À “vontade, vontadinha” os showcases abriram totalmente o “Appetite” musical – Dia 2 do Sonus Art | Reportagem completa
Desire Haze em palco | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest A tarde de sábado 11 de outubro nada teve de semelhante com o sábado anterior de Sonus Art Fest em 2024. Nessa ocasião Guimarães foi presenteada com uma avalanche de uma chuva bastante intensa e persistente. A reportagem de 2024 do festival pode ser recordada aqui.
Agora em 2025 finalmente pude presenciar os concertos dos showcases nos Jardins da Fraterna numa tarde de outono com sabor a gelado de verão.
No edifício coberto que tem ao lado os Tanques da Fraterna foi possível visitar a outra vertente artística do evento: uma exposição com elementos de pintura, de fotografia e vídeo de diversos autores. A identidade visual do Sonus Art Fest 2025 e o seu processo criativo esteve também exposta.
Ambiente durante a tarde de showcases | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Trata-se, sem dúvidas, de uma vertente bem explorada e que deve ser de visita obrigatória para todos os festaleiros. Tem entrada gratuita assim tal como os showcases musicais ocorridos no espaço aberto mesmo ao lado.
Daphné Chenel é uma cantautora oriunda de Paris e foi a primeira a atuar a partir das 17 horas num clima relaxado e caloroso. Trouxe a Guimarães o seu indie-folk e a sua voz bastante dócil e suave com aquele timbre bem docinho de sotaque francês, ela que cantou na sua língua natural e em inglês. Teve também uma ligeira incursão no português.
Daphné tem uma forte ligação a Portugal devido a ter-se radicado no nosso país durante alguns anos nomeadamente em Lisboa. A estada na capital lisboeta já lhe proporcionou uma atuação em regime de primeira parte num concerto de Anna B Savage realizada pela ZDB.
Visão do palco durante a atuação de Daphné Chenel | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Ao piano versou sobre várias temáticas como, por exemplo, sobre depressão. Outro tema foi a saudade, como disse em bom português. Chenel também tocou guitarra elétrica e acústica.
‘Mue’, editado em 2023, é o seu trabalho discográfico de estreia, tem inspirações lisboetas. Explorou devidamente esse disco, uma das faixas que não faltou foi "Les dégâts", a primeira canção que lançou, sobre rutura amorosa. Curiosamente surgiu na altura em que deixou o piano e passou às guitarras. Outras interpretadas foram, por exemplo, "Désolée mon amour" ou "Les Vagues".
Realce igualmente para a nova canção intitulada "Alice" sobre a sua avó portuguesa. Refrão "estou aqui à tua porta" cantado de forma bem percetível pese embora os receios da artista.
O público ajudou a artista com coros bem afinados e a matiné folkiana revelou-se extremamente simpática e agradável e teve continuidade com o artista seguinte.
Daphné Chenel ao piano e na guitarra | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Na sequência tivemos FeMa..Este é o nome artístico de Diogo Félix. Deu os passos iniciais no seu percurso musical em 2021 com o lançamento dos primeiros singles. Em 2022 “uma palavra chamada folha” é o seu debute nas edições discográficas, apesar deste EP ter título em português é cantado em inglês.
Após uma pausa de um ano, FeMa. recriou-se e aproximou-se da sua identidade artística, visível no single “Vontade, vontadinha”, lançado em 2024, acompanhado por um teledisco que introduziu o seu mundo natural e imaginário. Este tema foi interpretado na fase final da sua atuação e mereceu a atenção devida do público com o auxílio nos coros.
FeMa. no seu regresso a Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Músico oriundo de Alcobaça, na voz e guitarra, apresentou-se em modo duo com Camila Romão, ela que ocupou-se da guitarra (de imensos efeitos) e do sintetizador. O artista esteve de regresso a Guimarães depois de uma passagem pelo CAAA. FeMa. afirmou adorar a cidade nortenha e boa sua “boa onda” não tenho a menor dúvida disso mesmo.
