Svetlana kommt. Sie kommt auf lauten Füßen in Schuhen für die sechzehn Freier sterben mussten. Roland kommt. Die Bäume leuchten wie Neongirlanden sobald der Wind reinfährt. ... Erol kommt. Ein Schädel platzt wie eine Seifenblase im lüsternen Geäst der Anemonen. ... Aiki kommt. They lässt die Metropolen in Hoffnung und Apokalypse auferstehen und untergehen. ... Ripley kommt. The riff goes on, accept it. ... Leyla kommt. Fünf Reiter stehen am Horizont. ... Pavel kommt. Am Steuerrad des Schaufelraddampfers klebt grünbraunes Blut und niemand weiß, woher es kommt, niemand hat das Monster je gesehen, das hier geblutet und gesteuert hat. ...
Es macht immer Tuut-Tuut, ganz laut immer Tuut-Tuut...
Da diferença entre machen e tun e a vida secreta das línguas
O título é uma música alemã dos anos 80, que descobri em um artigo de Bastian Sick para o Der Spiegel, que eu traduzi aqui. Este texto, no caso, descobri quando fui pesquisar a respeito da universalidade de tun, que tinha ouvido em um vídeo do Easy German "täten” no lugar de “würden” como o auxiliar numa construção de Konjunktiv II e mesmo na versão em Kölsch de “Du bist anders”, uma música de uma das minhas bandas favoritas, AnnenMayKantereit, em que “du hörst mir nicht zu” virou “du tust mir nicht zuhören” [ambas significando, “você não me escuta”], ou seja, botaram o tun de auxiliar ali porque... sim. Isso me despertou uma curiosidade a respeito do verbo tun, porque eu pessoalmente mal recorro a ele, fora algumas expressões consolidadas como “es tut mir leid”, ou “ich habe viel zu tun”.
Devo fazer uma ressalva. Não é porque ficamos sabendo de um recurso da fala do alemão que vamos sair usando a torto e direito. Esse tipo de fenômeno da fala é muito ligado à situação e pode ser considerado erro se utilizado em contextos que pedem linguagem formal. Você pode ler o artigo que eu citei para entender mais a respeito do uso de tun como auxiliar e saber do que se trata quando topar com um desses por aí, mas, na hora de falar, pode falar do jeito com que você pratica nos cursos, porque aí é mais garantia de ser entendido (e as pessoas falam assim também).
Então, vamos resolver a questão que mais nos ajuda: qual é a diferença entre machen e tun? Em termos gerais, a diferença é semelhante ao par to do x to make do inglês - to do/tun é utilizado em situações mais abstratas e to make/machen nas mais concretas, e, quando se faz alguma coisa, como um bolo, o dever de casa ou a cama, sempre é to make/machen. A questão é que, mesmo assim, muitas das vezes suas aplicações se sobrepõem (ora, os dois traduzimos por “fazer”). Uma boa é simplesmente ficar sabendo das situações idiomáticas em que se usa um ou outro e aplicar dessa forma.
Machen
Como dito, machen normalmente é utilizado para expressar o lado mais concreto do “fazer”. Por exemplo:
Was machst du da?
[O que você está fazendo?] (ao contrário do inglês, que aqui utilizaríamos “doing”)
Was machen Sie von Beruf?
[Qual é a sua profissão? ~ o que você faz profissionalmente?]
(Das) macht nichts.
[Não importa ~ que isso, faz nada] (dá para usar como um “de nada”)
Wann sollen wir das machen?
[Quando devemos fazer isso?]
Mach's gut!
[Uma forma de dizer “tchau” - fique bem!]
Das macht mich hungrig/durstig/müde/traurig/glücklich...
[Isso me deixa com fome/com sede/cansado/triste/feliz...]
Essa me lembrou do refrão de Meine Kneipe, da Von Wegen Lisbeth, em que o cara não dá a mínima pro que a mina fizer (acho que depois do término deles), com uma exceção:
Mach mal dein Ding
Mit Herz und Blut
Mach dich glücklich, mach dich traurig, mach, mach, mach es gut
Mach was du willst
Aber bring nie wieder deine neuen Freunde in meine Kneipe
[Faz os seus lances
Com coração e sangue
Fica feliz, fica triste, se cuida!
