Kai nunca foi de rejeitar nada que lhe era ofertado, mas enquanto isso significava que fazia de tudo um pouco, também queria dizer que não pensava nas próprias imposições. A conivência foi se tornando cada vez pior com o passar dos anos, com a imposição das próprias vontades caindo até se tornar inexistente. Olhando para trás, via a glória de um herói em seu auge: suas habilidades eram temidas, sua força era incontestável - ou, se alguém ousasse questioná-lo, conseguia fazer o impossível acontecer desde que aquilo significasse mostrar que era o melhor. Em 2024, o livre e certeiro gavião havia se tornado um triste passarinho enjaulado que não mais cantava.
Quando colocou a última caixa da mudança no carro dos pais, olhou para o próprio reflexo no vidro. Sabia que era baixinho, mas foi a primeira vez que se sentiu tão... Pequeno. Um minúsculo serzinho indefeso. Depois de muitos anos de aceites sem pensar nas consequências, aquela era a primeira vez que questionava onde tudo havia dado tão errado.
Qual "sim" havia sido o primeiro passo para a sua queda?
Vambora!
Kai comemorou quando os patrocinadores vieram logo após a formatura, e teve o privilégio de escolher o que gostaria de fazer. Queria o surfe, seu esporte de maior carinho, mas os olhos brilharam com a ideia de participar do time de basquete número 1 do mundo e fazer história (de forma fácil) sendo o atleta mais baixo da categoria, tanto da NBA quanto das Olimpíadas. Entrou no Golden State Warriors e seguiu construindo um nome para si... E uma má fama terrível. Nunca corrigiu sua falta de comprometimento com treinos, aquecimentos e outros procedimentos padrões dentro do esporte, além de um péssimo trabalho em equipe. Quando estava treinando sozinho, no seu próprio ritmo, era uma coisa; com patrocinadores querendo resultados, horários, satisfações... Era outra. Era irritadiço, discutia quando um outro colega de time não tinha qualquer desempenho além do impecável, e se recusava a aparecer em treinos quando não tinha vontade. Bons eram os tempos na universidade que escolhia o que queria fazer e não podiam reclamar consigo.
A tiragem em 2016 veio: Kai ficou entre os melhores e com certeza teria uma vaga para o time se fosse apenas pela pontuação. Foram motivos externos que o fizeram ser recusado. "Comportamento inadequado", argumentaram, mas ele ouviu alguém dizer "e se no dia ele só não tiver vontade de ir?". Que besteira. Eram as Olimpíadas no Rio de Janeiro, era óbvio que ele iria. Não conseguia conceber a realidade que havia feito algo que o desclassificasse de forma tão grotesca, sendo que era claramente o melhor.
Naquele mesmo ano, seu contrato com o Golden State Warriors foi encerrado. Tentou outros times, tentou reestabelecer a conversa com os patrocinadores de outros esportes do ano anterior, mas só escutou recusas. Não perdoariam mais a sua falta de comprometimento esportiva, não importasse quantos pontos ele seria capaz de fazer.
Mesmo sem ele, os Estados Unidos ganharam a medalha de ouro. Kai não era tão insubstituível quanto achava que era. Haviam esportistas tão bom quanto, e até melhores que ele.
Pode ser.
Kai resmungou quando baixou a caneta para assinar o contrato de trabalho terrível como editor da revista esportiva. O salário era terrível, suas responsabilidades de trabalho piores ainda. Mas tudo bem, era o que tinha de fazer; seu diploma foi uma rede de segurança, segundo seu pai, e era aquela segurança que queria dizer. Aliás, conseguiu aquele emprego por causa do seu pai, então não podia fazer feio para o amigo do velho. Convenceu a si mesmo que aguentaria aquele trabalho temporário, até conseguir notoriedade em algum campeonato que agora participava cada vez menos, já que estava por conta própria: não tinha mais patrocinadores e nenhum time queria recebê-lo. Mas tudo ficaria bem. Ainda teria oportunidades para mostrar que podia se tornar o melhor outra vez.
Aceito.
Kai disse depois de votos que nem ouviu, por não querer utilizar o aparelho auditivo, nem entendeu bem, pelo até então noivo ter colocado o microfone próximo demais à boca. Ele esqueceu, falou depois. Estava bastante nervoso. Kai perdoou. Não era como se tivesse compreendido a maioria das outras pessoas do casamento, que não só não se comunicavam em ASL, mas não se preocupavam em se deixar serem entendidas, principalmente em locais de menos iluminação.
Casou-se no início de fevereiro em 2020. Nas Olimpíadas de Tokyo, pela primeira vez, o surfe entrou como esporte olímpico.
Tudo bem.
Kai respondeu para qualquer trabalho arriscado que lhe era oferecido em tempos complicados. Afinal, aquela era agora sua única fonte de renda indenpendente da do marido, e mesmo que fosse trocados comparado ao cônjuge, ainda era seu salário, que conquistou com as próprias mãos. Não estava pronto para abandonar sua pequena autonomia por um protesto por melhores condições de trabalho de colegas que nunca viu e que nunca podia ver. Era um trabalho solitário e que nunca lhe daria os louros que um dia sonhou que ganharia nas quadras, mas era seu. Não queria admitir, mas escrever para shows e filmes desesperados por qualquer escrita por mais medíocre que fosse, sentindo ser requisitado outra vez, era o que o estava ainda o convencendo que não era fraco. Não precisava da pena de ninguém. Kai não era o melhor, mas era o que tinha disponível, e entre os disponíveis, podia ser o bastante.
Tanto faz.
Kai deu de ombros quando o marido anunciou o divórcio. Compreendia que havia feito besteira, que era só ter recusado os trabalhos, que não precisava escrever. A questão era que ele só queria. Queria fazer algo que não ficar sentado o dia todo, ou dar mais uma volta infernal na pista de concreto do condomínio. Praticar esportes não era mais tão legal quanto até nisso se sentia só; um pássaro em uma gaiola, cantando para as barras de metal. Escrever, correr, dormir: era só isso o que fazia. Como podiam esperar que ele parasse de escrever quando foi naquela confusão que conseguiu mais trabalhos e voltou a se sentir requisitado- a se sentir útil, especial, para variar? Bem, o que estava feito, estava feito. Pelo lado positivo, talvez com todos aqueles xingamentos que foram pronunciados pelo ex-marido de forma boa o suficiente para compreender os detalhes, ou com toda aquela papelada que tinha demandas absurdas, ele conseguisse sentir algo. Talvez aquilo fosse o suficiente para sentir a força de vontade para tomar as rédeas da sua vida de volta, tornar-se o grande campeão que estava destinado a ser. Talvez não seria mais fraco, não precisaria mais de ajuda.
