Museus Pedagógicos Nacionais e Museus Escolares
Hoje irei abordar um tema ligado à educação, mais precisamente sobre os museus pedagógicos e museus escolares, entre o final do séc.XIX e início do séc.XX. Para compreender melhor o que estava acontecendo no período, utilizarei vários autores que abordam o assunto.
Witt(2013) em seu trabalho de conclusão busca contextualizar e deste modo, entende que a produção do conhecimento estava atrelada com os novos padrões científicos da época, sendo que nas propostas de reformulação no ensino estava sendo considerado os métodos intuitivos e os estudos na natureza e diante disso, se fez uso de museus escolares. Além disso, a autora destaca motivações políticas para a instituição do Museu Pedagógico Nacional e dos museus escolares que segundo Witt (2013), estavam em sintonia com a proposta de reforma de ensino que defendia o imaginário desta escola como uma “vitrine da República” (WITT,2013)
Já ,Petry e Silva (2013) em seu artigo buscam distinguir os termos MUSEU PEDAGÓGICO E MUSEU ESCOLAR através conceituações de relação de proximidade, pois consideram o museu escolar um termo polissêmico:
Os museus pedagógicos tinham a característica comum de funcionarem como instituições formadoras de professores. Em geral, possuíam bibliotecas anexas, produziam e distribuíam periódicos e livros voltados aos modernos métodos e materiais de ensino, a fim de instrumentalizar a prática dos professores. Petry;Silva,2013, p. 82-p.83)
E de museu escolar entendem como:
[...] uma coleção de espécimes sobre história natural. Isto significa dizer que se poderia constituir de pequenos animais empalhados ou cartonados, no caso de borboletas, por exemplo, ou ainda de quadros temáticos, de acordo com as matérias de ensino. (Petry;Silva,2013, p.86)
Ainda, conforme as autoras, o museu pedagógico no Brasil surgiu como“[...] consequência da “participação nas exposições internacionais, do contato com publicações e de visitas a estabelecimentos estrangeiros.” (Bastos 2002, p. 258 apud Petry;Silva,2013). Atrelado a ideia de representação da modernidade educacional brasileira foi criado o primeiro museu pedagógico brasileiro, Museu Escolar Nacional ,em 2 de dezembro de 1883, no Rio de Janeiro. Já, em 1890 fundou-se um novo museu pedagógico, intitulado Pedagogium, reminescente do museu anterior, durante o mandato do ministro Benjamin Constant. (Petry;Silva,2013). Dentre vários objetivos, o Museu Pedagogium teve a tarefa de a disseminar ideias nas instituições análogas em outros Estados e a organização de museus escolares nas escolas brasileiras. Segundo Petry e Silva ( 2013, p.83) a “[...] presença de museus nas escolas estava prevista no artigo nono do Regulamento da Instrução Primária e Secundária do Distrito Federal, aprovado pelo decreto n. 981, de 8 de novembro 1890.
Como já se tem uma ideia das motivações e como as exposições internacionais e o Museu Pedagogium influenciaram na criação de museus escolares, seguirei dando ênfase aos diversas formas de museus,pois, como foi dito anteriormente, Petry e Silva (2013) utilizam o conceito museu escolar como um termo polissêmico:
Pode-se relacionar este formato de museu com as coleções, uma vez que as
abrigaria, sendo tênue o limite que define o que é um museu: se as coleções, se o móvel ou o conjunto. De todo modo, essa diferenciação ajuda a alertar para o fato de que quando observamos na documentação que uma escola possuía museu, pode-se estar remetendo a situações bem distintas. (Petry;Silva,2013, p.91)
Isso fica mais claro com Witt (2013, p.24) que esclarece que um museu escolar poderia ser formado “[...] por um ou mais quadros com exposição na parede da sala de aula ou por um armário para guardar e expor o acervo, até um gabinete.” Então, o museus escolar poderia estar fazendo referência a uma coleção de quadros adquirida de uma indústria de materiais voltados ao uso do ensino, mas também poderiam ser confeccionados na escola.
Fotografia: Quadro parietal de um museu escolar
Fonte: http://www1.udesc.br/?id=2287
Os quadros parietais eram diversos, como descreve Felgueiras (2011,p.82)
Eram constituídos por quadros parietais, estruturados por campos
de saber, acompanhados por conjuntos de frascos com produtos relativos
às diferentes componentes das lições de coisas: produtos alimentares, de
diferentes indústrias, materiais de construção, matérias-primas usadas no
aquecimento e na iluminação, minerais e fósseis, herbários, gravuras de
insetos, mamíferos, aves e peixes, produtos químicos usuais, miniaturas
ou gravuras de aparelhos da física e de instrumentos agrícolas.
Mas, Museu escolar também poderia estar relacionado a um armário que guarda as coleções de objetos para as lições de coisas. (Petry;Silva,2013) Nos armários poderiam ter materiais industrializados, como as da indústria Maison Deyrolle , porém também haviam coleções em que o acervo poderia ser adquirido por professores e alunos em excursões e visitas a fábricas e, ainda, por doações.
Fotografia : Armário-museu na sala de aula
Fonte: https://www.institutoclaro.org.br/educacao/nossas-novidades/reportagens/museus-escolares-ajudam-a-contar-historia-da-aprendizagem-nos-seculos-passados/
Portanto, conforme as autoras Petry e Silva (2013, p.92)
O museu não só dava nome a coleções de quadros, objetos diversos e móveis, como poderia ocupar um espaço físico nas escolas, um pequeno gabinete onde seriam guardadas as coleções. A destinação de um espaço específico na arquitetura da escola compõe uma questão instigante, visto tratar-se, à primeira vista, da incorporação de uma máxima pedagógica - a necessidade de instaurar processos de ensino mais concretos -, criando condições materiais para a sua realização, em detrimento de outras atividades que poderiam ser exercidas dentro do espaço escolar.
Fotografia: Museu Anchieta de Porto Alegre/RS.
Fonte:http://www.colegioanchieta.g12.br/museu-anchieta-serve-de-inspiracao-para-projeto-de-alunos-de-museologia-da-ufrgs/#post/0
Para concluir, deixo a citação de Felgueiras (2013,p.89) que reflete muito bem o contraponto das políticas do setor referido neste post do início da República e atualmente:
As sociedades ligaram a necessidade de progresso à de memória e criaram
quer museus, quer arquivos, quer bibliotecas. Hoje os poderes não têm
consciência dessa necessidade e por isso a ausência de políticas nesse
setor. Em plena sociedade do conhecimento e da informação, corre-se
o risco de se viver num presente sem memória e sem futuro. É contra
esse roubo da memória que enquanto investigadores devemos prevenir,
exigindo as condições básicas para a conservação de arquivos “reais” e
não apenas virtuais.
FELGUEIRAS, Margarida Louro. Herança educativa e museus: reflexões em torno das práticas de investigação, preservação e divulgação histórica. Revista Brasileira de História da Educação, São Paulo, v. 11, n. 1, 2011, p. 67-92.
PETRY, Marilia Gabriela; SILVA, Vera Lucia Gaspar da. Museu escolar: sentidos, propostas e projetos para a escola primária (séculos 19 e 20). História da Educação, Porto Alegre v. 17 n. 41 Set./dez. 2013, p. 79-101.
WITT, Nara Beatriz. Ensino ou memória:(in)visibilidades dos museus escolares em Porto Alegre/RS. Trabalho de conclusão (graduação) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação. Curso de Museologia. Porto Alegre,2013.