Dizem que quem muito sente, muito se machuca... Mas quer saber? Eu não dou a mínima. Não quero morrer com a alma anestesiada de medo.
Cori
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Dizem que quem muito sente, muito se machuca... Mas quer saber? Eu não dou a mínima. Não quero morrer com a alma anestesiada de medo.
Cori
a vida que não cabe em mim
eu quero ser tudo e não quero ser nada. quero ser artista, fotógrafo, escritor, quero encher os olhos do mundo com as coisas que vejo na minha cabeça. mas também quero ser só um vulto, um rascunho de pessoa, que some nas horas vagas.
quero ser rico, mas não do jeito que imaginam. quero riqueza de tempo, de silêncio, de tardes vazias. quero viajar pra todos os cantos do planeta, mas ainda não saí daqui - e às vezes acho que conheço mais o mundo através da tela do meu celular do que pelo cheiro da rua.
quero conhecer pessoas, mas baladas me cansam em cinco minutos. quero um amor pra vida toda, mas nunca nem segurei a mão de alguém por mais de dez segundos. quero viver intensamente, mas meu corpo já chega exausto no fim do expediente, intoxicado por um trabalho que não me representa mais no momento atual, depois de meses tentando aprender tudo que sei dele hoje.
eu quero aparecer nos lugares mais incríveis: no topo de montanhas, no meio de desertos, em cidades que nem constam nos mapas. mas também quero sumir. desaparecer num buraco de minhoca embaixo da minha cama, onde o tempo para e eu posso finalmente respirar fundo sem que o mundo me cobre algo.
porque no fim, o que eu mais quero é uma pausa. um intervalo entre um ato e outro. tempo pra descobrir se estou vivendo ou só existindo em câmera lenta. e talvez, só talvez, encontrar uma razão pra continuar tentando ser tudo isso - ou nada disso - sem surtar no processo.
(ou então, simplesmente dormir até tudo fazer sentido.)
ela dizia que a vida começaria quando terminasse o curso.
depois, quando conseguisse um emprego.
depois, quando pagasse as dívidas.
quando viajasse.
quando morasse sozinha.
quando comprasse o liquidificador dela.
foram se acumulando marcos como quem coleciona promessas.
mas a vida, teimosa, acontecia no intervalo.
enquanto ela esperava...
enquanto ela dizia "só mais um pouco"...
enquanto ela não percebia que já estava vivendo...
um dia, numa terça qualquer, ela se pegou sorrindo ao ver um bolo assando.
sem pensar no depois, sem planejar a próxima meta.
só o cheiro do bolo,
só aquele momento...
então se deu conta de que talvez a vida nunca comece de verdade,
porque ela já está, o tempo todo, aqui.
entre a xícara de chá e o ônibus que atrasa,
entre uma dorzinha nas costas e uma conversa boa no fim do dia,
entre o quase e o ainda não.
às vezes, o mais difícil não é chegar onde queríamos.
é perceber que já estamos onde a vida queria nos encontrar...
— Preciso Falar Sobre(viver).
oi, você...
não sei bem onde está, nem o que andou fazendo com tudo aquilo que sonhamos... espero que esteja com menos pressa, e com mais paz.
escrevo porque às vezes me pego nessa dúvida:
será que estou fazendo o suficiente?
será que viver assim — sem grandes feitos, sem cronograma cheio — vai me levar a algum lugar que valha a pena?
ou será que estou só... esperando o trem da vida passar?
teve uma época... (talvez você se lembre) em que tudo parecia uma corrida, como se só importasse o que a gente deixasse depois: legado, nome, obra, aplausos, peso.
mas hoje... eu começo a achar que talvez o peso não seja sinônimo de valor, e que viver leve, ao contrário do que dizem, não é descompromisso — é coragem.
é preciso coragem pra não se prender ao que esperam, pra não transformar cada gesto em um tijolo de algo "grandioso".
às vezes, só amar já é uma revolução, só ouvir alguém com presença já é um monumento.
então, se por acaso você aí no futuro estiver tentando entender se valeu a pena...
olha com carinho pras coisas pequenas.
pras risadas bobas que escaparam em meio ao caos.
pros dias em que você escolheu respirar fundo em vez de gritar.
pros afetos que você cultivou sem plateia.
se tudo que deixarmos forem lembranças boas em corações dispersos...
então, talvez a resposta seja essa:
não deixei um legado... mas vivi leve.
e isso, no fim das contas, foi tudo.
te olhando de longe...