Roube o PEM (Pulso Eletromagnético) que está no laboratório de Física da UCLA, no prédio de Física Aplicada 2. O objeto se encontra dentro de uma van branca, estacionada na lateral do prédio, que deverá sair de lá por volta das 14h para ser emprestado para o Departamento de Física da USC
@tbthqs
STATUS: SUCESSO
Quando Vincent viu a mensagem da sua missão, ele amaldiçoou tantas gerações de Quarks que talvez Harvey Wang estivesse certo em chamá-lo de bruxo.
Filha da puta. FIlha da puta, filha da puta, mil vezes filha da puta.
Enquanto outros tinham missões como comprar roupas (e nem conseguiam cumprir com isso), Vincent foi designado para roubar um Pulso Eletromagnético. O problema principal de se enviar uma mensagem desse calibre para justo Kinglsey entre todos os viajantes era que ele tinha uma mania terrível de fazer as coisas sozinho. Mesmo no futuro, na clínica; sua sociedade com Ringo só deu tão certo porque suas fortitudes se complementavam, e, o mais importante: cada macaco ficava no seu próprio galho, fosse conseguir clientes ou as cirurgias. Agora, o galho de Vincent era uma van branca estacionada no prédio de Física Aplicada 2, e não se sentia confortável o suficiente para erguer a mão e pedir ajuda. Principalmente não depois de caçoar de Ringo ao forçá-lo a se unir com o pior dos Dragnas– e ainda perder a maldita aposta no processo. Era ele por ele mesmo. Que merda.
Tinha de ser esperto, acima de tudo. Não poderia deixar transparecer um grama de ansiedade que fosse quando tivesse de mentir.
Foi utilizando os benefícios como vice presidente do Governo Estudantil que descobriu quem eram os tais empregadores que viriam buscar a van. Descobriu por essa lista também quem era o supervisor daquela seção, o modelo do veículo e os nomes de outros possíveis motoristas escalados, incluindo um recém-contratado. Não foi nada complicado depois daquilo de encontrar quais eram os uniformes que eles utilizavam, e de comprar um igual para ele mesmo junto com um boné também, da mesma cor do uniforme, e uma capa de carro para a van.
Então, o derradeiro dia que precisava roubar o objeto chegou. Se o caminhão fosse transportado às 14h, Vincent estava esperando lá às 13h, para esconder a lona do carro debaixo dele junto de uma troca de roupa, no momento vestido com o uniforme, um óculos escuros, o boné e um crachá falsificado que imitava o do supervisor. Ficava olhando para o relógio de pulso ou para a prancheta que havia trazido, fazendo questão de parecer irritado (até aí, não muito difícil e bastante condizente com sua postura normal). Um pouco ansioso? Talvez, mas até aí, tranquilo. Quando finalmente os motoristas chegaram (14h07, ele notou), subiu o olhar incomodado para eles.
─ Ótimo, finalmente. ─ folheou bem irritado os papéis com as escalas de trabalho que havia conseguido antes, deixando os homens verem que ele tinha alguma credibilidade no mínimo. ─ Espera... Nenhum de vocês é o Tristan Valois, é? Ele chegou a falar algo com vocês? Deus, esse novato folgado já está me dando nos nervos. ─ falava com a confiança de quem havia estado à frente da gerência de uma clínica por anos. ─ Seguinte, mudança de planos. O treinamento do Tristan vai envolver esses transportes intrauniversitários, e que inclusive já era pra ele estar aqui por ordens do sr. Hall... ─ olhou para eles por cima dos óculos escuros. ─ Vocês por acaso sabem onde ele está? Não estão cobrindo pra ele, né? ─
Os dois motoristas recuaram e pediram desculpas, que não sabiam onde o tal Tristan estava, que ele tinha acabado de se juntar, e que aquilo não era culpa deles. Vincent quase sentiu pena de estar envolvendo trabalhadores honestos no meio daquela mentirada sem fim- mas se dissesse que sentiu compaixão por mais de um segundo, estaria mentindo. ─ Sem desculpas, por favor. Isso aqui precisa ser entregue já, e se ele não estiver aqui em quinze minutos, é o pescoço dele que roda... E eu não quero falar o de vocês também, mas se a escala dele mudou... Não checaram as de vocês? ─ os homens ficaram brancos como papel. Desculpe, senhor, desculpe. Vincent pediu as as chaves da van e eles as entregaram, saíram correndo para checar suas novas escalas sem mais perguntas.
Vincent suspirou aliviado quando deram as costas. Depois de alguns minutos que eles foram embora, pegou a capa e as roupas debaixo do carro e entrou na van, dando a partida e indo embora. A estacionou nos fundos do estacionamento coberto e reservado que os Kingsley tinham direito por conta das doações, se trocou dentro da van e cobriu o veículo com a capa comprada, saindo do estacionamento sozinho e sem levantar mais suspeitas, apenas digitando no celular para avisar a Dra. Quarks do sucesso na missão. Teria de estacionar o próprio carro na casa de Jacob até o heist acabar? Teria, mas... Bem, ali a van estaria segura. Ninguém seria louco de mexer na propriedade dos patrocinadores da universidade.
Consiga dois uniformes do Los Angeles Department of Water and Powertric Company, disponível em qualquer loja de uniformes do shopping ou em uma das unidades da empresa.
@tbthqs feat. @pretxnder
STATUS: SUCESSO
Havia na missão designada para Harper um conceito o qual ela não era muito familiar: compras. Era mesmo uma vergonha americana, sempre tão preocupada com as próprias economias, com os próprios centavos ganhos a duras penas, que só o pensamento de gastar antes da hora a deixava ansiosa. Foi criada por donos de restaurantes, por um casal que também lutava para sobreviver, então para além de um controle financeiro impecável, com planilhas e mais planilhas em seu tablet caindo aos pedaços, a ideia de prejuízo era demais.
Dois uniformes do Los Angeles Department of Water and Powertric Company deviam custar por volta de 50 dólares cada. 100 dólares! 100 trufas vendidas. E ela bem já tinha usado algumas economias adicionais para fazer os docinhos para Arabella no aniversário, e o dinheiro para o material da fantasia que usou no Halloween. Era impossível de conseguir 100 dólares a tempo. Então...
— Oi... Joji? — suspirou aliviada pela velocidade que a mais alta atendeu a ligação. Ela era sempre tão prestativa! — É... Eu preciso da sua ajuda... —
Pedir dinheiro emprestado causava uma sensação de culpa terrível; afinal, era uma ação desgradável, e Deus sabia que Harper preferiria andar descalça sobre vidroa ntes de magoar qualquer pessoa. Contudo, Joji estava sendo muito carinhosa ultimamente, e ela bem lhe encheu de tantos presentes, e... E, bem, de promessas que não sabia ainda como interpretar direito, mas que estava disposta a tentar, se fosse por ela.
