chapter 01
NÃO É DE INTERESSE DOS HOMENS
Nota de conteúdo sensível: homem fazendo homice, misoginia, machismo, mansplanimg, menções a violência e ambiente corporativo hostil. Ódio descarado sobre mulheres.
Shanti odeia reuniões de assembleia e acha que vai soltar um grito histérico e raivoso a qualquer momento, se for obrigada a ficar rodeada de membros do Wizengamot por mais uma hora. Membros, membros homens. Membros homens que não dão a mínima para as pautas discutidas naquele parlamento e não fazem questão alguma de interromper suas conversas fúteis enquanto o Bruxo Chefe fala, fazendo dela a única realmente interessada com o futuro dos direitos civis dos Bruxos.
Assim… Dá pra acreditar?
— Sendo assim, essa Casa decidiu nas últimas reuniões que a senhora Sahale Nummes, da reserva de remanescentes da tribo dos Numunuu, e sua neta e principal pupila, a senhorita Malia Nummes, têm autorização a retomar o ensino de Xilomancia nas escolas de magia e bruxaria do país. — O bruxo mais velho começa a finalizar seu monólogo, parecendo um tanto quanto desinteressado, e Shanti escolhe pensar que talvez seja pela reunião longa e não que ele não ache aquela virada de direitos dos povos originários uma perda de tempo, porque ela mesma foi uma das pessoas por trás dos levantes naquele parlamento para que os projetos da família Nummes fossem discutidos logo. — Essa Casa autoriza, também, que a senhora Nummes tenha um lugar ativo na secretaria de educação deste Ministério e seja integrada em todos os assuntos quanto a magia ancestral nos diálogos estudantis.
Shanti fica genuinamente feliz, aliviada também, lembrando de todas as vezes que viu a senhora Nummes com seus ofícios pelos corredores da MACUSA tentando reivindicar um direito dos dela e uma herança cultural que deveria ser interesse de todos, mas logo percebe que naquela sala ela é a única que se importa com aquela pauta. Talvez, ela até seja a única que se lembra daquela mulher e que o dia tinha sido reservado pra discutir sobre os direitos das mulheres, porque o Bruxo Chefe está prestes a encerrar a reunião batendo o martelo quando ela se levanta pra puxar o próximo tópico.
— Senhor, a última pauta do dia é sobre os direitos de maternidade e reprodução. — Shanti começa, a mão direita levantada enquanto a outra segura seu ofício, um caderno de arquivos enorme e pesado pra caramba, contendo todos seus quase quatro meses de pesquisa e estudo só pra esse momento. — Se o senhor observar o briefing…
— Senhorita Kaur, a senhorita não acha que já falamos muito dos direitos das mulheres hoje? — O homem diz, soltando um suspiro tão longo que o deixa quase sem forças. — A senhorita, inclusive, foi a única presente nessa reunião toda.
— Porque o senhor mudou o horário de última hora e isso atrapalhou os planos e compromissos de uma grande parcela das integrantes dessa Casa, incluindo mães com suas obrigações inegociáveis com crianças que dependem delas. — Shanti o rebate sem pensar duas vezes, abrindo um sorriso mínimo, antes de dar uma pequena volta ao redor de si mesma, medindo vários rostos masculinos que ela conhece daquela corte. — Diferente dos cavalheiros presentes nesse recinto hoje, que sequer devem se lembrar que existia a possibilidade de priorizar a presença de suas esposas, já que esses assuntos são de interesse delas e elas são as únicas que podem opinar sobre.
Um silêncio forçado se instaura naquela sala toda, porque a maioria deles não tem mesmo como se defender daquele comentário, ao passo que o Bruxo Chefe se rende e chega a apoiar o martelo de madeira na mesa de novo, dando a autorização silenciosa que Shanti precisa pra falar sobre seus projetos, quando é interrompida pelo senhor Abraham White, ruidosamente se levantando nas fileiras de trás e mais no alto, dos lugares reservados para famílias tradicionais e puristas.
— Eu acredito que a senhorita Shanti Kaur, assim como os homens respeitados presentes nesta sala, não tem o direito de opinar sobre esse assunto. — Abraham começa, levantando sua mão direita, antes de continuar. — A senhorita Kaur não é mãe, tampouco está casada, por que deveria ser sentir na obrigação de falar sobre coisas que ainda não a competem?
— Não estar casada e não ser mãe não me impede de lutar pelos direitos daquelas mulheres que se sentem confortáveis nesses papéis, senhor White. — Kaur o dispensa com a mão abanando o ar como se ele fosse só uma mosca irritante, sem nem olhar na sua direção. — Porque muito além dessas mulheres, precisamos falar também daquelas que desempenham esses papéis sem querer, sem apoio ou em idades e condições de vida que não podem e não deveriam acrescentar mais responsabilidades para elas, só porque essa Casa nunca se preocupou com os direitos delas. — Poderia ter parado ali, poderia ter inclusive só continuado com seu monólogo treinado pra reunião, mas um ódio desmedido explodiu em seu peito, e ela soltou um pensamento intrusivo que costumava guardar só pra si mesma. — Um dos tópicos desse projeto, aliás, fala sobre aumentar a licença paternidade e obriga que os parceiros estejam em casa cuidando do recém nascido, tanto quanto a mãe, mas eu duvido que um homem que submeteu a própria esposa a passar por cinco gestações e nunca faltou a uma reunião deste parlamento por motivos familiares, queira que as coisas mudem. Afinal, o que seria de homens como o senhor sem suas esposas obrigadas a deixar suas carreiras pra cuidar dos filhos, não é mesmo?
