Olá, como vai? Para encerrar o assunto, mergulhei um pouco além da teoria para trazer formas práticas de usar a premissa para a construção de nossas histórias. Espero que esse texto possa ajudar a quem anda perdido nesse mundo da criatividade.
Olá, como vai? Para encerrar o assunto, mergulhei um pouco além da teoria para trazer formas práticas de usar a premissa para a construção de nossas histórias. Espero que esse texto possa ajudar a quem anda perdido nesse mundo da criatividade.
Sabe quando vemos a capa e a contracapa de um livro e já nos interessamos imediatamente, pensando, “preciso ver como isso termina"? Esse é um sinal de uma premissa bem feita; algo que desperte a curiosidade e que também tenha uma estrutura bem projetada. Anteriormente vimos que a premissa tem a função de nos guiar durante a escrita, e nesse post veremos que há uma diferença entre uma ideia vaga e uma premissa forte. Basicamente, precisamos de um personagem, conflito e consequências, pois sem consequências, não é possível o enredo se desenvolver.
Como qualquer bom enredo, premissas devem sempre trazer algo de interessante, ação, para ser mais específico. Elas se assemelham muito a cenas excitantes (embora cenas incitantes sirvam para dar o pontapé inicial enquanto a premissa é o fio condutor da história), onde movimento, conflito e tensão precisam ser o foco da escrita, mostrando quem são os personagens principais, além da ambientação.
A verdade é que podemos melhorar diálogos e revisar cenas, mas se nossa idéia central não for bem construída, se a base não for bem pensada, podemos não conseguir avançar.
Sinceramente? Essa é minha experiência nesses últimos 15 anos de escrita. Entendo que as pessoas não gostam de se sentir limitadas por regras, porém, em alguns momentos, usar algumas técnicas de escrita pode nos salvar desse tipo de situação. O importante é conhecer as possibilidades e usar o que for útil para você.
Agora, pense nas suas histórias favoritas. Elas fazem mais do que apresentar um mundo e personagens, não? Sempre tem algo acontecendo, algo que precisa ser feito, buscado ou salvo, ou até mesmo podem levantar questões que prometem ser respondidas se decidirmos embarcar nessa aventura. Sendo assim, devemos dar tanta atenção a nossa premissa quanto damos ao enredo. Afinal, a premissa é o começo de tudo.
Um homem é acusado de assassinato e precisa fugir para provar sua inocência.
Uma jovem é escolhida como tributo em uma luta mortal televisionada.
Um cientista se transforma acidentalmente em um inseto gigante.
São premissas que imediatamente deixam implícita a sensação de movimento, de que algo está acontecendo ou que vai acontecer logo. Temos tensão e conflito, e um imediatismo que nos deixa curiosos para saber o desfecho. E o mais importante, nos fornece perguntas que precisam de respostas. Por que, no fundo, é o que uma premissa precisa fazer, ela nos apresenta o mundo, personagens, conflitos e tensão, mas ela também sugere um futuro e uma possibilidade, isso é, as consequências ou promessas narrativas.
O que uma premissa realmente é?
A premissa é mais do que apenas uma ideia, mas do que um conceito vago, como, “um livro sobre dinossauros”, “um detetive resolvendo um caso”, “uma mulher com um segredo”; isso não é uma premissa, é um ponto de partida que não sugere quem esse personagem seja ou o que ele esteja buscando, e sim um mar vazio e sem importância. (Embora possa ser benéfico ter algo vago no início se você não tiver outras ideias. O importante é trabalhar nessa ideia até que ela desabroche completamente).
Uma premissa consistente nos diz por que a história é importante.
Ideia: Uma mulher descobre que consegue viajar no tempo.
Premissa: Uma mulher descobre que consegue viajar no tempo, mas cada viagem apaga parte de sua memória, forçando-a a decidir o quanto de si mesma está disposta a perder para mudar o passado.
A primeira é algo que acontece. A segunda sugere uma história. Ela levanta uma questão: até onde ela irá antes de se esquecer de quem é?
Se a premissa for muito vaga, muito ampla ou muito vazia, ela não sustentará o enredo. Uma história não é apenas um cenário. Não é apenas um tema. Não é apenas um personagem que existe. Algo precisa estar acontecendo, e precisa ser importante.
Tema e premissa: qual a diferença?
Como vimos anteriormente, tema é sobre o que a história trata, enquanto a premissa é como você a conta.
Tema: O poder corrompe.
Premissa: Um cientista brilhante cria uma IA para acabar com conflitos globais, apenas para perceber que ela está reescrevendo seu próprio código para assumir o controle da tomada de decisões humanas.
Tema: Amor e sacrifício.
Premissa: O marido de uma mulher morre em um acidente de avião, mas semanas depois, ela começa a receber cartas dele, escritas antes de sua morte, o que a leva a descobrir um segredo que ele nunca lhe contou.
Um tema é uma ideia. Uma premissa é uma história.
Assim, temas são tão importantes quanto premissas, eles carregam o tom emocional do enredo, dando significado e profundidade à história. Mas um tema sozinho não faz um enredo. Se a história não gera conflito, não cria tensão ou não exige movimento, é apenas um pensamento, não um enredo.