— Eu vou te pagar de volta, eu juro, juradinho! — juntou as palmas das mãos em agradecimento assim que elas saíram da loja de uniformes no shopping próximo à universidade. Joji sorria, a abraçava, a garantia que estava tudo bem e que não precisava agradecer. Porém, Harper já sentia que estava abusando muito da boa vontade da mulher. Não podia deixar aquela folga toda continuar daquele jeito. — Mas eu vou. É sério. — tal qual implicava a fala, Harper falava muito sério. Até mesmo fechou o rosto para poder expressar o quão sério estava falando. — Eu não quero só depender de você. Quero te fazer depender de mim também. — se arrependeu no segundo seguinte após a fala ter deixado a boca, e mordeu a língua. Ugh, aquilo havia ficado tão melhor na sua cabeça! E se Joji a achasse uma grudenta esquisita agora? Era melhor consertar. — Erh... Mas só um pouquinho? — pediu, desfazendo a pose dura e piscando com os olhos pidões. Suspirou aliviada quando percebeu que Joji na verdade continuava apenas sorrindo. É! Estava tudo indo muito bem. Aquilo era o mínimo que podia fazer por uma... Amiga? Tão boa quanto Joji estava sendo por ela ultimamente, certo?
Quando finalmente chegaram no dormitório de Harper, porque Joji fez questão de acompanhá-la até lá, a mais baixa fez questão de ficar na ponta dos pés e roubar um beijo rápido da bochecha da engenheira.
— Eu cumpro o que eu prometo. Sou bem teimosa quando eu quero, tá? — apesar da fala, estava com as bochechas vermelhas de vergonha só de imaginar que poderia, novamente, ser vista como grudenta. Mas tinha de ser firme! Mostrar que estava agradecida. — Obrigada de novo por hoje, Joji! — e, então, entrou correndo no quarto, fechando rápido a porta atrás de si. Que aventura!
Nem conseguindo acreditar no que ela mesma havia feito, puxou o celular novo do bolso e foi logo confirmar o sucesso de sua missão para a Dra. Quarks com o maior dos sorrisos no rosto.
Consiga 4 câmeras de vigilância padrão. Elas podem ser encontradas em lojas de tecnologia, nas unidades da Merryweather na universidade ou no departamento de vigilância e monitoramento das Indústrias Dragna, nas Dragna Towers
@tbthqs
STATUS: FRACASSO
Câmeras de segurança. Hah. Aquela devia ser a maior prova possível que Quarks tinha um bom senso de humor, porque só podia ser mesmo uma piada perfeitamente doasada em ironia a de pedir para um cleptomaníaco lidar com câmeras de segurança.
Hilário. Ainda bem que Lucien sabia apreciar uma boa piada, mesmo quando ele era o alvo.
A verdade era que tudo daquela maldita preparação já estava o dando nos nervos. Desde a investigação no prédio, estava mordido de ódio. Para os outros, achava que conseguia disfarçar bem, usando sua arma mais comum: o humor. Fingia desinteresse em pontos importantes, contava piadas, se pagava de besta, se distraía com outros assuntos mais pertinentes (tipo um certo agradecimento a uma certa capivara comunista)... Qualquer coisa que não fosse aquela maldita investigação.
Já havia aceitado seu destino. Voltaram no tempo. Ponto final. Estava muito melhor ali atrás, muito que bem, e obrigado; e o preço que pagaria por não se dar o trabalho de investigar era ser apagado da linha do tempo? Ah, não tinha como pedir por coisa melhor!
Claro, seu coração balançava quando pensava em Olivia e Katherine, com vidas tão excelentes no futuro- mas logo depois voltava a ser firme com suas convicções quando levava um tapa no rosto por ousar se distrair (não intencionalmente, dessa vez!), quando era ignorado, quando era humilhado, quando era lembrado que ele como pessoa só tinha valor pelo sobrenome, quando tinha seu acesso físico à empresa da família revogado. Tudo bem, tudo bem, ele poderia ter trazido tudo aquilo para ele mesmo agindo que nem um palhaço em todos os momentos inoportunos... Mas merecia algo além de ignorância, não? Que culpassem Arabella, a última responsável por fazê-lo sonhar mais alto e querer ter aquelas ideias mirabolantes de "ser mais que um qualquer", de que alguém levasse a sério as consequências das coisas que ele podia fazer. Os desejos de Lucien de ficar no passado talvez não fossem tão vistos como ameaçadores quanto os de Jawie, e ele não era querido, muito menos respeitado. Sinceramente? Não queria nada disso em específico. Mas se estava de volta, se esforçaria para ser qualquer coisa, menos esquecido. Se fosse para ser uma piada, que fosse a mais engraçada de todas.
Achou que o plano idiota que teve com Jawie de pegar as câmeras de segurança do corredor era engraçado por si só, e que ele estaria de acordo consigo; seria engraçado o suficiente para causar o desconforto pretendido. Mas não, a denúncia de Peralta à Merryweather pelos atos de vandalismo de Lucien resultou nos guardas o arrastando pelos braços com algemas que não eram do tipo que ele gostava (ainda que até tentasse brincar daquele jeito com o guarda, que não pareceu achar legal). Ele tentou negociar e fugir na lábia, é claro, mas havia sido pego em flagrante, e Marcelo já tinha tirado seu acesso aos benefícios do sobrenome. Só sobrava o desespero: com certeza aquilo seria mil vezes pior que aquela noite na cela com Riley.
A piada não tinha valido a pena.
Oras, se nem com Jawie, que sabia que também não tinha interesse em voltar, conseguiria o mínimo de camaradagem.... Se os outros viajantes já não confiavam nele para nada, se não precisavam vigiá-lo, se não precisavam convencê-lo, se era melhor prendê-lo e jogar a chave fora... Que se foda, certo? Que se foda. No meio do caminho, parou de reclamar, de gritar, de tentar negociar com sorrisos e piadas. Abaixou a cabeça, ficou quieto, parou de sorrir. Já havia aceitado um destino cruel antes, com a perda da perna e do olho. Aceitou mais um com a volta no tempo. Poderia aceitar um terceiro.
Não havia possível esforço na face da Terra que fizesse Lucien ser lembrado da maneira que ele queria.
REACH FOR THE STARS || WORST MISTAKE POV || TASK 2
@tbthqs
— Cê viu aquilo do bug do milênio? — Lucien perguntou para Léopold enquanto pulava na cama elástica.