Um dos seus principais temas “Verde Mar”, editado em fevereiro deste ano, foi interpretado de maneira muito bonita e singela. Uma atuação de acordo com o clima prazeroso da tarde e bem adequada à vibe de quase final de tarde.
Camila Romão no apoio a FeMa. | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Já com o ocaso no horizonte surgiram os Desire Haze, banda de indie rock do Porto. A banda, que se agrupou em 2023, é composta pela vocalista e guitarrista Laura Olim, pelo guitarrista João Matos, pelo baixista Hugo Machado e pelo baterista Mateus Pereira. Tiveram Sam Akpro e a sua banda a espreitarem a sua performance, eles que iriam subir ao palco na parte noturna da programação.
Algumas das suas referências musicais incluem artistas como Angel Olsen e PJ Harvey, e bandas como The Cure e Slowdive. Curiosamente a vocalista Laura fez-me lembrar o jeito de Angel Olsen no modo de abordar o microfone e de manejar a guitarra.
Ainda sem álbum editado, promessa feita em 2024 e que tem sendo vindo adiada, a performance foi pontificada pelos singles “Still water”, “Did I go blind” e “Still Water”. São boas referências para o som porreirinho deste projeto. Já editadas e disponíveis nas plataformas online de streaming.
Mateus e Hugo dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest “Smile to a stranger” e “Unlost unfound” foram outras das faixas interpretadas, soaram-me bastante bem. Aguardo portanto por esse álbum para novas considerações sobre estes Desire Haze. Deixaram um gostinho bom no ouvido. Tiveram a maior presença de público deste segmento de três atuações.
Mais um projeto a demonstrar que a cena musical portuense está a fervilhar. Uma fase positiva em que bandas como estes Desire Haze ou outras como os Marquise, Sadhäna ou Nunca Mates o Mandarim têm a surgido de forma orgânica e com bastante qualidade.
O guitarrista João Matos dos Desire Haze | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Rachid Amado Fakhre é o artista responsável pelo projeto Skydaddy. Ele que fez parte do projeto Spang Sisters e agora com as lides nas suas mãos pretende criar algo mais íntimo.
Apresentou-se na garagem do Teatro Jordão tendo feito a sua apresentação a solo. Mais tarde entraram os restantes três elementos, alguns dos melhores músicos de Londres. Contou com Francesca Brierley no piano/voz secundária e outros dois elementos. O baterista também tocou violino e teve também um baixista.
Houve um momento bem particular em que Skydaddy interpretou um tema instrumental sobre o Líbano, o seu país natal. “Lebanon Rising” foi interpretada por Fakhre na guitarra clássica com o apoio de violino.
Skydaddy, o projeto a solo de Rachid Amado Fakhre | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest “His Masterpiece” e “Stonehenge” foram outras duas interpretadas. Para o final ficou “That Morning”, uma canção que aprecio imenso. Interpretada de forma fantástica soou imensamente bem.
Com o seu registo folk açucarado deixou-nos com um cartão-de-visita expressivo após uma performance descontraída e bastante agradável.
Skydaddy com a sua banda | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Sam Akpro é um inglês proveniente de Peckham no sul de Londres e transportou-nos para o seu imaginário sonoro profícuo resultante de uma miscelânea de punk, pop, psicadélico e rap verdadeiramente distintiva. Trouxe-nos a sua banda constituída por um elemento responsável pela eletrónica, outro pelo baixo, um na guitarra e mais um na bateria. Akpro forneceu-nos a sua voz.
‘Evenfall’, álbum de estreia editado em março de 2025, retém enorme influência da fase da vida em que Akpro trabalhava num pub em período noturno. Foram os temas incluídos nesse registo discográfico os principais neste concerto em Guimarães, tais como “Baka”, “City Sleeps” ou “Gone West”. A energia descontrolada no último tema que interpretaram quebrou completamente o ciclo de uma performance bastante morna ao fim de cerca de 40 minutos.
