I'll be there for you @Slown
“Hazel Grace – ele disse –, você está linda.” Era a terceira vez que relia A Culpa é das Estrelas. Sentia-se Hazel defronte sua própria aflição imperial, tirando a parte é do câncer e do romance tão avidamente negado e tão incrivelmente nítido e vívido. Sabia bem o que iria acontecer no fim e poderiam se passar mil vezes de sua releitura e sempre que chegasse perto Michelle voltaria a enrolar com os capítulos, rezando intimamente para que em um passe de mágica o fim fosse diferente. As pessoas poderiam acreditar que ela era uma louca por sua crença na mudança quase sobrenatural do desfecho daquela narrativa, mas somente ela poderia entender. Cada vez mais absorta à sua leitura, estava a ponto de fechar o livro e o abraçar com a angústia crescente. Algo fora mais rápido que seu próprio desespero, entretanto. Sentiu um tipo de cócegas em suas costas, se aquela sensação fosse prolongada daria uma bela massagem. Para a sua tristeza, a vibração logo parou e ergueu as costas do colchão, tateando o espaço em busca da origem de suas cócegas anteriores. Em poucos segundos, seus olhos se espelharam contra a tela escura do celular e ela sorriu ao identificar quem era o remetente da mensagem que acabara de chegar.
Prontificou-se a ler a mensagem e ao chegar na metade dessa, a respiração ficou presa em sua garganta. E tão logo Hazel Grace e Augustus Waters não eram mais de seu interesse. Keegan dizia em seu texto eletrônico que estava de cama, culpa de uma gripe, mas que logo estaria bem. Conhecendo Slater como conhecia tinha a plena certeza que ele não cuidaria corretamente dessa gripe e não querendo ser pessimista, era provável que ele acabasse na enfermaria por causa desse descuido. Por essa razão – e somente por essa – é que em um pulo saiu da cama e calçou seus chinelos, saindo em disparada do quarto levando consigo apenas o celular, para ficar atenta ao estado de Key. Ao mesmo tempo em que digitava com destreza uma resposta à sms do amigo, seus pés a guiava em direção a cozinha. Ele precisava se alimentar bem e não comer aquelas porcarias que ele e seus colegas de quarto se empanturravam. Em poucos minutos já estava cruzava as portas do refeitório, buscando as cozinheiras atrás do balcão. As cumprimentou e com sua habitual gentileza pediu que preparassem algo saudável que fosse ajudar na constipação de Keegan.
“Você tem uma nova mensagem!” Essa era o alerta que piscava na tela de seu celular e não conteve um novo sorriso ao notar que se repetia o nome do contato. Mal ele sabia que já estava tão perto. Encarou a porta do dormitório por alguns instantes, tendo a consciência que estaria quebrando os regulamentos do Kings por estar ali. Seu coração parecia estar recém-terminado uma maratona atlética de tão eufórico que se encontrava dentro de seu peito. O motivo de tudo isso era o fato de estar quebrando regras, coisa que nunca fora à favor. E é somente por isso, retificou mentalmente. Em uma das mensagens anteriores, Keegan deixara claro que assim que ela chegasse poderia entrar. Talvez ele não estivesse nem ao menos em condições de levantar da cama e ir atender sua chamada na porta, só de cogitar algo assim um nó se formou em sua garganta. Impulsionada pela carta branca dada por Keegan – e pela angústia de imaginá-lo sofrendo – sem maiores complicações, Mich entrou no quarto do rapaz, é claro que não sem antes verificar o corredor.
Assim que fechou a porta atrás de si, correu os olhos pelo cômodo a procura da figura masculina que a fizera ir até ali. Deparando-se com uma montanha de roupas – pelo menos era o que achava ser – amontoadas em um canto, meias e o que parecia ser cuecas largadas pelo chão. Definitivamente era um quarto de garotos, riu-se ela com o próprio pensamento. Seu olhar parou em um monte de cobertas e travesseiros em cima de uma das camas e o que pareciam um par de olhos lhe encarando na entrada, escondido debaixo daqueles panos. – Então é aqui que você se esconde? – Brincou com um sorriso divertido nos lábios e diminuindo aos poucos a distância que havia entre ela e a cama. Sentou-se a beirada da cama e deixou a maleta térmica repousar sobre seu colo, cobrindo a pele que o shorts que usava não fazia. – Deveria procurar um covil menos óbvio, meu rapaz! – Completou sua brincadeira, esticando um braço para livrar aquele rosto da proteção de suas ataduras. Ao tocar Keegan, não soube dizer se a quentura vinha dele por seu padecimento ou dela por estar ali com ele. Abaixou o rosto, fitando as alças prateadas da maleta e então a tirou de seu colo, colocando-a em cima do criado mudo.
Voltou a olhar para o garoto, ou aquela múmia fervente que estava acamada. Chutou os chinelos para longe de seus pés e deslizou com delicadeza na mar de lençóis que ele havia feito em cima do cama. Parou deitada de frente para ele, com as mãos bem juntinhas e acomodadas embaixo da própria cabeça. – Deveria também se cuidar, Keegan. – Em outra situação até riria depois de tal repreensão, mas ela estava realmente preocupada com a saúde dele e isso alarmava seu coração, deixando qualquer bom humor abalado. – Não será sempre que haverá uma Mich para cuidar de ti! – Nenhuma outra frase doera tanto nela quanto aquela, mas era verdade. Não queria que existisse uma possibilidade de não fazer parte da vida dele, entretanto, nunca se sabia o futuro. E por mais que os dois quisessem a presença um do outro, sempre existiria o fim. Saber se ele estava próximo ou distante era a questão. – E mesmo que apareça outra solícita quanto eu, nenhuma cuidará tão bem. – Apesar da pitada de comédia, advinda do teatral narcisismo, também sabia que era mais uma incontestável verdade. Ninguém se preocuparia tanto com ele quanto ela, estava ligada à aquele garoto como jamais pensou ser possível. – Ela não vai querer deixar os agentes da S.H.I.E.L.D esperando só porque você se resfriou. – Relembrou de seus planos para aquela tarde e em como atacaria um pote de sorvete assistindo sua maratona de Marvel Agents Of S.H.I.E.L.D, mas ao contrário de todos suas possíveis previsões, estar ali, no quarto de Keegan, cuidando dele era a última delas. Porém, sabia que nada a faria mais feliz.