— N-... Não. — Léopold tentava conversar enquanto tinha o pequeno corpo atirado de um lado para o outro pela instabilidade causada pelo tecido maleável. — Que que é isso? —
— As coisa de rádio e eletrônica não vão conseguir calcular mais as datas porque vai ir de 99 pra 00 e aí booooooooooom e pooooooow. É uma cata... Catas.... Ca... Catástrafe. — Lucien deu um cambalhota no ar e caiu com as costas na cama elástica, os braços e pernas bem esticados. — Eu li num jornal. — exibiu um sorriso orgulhoso sem incisivos laterais.
Enquanto o mais velho parecia se divertir e recuperar o fôlego, o mais novo foi engatinhando para perto do gêmeo, aproveitando que o movimento do tecido começava a se estabilizar aos poucos.
— É verdade? — a pergunta veio tímida, acompanhada de receio. — Vai acontecer isso mesmo? —
Lucien estava doido para contar sobre o pânico de alguns jornalistas, sobre todas as teorias, sobre o filme horrendo que havia visto de espiões baseado naquele feito. Contudo, Léopold parecia ter ficado com medo de verdade. Ele não lia os jornais que Lucien lia, ou pelo menos não tanto quanto os pais já obrigavam o mais velho. Naquele momento, Lucien era a sua maior fonte da realidade externa à França que conseguiam ver. Não queria deixar o irmão com medo ou desconfortável. Podia falar os detalhes de todas as histórias outra hora.
— Ppppffffff, não. — Lucien já tratou em desmentir. — Os computador novo é tudo novo. Já arrumaram tudo. É só umas doideira que um pessoal ai acredita, mas não vai contecer naaaada. — olhou para Léopold, que parecia desconfiado, mas um pouco mais aliviado.
— Como cê sabe que é doidera? — fechou a cara, não aceitando só aquela explicação. Que droga. O mais novo era muito teimoso quando queria.
— O jornal chamou gente inteligente pra falar disso. Gente que entende de computador. — fez um bico de volta. A verdade era que era muita informação para uma cabecinha de nem uma década formada, mas que estava se esforçando tanto para entender. Léopold parecia fazer o mesmo. — Léo, lembra ano passado quando a gente visitou a ESA? —
— Lembro. — o gêmeo bufou. — Cê não para de falar disso. —
— É que foi MUITO LEGAL! — Lucien se levantou se sopetão, se sentando na frente do irmão. — A Haigneré foi pro ESPAÇO e VOLTOU! Lá em cima! — gesticulou para o céu com alguns pontos luminosos espalhados. — Aquele tantão de coisa. Aquele tantão de gente. Acha que eles vão deixar os computador quebrar e fazer boom? —
— Eles falaram alguma coisa no jornal? —
— ... Não. Porque eles tão trabalhando pro problema não ter. Porque eles são inteligentes. — já estava cansado da própria discussão que começou, então se ergueu novamente e começou a pular. Léopold dessa vez foi rápido em se erguer e para pular no ritmo de Lucien.
— Eles são inteligentes de verdade pra não deixar o problema ter? —
— Sim! São os maiorais do mundo toooooodo! —
— Ok. Se você falou então acredito! — Léopold finalmente sorriu, mostrando um sorriso similar com algumas janelinhas diferentes. — Não queria perder as... Coisas. — repetiu o mesmo termo que o irmão utilizou, ainda que incerto. E então, uma ficha caiu para Lucien: só havia uma maneira de fazer algo divertido e não deixar mais o irmão preocupado! Sem aviso, Lucien deu um empurrão no mais novo, derrubando os dois para se sentarem de novo na cama elástica. Antes que Léopold pudesse reclamar, Lucien segurou firme os ombros do irmão.
— Léo. — Lucien ficou bem sério. — Quando a gente crescer eu vou ficar super super super inteligente pra ser um astronauta maneiro igual a Haigneré. E eu vou te salvar e proteger de tudo sendo um astronauta legal e maneiro pra não se preocupar nunca mais. Que tal? Lá de cima, protegendo as coisas do boom, não vai precisar ter medo de mais nada! — olhou para cima, sorrindo para as estrelas que tinha visto de pertinho no planetário da ESA. Contudo, quando abaixou o rosto, só encontrou a face do gêmeo contorcida em uma tristeza que tentava (e falhava em) ser contida.
—Mas... Mas aí se você for pro espaço... Vai voltar né? Não vai me deixar aqui embaixo. —
Aquela pergunta cortou o pequeno coração de Lucien. — Nunca. Nunquinha. — falou com tanto desespero que até fungou depois para engolir o choro. — Juro até que vou pegar um pedacinho de nuvem e trazer pra você! —
O silêncio de maior seriedade e cumplicidade que dois irmãos de nove anos poderiam compartilhar estabeleceu-se entre os gêmeos LeBlanc.
— Você não pode pegar um pedaço de nuvem, Luci. — Léopold deu risada, quebrando a tensão. — Isso machuca elas. —
— Machuca nada!!! — Lucien soltou os ombros do irmão e fez uma cara incrédula.
— Machuca sim!!! — Léopold parecia muito certo, então Lucien não rebateu, porque agora não sabia se ia machucar mesmo as nuvens ou não. Teria de ler mais jornais. — Tá booooom. Você vai ser o astronauta mais maneiro e inteligente e não vai deixar nenhumas coisas fazerem boom. — Léopold e Lucien trocaram um olhar de companheirismo. — Mas só se não machucar as nuvens. —
— Não vou machucar nuvem nenhuma!!!! — mostrou a língua para o irmão. Aproveitando a raiva, cuspiu na própria palma e a estendeu para o mais novo. — Cospe na sua e aperta aqui. —
— Ew! Não quero, que nojo! —
— Tem que fazer! É assim que as pessoas fazem promessas sérias! Eu vi num filme. — fez um bico. — Vai, eu prometo que vou ser o astronauta mais maneiro pra nada fazer boom e você promete que não vai sair do meu lado porque não vou te deixar pra trás. —
Léopold olhou para a palma babada de Lucien com o maior nojo por alguns bons segundos antes de repetir o ato e segurar a mão do irmão.
— E promete que não vai machucar nenhuma nuvem? —
— EU NÃO!!! VOU!!!!! — Lucien apertou mais firme a mão de Léopold, que gritou de dor.
— AI, LUCIEN, TÁ ME MACHUCANDO!!! —
— VOCÊ QUE COMEÇOU!!!! —
— NÃO COMECEI NADA!!! —
— Meninos, JÁ pra dentro!! — a voz da matriarca LeBlanc surgiu da janela, e não parecia muito feliz com a gritaria dos pequenos. Lucien e Léopold se entreolharam com carrancas similares, mostraram a língua ao mesmo tempo. Mas a briga só duraria até a porta de entrada, e depois conversariam como se nada tivesse acontecido.