Faz o que você quiser
Mas não traz nunca mais seus amigos novos pro meu bar]
Da ist nichts zu machen
[Não tem mais o que fazer a respeito]
Das macht 10 Euro.
[O total dá 10 euros]
da mesma forma...
Drei und vier macht sieben.
[3 com 4 dá 7]
Tun
Já tun expressa alguns usos mais gerais ou abstratos do “fazer”:
(Es) tut mir leid.
[Desculpa/sinto muito]
Es tut weh.
[Machuca/dói]
Ich habe nichts damit zu tun.
[não tenho nada a ver com isso]
Wir tun nur so.
[Estamos só fingindo] (pode vir um com ..., als ob... pra descrever exatamente o quê)
Gutes tun, Böses tun
[fazer o bem, fazer o mal]
So etwas tut man nicht.
[Algo assim não se faz]
Er tut kaum mal Zucker in den Kaffee.
[Ele mal coloca açúcar no café] (pode ser também hinein-/reintun)
•••
A grande questão é que língua se aprende usando, por isso que um curso de alemão deve andar junto com suas próprias andanças pela língua. Não tenha medo de explorar, tentar enfrentar um vídeo, um podcast ou um artigo direcionado a falantes nativos. Língua é coisa viva; se você não usar, não vai sair do lugar. O propósito deste post não é dizer que o alemão que a gente aprende nos cursos é uma língua completamente diferente do alemão falado - até porque ele é a base dos falares, e, tendo essa base sólida, fica mais fácil decifrar a fala -, mas, pensa, o seu português é todo bonitinho que nem o do dicionário? Você usa o português e vai o dobrando para encaixar nele todas as coisas que você precisa expressar. O caso é o mesmo pro alemão. O que eu quero dizer é que, para falar, uma hora você vai ter de se jogar na água e ter um choque com a temperatura, com os “tun” e “tät” da vida. Mas logo você se acostuma e a água fica boa.
Este vídeo, da série Deutschland Labor, do Goethe Institut, fala um pouco sobre a mentalidade dos alemães e - um pouco na onda do post anterior - sobre se é possível mesmo afirmar que existe uma mentalidade típica alemã. Ainda se pensa no cenário internacional que, no quesito personalidade, os alemães são diretos e frios, regrados, trabalhadores e sem senso de humor. Mas o que os alemães pensam sobre si mesmos? No vídeo, os apresentadores saem pelas ruas para perguntar aos alemães o que é uma mentalidade tipicamente alemã - e descobrir se isso existe mesmo.
Na seção final do vídeo, o apresentador pede aos entrevistados que criem novas regras para o seu Gartenzwerg [gnomo de jardim], que estava representando os alemães. Segue alguns:
Du sollst niemals intolerant gegenüber anderen Gartenzwerge sein;
Du sollst jeden Morgen vor dem Frühstück ein Goethe Gedicht rezitieren;
Du musst viel mehr lachen;
Du sollst keine Currywurst essen;
Du darfst keine weiße Tennissocken in Sandalen tragen;
Du musst gar nix [nichts].
[Você deve jamais ser intolerante para com outros gnomos de jardim;
Você deve toda manhã antes do café da manhã recitar um poema do Goethe (e depois dizem que alemães não tem humor);
Você precisa rir muito mais;
Você deve não comer currywurst (ops);
Você não pode usar meia branca de tênis com sandálias;
Você não precisa fazer nada.]
Du musst gar nix ficou na minha cabeça por um bom tempo (eu vi esse vídeo pela primeira vez em 2019, no começo do alemão IV). Muitas vezes a gente se impõe umas obrigações que na verdade não são bem assim, se gera umas pressões meio doidas e espana. Naja. Você não precisa fazer nada, mas se permita. Não é só porque você não precisa fazer nada que você tem de não fazer nada. Tem uma música bem dançante sobre isso, para você praticar um pouco deine Freiheit.
Mas não é sobre isso que eu vim falar hoje. Note os verbos usados naqueles conselhos: du sollst, du musst, du darfst... sim, são eles - os Modalverben!