— ao ser que carrego em construção.
hoje não era um bom dia pra ser gente, mas as obrigações não quiseram saber... a vida bateu ponto, e eu bati junto, com olheiras, pressa e zero inspiração. constância virou dever — e talvez um pouco de teimosia também:
acordei, mas não despertei... sentei, mas não descansei... pensei, mas não senti... e ainda assim, escrevi. falei. escutei... me arrastei para compromissos como quem atravessa um campo minado com a calma exausta de quem já entendeu que não pode parar... não porque tudo vai desmoronar, mas porque, talvez, parar doa mais do que seguir...
a constância nesses dias não é virtude, é sobrevivência... não tem brilho, nem trilha sonora, é só um passo depois do outro, um café atrás do outro, uma aba de navegador depois da outra... você não tem ideia do que está fazendo, mas faz... não tem o que dizer, mas responde mensagens, acena com a cabeça, solta um “pois é” cravado no modo automático.
e não é falta de amor, nem de vocação... é só o cansaço instalado nas entranhas, gritando que queria estar em qualquer outro lugar — menos aqui, nesse mundo que exige tanto e devolve tão pouco — mas ainda assim, você faz seu melhor... uma linha torta, uma frase que talvez nem faça sentido, escuta um som que mal compreende, respira fundo antes de responder e, mesmo sem saber como, segue.
talvez suportar a constância seja isso: não a gloriosa disciplina dos motivados, mas a silenciosa persistência dos que ainda não desistiram... não há encanto em seguir em frente quando tudo em você quer parar... mas há dignidade. há força. há uma beleza quase invisível na coragem de continuar mesmo sem um porquê claro.
nos dias difíceis, constância é resistência. é ato de fé... é forma de carinho: com o mundo, com o outro, consigo mesmo.
e quando o dia acaba — finalmente — e o corpo cede ao descanso, você percebe: não foi um grande dia, mas foi um dia a mais... e isso, às vezes, é tudo que se precisa...
— até amanhã, dona constância!
incontáveis são os dias em que eu acordo já cansado. não é físico — é aquela fadiga que começa na alma, sabe?
você levanta, escova os dentes olhando pro nada, coloca uma roupa qualquer, e sai. vai pro trabalho, finge interesse, responde mensagens automáticas, dá sorrisos meio tortos. a cabeça tá longe, mas o corpo tá ali, cumprindo função...
todo dia igual... todo mundo com pressa, com olheiras, com silêncio dentro... como se a gente tivesse virado parte de uma engrenagem que não para nunca. e se você parar, parece que desmorona tudo. então a gente continua. mesmo sem saber pra quê.
quando chega em casa, o cansaço é tão grande que a única coisa que você consegue fazer é deitar, rolar o feed e fingir que tá relaxando. mas na real, você só tá anestesiando o vazio...
e aí vem o medo: e se isso for o normal? e se a vida for só isso mesmo — acordar, trabalhar, pagar boleto e repetir?
às vezes me pergunto: quando foi que parei de viver e comecei só a funcionar?
— estou aqui, mas não comigo...
a tarde de domingo tem um gosto estranho... é como um chá morno esquecido na xícara, que não esquenta nem consola... o sol se arrasta devagar, pintando a parede com aquele dourado preguiçoso, quase uma despedida. e a gente ali, meio parado, meio pensativo, sentindo um peso que não se explica direito.
não é tristeza de verdade, mas também não é alegria... é um nó no peito que parece feito de lembranças: da infância correndo no quintal, dos almoços na casa dos avós, do tempo em que domingo era sinônimo de descanso de verdade, e não só de pausa entre tarefas... tudo isso volta num sopro, com cheiro de feijão no fogo e o som distante de um jogo de futebol passando na televisão.
a luz vai abaixando devagar, como se o céu também estivesse com pena da gente, e quando o último raio se esconde atrás dos prédios ou das árvores, vem o silêncio... não o silêncio da paz, mas o da espera, porque a semana já está ali, espiando da esquina, pronta pra tomar conta de tudo de novo.
é nessa hora que dá vontade de voltar... voltar no tempo, voltar pra casa, voltar pra alguém... dá saudade até do que a gente não viveu. e o pior é que não tem remédio: a melancolia do domingo à tarde é antiga, teimosa e fiel... volta toda semana, com o mesmo roteiro, a mesma luz baixa, o mesmo aperto doce no peito.
a gente aprende a conviver com ela, porque, no fundo, essa tristeza também é memória... é a forma que o coração encontra de lembrar que viveu, que ainda sente, que mesmo com os dias correndo apressados, ainda há espaço pra sentir devagar, nem que seja só no silêncio de um domingo qualquer...
— sobre tardes que doem sem machucar.