Lucien não sabia naquela época, e não soube por muitos anos que se seguiram, mas pagaria aquela promessa com, literalmente, sangue, suor e lágrimas.
Houve três grandes momentos na vida de Vincent Kingsley que mostraram às pessoas ao seu redor o quão ele era capaz de estragar qualquer ideia positiva que podiam associar à sua imagem.
O primeiro foi durante seus anos iniciais na UCLA. Tinha as expectativas dos avós, imaginando que ele seria um bom estudante dedicado; tinha as expectativas das pessoas que acompanharam o final de sua adolescência nos vlogs dos pais, que imaginavam sua personalidade doce e alegre como nos vídeos; e tinha a expectativa dos educadores da universidade, esperando que alguém da família Kingsley, sobrenome que ano após ano assinava tantos cheques gordos em prol da produção científica, honraria o nome e o título da universidade.
Provou que todos estavam errados a cada grosseria nova, a cada ameaça, a cada vandalismo, a cada chantagem, a cada enrascada que escapava sem consequências, a cada coração quebrado, a cada reunião com professores e supervisores que lhe era implorado para melhorar um pouco, sendo que era somente aquilo que podiam fazer, pedir. Vincent não era gentil. Ele era intocável.
O segundo foi no enterro do namorado em 2014. Quando a notícia da morte do carismático jogador de futebol se espalhou, as expectativas em si eram que seria um bom namorado e respeitaria a memória do rapaz o qual ocupou um papel tão importante em sua vida nos últimos quatro anos. Era suposto que seria um bom amigo para os que conviveram com eles nos últimos anos, permitindo-se tanto se apoiar nos ombros oferecidos quanto também ser um ponto de conforto para os que sofriam a perda. Pelo menos, pelo mínimo menos, que seria um bom agregado e prestaria apoio à família do atleta, que havia perdido mais que um companheiro: um sobrinho, um primo, um filho amado.
Provou que todos estavam errados quando se afastou de tudo e todos, entregando silêncio e frieza onde se esperava um resquício de afeto. Não trocou uma palavra sequer com os pais do rapaz no funeral; sequer se sentou perto deles. Na verdade, nunca mais se prestou a entrar em contato com algum deles. Nunca mais mencionou o nome do namorado sem ser para diminuir o relacionamento que tinham, que "nem era tão sério assim", que "não pensava tanto nisso". E, claro, se retirava de toda e qualquer conversa que sequer começava a mencionar o garoto, se recusando a responder qualquer pergunta.
Quando se consegue arruinar a visão que sua família, seus amigos, seus superiores, seus colegas de estudo e futuros colegas de trabalho tem de você, que alma mais sobra para decepcionar?
No terceiro momento, Vincent descobriu que a última alma restante era ele mesmo.
TRIGGER WARNING: gore, descrição explícita de ferimentos graves, descrição de cirurgia
A escolha da residência em cirurgia plástica não teve motivações monetárias ou de prestígio por trás. Dinheiro tinha aos montes e o prestígio social a profissão por si só já entregava pelo título, qualquer especialização lhe serviria. Quis ser cirurgião plástico por ter genuinamente se interessado tanto pela teoria quanto pela prática. Durante o ciclo que passou na emergência hospitalar, se sentiu bem trabalhando sob pressão constante e gostava de acompanhar a resolução de casos específicos. Parecia, então, óbvio. Definitivamente havia sido uma escolha muito bem acertada, pois a cada ano que completava a residência sentia-se cada vez mais satisfeito com a vida profissional.
Vincent sabia que era capaz de estragar qualquer boa concepção que alguém tinha de si depois de conhecê-lo de verdade, mas aquele não era o caso dos seus pacientes. Eles o olhavam com gratidão genuína, choravam segurando suas mãos e alguns até o diziam que era "um anjo" e que "Deus o havia colocado nos caminhos deles". Eles não precisavam saber, não precisavam o conhecer. Aquilo parecia equilíbrio bom o suficiente para ele: a confiança cega dos seus pacientes em troca da incerteza de todo o resto.
Até praticamente as semanas finais da residência jurava de pés juntos que seguiria no ramo de reconstrução facial. Tornava-se cada dia mais um cirurgião habilidoso, e por meio das conexões dos avós conseguia os contatos certos para entrar nos times certos dos médicos certos para construir um currículo invejável de casos atuados. Trabalhou por muito tempo dentro dos corredores da emergência associado por mentes médicas brilhantes da UCLA, e gradualmente era envolvido cada vez mais em tratamentos a longo prazo e cirurgias com foco na reconstrução da face pós trauma. Sim, teve muitas portas abertas para si com facilidade, mas seu interesse e sua habilidade eram inegáveis. Com a experiência personalizada para sua zona de conforto, então... O sucesso fluiria como água.
Falassem bem (menos frequente) ou falassem mal (mais frequente) de Vincent Kingsley, não era possível negar que ele se formaria um excelente cirurgião. Tão excelente que emendava um plantão no outro, muito mais visto nos corredores dos hospitais quando não estava em aula do que em literalmente qualquer outro lugar.
Em determinada noite, estava no fim de um plantão duplo. Passou as últimas 22 horas acordado e havia atuado em duas cirurgias já marcadas que haviam corrido muito bem. Anunciou ao médico supervisor que iria utilizar o horário de descanso, como mandava a legislação, e parecia que encerraria a noite como sempre. No entanto, mal havia chego na área designada quando começou a correria dentro do hospital. Um acidente feio, era o que foi dito, precisavam de todas as mãos disponíveis. Colisão frontal de veículos: um carro com três adolescentes voltavam de uma festa embriagados e se chocaram na contra mão contra uma van de família que retornava de viagem; um pai, uma mãe e três filhos de 14, 12 e 8 anos, nenhuma das crianças devidamente seguras no banco de trás. Todos os envolvidos estavam gravemente feridos, mas Vincent se lembra dos detalhes de apenas dois acidentados: Primeiro, o pai, por seu filho mais velho sentado atrás de si tê-lo empurrado com tanta força na hora do impacto que o airbag estourou contra todo o colo superior. O cinto de segurança do homem também havia queimado e cortado o peito; Vincent se lembra particularmente da visão do plástico derretido grudado à pele enquanto o homem era retirado da ambulância, e do cheiro de borracha e carne queimada preenchendo o ambiente. Segundo, era a criança mais nova que havia sido arremessada contra a janela da frente e ficado cheio de estilhaços por todo o rosto.