Sam Akpro na sua estreia em Guimarães | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Para mim a atuação mais destacada da noite foi a dos Folly Group. Quarteto britânico formado por Sean Harper: voz e baterista; Louis Milburn: voz e guitarra; Tom Doherty: baixo e Kai Akinde-Hummel: bateria e percussão.
Este projeto existe desde 2019 e têm por inspiração base os Gorillaz e os Massive Attack. Esse ponto de partida é vital para a mescla de Punk e Rock Progressivo que proporcionam amplificada por Sean, Kai e Louis. Este trio proporcionou uma grande robustez aos seus temas dado que todos fez uso dos seus recursos vocais e por vezes ao mesmo tempo.
Em palco os Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Com a entrada dos Folly Group às 23:38h deu para perceber que estávamos com a casa muito bem composta e com bastante animação. Esta performance foi bastante bem recebida pelo público. Apenas com um álbum editado, ‘Down There!’ em 2024, naturalmente o foco recaiu neste registo discográfico. Não faltaram na setlist temas como “Strange Neighbour” ou “Fashionista”, só para citar dois dos mais ouvidos nos streamings. “Bright Night”, “Four Wheel Drive” e “I’’ll Do What I Can” também foram escutados pelo público no Sonus.
Referir para a loucura em “I Raise You”, a última faixa interpretada. Em que o guitarrista veio para o meio do público. Com alas bem abertas, a seu pedido, foi uma espécie de insanidade temporária. Um encerramento apropriado para uma performance em crescendo.
Kai Akinde-Hummel dos Folly Group | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Os Yard são um trio irlandês formado por Emmet White: voz/beats, George Ryan: sintetizadores/beats e Daniel Malone: guitarra. Oriundos de Dublin trouxe o seu eletro-punk até ao Sonus Art numa estreia vimaranense bastante eletrizante e portentosa. Até demais direi eu, creio que o som foi colocado num patamar elevado, bem além do aconselhado para o espaço.
Foi neste concerto final que, provavelmente, atingiu-se o pico de público de todo o festival.
A energia do vocalista passou para a plateia e para os imensos corpos dançantes. Essa vitalidade começou logo durante “Trevor”, a primeira faixa que os irlandeses tocaram. Teve sequência em temas seguintes como “Appetite”, “Essential Tremor” ou “Slumber”.
Emmet White dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Esta performance marcou o encerramento do Sonus e revelou-se sonoramente ao nível de uma rave party. Inclusive ao nível do jogo de luzes. Quase literalmente Yard a “partirem pedra” e para a pedrada ser ainda de um nível psicadélico mais elevado, a voz de Emmet estava enfeitada de um reverb em tom raivoso.
Tinha alguma expetativa para a atuação dos Yard porém confesso que, definitivamente, não entraram para as minhas memórias futuras nem para o meu radar musical.
Daniel Malone dos Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest Para fecho de reportagens e como conclusão referir algumas notas: - sinceramente não sei se dois dias são um bom encaixe para o festival, acho que prefiro um sábado mais intenso e com escolhas bem definidas para um tarde e uma noite bem fortíssimas. - sobre os showcases: 45 minutos para cada concerto é demasiado tempo, com as mudanças são praticamente 3 horas. Revela-se um pouco entediante para quem quer checkar as novidades sem stress e posteriormente ir jantar com serenidade. Talvez 30 minutos seja um tempo máximo ajustado.
Visão do público durante os Yard | Foto Sérgio Monteiro @ Sonus Art Fest O Sonus Art Fest está cada vez mais com uns ares profissionais e o potencial que demonstraram até agora deve ser reconhecido à organização.
Agradecimento final para a organização do Sonus Art Fest pela sua simpatia e por me ter acolhido tão bem no evento. Igualmente pela disponibilização das fotos utilizadas nesta reportagem.
Texto: Edgar Silva Fotografia: Sérgio Monteiro @ sergiommonteiro (Instagram) // Fotos Oficiais Sonus Art Fest