Modalverben, ou Verbos Modais, são verbos que modalizam uma ação, ou seja, não é mais a ação plenamente realizada, mas ela é matizada por certas nuances de sentido - no caso, possibilidade, potencialidade, obrigação, permissão, ordem, sugestão, und so weiter.
Por essa característica especial, a um verbo modal se acrescenta naturalmente como complemento um verbo no infinitivo, a tal ação, que, como sempre, vem ao final da frase - hey, Satzklammer:
Du sollst jeden Morgen vor dem Frühstück ein Goethe Gedicht rezitieren
Às vezes acontece, na fala, de se omitir o verbo no infinitivo pelo significado já estar bem claro:
Du musst gar nix [tun] - você não precisa [fazer] nada
Ich kann Englisch [sprechen] - eu sei/posso [falar] inglês
Mas obviamente deixar o verbo lá não é errado, então, por via das dúvidas, deixe a frase completa.
Os verbos modais também são especiais por causa da forma com que são conjugados. No Präsens, todos os verbos modais (menos sollen) sofrem uma mudança drástica na vogal tema do radical nas pessoas do singular - was?
Veja a conjugação dos seis verbos modais do alemão:
Wollen vira will, können vira kann e assim vai.
Além disso, a primeira e a terceira pessoas ficam iguais, o que não acontece com os verbos regulares.
*Möchten não muda porque na verdade ele é o Konjunktiv II de mögen (gostar > gostaria). Möchten virou praticamente um verbo em separado porque ele é usado para se fazer um pedido educado, enquanto mögen significa simplesmente gostar - como em português mesmo, acho. Mögen tem a mudança de tema (mag), mas não se comporta mais como verbo modal (não admite um verbo no infinitivo como complemento):
Ich mag es, allein zu sein.
[Eu gosto de ficar sozinho].
Ich möchte allein sein.
[Eu gostaria de ficar sozinho] - soa como, “por favor, me deixe sozinho”.
Agora, vamos diferenciar o uso de cada um destes queridos:
1. Wollen
Wollen significa querer, só que é um querer meio forte, então, é mais utilizado para falar sobre intenções, coisas que você quer fazer:
Ich will nächstes Jahr nach Deutschland reisen.
[Eu quero no ano que vem viajar para a Alemanha.]
Por ser meio assertivo, se você meter um “Ich will einen Kaffee” num café ou restaurante quando estiver viajando, vai soar bruto. Prefira o möchten ou o combo “ich hätte gern [...]”. É mais seguro pensar, sobre sonhos e vontades eu falo com a minha família ou amigos, então, use o wollen nestes contextos.
Se você quiser falar de algo que você quis ou queria, aí sim se usa o wollten mesmo, não o möchten.
2. Können
Können já é o nosso poder, no sentido de ser capaz/conseguir. É possível usar no sentido de permissão, mas para isso temos um outro verbo em específico (spoilers!).
Ich kann schwimmen.
[Eu posso/sei nadar]
Ich kann kein Fahrrad fahren.
[Eu não sei/consigo andar de bicicleta] - true story ):
Kannst du mir bitte helfen?*
[Você pode me ajudar, por favor?]
*Se você precisar da ajuda de um estranho, eu colocaria essa frase no Konjunktiv II: “Könnten Sie mir bitte helfen?”.
3. Dürfen
Eis a outra tradução para poder, que também pode ser traduzido como ter permissão, porque é exatamente isso que significa. Dürfen é usado para contextos de proibições (nicht dürfen) ou, por exemplo, quando você pede permissão para alguma autoridade.
Hier darf man nicht rauchen.
[Aqui não se pode fumar].
Meine Mutter hat gesagt, ich darf nicht später als 23 Uhr nach Hause gehen.
[Minha mãe disse que eu não posso ir para casa depois das onze].
Mas é um toque legal se você usar o dürfen ao invés do können no contexto de sala...
Darf ich eine Frage stellen?
[Posso fazer uma pergunta?]
...ou num restaurante também:
Darf ich eure/Ihre Toilette benutzen?
[Posso usar o seu banheiro?]
4. Sollen
No contexto de ~autoridades, o sollen é um dos verbos modais que expressa necessidade mas de forma indireta. Não é você que precisa, mas sim uma outra pessoa que está dizendo que sim, ou seja, é uma ordem. “Ter de” é uma boa tradução.