Era sempre em madrugadas como aquela que estavam com menos pessoas que o normal. Menos médicos, menos enfermeiros, menos residentes com experiência, menos, sempre menos. O médico do setor responsável foi dividindo as equipes dos profissionais disponíveis entre os pacientes, apontando um cansado Vincent não apenas conduzir a cirurgia na criança. Até tentou argumentar contra aquela escolha, mas o estado dos outros acidentados estava muito pior. A criança estava desmaiada pelo choque, foi estabilizada na ambulância, e para além dos ferimentos do vidro no rosto, era a com menos ferimentos externos que demandavam cuidado imediato. Não havia opção. Tinha um trabalho a fazer.
A equipe que lhe foi concedida era composta de ótimos profissionais capacitados, mas estava longe de ser a ideal: não havia um pediatra (alguém já entrou em contato com o doutor...? Diga para vir imediatamente!), muito menos um residente. Para terem mais detalhes do estado da criança, a equipe fez uma tomografia do crânio, um ultrassom abdominal e uma radiografia da coluna. A radiografia veio normal, a tomografia apontou uma fratura no crânio não deslocada (um alerta significativo, mas realmente não tão urgente quanto outros acidentados), mas o ultrassom detectou hemorragia interna dos órgãos lesionados durante o impacto. Precisavam operar. Precisavam agora. Preparem a sala. Uma ortopedista recém formada, preocupado com a fratura, perguntou a Vincent se as imagens dos exames rápidos já eram suficientes; falava de outros e outros exames que precisavam realizar antes de levá-la para a mesa cirúrgica. Por garantia. Sem paciência, e se sentindo desafiado pelo questionamento do outro profissional, Vincent rebateu que sabia o que estava fazendo, que tinham um objetivo ali e agora. Já havia participado de cirurgias piores, e mais urgentes, e talvez ela não havia lidado com emergências o suficiente para compreender a ordem das prioridades. Operariam.
A hemorragia havia acabado de ser estabilizada por um outro colega da residência cirurgia quando Vincent, focado na remoção dos cacos de vidro do rosto da criança, começou a perceber que a situação era muito pior do que inicialmente os exames haviam apontado. Na tomografia não foi identificado o quão profunda era a real lesão ocasionada principalmente nos globos oculares do pequeno. Conforme manejava o instrumento notava cada vez mais fragmentos em regiões delicadas, chegando finalmente na parte dos olhos. Demais. Tinha demais. Algum oftalmologista de plantão? Era muito grave. Vincent nunca tinha lidado com algo tão complicado antes. Precisavam de alguém mais experiente, precisavam agora. Percebeu que quando esteve de frente com situações complicadas ou muito específicas, tinha ao seu lado um time preparado e qualificado para o caso que estavam tratando. Ali? Era uma criança, e não tinham possibilidade de se comunicar com a família. Responsável. Estava com sono. Precisava agir.
Enucleação, o outro colega cirurgião sugeriu. Não tem como salvar. Isso era decisão pra tratar com a família. A família também está sendo operada. Vincent sentia o esforço adicional para manter firme o metal da pinça cirúrgica. Como coube a ele a decisão de remover ou não os olhos de uma criança que era saudável até poucas horas atrás? Ele era muito desconectado dos seus sentimentos, mas ainda era humano. Um humano em pânico, e muito cansado.
Respirou fundo, tentou se controlar. Os danos causados eram mesmo irreversíveis, os dois cirurgiões e a ortopedista concluíram após uma breve discussão. A chance de infecção era altíssima, a dor que o pequeno enfrentaria para o resto da vida seria pior ainda. Precisavam remover. Vincent precisava, era o que teve mais experiência nisso. E precisava operá-lo logo, a ortopedista o relembrou como antes ele havia feito com ela. Inspirou, expirou.
Era um bom cirurgião. Teria sucesso.
A remoção foi complicada mas foi feita na melhor das capacidades que reuniu no momento. A adrenalina corria tanto pelas suas veias que a sensação se assimilava a corrente elétrica alimentando um circuito. Automático. Precisava operar. Precisava. Um enfermeiro informou que a pressão intracraniana sofria um aumento alarmante. Hemorragia intracraniana? Possível. O traumatismo. Havia um neurocirurgião que estava auxiliando a equipe com o pai da criança. Que alguém o buscasse urgente, oras. Inspirou fundo, mas os pensamentos não conseguiam mais ser tão cristalinos, fosse pela urgência que tornava o caso cada vez mais complicado, fosse pela falta de descanso que o fazia acreditar nas decisões precipitadas que ele mesmo formulava. O neuro chegou. Ele pareceu hesitante ao notar o residente trabalhando na remoção dos olhos da criança. Vincent ouviu um comentário que estava fazendo um trabalho terrível, não soube se veio do profissional mais qualificado ou de alguém o relatando. Não importava. A criança, por favor. O neurocirurgião começou a trabalhar. O som da serra contra o osso do crânio era tão alto que por anos Vincent o escutava perfeitamente se fechasse os olhos e relembrasse a situação. O neurocirurgião fez as técnicas de palpação necessárias na massa encefálica exposta. Edema. Edema? Não foi apontado na tomografia. Sentia os olhos da ortopedista o fuzilando. O neurocirurgião começou a remover o tecido cerebral lesionado... Era delicado demais, o trauma foi grande demais para aquele corpo pequeno. Vincent não se lembra quanto tempo depois foi declarada a morte, quantas horas havia ficado em pé operando. Se lembra de ter saído da sala e escutado que a situação do pai da criança também havia piorado. Precisavam de mais ajuda. Onde estava o neurocirurgião?! Na outra sala. O residente o chamou, a situação da criança... Sem tempo para explicar. Vincent devia ir também, agora como auxiliar. O mais velho fraturou a coluna, não se lembrava quais vértebras, mas os pulmões estavam perfurados. Medula espinhal lesionada, era por isso que o neurocirurgião estava acompanhando antes. O zumbido nos ouvidos de Vincent continuava, e também não se lembra quanto tempo ficou ali até que o pai também fosse declarado morto.
Saiu da sala de cirurgia, fez as higienes necessárias e anunciou que precisava dormir com urgência. Se dirigiu ao quarto designado e dormiu sem conseguir descansar por pouco menos de três horas antes que fosse acordado. Era a ortopedista. A mãe estava pedindo por notícias do marido e do filho mais novo. Vincent era o responsável (do jeito que a colega falou, não parecia significar apenas o responsável da cirurgia), então que ele devia ir. Não se lembra do caminho que fez até o quarto onde a mulher e as outras crianças sobreviventes estavam internadas. Ao lado do médico responsável pela cirurgia do marido, deu a notícia na melhor das suas capacidades.
