A campainha tocou às 21h47. Ela sabia que era ele. O mesmo toque de sempre. Três toques curtos, como se dissesse: “Ainda sou eu. Você sabe.”
Não se levantou de imediato. Quis saborear aquele momento, o suspense que tremia entre as coxas e o medo que latejava entre as costelas. Já tinham se despedido tantas vezes. Mas ele voltava. E ela deixava.
Quando abriu a porta, lá estava ele. O olhar turvo de alguém que já teve tudo e perdeu. Ela, com o cabelo preso sem cuidado, usava uma camisa de algodão que deixava um ombro nu — um detalhe que ele conhecia bem. Era ali que começava. Sempre começava ali.
— Você disse que não vinha mais.
— E você disse que não me queria mais.
Ela deu um passo para o lado. Ele entrou.
O ar carregado de tensão era quase visível. Ele tirou a jaqueta, jogou no sofá como se fosse casa. Era. Já foi.
— Só vim pegar umas coisas.
Mentiras suaves como veludo. Os dois sabiam. Não era sobre as coisas.
Ela se virou para pegar um copo de água, e sentiu quando ele se aproximou por trás. O hálito quente, a presença firme, o passado inteiro pulsando no ar entre eles.
Quando ele roçou os lábios em seu pescoço, foi como se o tempo se dobrasse. Estavam de novo naquele sábado de agosto, quando fizeram amor no chão da cozinha, entre taças e respingos de vinho. Ela gemeu — não de prazer, ainda — mas da lembrança.
— Você ainda pensa na gente? — ele perguntou, os dedos tocando a barra da camisa.
— Eu tento não pensar — respondeu, arqueando levemente o corpo contra ele.
Ele virou seu rosto com dois dedos. Olhou nos olhos dela como quem olha para um abismo que conhece de cor. E a beijou. Um beijo com raiva e fome. Como se estivesse cobrando tudo o que foi negado nos últimos meses.
As mãos dele desceram pelo corpo dela como quem tateia algo sagrado e esquecido. Ela estava molhada, e sabia que ele saberia. Sempre soube. Ele a deitou no sofá com brutalidade contida, os dois ainda meio vestidos, mas sem qualquer defesa.
A penetração foi rápida, quase desesperada, como se os corpos estivessem fugindo da cabeça. Os movimentos intensos, abafados por sussurros, grunhidos e pequenas confissões entre gemidos.
— Você nunca deixou de ser.
Mas era mentira. E os dois sabiam.
Depois do clímax, o silêncio não foi confortável. Ela não encostou nele. Ele a olhou de lado e soube que aquele talvez fosse o último reencontro. Ou o próximo. Estavam viciados um no outro — mas não no amor. No perigo de amar.
Ele se levantou, vestiu a camisa com os olhos no chão. Ela permaneceu deitada, nua, entre as almofadas bagunçadas e os próprios pensamentos.
— Adeus, dessa vez? — ela perguntou.
Ele hesitou. Sorriu de um jeito triste.
Ela o viu sair. E soube: ele vai voltar.
Mas da próxima vez, talvez ela não abra a porta.