Du sollst die Hausaufgabe machen.
[Você tem de fazer o dever de casa] - o/a professor/a quem deu a lição pra você fazer
Mein Arzt hat gesagt, ich soll weniger Currywurst essen.
[Meu médico disse que eu tenho de comer menos currywurst]
Os 10 Mandamentos, na Bíblia, foram traduzidos com o verbo sollen:
Du sollst nicht töten.
[Não matarás (Ex. 20:13)]
Se você usar o sollen no Konjunktiv II, sollten, aí você entra no campo dos conselhos...
Du solltest ein bisschen gesunder essen.
[Você devia comer de forma um pouco mais saudável]
...ou numa situação de uma quebra de expectativas:
Das Wetter sollte schöner werden.
[O tempo devia ficar melhor] - você tinha planejado um pique-nique mas tem chovido a semana toda e o tempo ainda não melhorou.
5. Müssen
Agora, sim. Müssen indica uma necessidade sua, algo que você precisa fazer.
Ich muss gerade schlafen gehen. Heute stehe ich sehr früh auf.
[Eu preciso ir dormir agora. Amanhã acordo muito cedo]
Tem duas frases ~informais que são bem úteis:
Ich muss los
[Eu preciso ir embora]
Ich muss mal
[Eu preciso ir no banheiro] - subentendido
Nicht müssen significa não precisar. Por isso, du musst gar nix! Tudo bem se você não fizer. Agora, se você quiser dizer que algo precisa NÃO ser feito, você precisa usar o nicht dürfen.
Du musst nicht die Tür zumachen.
[Não precisa fechar a porta] - se não quiser
Du darfst nicht die Tür zumachen
[Você não pode fechar a porta] - a porta precisa ficar aberta
O möchten já expliquei lá em cima.
Deixo vocês com um poema de Greta Amelungen, para ver os modais em um uso mais filosófico:
Du sollst den Rasen nicht betreten
Und am Abend sollst du beten.
Vitamine sollst du essen
Und Termine nicht vergessen.
Wir sollen nicht beim Spiel betrügen
Und wir sollen auch nie lügen.
Wir sollen täglich Zähne putzen
Und die Kleidung nicht beschmutzen.
Kinder sollen leise sprechen
Spiegel darf man nicht zerbrechen.
Sonntags trägt man einen Hut,
Zigaretten sind nicht gut.
Ich möchte alle Sterne kennen,
Meinen Hund mal „Katze“ nennen,
Nie mehr will ich Strümpfe waschen,
Tausend Bonbons will ich naschen.
Ich will keine Steuer zahlen,
alle Wände bunt bemalen.
Ohne Schuhe will ich gehen
Ich will nie mehr Tränen sehen.
Ich möchte nichts mehr sollen müssen,
ich möchte einen Tiger küssen.
Ich möchte alles wollen dürfen,
Alles können – nichts mehr sollen.
•••
Você deve não pisar na grama,
e de noite deve rezar.
Você deve ingerir vitaminas,
E não se esquecer dos compromissos.
Devemos não trapacear jogando,
E também nunca devemos mentir.
Devemos todos os dias escovar os dentes
e não sujar as roupas.
Crianças devem falar baixo,
Não se pode quebrar espelhos.
Aos domingos se usa chapéu,
Cigarros não são bons.
Eu gostaria de conhecer todas as estrelas,
Chamar meu cachorro de “Gato”,
Nunca mais quero lavar meias,
Mil bom-bons quero petiscar.
Eu não quero pagar impostos,
quero pintar todas as paredes coloridas.
Quero andar sem sapatos,
Não quero ver lágrimas nunca mais.
Eu queria não ter de precisar mais nada,
Eu gostaria de beijar um tigre.
Eu queria poder querer tudo,
Poder tudo - dever mais nada.
(Trocadilho: dicht significa literalmente denso, mas também é gíria para bêbado. Dichter significa simplesmente poeta, mas sem a letra maíuscula pode ser o aumentativo de dicht. Tem várias outras piadinhas dessas aqui).
