Enquanto criança, talvez houvesse a possibilidade de fazer manha, se jogar no chão, chorar e dizer que não queria ir.
Olhando a cena com olhos de adulto, e mesmo com um "amargorzinho" na alma, minimizo dizendo que tudo não passa de bobagem. Em seguida, tento trazer algum sentido ou justificativa para aquilo que talvez não precisasse. Talvez apenas sentir bastasse.
Olho o mapa-múndi à minha frente, mais especificamente o mapa do Canadá, há 30.000 pés de altura. Vejo uma linha reta que liga Vancouver ao meu próximo destino.
Mas é em Vancouver que mora essa sensação: um pequeno luto, uma tristeza leve, que não chega a doer, mas está lá, te lembrando a todo instante de sua existência.
A todo momento penso: o que estou escondendo de mim? Qual o sentimento "travestido" de outro que quero enganar?
Saí de SP há 3 meses, sob o pretexto de que precisava melhorar o inglês. Não menti de maneira alguma. Precisava, sim, e, como bom sagitariano que sou – aventureiro, com ascendente em Capricórnio –, pé no chão e obstinado, fui lá e tratei de fazer a minha lição de casa: diariamente, uma média de 6 a 8 horas de estudo por dia.
Mas, multitarefa que sou e macaco velho de sala de terapia, sabia que tinha algo mais nesse baú. O que eu fui buscar tão longe? Ou melhor, quem eu fui buscar tão longe?
A decisão de ir só tinha múltiplos sentidos, muitas buscas, muitas ânsias.
Por anos lutei contra o rótulo de ser ansioso. Achava aquilo uma fraqueza. Precisei de tempo e de semântica para entender que o ansioso tem ânsia... de viver intensamente.
Fui me buscar em Vancouver. Nada foi por acaso, inclusive a escolha de um local onde nunca tínhamos estado. Caso contrário, talvez estivesse traindo minha alma imoral, que precisa transgredir e ir além, ciente de que viemos e um dia voltaremos sozinhos. Esse é um ato individual e intransferível, mas que por vezes tentamos nos enganar, maquiar com festas, amigos, brindes e viagens – algo que, de alguma forma, nos preencha e dê sentido.
Mas o sentido está dentro da gente, nessa centelha divina que carregamos no peito. Sabe aquele quentinho que sentimos aqui dentro, quando sabemos que estamos indo na direção certa?
Aceitei encarar meus medos, saber do que sou e do que não sou capaz, andar nos limites da minha existência, olhar para o abismo.
Um dia, num domingo, saí para caminhar pelos arredores do meu bairro, entre West End e Downtown.
Passei por pessoas. O casal empurrando o carrinho com o bebê recém-chegado. Quais seriam os planos daquela nova e “verde” família? Será que o casal já tinha comido um quilo de sal, como bem disse minha sogra uma vez? Passei pela moça que voltava cedo da aula de yoga, com seu tapetinho debaixo do braço. Qual seria sua próxima programação dominical? Não tinha cara de quem ia à missa. Talvez almoço com o grupo de amigos? Será que ela se aborrecia por ainda não ter encontrado alguém? Passei pelo cara sonolento, levado pelo filho pet. Do que será que ele se arrependia da noite anterior?
Então olhei para mim e me dei conta de que eu, diante de todos aqueles, naquele lugar, era invisível. Eu não existia para eles.
Pensei: que louco, a gente existe para um pequeno grupo de pessoas.
Neste átimo, olhei a solidão nos olhos. Senti uma certa tristeza, mas, ao mesmo tempo, olhei a situação com maturidade, com serenidade, para entender que a vida é assim mesmo.
Siga o jogo da melhor maneira que puder. Não há certo ou errado quando estamos sendo fiéis a nós mesmos. Mas jogue com fairplay, sendo justo e honesto com a pessoa que mais importa: você mesmo. Somente desta forma você terá condições de exercer fairplay com os demais.
Que venham novos games. Já vejo as luzes do meu próximo destino. Hora de pousar.