Apresentação (Capítulo 0)
Eu não desejo me identificar.
Não desejo me identificar, pois sei que as pessoas a que este livro representará perigo provavelmente não lembram meu nome, talvez meu rosto. Exceto por uma. No entanto, é ela quem não me representa perigo; por isso, escrevo em paz.
Dezenas estiveram, estão e estarão em minha posição. Eu não sei exatamente o que aconteceu com os que estiveram, mas tenho minhas suposições. Três suposições. Mas essa não é uma disjunção exclusiva, creio que todas as minhas teorias sejam corretas. Ninguém pode ter visto o que eu vi e seguido com sua vida sem nenhum tipo de marca.
Eu acredito que a maioria das outras testemunhas tenha sucumbido ao silêncio e estão em um beco londrino qualquer, muito escondido dos turistas, usando heroína para esquecer. Outra parte — pela qual tenho uma admiração especial — está nos mesmos becos, mas mortos em caçambas de lixo infestadas de ratos e baratas. Eles até tentaram fazer o que era justo para com si mesmos e para com o mundo, mas acabaram se tornando os mesmos Fulanos e Fulanas que um dia…
Não, não, não. Acabo de perceber algo muito, muito feio. Gostaria de explicar agora, mas não posso. Para esse tipo de coisa, precisa-se de preparação, e eu planejei isso para os próximos capítulos.
Voltando para minha última “suposição”, essa não é uma suposição de verdade. Ela é o que quase foi o meu caso. Este último grupo de espectadores — acho que é o melhor termo para defini-los — provavelmente também está usando heroína, mas não em uma viela suja. Eles estão em um flat dedetizado e com uma vista para o centro da cidade, iluminados por lâmpadas neons, com o patrimônio cem vezes maior do que antes de sua descoberta. Eles estão mortos por dentro. Eu estive morta por dentro, mas fui sortuda o suficiente para ser reanimada.
Mas talvez não tenha sido sorte. Talvez a pessoa que eu acreditei não me representar perigo seja minha açougueira quando eu terminar. E talvez eu seja só mais um corpo na sua frente, cena à que já é indiferente. Contudo, preciso que o mundo saiba o que eles fazem. E, de maneira quase egoísta, preciso que saibam que ela é inocente.