Eu estava dando uma navegada no site da Semana da Língua Alemã e lá tem o edital para um pequeno concurso de poesia organizado pela Casa de Cultura Alemã em Fortaleza. Infelizmente, só podem entrar no concurso residentes de Fortaleza, mas isso não nos impede de entrar na brincadeira pelo esporte.
Para o concurso, os participantes devem compor um Elfchen [onzezinho] - um pequeno poema de onze [elf] palavras com estrutura definida, lembra um haiku - inspirado nas estações do ano.
Na primeira linha, você seleciona um objeto, uma cor, um cheiro, um conceito, o que quiser. Na segunda, você conta o que essa coisa faz. Na terceira, você diz como ou onde a ação se dá e na quarta, você dá um porquê, ou explica, o que você quer dizer. Por fim, como dá pra adivinhar, você dá uma conclusão ou um resultado. Pode rimar ou não.
Como não estamos no concurso, se você quiser se juntar a mim, pode escrever o poema sobre o que der na telha ou seguir a ideia das estações do ano. Se você quiser relembrar as estações do ano, recomendo este lindo trecho do documentário do Wim Wenders sobre a Pina Bausch, grande coreógrafa alemã, da performance da Nelkenlinie, que celebra as estações do ano:
Frühling:
Gras; klein.
Sommer:
Hoch ist Gras; Sonne.
Herbst:
Die Blätter fallen.
Winter.
[Primavera:
Grama; pequena.
Verão:
Grama está alta; sol.
Outono:
As folhas caem.
Inverno.]
(Não podemos classificá-lo como um Elfchen, infelizmente, mas é um bom ponto de inspiração.)
Por fim, aqui está o meu Elfchen:
Sonne
scheint zu
stark im Sommer
im Winter wird dennoch
gesehnt
[Sol
brilha demasiado
forte no verão
no inverno é todavia
desejado]
Vou adorar ler outros Elfchen. Me mande na aba de Fragen oder Kommentare; se quiser, poderei publicá-los aqui. Podemos fazer uma compilação bem legal.
Um guia para verbos com prefixos separáveis e inseparáveis
Mark Twain meramente ilustrativo.
Que o Mark Twain tinha uma certa bronca da gramática alemã é anedota conhecida de quem se propõe a encará-la. No famigerado ensaio "A horrível língua alemã" [The Awful German Language, original disponível aqui], o autor discorre sobre as frustrações de se lidar com as idiossincrasias do alemão como as declinações, as Komposita (substantivos compostos de dois ou mais outros substantivos), e, natürlich, os verbos separáveis:
Os alemães têm outro tipo de parêntesis, o qual fazem cortando um verbo em dois e colocando uma metade no começo de um empolgante capítulo e a outra metade no seu fim. Poderia alguém conceber algo mais confuso do que isso? Esses negócios se chamam "verbos separáveis". A gramática alemã é toda empipocada de verbos separáveis; e, quanto mais longe as duas porções de um deles são separadas, melhor se sente o autor do crime com a sua performance. Um dos meus favoritos é reiste ab, que significa "partiu". Aqui está um exemplo que selecionei de um livro e reduzi para o inglês: "Com as carretas agora prontas, ele PAR- depois de beijar sua mãe e irmãs, e mais uma vez abraçando fortemente junto a seu peito sua amada Gretchen, a qual, trajando simples musselina branca, com uma única flor nas amplas ondas dos seus farto cabelos castanhos, havia cambaleado fraca escada abaixo, ainda pálida do terror e da folia da noite anterior, mas ansiosa por deitar sua pobre cabeça que doía no peito daquele que ela amava mais que a própria vida, -TIU".
Claro que essa é uma visão exagerada e estilizada dos fatos, e, além disso, data de 1880. Essa situação não confere com a fala hoje em dia, então, não há motivo para pânico. Mas, exasperações à parte, a lógica é essa - até mais simples do que essa explanação faz parecer.
A ideia de Satzklammer (parêntesis frasal) é muito querida à gramática alemã. No alemão, o verbo só possui duas posições possíveis numa frase com N elementos: a segunda ou a última (ok, pode ser a primeira se for uma pergunta Ja/Nein, mas enfim). Assim se faz o Satzklammer: a frase fica abraçadinha pelas duas partes do verbo no começo e no fim, como um pacotinho de informações. Vemos essa ideia em ação nas estruturas do Perfekt e do Futur, por exemplo:
Ich bin gestern Abend wegen des Regens mit meinen Hunden zuhause geblieben.
