O Uivo do Lobisomem
por Tiago Amaral
Jack era um homem marcado pela solidão. Vivendo isolado numa velha cabana de madeira nas profundezas das montanhas, ele carregava um fardo que o dilacerava a cada ciclo lunar. Havia noites em que o mundo inteiro parecia conspirar contra ele — e naquela noite, a lua estava cheia. Cheia demais.
O céu estava limpo, o ar cortante. Jack já sabia: aquela seria mais uma noite de dor, uma metamorfose brutal que o arrancaria da sanidade e o atiraria num abismo de selvageria.
A quilômetros dali, cinco jovens, alheios ao terror que os aguardava, se dirigiam animadamente às montanhas para acampar. Queriam distância da cidade, das responsabilidades e dos ruídos da civilização.
James, o mais velho, dirigia a caminhonete. Tinha 25 anos e um porte atlético, com o espírito de liderança de quem já vivera mais do que gostaria. Robert, aos 17, era impulsivo e tentara discutir por estar aprendendo a dirigir. Steve, o caçula de 16, carregava uma câmera e a mania de filmar tudo. Ao lado dele, sua irmã Keity, de 20, madura e inteligente, acompanhava Julya — amiga doce e sensível.
Chegaram à clareira antes do entardecer. Montaram barracas, exploraram trilhas, mergulharam no lago. Riam, registravam tudo com a câmera de Steve. A floresta parecia acolhedora... até que a noite caiu, silenciosa, como um manto de chumbo. E então os uivos começaram.
Jack prendeu todas as janelas, tentou se cegar à lua, mas uma rajada de vento traiçoeira escancarou a veneziana. A luz dourada da lua cheia invadiu o cômodo e atingiu seu rosto como uma maldição ancestral. O uivo que ecoou a seguir não era humano. Nem completamente animal. Era um grito primitivo, selvagem, ancestral.
Veias saltaram sob a pele. Ossos estalaram como madeira sendo partida. Pelos irromperam como ervas daninhas. Jack não era mais Jack.
Ele sentiu o cheiro. Carne humana. Fresca.
As barracas estavam silenciosas. Até que o estalar de galhos secos sob garras monstruosas despertou Keity.
— Você ouviu isso? — sussurrou Julya.
Keity abriu o zíper da barraca lentamente e arregalou os olhos.
— Meu Deus... é... é um lobisomem.
James e Robert espiaram também. O terror se instalou. Eles tinham um sinalizador. James o lançou ao longe. A criatura rosnou, confusa, e disparou atrás da luz vermelha.
— Corram! Cada um para um lado! — gritou James. — Nos encontramos na caminhonete!
Julya tropeçou, correu às cegas, a fera quase a alcançou — até que um novo sinalizador atraiu a besta. Julya chegou à caminhonete. Logo Keity bateu na janela desesperada. Entraram. Steve e Robert logo se juntaram a elas. James apareceu por último, suado e pálido. Tentou dar partida. Nada. O motor apenas engasgava.
A criatura pulou sobre o capô. Garras arranhavam o para-brisa. Os olhos da fera eram dois poços de ódio. Steve tremia, a câmera ainda filmando.
— Tem mais um sinalizador! — gritou Julya.
James o acendeu e jogou para longe. A criatura, hipnotizada, saltou em sua direção.
— Meu pai deixou um rifle no porta-malas! — disse James.
Saiu do carro, tropeçou. A chave caiu. Recuperou-se. Abriu o compartimento e puxou o rifle. A criatura já voltava. James mirou, o dedo apertou o gatilho — um disparo seco ecoou pela floresta.
A fera caiu.
Silêncio.
Respirações ofegantes. Choro contido. O motor finalmente respondeu. A caminhonete sumiu estrada abaixo.
— Acertei entre os olhos — murmurou James, ofegante. — Acho...
Mas ninguém viu o corpo. E ninguém sabe se Jack... morreu.
Ou apenas esperou a próxima lua cheia.


