Premissa fraca ou forte?
Uma boa premissa gera interesse imediato. Se a premissa sugere um cenário que exige resolução, como, "uma fugitiva injustamente acusada correndo contra o tempo para provar sua inocência antes que o verdadeiro assassino ataque novamente", os leitores ficam fisgados desde o início. Eles querem respostas. Porque esse é o objetivo, gerar perguntas e mistério para que o leitor continue interagindo com o texto.
Premissa fraca: enredos sem rumo. Podemos ter uma prosa magnífica ou personagens interessantes, mas uma premissa sem conflito, a história parece não ter propósito. Os leitores perdem o interesse se não conseguem sentir que algo de importante está acontecendo.
Premissa forte: Eles se baseiam em três conceitos - protagonista, conflito central e consequências.
Um protagonista – Alguém movido por um desejo, necessidade ou obrigação.
Um conflito central – um obstáculo que está no caminho do protagonista, que pode ser físico (antagonista), mental, ético ou causado pelo ambiente.
Consequências – Riscos significativos para os personagens principais caso eles falhem.
Exemplo:
Uma professora reclusa descobre que sua irmã, com quem não tinha contato há anos, deixou para trás uma relíquia amaldiçoada que condena quem a possuir a reviver sua pior lembrança todas as noites. Ela precisa quebrar a maldição — ou perderá a sanidade.
Protagonista: O professor, atormentado por arrependimentos pessoais.
Conflito: A relíquia amaldiçoada que alimenta os pesadelos.
Consequências: Perder a sanidade se não conseguir quebrar a maldição, além do fardo emocional ligado aos segredos da irmã.
Como saber se sua premissa é frágil
Bem, o motor de nossas histórias sempre será o conflito, por mais pequeno que ele seja. O que, no fundo, significa que os personagens precisam estar em movimento, mesmo que seja um grupo de amigos sentados em frente a uma fogueira ou uma casa abandonada, algo precisa estar acontecendo. Sendo assim, o maior sinal de alerta é quando nada está acontecendo.
Se a sua premissa parecer vaga ou temática, como:
"Um homem descobre o sentido da vida."
"Uma mulher se encontra em uma cidade pequena."
"Um adolescente percebe que é especial."
Infelizmente, ainda não temos uma premissa, mas sim, um tema. Temas são importantes, mas sem ação ou conflitos específicos, não são suficientes para construir uma história envolvente. Que tal inserir algo tipo de ação ou conflito?
Por exemplo, algo mais forte seria:
"Um milionário egoísta é assombrado por três fantasmas que o obrigam a confrontar as consequências de sua ganância." (Um Conto de Natal)
"Um apresentador de previsão do tempo cínico fica preso repetindo o mesmo dia até que algo dentro dele realmente mude." (Feitiço do Tempo)
"Um menino descobre que é filho de Poseidon e precisa sobreviver a monstros míticos que tentam matá-lo." (Percy Jackson)
Esses exemplos abordam temas amplos e inserem conflitos claros e ações imediatas.
Outro sinal de alerta? Uma premissa muito passiva.
"Uma mulher vive em um mundo distópico." (O que a motiva a agir?)
"Um detetive investiga um assassinato." (Por que esse caso específico importa?)
"Um grupo de amigos sai para uma viagem de carro." (O que acontece nessa viagem? Onde está a tensão ou o risco?)
Esses exemplos sugerem um cenário sem atrito ou urgência. Se sua história pode ser resumida como "um personagem existe em uma situação", ainda não chegamos lá.
Versões mais completas seriam:
"Uma jovem se oferece para lutar em batalhas mortais televisionadas para proteger sua irmã mais nova, desencadeando uma rebelião contra um governo opressor." (Jogos Vorazes)
"Um detetive persegue obsessivamente um assassino em série que tem como alvo criminosos, levando-o a uma perigosa zona cinzenta moral." (Death Note)
"Um grupo de amigos em uma viagem por uma estrada remota desperta acidentalmente um mal ancestral e precisa lutar para sobreviver à noite." (O Segredo da Cabana)
Aqui, os protagonistas são forçados a entrar em conflitos imediatos e envolventes.
Por fim, tenha cuidado com premissas sem consequências.
Por exemplo:
"Um grupo de amigos planeja uma festa." (A menos que essa festa determine o destino do universo ou pelo menos o futuro deles, os leitores podem não se importar.
Uma versão mais forte seria:
"Um grupo de adolescentes desajustados dá uma festa épica para reinventar sua reputação, mas uma noite desastrosa muda suas vidas para sempre." (Projeto X)
Ao criar uma premissa que faça o personagem ganhar ou perder algo, torna a premissa verdadeiramente cativante. Assim:
Evite cenários vagos e sem um conflito claro.
Garanta que seu protagonista enfrente desafios e antagonistas.
Crie riscos/consequências que faça diferença para a trama dos personagens.