[Eu fiquei em casa com meus cachorros ontem à noite por conta da chuva.]
Ich werde von jetzt an immer ehrlich zu dir sein.
[A partir de agora eu sempre vou ser honesto com você.]
A informação só fica completa quando eu chego ao final da frase. Para mim, isso faz com que eu preste mais atenção na frase toda, porque a qualquer momento pode chegar o verbo principal que me dá o sentido da frase e ata todos os elementos.
A lógica é a mesma com os verbos separáveis. O prefixo muda o significado do verbo e vem ao final da frase. Veja o exemplo:
machen > fazer
aufmachen/zumachen > abrir/fechar
Ich mache die Tür auf.
[eu abro a porta]
Ich mache die Tür zu.
[eu fecho a porta]
Às vezes a mudança não é tão gritante assim. Compare:
hören > escutar
zuhören > ouvir o que alguém diz
aufhören > parar de fazer alguma coisa
Die Studenten hörten dem Professor zu, aber dann hörte er ein Geräusch und hörte plötzlich auf zu sprechen.
[Os estudantes ouviam o professor (dando aula), mas aí ele ouviu um barulho e parou de repente de falar]
Nos dois exemplos que dei, eu usei primeiramente o Präsens e depois o Präteritum. Os verbos separáveis vão se comportar da mesma forma com perguntas e no Imperativ:
Hörst du genau zu?
[você está prestando atenção?]
Hör mit dem Schreien auf!
[pare de gritar!]
Mas o que acontece quando eu quero usar o Perfekt ou o Futur, que já formam o Satzklammer? O auxiliar precisa ir para a segunda posição, então, o verbo e o prefixo ficam juntos no final da frase - o prefixo volta a se acoplar ao verbo quer ele esteja no infinitivo ou no particípio.
Ich werde dir immer gut zuhören.
[Eu sempre vou te ouvir]
Wer hat die Tür zugemacht?
[quem fechou a porta?]
machen > gemacht / zumachen > zugemacht
Alguns verbos separáveis bastante frequentes:
anfangen > começar
anrufen > ligar com o telefone (aber: estar em uma ligação é telefonieren)
aufstehen > se levantar
aussehen > parecer (de aparência)
einkaufen > fazer compras (comprar algo é só kaufen)
mitbringen > trazer algo consigo/levar algo
teilnehmen > participar
umziehen > se mudar
vorbereiten > preparar
weggehen > ir embora
Mas existem também os verbos com prefixos inseparáveis. Por exemplo, além do auf- (aufstehen), o verbo stehen (ficar de pé, estar) também pode receber o prefixo ver-, verstehen (entender). O significado mudou bastante, como também acontece com alguns prefixos separáveis. Mas quando eu uso verstehen em uma frase, ele não se comporta do mesmo jeito que aufstehen - ele funciona como os verbos comuns.
Ich stehe täglich um sechs Uhr auf.
[eu me levanto todos os dias às seis horas]
Ich verstehe keine Grammatik.
[eu não entendo gramática]
Como diferenciar, então?
Os prefixos separáveis podem ser encontrados em outros contextos. Podem ser preposições (an, auf, aus, bei, mit, vor, nach...) ou também advérbios (hin, her, los, weg, zurück...). Já os prefixos inseparáveis não podem ser encontrados soltos por aí (ver-, be-, ge-, ent-, er-, zer-...).
Além disso, note a diferença na sílaba tônica:
áufstehen
verstêhen
A tônica dos verbos separáveis sempre fica no prefixo enquanto dos verbos com prefixos inseparáveis fica na raiz.
Além disso, o prefixo não poder ser separável traz implicações para a construção do particípio. Como o prefixo e a raiz nunca se separam, não tenho espaço para colocar um outro prefixo (no caso, o ge-, que vai ficar de fora):
stehen > gestanden
Ich bin gestern um sechs Uhr aufgestanden.
[eu me levantei ontem às seis horas]
Ich habe die Grammatik nicht verstanden.
