Aplausos no vácuo. Existe movimento. O tocar das palmas. O cérebro se prepara pra ouvir a propagação da onda sonora, mas ela não vem.
Por breves segundos, ele é capaz de sentir a vibração e, antecipadamente, ouvir o som. A expectativa chega antes e modula o sentido.
Afinal, seu cérebro fora condicionado ao padrão e sabe que a imagem formada tem um som.
E mais uma vez, as mãos se encostam.
O rapaz leva a mão à cabeça, franzindo o cenho. Confuso? Surpreso?
É um novo costume viver sob a ótica da reflexão e nunca ser tocado pelo som.
Ele suspira, quase num rosnado. Odeia quando esquece termos.
Imagens seguidas por outras imagens. Podem ser chamadas de borrões, a depender da velocidade do indivíduo. Hoje, sua visão é tão nítida quanto a visão periférica.
O rapaz soltou um riso debochado.
Talvez a incoerência não exista, mas esteja faltando interpretação. Pode ser simplesmente um outro princípio.
Tamborilou os dedos na escrivaninha.
E então percebeu seu erro. Não são aplausos no vácuo. Estamos falando de velocidade e capacidade de propagação.
340 m/s é a velocidade do som.
A luz vem antes. Como pude perder um conceito tão simples? — esbravejou.
O fato está ali, nítido, escancarado. A interpretação foi turva.
Quanto maior o gap entre o clarão e o estrondo, maior a distância entre observador e acontecimento.
Não é sobre uma ação vazia. É sobre uma ação distante.
Não tem tanto impacto, não dá pra ter. Se o som ainda não chegou, sequer existe uma noção da distância.
É uma incógnita. A única informação disponível é a de que o valor segue aumentando.
O som não chega. Fique tranquilo, não vai te atingir. Isso é bom?
Aquilo que te atinge vem por antecipação. Processamento preditivo, não é um conceito novo pra você.
Não, pare com isso. Não culpe seu cérebro. Criar padrões é uma tentativa de gastar menos energia. Não é o que todos precisam?
Está tudo bem. Houve uma antecipação de proximidade.
É só lembrar: a física segue sendo um alicerce, a luz vem primeiro.
Não são aplausos no vácuo.
E adormeceu sobre os próprios braços.