Sabia que não eram as notícias que qualquer um naquela situação gostaria de ouvir, que não encontraria nos olhos dela a gratidão que viu nos outros. O que não sabia era que mesmo assim encontraria outra expressão familiar, uma que nunca esqueceu mesmo a tendo presenciado de longe há mais de meia década atrás. Encontrava ali lágrimas de dor e o vazio do luto de uma mãe, lamentos que jamais seriam transcritos em palavras tão bem o encarar do cruel opaco das íris que ressaltava a dor de uma perda indescritível. Se Vincent fosse religioso, acreditaria que ali era Deus o forçando a pagar pelos seus pecados de negligência, o forçando a encarar os mesmos olhos dos quais fugiu e evitou como praga até então.
Daquela vez, não desviou o olhar.
No instante que colocou os pés para fora do hospital, Vincent decidiu que abandonaria sua vocação para trabalhar com casos de trauma, independente se associados à emergência ou não. Aceitaria a oferta da avó para montar sua própria clínica de cirurgia plástica, reavaliaria a oferta de unir-se em sociedade com um colega da graduação, esqueceria das convicções que eram praticamente lei até então. Covarde, sim. Indo pelo caminho mais fácil, sim. Queria dizer que não se importava, como sempre, mas doía tanto, tanto, tanto. Por um tempo não conseguia raciocinar e organizar as palavras certas para descrever o que sentia. Só depois percebeu que ele próprio lidava com um luto particular: o de arruinar boas expectativas e esperanças que tinha dele mesmo. Havia deixado para trás, junto da criança, junto do pai e junto da família destruída, a última restante alma que acreditava nele; a sua própria.
Era assim que os outros se sentiam ao seu lado?
É. Vincent não tinha mais salvação. O equilíbrio que tentou buscar no meio dos erros escapou de seus dedos, e agora estava no passado. A única coisa que lhe restava era aceitar o destino, aceitar sua imutável natureza desconfiável, e seguir em frente.
Na faculdade de medicina, não passava mal com a visão dos cadáveres que abriam, ao contrário de alguns colegas que ou desistiram da área ou preferiram seguir linhas de atuação que não envolviam corpos abertos, como a psiquiatria. Na residência de cirurgia, onde atendia principalmente casos de acidentes, qualquer resquício de medo ou nojo já havia ido embora. Por fim, com o consultório de cirurgia plástica, os casos atendidos eram os extremos entre a simplicidade (para as celebridades que queriam operar) e o super específico (para casos de reconstrução facial). Naquela profissão se via de tudo e mais um pouco, se interagia com todo o espectro de pessoas. Ter um estômago fraco não era uma opção. Claro, Vincent ainda era um ser humano com seus receios, confusões e medos, mas suas reações nunca eram viscerais. Não podiam ser. Ele era um médico renomado, oras, precisava manter sua compostura.
Ainda assim, tendo consciência de tudo isso, quando retornava ao apartamento com o motorista particular, sentia no âmago algo ruim (e não era a música do Coldplay tocando na rádio, apesar de piorar a situação de forma considerável). Provavelmente aquele maldito poncho batizado de álcool barato que experimentou, ele pensou, sem muita preocupação. Ao menos, havia pego folga no dia seguinte, então poderia descansar a cabeça e melhorar daquela sensação ruim. Podia, inclusive, parar para refletir qual o objetivo daquela piadinha sem graça era aquela da chave do pequeno Jeep no seu bolso, a qual aparentemente "precisaria guardar muito bem para usar mais tarde". O que faria com um brinquedo? Grande besteira sem sentido… Até combinava com o discurso horripilante do reitor, que havia feito os cabelos da nuca ficarem em pé… Do quão cafona havia sido, óbvio. Por motivo nenhum mais.
É, havia sido uma noite e tanto, com certeza. Brega, mas que o permitiu rever antigos rostos conhecidos. No final das contas, se não fosse "pelo bem da nostalgia", serviu para renovar o ego já imenso: Ainda estava no topo da cadeia alimentar social. Do seu trono, ao lado de tantos outros que haviam conquistado seus próprios lugares de respeito, observava os plebeus, os esquecidos… Classe que ele mesmo se julgava ser, quando ainda tinha resquícios de ingenuidade em si. Se tornar um anjo caído foi mesmo a melhor coisa que poderia ter acontecido consigo. Mesmo sem as asas, estava no céu.
Em casa, se serviu da última dose do whisky caro que levou para a festa, se esgueirou para dentro dos pijamas confortáveis e foi dormir.
A noite foi bastante turbulenta. Era o álcool barato, Vincent foi capaz de se lembrar no meio do desconforto. Que merda. Ligaria para a avó no dia seguinte, reclamaria da falta de organização, questionariam juntos para onde ia o dinheiro das doações. E sua rotina voltaria ao normal.
Doce, doce ilusão.
Quando o sono inquieto e a estática deram lugar à firmeza do chão do John Wood Center, Vincent se sentiu em um pesadelo. Sua primeira reação foi até rir pela ironia que era sonhar com aquele lugar depois da festa, sentindo o nervoso de reviver aquele tipo de memórias. Não estaria bom o suficiente só ficar nas boas sensações de ver os rostos conhecidos dez anos no futuro? Para que seu cérebro lhe pregaria a peça e o fizesse sonhar com o passado?
O primeiro grito veio, depois o segundo, e logo Vincent imitou os colegas em puxar o próprio celular para verificar o que estava acontecendo. O iPhone 15 agora era o iPhone 5c, o modelo mais recente de 2013. A notificação vinda do número 555-8234 foi o que o fez acordar para a realidade e perceber que aquilo não era só coisa da sua cabeça, mas não foi o que o fez entrar em verdadeiro pânico.
O apito do guarda o fez despertar para a nova realidade, mas nem foi necessário para que o fizesse correr. A cabeça virava e virava nela mesma, e a sensação ruim do âmago piorava. Corria como se pudesse fugir dali, fugir daquele pesadelo que já sabia que era de verdade.
Não. Aquilo seria o plano de fundo do celular, uma foto dele e do então namorado na época.
...
Foi de um celular um modelo mais novo que aquele que recebeu a notícia de sua morte.
...!
Foi atingido em cheio pelo luto que nunca processou para além de quebrar CDs e queimar roupas do rapaz no estacionamento do dormitório.
!!!!
Quando estavam longe do guarda, Vincent se escorou na lata de lixo mais próxima e vomitou tudo o que havia comido naquele dia. Não por tontura, não por enjoo. Por medo. Por pavor. Por luto. Por uma força que o subjugou tão fácil, mesmo que ele mesmo se considerava tão acima, tão invencível, tão intocável.
