um belo-não-tão-belo dia eu tava a beira de uma crise de ansiedade. por um milagre da minha cabeça eu consegui evitar a coisa toda. coração acelerado, mente correndo a mil por hora, respiração ofegante. evitei com o preço de um sentimento depressivo, que me agarrava na cama como um amante. evitei com o preço de não conseguir fazer nada. nada. zero. nadinha de nada. só conseguia olhar pro meu teto ou pro computador que passava aquela série que eu tanto amo mas que... não tinha graça. tudo bem. passou. incrivelmente um ser vivo bom viu minha situação e me acolheu com palavras, abraços, beijos. passou.
no dia seguinte, pendendo mais para um dia belo, até então, me aparece uma amizade antiga pedindo conforto. ela parecia em pânico. não com os sintomas, mas o olhar dela era meio distante meio desesperador. ela tava tão preocupada, sofrendo com a tão conhecida antecipação, exaustão, vida. tudo, tudo parecia puxar ela pra baixo e tudo o que eu consegui dizer foi "eu sei como tu se sente". não me senti como aquele bom moço que me tirou da minha crise. me senti entrando em outra, juntinha com ela. a gente parece que nasce já programado a seguir uma linha: nascer, crescer, fazer faculdade, arranjar um estágio, arranjar um namorado, arranjar um emprego, cultivar uma família, envelhecer e morrer. e mesmo que a gente queira escapar desse fatídico destino, sempre tem aquela voz no nosso subconsciente dizendo pra gente tentar mais. pra gente se levantar da cama e ir estudar. pra gente desmarcar uma saída pra trabalhar. pra gente deixar de ser.
a tal amiga me contou os sonhos dela. me disse o que ela queria ta fazendo, mas como o curso que ela queria não podia dar condições dela talvez vir a cuidar de uma família que nem existe ainda. disse que, quem sabe, depois daquele curso cheio de incertezas, ela talvez voltasse e seguisse o sonho. e eu só consegui pensar na quantidade de sonhos que eu mesma continuo deixando pro futuro, porque eu tenho que seguir meu destino. nascer, crescer, faculdade, trabalho, família, morrer. só consegui pensar em como, independente da minha quase crise, independente da crise dela, independente de qualquer coisa que venha a acontecer durante a minha vida, eu nunca vou deixar de tentar seguir esse destino. parece que a gente ta predestinado a ele mesmo. eu só queria que a gente pudesse seguir uns sonhos, parasse de sofrer por antecipação, parasse de tentar se encaixar em um molde e passasse a ser feliz. agora. já. antes que a gente morra de infelicidade. ou, simplesmente, antes que a gente morra.