Gogol Bordello no Hard Club: alto festão literalmente “Pala Tute” (isto é mesmo para todos) | Reportagem completa
Eugene Hütz, o líder dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Conhecidos como banda de “punk cigano” os Gogol Bordello regressaram a Portugal no passado fim-de-semana. Marcamos presença na performance na Cidade Invicta ocorrida em domingo de eleições (passado dia 12) no Hard Club. Ambos os concertos esgotaram, foi mesmo atuação a norte que teve o selo “sold out” alcançado rapidamente, a de Lisboa também esgotou só que muito depois.
Para esta atuação portuense, tal com a do dia prévio no Lisboa Ao Vivo, chegaram a estar escalados os Bob Vylan para as primeiras partes. A polémica à volta desta dupla britânica em julho passado devido a comentários menos favoráveis a Israel em pleno festival de Glastonbury levou à decisão do cancelamento da presença nos palcos nacionais em conjunto com os Gogol Bordello. A dupla de punk-rap acabou por fazer a sua estreia no passado dia 8 deste mês em Portugal num concerto no Lisboa Ao Vivo.
Na primeira parte os Split Dogs | mais fotos clicar aqui
Parece não havido chatices ou ressentimentos entre as bandas. Aliás a música dos Bob Vylan passou na instalação sonora nos momentos prévios à entrada dos Gogol Bordello e os Split Dogs, a banda que ficou encarregue da primeira parte do concerto, dedicou mesmo um dos temas aos seus conterrâneos britânicos. Ambas as bandas até partilham a mesma editora.
A banda de Bristol ainda não tinha entrado em palco e a Sala 1 do complexo Hard Club já encontrava-se extremamente bem preenchida. “Porto!!! Are you ready to rock??” ouviu-se várias vezes nos instantes prévios à entrada do quarteto e logo aí percebeu-se que o público iria estar “ligado” ao concerto.
A vocalista Harry Martinez fez lembrar Amy Taylor (Amyl and the Sniffers), destemida e corajosa, tanto pela indumentária utilizada como pela energia eletrizante que despendeu durante a sua performance.
A vocalista dos Split Dogs | mais fotos clicar aqui
Além da intrépida Harry há também Mil Martinez, o ousado guitarrista que bebeu uísque diretamente da garrafa durante a atuação, também fez uso dos seus recursos vocais bem como as despesas de comunicação com a audiência. Susie Boyle é a baixista e Chris Huggall o baterista.
‘Split Dogs’ de 2023 e o mais recente ‘Here To Destroy’, este já editado no decurso deste ano, foram devidamente apresentados. Um misto de temas de ambos os álbuns foi a escolha lógica. Foram cerca de 35 minutos extremamente intensos. Entrada com “Stay Tuned”, algo que o público cumpriu à risca. Pelo meio também tocaram “Prison Bitch”, “Monster Truck” ou “And What”, por exemplo. O ´último “soco” sonoro foi mesmo com “Punch Drunk”.
Split Dogs são um quarteto de punk rock ‘n roll e nesta atuação portuense deram muito boa conta de si. Realizaram uma performance musculada, de agrado do público tendo em conta as manifestações com bastante vitalidade.
Harry e Mil dos Split Dogs | mais fotos clicar aqui
A presença anterior dos Gogol Bordello em Portugal remontava a 2019 numa aparição no festival de Vilar de Mouros. Em 2018 apresentaram-se no North Music Festival ocorrido na Alfândega do Porto. São “velhos conhecidos” do público lusitano, sobretudo do nortenho.
Eugene Hütz, vocalista principal, é afamado por ter uma atitude bem intrépida e destemida em palco. Músico de origem ucraniana também tocou guitarra. Erica Mancini ocupou-se do acordeão/teclados e faz também uso da sua voz. Pedro Erazo, de origem equatoriana, além do charango, da marimba e a percussão também cantou, ele que foi uma força viva e puxou sempre pelo público. Leo Mintek é o guitarrista e também participou vocalmente. Gill Alexandre é o baixista. Sergey Ryabtsev é o violinista. Korey Kingston é o baterista e também percussionista. Esta é a formação atual deste projeto, ao longo dos anos os elementos têm mudado. Sergey e Erazo têm sido os fiéis escudeiros de Eugene nesta empreitada há mais tempo.
