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11.08.21, QUARTA, GOLFO DA BISCAIA
O MAR MUDA DE TEXTURA. Macio. Áspero. Melado. Transparente. O barco está colado na superfície e quase não avança. Me arrependo de não ter seguido à risca o plano de navegação. Sardinha e eu estamos presas na calmaria. Águas-vivas ao redor. Enormes bolhas coloridas que balançam seus tentáculos como barras de vestidos. Conto os litros de água potável. Torço para ter sido conservadora. Espero que essa situação não dure para sempre.
Sopa de pesqueiros na plataforma continental. Respirações profundas vindas da água. Ondulações aleatórias: golfinhos. É noite, e o escuro é tomado pelo som dos respiros e das conversas estridentes que atravessam o casco. Esses bichos com certeza não aguentam mais me ver. Avanço a meio nó, menos de um quilômetro por hora. Preciso desviar dos barcos. Vejo luzes em todas as direções. Confundo as distâncias. Tenho a impressão de entrar numa cidade. Às vezes só reconheço os barcos quando estão bem perto. Talvez perto demais. Tenho medo de que um escape à vista. O barco nunca esteve tão arrumado. Engano a exaustão guardando objetos que não servirão. Leio. Canto. Escrevo. Penso na despedida. Tão esticada quanto possível.
Tamara Klink, Nós: O Atlântico em solitário
Minha mãe pede para eu ligar mais vezes, mas as notícias se acumulam e as ligações para ela acabam cada vez mais longas. Deixo para depois. Muitas vezes perco a paciência quando ela me trata como criança, me alertando sobre perigos que já previ ou me dizendo para não fazer o que planejei. Grito e desligo o telefone. Esse meu comportamento infantil faz com que ela tenha razão.
Tamara Klink, Nós: O Atlântico em solitário
20.02.21, sábado, São Paulo
Para resumir: meses atrás, cruzei o mar do Norte. Da Noruega à França, pedras, pesqueiros, cargueiros no caminho. Vinte e três anos nas costas. Pela primeira vez, sozinha. Admito que parti sem saber se conseguiria concluir a viagem. Com mais dificuldades do que previ, com mais prazeres do que pensei, cheguei ao fim.
Voltar para a faculdade não foi a mais simples das missões. O reservatório de motivação se esvaziava, sem reposição. Passamos pela nova onda da pandemia, lembra? Mais uma vez, fronteiras foram erguidas entre países, entre cidades, entre pessoas. Só saímos de casa com o rosto coberto e papéis assinados em mãos. Formulários precisam ser preenchidos para andar na rua, para ir ao mercado, para voltar do médico. Os números de óbitos no jornal dizem que a vida é sorte. As pessoas se fecham em casa como num bunker. Encontros são proibidos. Eu vejo a minha faculdade da janela, mas não posso entrar. Encontro o professor uma vez por mês. Ele diz não entender o que eu falo. Diz que meu francês não é francês. Diz que meu projeto não rende um projeto. Diz que não há nada a dizer. “Vá chorar no corredor e me chame em quinze minutos.”
Faz pouco tempo que me senti capaz de ir longe, que vi que podia fazer coisas incríveis. Passei por ondas, conheci vento forte, consertei máquinas com as próprias mãos. Agora me sinto inútil, com sono atrasado e as costas curvas, devastada diante de uma tela de computador.
Estou certa de que uma travessia pode também criar um trauma. Descobrir nosso lado selvagem pode nos mudar para sempre.
Tamara Klink, Nós: o Atlântico em solitário
SEMPRE SERÁ MAIS FÁCIL desistir antes da partida. A tentação será por vezes incontrolável. As razões para ficar se multiplicarão. Haverá sempre apoiadores do abandono nas horas mais áridas.
Daremos à desistência outro nome:
engano,
mudança,
impossibilidade,
amadurecimento,
sensatez.
Daremos à desistência outro dono:
data,
distância,
orçamento,
meteorologia,
imprevisto,
discórdia,
traição.
Antes de partir, podemos achar que a desistência é uma opção segura. Que os meses seguintes serão como os que passaram. Que a vida seguirá como até então seguiu.
Mas desistir é renunciar à chance de partir. À chance de descobrir que a vida pode ser muito diferente do que ela parece ser. Que nosso peito pode aguentar mais trancos, que nossas mãos podem ser mais precisas, que nossa garganta pode projetar mais vozes, que nossos olhos podem ver mais cores do que pensávamos ser possível.
O medo dá as caras e eu repito a mim mesma: se soubesse o tamanho dos desafios que encontraria na viagem, nunca teria partido. E nunca teria descoberto que, de algum jeito, eu poderia vencê-los.
Há uma luz solitária no horizonte escuro. É o primeiro sinal de outra vida humana em dezessete dias. Mesmo que eu não atravesse as últimas milhas dessa noite, mesmo que algo me impeça de cumprir as últimas partes do meu projeto, não poderei desver o que já vi. Essa luz é o Brasil.
Tamara Klink, Nós: O Atlântico em solitário
Tamara Klink
“É preciso dar à lembrança o corpo das palavras.
É preciso fazer um mundo caber em poucas linhas.”
Seguir os passos de alguém é ignorar os novos contextos, é renunciar nossa capacidade explorativa, tentar caber onde não dá. É manter o olhar em alguém e perder-se de vista enquanto isso. É contar com a inércia dos tempos, é torcer contra a evolução, é não partir nem ficar. Fez as pazes com seus pés e pernas, vestiu sapatos do seu tamanho, ergueu a vista e não tinha por que seguir pegadas. Havia outras rotas a tecer e assim andava, andava. Dessa vez, sabia que podia gerar milhares de novos caminhos -- e dando novos destinos aos pés despertos (dos pais, inclusive).
Tamara Klink, Mil Milhas