[eu não entendi a gramática]
Alguns verbos com prefixo inseparável frequentes:
bearbeiten > editar
gefallen > gostar/agradar
erfahren > ter uma experiência/ficar sabendo de algo
erwarten > esperar (de expectativa)
erklären > explicar
sich erinnern > lembrar-se
entwickeln > desenvolver
zerstören > destruir
Existem alguns prefixos que podem ser os dois (de alguns verbos podem se separar, de outros, não): durch-, hinter-, über-, um-, unter-, e wieder-. Um exemplo clássico é úmfahren x umfáhren [atropelar x contornar] - veja que a dica das tônicas também vale aqui -, que são antônimos:
Normalmente o prefixo um- é separável quando indica uma mudança (de direção ou condição) e inseparável quando indica um movimento circular ou de cercar algo/alguém.
Ich gehe mit der Situation gut um.
[estou lidando com a situação]
Ich umarme dich.
[estou te abraçando]
(vale notar que não existe o equivalente separável de umarmen.)
Para os outros, o prefixo será separável se o significado for literal e inseparável se for abstrato/metafórico:
Wir sehen uns hoffentlich bald wieder!
[espero que nos vejamos novamente logo]
(compare com: auf Wiedersehen!)
Wiederholen Sie bitte.
[repita, por favor]
Nesse sentido, é interessante o verbo übersetzen (traduzir), inseparável. Quando übersetzen é separável, ele significa "cruzar de barco": Wir setzen zu der Insel über [atravessamos até a ilha]. Em português, o verbo traduzir tem por origem nas palavras latinas trans e ducō, que juntas significam conduzir através de algo. O significado era literal, mas também, como no alemão, se tornou alegórico: ao traduzir, eu conduzo um texto na passagem de uma língua para outra.
Se você quiser saber mais e praticar, o Easy German já fez vários vídeos sobre os prefixos do alemão na sessão Super Easy German, feita para lidar explicitamente com questões gramaticais. Eu os compilei aqui.
Começo de ano, fim de semestre, estamos como...
Eu cumprimentando os três neurônios que eu trouxe para a prova de alemão
"Valeu por virem"
Auf Wiedersehen
DER Computer
Kartoffelsalat
Hoje vim trazer um post mais direto, com dicas a respeito dos Plurais em alemão.
Se você já leu o post sobre os gêneros em alemão, os plurais seguem a mesma ideia no sentido de que existem regularidades, mas também bastante exceções, então, o melhor a se fazer é:
Toda vez que você aprender uma palavra nova, anote tanto o seu gênero (com o artigo), e a forma plural, z.B: Die Frau, -en
Beleza! Dito isso, trago aqui para vocês as regras da formação de plurais em alemão.
Keine Änderungen
• a maioria das palavras masculinas e neutras terminadas em -el, -en e -er não mudam no plural
der Fehler > die Fehler
der Löffel > die Löffel
Também vale para palavras para pessoas:
der Hörer > die Hörer
Mas a forma feminina muda:
die Hörerin > die Hörerinnen
Por isso, na maioria das vezes, você vê Liebe Hörer*innen...
A algumas se adiciona o umlaut (trema) na vogal tônica:
der Apfel > die Äpfel
der Vogel > die Vögel
• palavras no diminutivo (-chen/-lein) não mudam no plural
das Brötchen > die Brötchen
-e
• a maioria das palavras masculinas e neutras
der Arm > die Arme
der Hund > die Hunde
der Freund > die Freunde
das Pferd > die Pferde
Algumas vão também levar umlaut na tônica, na maioria das vezes masculinas:
der Koch > die Köche
der Baum > die Bäume
• palavras femininas monossilábicas também podem ter o plural apenas com -e, mas aí sempre vão ter o umlaut adicionado:
die Nacht > die Nächte
die Hand > die Hände
-n
• a grande maioria das palavras terminadas em -e (em maioria femininas, mas também tem as masculinas e neutras)
die Frage > die Fragen
der Name > die Namen
das Auge > die Augen
-en
• todas as palavras femininas terminadas em -ung, -heit/-keit, -schaft, -ei, -ion, -ik, -tät
die Wohnung > die Wohnungen
• muitas das palavras masculinas terminadas em -ent, -ant, -ist, -or
der Student > die Studenten
• palavras neutras ou masculinas com sufixo -ma, -um, -us tem o final substituído
das Thema > die Themen
das Museum > die Museen
-er
• este final é só para as palavras neutras e masculinas restantes, e um umlaut sempre se adicionará quando aplicável
der Mann > die Männer
das Haus > die Häuser
das Kind > die Kinder
das Wort > die Wörter (palavras no sentido isolado - Eure Texten sollen 300 Wörter haben [os textos de vocês devem ter 300 palavras), mas também die Worte (palavras no sentido de discurso - Die Worte der Königin haben alle berührt [as palavras da Rainha tocaram a todos]).