Entraram em palco às 22:18h, a pausa foi bem longa após desde o final da performance dos Split Dogs. Vale que a espera foi facilmente suportada por entre conversas cruzadas, boa disposição e uma playlist que incluiu música dos Puzzled Panther e dos Bob Vylan.
Pedro e Erica dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Todos eles, sem exceção, demonstraram no Hard Club do Porto nesta passada noite de domingo a sua energia irrefreável e o irresistível cruzamento musical entre música cigana do leste europeu com influências folclóricas eslavas e punk rock.
Longos meses passaram desde que vi Linda Martini neste mesmo sítio, concerto esse ocorrido em fevereiro deste ano. Os torniquetes no WCs já funcionam e as pulseiras do sistema cashless são uma realidade incontornável. Algo que também se mantém é o aspeto climatérico a sala, com sala lotada o calor continua a ser intenso, quase ao nível de ser um adversário…
Já me mentalizei, dadas as novas circunstâncias deste espaço cultural, que não virei cá com muita regularidade. Os mais atentos certamente entenderão o que este fã de concertos rock, indie e alternativo está a referir-se.
Sergey dos Gogol Bordello | mais fotos clicar aqui
Regressando aos Gogol Bordello… Este é um projeto musical baseado em Nova Iorque desde 1999 o qual tem contado ao longo dos anos na sua formação artistas de várias nacionalidades com “backgrounds” bem diversos sendo que isso vem sendo espelhado na discografia da banda. A multiculturalidade tem surgido de forma natural.
Hütz, numa entrevista à NiT, afirmou que aquilo que mais gosta em Portugal é a vibe e que é um país muito cool. Realmente o líder deste projeto tem toda a razão: com fãs a utilizarem o merch bem bonito dos Gogol Bordello a “coolness” consegue ser superior. Nota de rodapé: o vestuário que estava à venda realmente era bem giro em que o amarelo era cor de destaque.
Público desde logo em êxtase com a entrada da banda. A energia que todos os elementos dispensaram foi de uma brutalmente incomensurável. À quarta canção, no caso "Immigrant Punk", já os corpos estavam mergulhados em suor e os copos voavam. A animação essa seguia à velocidade de cruzeiro.
Público desfrutando ao máximo da ocasião | mais fotos clicar aqui
Durante "My Companjera" a proximidade foi tanta que vi Eugene a cantar mesmo face a face com a primeira fila sem que ele tenha colocado um pé fora de palco. Tirando o baterista, todos os elementos mantiveram essa proximidade com o público constantemente, quase como forma de não deixar ninguém desarmar da fiesta.
Victoria Espinoza e Kay Bontempo dos Puzzled Panther participaram como convidadas especiais no concerto nos temas “Fire on Ice Floe” e “From Boyarka to Boyaca”. Elas deram o seu contributo de forma bem entusiasmada.
Um enorme mosh pit durante "I don't have time for idiots”, incitado por Eugene, foi vivido festivamente ao estilo “bonfire” à lá Bordello. Sem a fogueira pois claro. A quantidade de caras sorridentes, fãs a cantarolarem as letras em plena avidez de pulmões e a desfrutarem fez-me entender o porquê de ter arriscado a conhecer esta fiesta Gypsy Punk dos Gogol Bordello. Não é meramente um concerto, é toda uma performance simbiótica celebrativa da vida e da comunhão entre as pessoas.
Gogol Bordello sempre pertíssimo da frontline | mais fotos clicar aqui
No encore Hütz teve o seu momento privado a solo durante a interpretação de “Alcohol”. Sentado em cima de duas caixas encarou o público de frontalmente. Os outros elementos tiveram também os seus instantes de foco único, algo que resultou esplendorosamente e que dá o devido crédito a cada um deles.
“Wataka Wataka” e “Undestructable” foram os outros dois temas também interpretados no encore, já com banda completa. Quase duas horas depois tivemos um encerramento bonito e é bem como Eugene afirmou “são muitas músicas para tão pouco tempo”. Ficou aquela sensação de que poderíamos estar ali com a banda noite adentro sem nunca esmorecer o ânimo. Gogol Bordello é isto mesmo, desfrutar da vida, da música e das pessoas sem pensar em mais nada.
Parafraseando Eugene Hütz: Valeu! Valeu! Valeu!
Reportagem fotográfica completa: Clicar Aqui
Gogol Bordello com casa lotada no Hard Club | mais fotos clicar aqui
Texto:
Edgar Silva
Fotografia:
Ana Lourenço @ blackphant.stage (Instagram)