Gênesis e Apocalipse
No início, éramos você e eu.
O sentimento de se apaixonar é exclusivo. Somente os dois amantes o sentem. Apaixonar-se nunca é, duas vezes, igual. Ou milhares de vezes. Milhares de amores virão de milhares de formas diferentes.
Você e eu viemos da nossa própria forma. Lenta, divertida, como se não amar fosse fácil. Não poderia acontecer e tínhamos nossos olhos abertos a isso. Não podíamos amar. "Você tem cara de quem vai arruinar minha vida" e ríamos. Como se fosse possível pelo simples fato de estarmos esperando. Estar preparado não adianta nada. Pode-se levantar cinco mil escudos e basta apenas uma flecha entre eles para desfazer toda a formação. O amor é sempre um campo de batalha.
É muito mais difícil, no entanto, quando se está em lados opostos desse campo. Não se espera nunca ficar em lados opostos porque nunca se quis por tanto sentimento para começar. Podia ter sido um tanto faz se nós conseguíssemos nos contentar com pouco. Com menos, com qualquer coisa normal. Mas éramos você e eu, de corações gigantes e palavras meio tortas. Meio esquisitos, com piadas que ninguém mais ria além de você e eu. Meio intensos demais, com vontades que ninguém entendia, nem você e eu. Novos demais, sem ideia do que viria, você e eu.
Nós nos deixamos levar pela quantidade de fatos, de conversas, de sentimentos. Nós nos deixamos levar por nós mesmos e pelos outros. Que triste, nós nos deixamos levar tanto pelos outros. Pelo que pensávamos do que os outros pensavam de nós. Que triste, nós só pensávamos que era impossível amar alguém tão cedo, tão logo. Os outros deveriam estar certos que não havia como amar alguém tão cedo, tão logo. Só necessitava vida e tempo. Passaria. Passaria cedo, passaria logo.
Sempre errados você e eu. Entrando em batalhas em que nenhum podia ganhar. Que ninguém queria nem ganhar. Batalhas em que os lados se diferiam entre as vítimas e os grandiosos. Escolhemos nossos lados, sabendo sempre que bastava uma flecha entre nossos escudos. Fomos alvejados de flechas em ambos os lados sem nem saber de onde viera a primeira. Terminamos rasgados, arrasados em campos de sangue, com raiva, com ódio. Afinal, como pudera, meu amor?!
Meu amor.
Meu cruel, impiedoso, frio amor.
O amor da minha vida.
O sádico amor da minha vida.
Dói demais.
Não pode ser. Todo mundo diz que não pode ser.
Não tem como ser.
Não era.
Olho para frente. Sempre em frente.
Não era?!