Suspensão de uma semana, sem autorização pra permanecer no tribunal em qualquer que fosse a audiência ou reunião, silenciada de votar nos projetos mesmo que fossem abertos ao público, e com seu projeto arquivado por mais um mês. Só por ter se defendido de um ataque de uma pessoa que já lhe odiava, enquanto Mr. White, que gritou e quase a agrediu na frente de todo mundo, foi presenteado apenas com um dia em casa para colocar as ideias no lugar e desanuviar a mente do estresse do escritório.
Sim, porque tinha sido, sim, isso que causou toda aquela comoção, e não sua natureza violenta e agressiva que a deixou assustada e acuada pra caralho e só com sua varinha pra se defender antes dos aurores chegarem para conter aquele homem.
— Você devia ir pra casa. — Neo insiste mais uma vez, olhando para Kaur com doçura, independente de ter gritado e brigado com o mesmo Mr. White para defender fisicamente a amiga só meia-hora atrás, enquanto tremia igualzinho um pincher perto daquele homem com o dobro do tamanho de Seol. — Ficar com sua família, aproveitar pra tirar sua cabeça daqui também.
— Enquanto amaciam o ego dele e tratam aquela explosão como algo normal e aceitável? — Shanti afasta a mão que Neo estende pra segurar a sua com força, puta da cara. — Ele devia ser o único levando todos esses castigos, foi ele quem começou esse escândalo.
E ela não acha que Neo concorde com isso, na verdade ela tem certeza que se Seol precisasse escolher um lado, mesmo que não estivesse lá assistindo toda situação, seria o dela e sem nem pensar duas vezes, mas ela não precisa de simpatia e consolo agora. Não depois de quase ter sido agredida por um de seus colegas de trabalho, e desrespeitada pelo próprio chefe levando todos aqueles bloqueios descabidos na frente de todo mundo e aos berros, como se o susto de quase levar um soco não tivesse sido suficiente. Ela continua enfurecida. Com as mãos suando e com dor de barriga e com lágrimas nos olhos, mas ainda enfurecida.
Neo sobe as mangas da camisa social até os cotovelos, soltando um suspiro ao se sentar na cadeira do lado de Shanti, tendo plena consciência de que nada que ele fale ou responda, vai fazer sentido agora, e que se ele e os outros não tivessem chegado logo, uma tragédia poderia mesmo ter acontecido naquela tarde que deveria ser tranquila. Em situações assim, ele evita falar, comentar ou sequer chatear os outros com perguntas, consciente que não é sobre ele e sim sobre ela.
Tudo que Neo pode fazer é oferecer sua presença ali, e um ombro para Shabti chorar quando ela começa a tremer ao seu lado, sem forças pra segurar mais.
— Tudo bem, querida. Eu não vou sair daqui. — Ele a assegura, acariciando suas costas e seu cabelo. — Não foi culpa sua.
No final do dia, quando Shanti vai pra casa na companhia da mãe que assegura que elas vão ficar bem e que ele não precisa acompanhá-las até o bairro indiano que elas moram, Neo também acha que seu dia vai se encerrar ali, com sua mesa com trabalho acumulado, seu quadro de tarefas cheio de informações desconexas e um recado ou dois de Marquise Lan, grudados em sua cadeira, avisando que se ele não arrumar aquela bagunça ela mesma vai tocar fogo em tudo quando ele menos esperar. Uma ameaça que ele acredita, leva para o coração, tirando o casaco de novo e alcançando uma lata de lixo pra pelo menos tirar os papéis jogados do chão, quando Daniel vira a esquina das prateleiras de arquivo com seu sorrisinho social de sempre, acenando a cabeça em sua direção.
— Soube que mandou Mr. White pro hospital.
— Eu só acertei o maxilar dele uma vez. — Neo diz, quase como se estivesse decepcionado com aquela parte, deixando a lixeira no canto de novo. — Ele merecia muito mais.
E Han entende, do jeito dele, mas entende, já que a falta de seus avós no parlamento e o caos que isso causou é um assunto que ele prefere não se meter desde que ambos anunciaram aposentadoria e deixaram os outros integrantes do tribunal pra se matar, jamais esperando que fosse de um jeito literal como tinha acontecido naquele dia.
Então prefere dizer logo pelo que estava ali, olhando suavemente por cima de seu ombro.
— Eu queria ser o último te dando essa notícia, mas…
— Não. Daniel, não!
É tarde, porque antes que Han possa dizer algo, uma garota loira sai do mesmo beco de prateleiras de arquivos que ele, loira pra caralho, arrumada pra caralho, e carismática pra caralho piscando os cílios longos para Neo como se não estivesse sendo amaldiçoada pelo homem bem na frente dela, inclinando a cabeça levemente para o lado quando se apresenta.
— Eu sou a Maude. — Ela sorri. — Sua nova estagiária.
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