Como desenvolver uma premissa mais sólida
Adicione um limite de tempo
Dê ao seu protagonista um prazo limite, algo que o force a agir agora. Em vez de "um detetive investiga um assassinato", tente "um detetive tem 24 horas para solucionar um assassinato antes que o assassino ataque novamente".
Em vez de "uma mulher descobre que consegue ver fantasmas", tente "uma mulher percebe que só tem uma semana para ajudar um espírito inquieto a encontrar a paz antes que ele a consuma".
“Ela precisa decifrar o texto antigo antes do amanhecer, ou o demônio despertará.” A urgência aumenta a tensão.
Aumente os riscos
Se o herói falhar, ele perde mais do que apenas uma batalha, talvez perca a dignidade, amor ou liberdade. Faça com que a derrota machuque, ligando o resultado ao pior medo ou ao sonho mais importante do seu herói.
Pergunte: O que acontece se ele falhar?
Em vez de "uma cientista cria uma IA poderosa", tente "uma cientista cria uma IA que começa a reescrever sua própria programação, e ela precisa desligá-la antes que IA destrua o livre-arbítrio humano".
Em vez de "um menino descobre uma espada mágica", tente "um menino descobre uma espada mágica, mas toda vez que a usa, alguém que ele ama morre".
Prenda seu personagem
Coloque seu protagonista diante de uma situação sem saída. Se ele fugir, vão sacrificar algo precioso; se ele ficar, as consequências serão ainda maiores. Tenha certeza que seu protagonista não possa desistir. Se ele puder, a história desmorona.
Em vez de "uma mulher está presa em um loop temporal", tente "uma mulher está presa em um loop temporal — mas toda vez que ela morre, outra pessoa toma o seu lugar".
Em vez de "um ladrão é contratado para um assalto", tente "um ladrão é contratado para um assalto, mas se ele se recusar, sua família será morta".
Um adversário à altura
Seu protagonista precisa de um oponente astuto que o leve ao extremo, alguém que os objetivos entrem em conflito diretamente aos seus. Sim, a história de um protagonista nunca está completa sem seu antagonista.
Em vez de "uma hacker tenta enganar uma IA avançada", tente "uma hacker luta contra uma IA de autoaprendizagem que prevê cada um de seus movimentos e a prende em um labirinto digital mortal".
Em vez de "um detetive caça um assassino", tente "um detetive precisa capturar um brilhante assassino em série que conhece seus segredos mais obscuros, e os usa contra ele".
Uma premissa excelente força uma escolha: onde ambas são opções terríveis. Quer seja a aumentar os riscos ou colocar um limite de tempo, todos são boas sugestões para evoluir nossas narrativas
Perguntas para descobrir a premissa da sua história
Personagem: Quem é o seu personagem principal? O que eles querem, temem ou têm a perder?
Conflito Central: Quem se opõe ao protagonista ou quais são os dilemas que afligem o protagonista durante o enredo? Por que ele não pode desistir?
Consequências: O que acontece se ele falhar ou desistir? Como essas consequências/riscos afetam o personagem emocionalmente, e se afetam outros personagens e o mundo ao redor.
Conclusão
Enfim chegamos ao fim de mais um post! Ele ficou um pouco maior porque eu queria encerrar o assunto, porém, foi interessante pensar de uma forma mais aprofundada sobre o assunto. Pois esse, é meu conselho mais sincero: se você não quiser planejar a história completamente, está tudo bem, porém, pensar nos pontos principais do enredo torna tudo mais fácil. E não há forma mais simples do que a premissa, e eu te prometo, no futuro, vão aparecer bem menos “bloqueios criativos”. Mas antes de nos despedirmos, gostaria de deixar um exercício prático! Abaixo seguem alguns conceitos para nos ajudar a criar nossas premissas. Boa escrita!
Brainstorming para Premissa Narrativa
Basicamente, é um modelo para criarmos uma premissa forte. Vamos começar com um brainstorming onde nos focaremos em apresentar o protagonista, o conflito e os riscos envolvidos. Por exemplo:
Protagonista: Beth, uma hacker adolescente inteligente e curiosa.
Conflito: Ela rouba um arquivo criptografado de um chefão corporativo e descobre que ele contém tecnologia de controle mental operada por IA, programada para ativar em 48 horas.
Risco: Se ela não conseguir decifrar e expor o código a tempo, milhões de cidadãos, incluindo sua própria família, ficarão sob o controle da corporação.
Reviravolta: A única pessoa que pode ajudá-la a decifrá-lo é uma engenheira com má reputação que afirma que a tecnologia é uma invenção sua, projetada para proteger as pessoas, não para escravizá-las.
Em poucas linhas, estabelecemos um cenário repleto de tensão, um cronômetro correndo, interesses pessoais em jogo e uma grande questão moral. É assim que se conquista o leitor desde o início. Agora, é sua vez. Tente definir os pontos principais do seu enredo com esse pequeno roteiro, mas não se preocupe, mudanças podem ser feitas conforme você desenvolve seu texto
Protagonista:
Conflito:
Risco:
Reviravolta:
Nos vemos na próxima vez. Não se esqueçam de deixar comentários e sugestões. A caixa de perguntas está sempre aberta.