Não deixe que suas trevas te dominem.
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Não deixe que suas trevas te dominem.
Visita sombria
Logo no início da conversa com o grupo de amigos, um dos integrantes mais novos perguntou ao rapaz, por pura educação:
- Como você está?
E o rapaz, puxando folego bem do fundo de seu âmago e forçando um leve sorriso respondeu diante de todos:
- Estou bem. Está tudo dando certo.
No mesmo instante, seu amigo mais antigo o interrompeu dizendo:
- Como assim “bem”!? Por que não diz logo que você não está bem e que está sofrendo? Que passou o final de semana inteiro deitado, encolhido dentro de uma banheira sem comer, sem se mexer e quase catatônico durante esses dias?
- Pois não é mais o tipo de recordação que eu quero experimentar. Não tenho mais tanto tempo para isso. E nem vocês.
Com uma expressão de estranheza, os colegas reunidos buscavam entender do rapaz o ele desejava expressar com aquilo.
Teimando a continuar a fala por alguns instantes, o rapaz decidiu finalmente explicar a situação com o relato de sua origem:
- Acreditem ou não, há alguns dias eu recebi uma visita que jamais imaginei receber. A morte. Personificada, com braços, pernas, um rosto sem pele e uma boca que sussurrou em meus ouvidos as coisas mais impensáveis sobre o mundo e sobre o destino de minha própria vida. Por alguma razão que eu ainda não entendi, ela me contou o dia e a hora em que eu iria morrer, assim como quando seria a morte de cada um de vocês. Eu não queria acreditar, mas depois de passar dias abismado com os horrores que ela me disse, percebi que se meu tempo de vida aqui no mundo estivesse realmente acabando, eu gostaria de aproveitá-la com alegria e da melhor forma, em vez de paralisado dentro de uma banheira. Gostaria de passar esse tempo com vocês, meus amigos.
Como se o relato dado pelo amigo fosse minimamente plausível, os colegas se entreolharam, cada um com sua face abismada e parcialmente incrédula.
Tornando a falar, complementando o que sabia sobre o que a morte supostamente havia lhe dito, o rapaz proferiu:
- A propósito, Jonathan, mesmo que você resolva mudar de ideia e não dar para a Larissa a viagem de cruzeiro surpresa para comemorar o noivado de vocês como você imaginou hoje pela manha, a morte deixou bem claro que será no mesmo dia, daqui a duas semanas, que a hora de vocês irá chegar.
Gabriel Tessarini
#sussuros #piedade #insanidade #poemas #poetizando #versos #coragem #poetisa #poetadeinstagram #loucura #pensamentododia #reflexão https://www.instagram.com/p/BsqzBHWAPBs/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=1lmwp8ij3xixe
Desabafo #2
Palvras vazias de alguém distante ecoam em minha mente...
O som das vozes não é de ajuda,isso me assusta...
Pelo socorro,grito sem voz...
Em minha mente,um caos reina...
E já dizia aquele velho ditado: Um bom filho a casa volta.
Transbordar-r, 27 de Agosto de 2017
Naturalmente
a mente
mente
e (cria)
história
ilusões
que fluem
em
cadência – continua – natural
Voltando
ao
ciclo
(naturalmente).
- gracia.
*Zap*
Por Moacyr Scliar
"Não faz muito que temos esta nova TV com controle remoto, mas devo dizer que se trata agora de um instrumento sem o qual eu não saberia viver. Passo os dias sentado na velha poltrona, mudando de um canal para outro — uma tarefa que antes exigia certa movimentação, mas que agora ficou muito fácil. Estou num canal, não gosto — zap, mudo para outro. Não gosto de novo — zap, mudo de novo. Eu gostaria de ganhar em dólar num mês o número de vezes que você troca de canal em uma hora, diz minha mãe. Trata-se de uma pretensão fantasiosa, mas pelo menos indica disposição para o humor, admirável nessa mulher. Sofre, minha mãe. Sempre sofreu: infância carente, pai cruel etc. Mas o seu sofrimento aumentou muito quando meu pai a deixou. Já faz tempo; foi logo depois que nasci, e estou agora com treze anos. Uma idade em que se vê muita televisão, e em que se muda de canal constantemente, ainda que minha mãe ache isso um absurdo. Da tela, uma moça sorridente pergunta se o caro telespectador já conhece certo novo sabão em pó. Não conheço nem quero conhecer, de modo que — zap — mudo de canal. "Não me abandone, Mariana, não me abandone!" Abandono, sim. Não tenho o menor remorso, em se tratando de novelas: zap, e agora é um desenho, que eu já vi duzentas vezes, e — zap — um homem falando. Um homem, abraçado à guitarra elétrica, fala a uma entrevistadora. É um roqueiro. Aliás, é o que está dizendo, que é um roqueiro, que sempre foi e sempre será um roqueiro. Tal veemência se justifica, porque ele não parece um roqueiro. É meio velho, tem cabelos grisalhos, rugas, falta-lhe um dente. É o meu pai. É sobre mim que fala. Você tem um filho, não tem?, pergunta a apresentadora, e ele, meio constrangido — situação pouco admissível para um roqueiro de verdade —, diz que sim, que tem um filho, só que não o vê há muito tempo. Hesita um pouco e acrescenta: você sabe, eu tinha de fazer uma opção, era a família ou o rock. A entrevistadora, porém, insiste (é chata, ela): mas o seu filho gosta de rock? Que você saiba, seu filho gosta de rock? Ele se mexe na cadeira; o microfone, preso à desbotada camisa, roça-lhe o peito, produzindo um desagradável e bem audível rascar. Sua angústia é compreensível; aí está, num programa local e de baixíssima audiência — e ainda tem de passar pelo vexame de uma pergunta que o embaraça e à qual não sabe responder. E então ele me olha. Vocês dirão que não, que é para a câmera que ele olha; aparentemente é isso, aparentemente ele está olhando para a câmera, como lhe disseram para fazer; mas na realidade é a mim que ele olha, sabe que em algum lugar, diante de uma tevê, estou a fitar seu rosto atormentado, as lágrimas me correndo pelo rosto; e no meu olhar ele procura a resposta à pergunta da apresentadora: você gosta de rock? Você gosta de mim? Você me perdoa? — mas aí comete um erro, um engano mortal: insensivelmente, automaticamente, seus dedos começam a dedilhar as cordas da guitarra, é o vício do velho roqueiro, do qual ele não pode se livrar nunca, nunca. Seu rosto se ilumina — refletores que se acendem? — e ele vai dizer que sim, que seu filho ama o rock tanto quanto ele, mas nesse momento zap — aciono o controle remoto e ele some. Em seu lugar, uma bela e sorridente jovem que está — à exceção do pequeno relógio que usa no pulso — nua, completamente nua."
(desculpas por, na imagem, o nome estar escrito com a grafia incorreta)
Prosa poética de autoria de Clarice Lispector em 1968. Nascida em Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Faleceu no Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977. Foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira.
*A Perfeição* “O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fracção de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.”