Aquela era a pior parte. Cair do trono dourado sem as asas para se reerguer, sendo que já havia feito todo o trabalho dez anos atrás.
Vomitou outra vez. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, até só bile sair.
Do you see what we've done? We're gonna make such fools of ourselves” — decode, Paramore.
Cansaço. A primeira coisa que Katherine pensou ao sair do ginásio, cruzar as famosas portas da UCLA e sair, finalmente, do inferno movido à nostalgia, sorrisos falsos e memórias traumáticas. A mulher deixou o corpo ceder à exaustão mental ao entrar no próprio carro, um Rolls Royce, e deitar a cabeça sobre o volante, respirando fundo, criando coragem para se afastar do prédio que prometeu nunca mais pisar.
Katherine remexeu-se, incomodada, sobre o banco de couro legítimo, e decidiu pegar o próprio celular. Iria ligar para o delivery que sempre pedia sua garrafa de vinho favorita, quando se deparou com um cartão que, até então, não deveria estar ali.
Só pode ser piada! Alguém estava montando um complô contra Katherine e ela estava decidida a caçar o infeliz. Do convite à reunião de ex alunos, à nostalgia forçada, agora um cartão da BlockBuster de 2014? Em nome de Jhon Jacob Harris?!
A mulher encarou o objeto com tanta surpresa e raiva. O cartão em sua destra tinha um peso muito maior do que o objeto realmente tem, trazia consigo lembranças que Katherine se recusava a lembrar.
Totalmente frustrada, com raiva, cansaço e vontade de apenas sair daquele contexto e lugar, deu partida no carro e saiu o mais rapidamente possível da terreno da UCLA, ganhando as ruas de Los Angeles no limite de velocidade. Tentando desanuviar sua mente, Katherine conectou seu celular ao carro, dando play no aplicativo de música de modo aleatório. Viva La Vida, do Coldplay, ganhou os auto falantes do Rolls, e uma risada alta de Katherine.
Repetindo mentalmente: “isso não pode ser possível”, em minutos, a mulher estacionou seu carro à frente da mansão que havia adquirido recentemente em Bel Air, descendo do mesmo de modo irritado, batendo a porta atrás de si. A racionalidade sempre foi o forte de Katherine, e não seria agora que ela iria abrir mão de sua razão. Por mais que tenha se sentido mexida e emocionalmente abalada com as últimas horas, o cartão-piada em sua bolsa, e a música em seu celular, não iria correlacionar todos os acontecimentos. Não queria correlacionar. A única relação entre todos era apenas um: uma grande piada usando o ano de 2014 como pano de fundo para a abalar.
Decidiu deixar tudo de lado e se concentrar em sua rotina. Rotina, tudo que Katherine precisava era de sua rotina. Iniciou sua tradição antes de dormir, um banho bem quente e relaxante, todo um processo de skin care e hidratação de sua pele, além de prender seus fios escuros em um coque preciso, mantendo a escova.
Vestida apenas de blusa e calcinha, Katherine desceu as escadas de sua mansão, enchendo uma taça de vinho tinto e pegando os papéis de um novo cliente. Rotina para ela era isso: os cuidados consigo, o vinho para relaxar e os arquivos que precisava ler para o dia seguinte. Ao voltar para o quarto, deixou o celular sobre a escrivaninha, deitando-se de bruços na cama, taça em uma mão e documentos na outra.
O cansaço anterior voltou com força, e Katherine não percebeu que adormecia aos poucos, deixando a taça cair ao chão, manchando o tapete bege de vermelho sangue. O sono que a atingiu não era o comum estado de adormecer que estava acostumada, o sono se tornou leve, com pitadas de consciência e agitação. Tentou ingressar em um sono mais estável, mas seu subconsciente a forçava a quase despertar, até que seus olhos se abriram por fim, determinada a descobrir o motivo do endurecimento de sua cama.
Totalmente contrariada, revirou-se sobre a superfície dura e gelada, estranhando estar no chão. Quando foi que caiu? Não deveria estar mais confortável pela presença do tapete? Ajustando a visão à imagem a seu redor, Katherine se levantou em um sobressalto. Estava no… John Wooden Center novamente? Como assim?
Ao se virar para o lado, notou rostos conhecidos. Não havia os visto hoje a noite? Estava em um sonho? Sua mente deu um looping ao notar que todos estavam de pijama. Sua mente não a faria sonhar com ex colegas de pijama, faria? Mas foi somente quando um pegou o próprio celular no chão, um iPhone que não via desde… 2014?, que Katherine reparou na própria aparência pelo reflexo na tela. Estava mais jovem, os cabelos cacheados… parecia a mesma, mas em sua versão jovem e universitária.
Apertou rapidamente o botão de ligar o aparelho, tendo o segundo susto: a data marcava o início do último ano de graduação, 2 de setembro de 2013. A garota olhou para a pessoa mais próxima, procurando respostas que não fossem “você está sonhando” ou “você está louca”, mas a pessoa parecia tão confusa como ela. Seu celular vibrou em sua mão, chamando a atenção novamente para a tela que exibia uma mensagem: “Vocês tem uma segunda chance, mas cuidado, nem tudo é o que parece. Ao final dessa aventura, vocês terão uma escolha a fazer. Estejam preparados. Faça cada segundo valer a pena!”
Katherine estava prestes a se beliscar para acordar do pesadelo que imaginou estar tendo, quando o som o apito dos guardas do campus a despertaram. Era real demais para ignorar o conhecido medo de ser pega fora do dormitório em horário proibido, maior do que a confusão mental. A garota correu, correu com todas as suas forças pelo campus, assustando-se ao sair do ginásio e encarar a claridade do lado de fora. Foi quando lembrou-se de suas roupas e olhou para baixo: blusa e calcinha. Ela estava apenas de calcinha na frente daquela gente toda!
Não era sonho ou alucinação coisa nenhuma, era real! Era ela, a versão mais jovem e universitária! Em 2013! De calcinha na frente de todos os colegas de faculdade. Não havia tempo para pensar ou procurar alguém que tivesse respostas. Sabia que não estava louca, e sabia muito bem que viagens no tempo eram impossíveis. Mas como explicar estar em 2013 novamente?!
A única coisa em que Katherine conseguia se apegar era o instinto de sobrevivência. E o de não pagar maior mico na frente de toda a UCLA. Havia apenas uma única solução: correr para o Olympic Hall e encontrar suas coisas no antigo dormitório. Se iria fazer isso sem surtar, precisava fazer com suas coisas e o instinto de familiaridade. Além de roupas adequadas e reputação intacta.