tragada, o fumo queimando o que restava dos pulmões e da alma.
O caso estava encerrado, a menina era um fantasma e eu era apenas um corpo ocupando o degrau.
O cigarro acabou antes de mim. Sobrou apenas o cheiro de fumo e o silêncio de quem não tem mais porra nenhuma para resolver.
M_S