-s
• palavras vindas de outras línguas
der Park > die Parks
das Hobby > die Hobbys
• abreviações
die CD > die CDs
• palavras terminadas em vogal átona (com exceção de -e)
das Auto > die Autos
• nomes (e também quando você chama uma família pelo sobrenome)
die Bia > die Bias
die Müllers
Um conjunto de palavras bem interessante para já se saber de antemão são os nomes de parentesco, já que eles trazem excessões mas também já dá para perceber algumas das regras que coloquei acima:
Der Vater > die Väter
Die Mutter > die Mütter
Die Eltern (só plural)
Der Sohn > die Söhne
Die Tochter > die Töchter
Die Kinder (filhos e filhas)
Der Bruder > die Brüder
Der Schwester > die Schwestern
Die Geschwister (só plural)
Der Opa > die Opas
Die Oma > die Omas
Der Enkel > die Enkel
Die Enkelin > die Enkelinnen
Der Onkel > die Onkel
Die Tante > die Tanten
Der Neffe > die Neffen
Die Nichte > die Nichten
Der Cousin > die Cousins (palavra francesa)
Die Cousine > die Cousinen
Como sempre, o lance é treinar e treinar. Você pode praticar um pouco neste site aqui.
Hoje eu pensei em trazer para vocês alguns Zungenbrecher [trava-línguas]! Eu selecionei uns que fossem mais difíceis pra gente que fala português, para dar um gás no treino de pronúncia.
1. In Ulm, um Ulm, um Ulm herum
Minha tentativa
Em Ulm, perto de Ulm, ao redor de Ulm
Esse é tenso porque precisamos fazer a parada glotal entre as vogais, o que não é natural no português, além da pronúncia de Ulm, que já é meio estranha pra gente. Se facilitar, tem essa música aqui, cujo refrão é este trava-língua. Dá pra ouvir bem a parada glotal.
Quem cava cova cava fosse?
Quem cava fossa cava cova?
Não!
Quem cava cova cava cova.
Quem cava fossa cava fossa.
Essa tradução virou quase um trava-língua por si só. Além de treinar o /r/ gutural, o importante aqui é a distinção a/ä (som de “a”/som de “é”). Cuidado também para não colocar um umlaut em cima do u de Gruben - é Gruuuben, e não Gryben!
Aqui, o que pega é a alternância de sons de /ss/sch/ch/, junto com o /r/ gutural outra vez. Eu sofri.
4. Im dichten Fichtendickicht sind dicke Fichten wichtig.
Minha tentativa
Na densa mata de abetos [um tipo de pinheiro], pinheiros grossos são importantes.
Mais um para praticar os sons de /ch/, dessa vez em contraste com os sons de /ck/. É aí que eu vejo porque é que se chamam trava-línguas.
5. Zwischen zwei Zwetschgenzweigen sitzen zwei zwitschernde Schwalben.
Minha tentativa
Entre dois ramos de ameixa estão sentadas duas andorinhas gorjeando.
Neste, o som de /tsch/ conflitua com o /sch/ e o som de /ts/ da letra z. Foi o que eu pessoalmente achei mais difícil.
BONUS ROUND
Leila Friseuse
Eu traduzi o meme Cabeleireira Leila de brincadeira no começo da quarentena, e só compartilhei com meus amigos, mas foi um verdadeiro trava-língua gravar esse negócio. Como este foi um dos memes mais famosos deste ano, pensei que poderia ser legal compartilhar aqui. Tem um erro de edição mas eu demorei tanto para gravar na época que eu só cansei e deixei...