Carta a mim, em travessia
Hoje escrevo com o peso de muitos silêncios e a urgência de uma verdade que pulsa mesmo quando tudo parece paralisado.
Não sei mais onde pertenço. E talvez seja porque, por tanto tempo, tentei caber em lugares que não me viam, nem como presença, nem como ausência. Tentei ser forte, independente, fazer tudo sozinha, como se bastasse cumprir tarefas para conquistar dignidade. Mas descobri que força não é negação de dor. É poder olhar pra ela sem fugir.
A faculdade, que antes era promessa de sentido, agora me esmaga. Me sinto invisível, ignorada, como quem sussurra em uma sala cheia de vozes que nunca se voltam. É duro admitir: aquilo que desejei tanto hoje me causa medo. E o medo cresce quando me esforço tanto para não mostrar o quanto me sinto frágil. Mas eu sou, e tudo bem. A minha sensibilidade não é fraqueza, é linguagem.
Fico me perguntando se há um lugar onde eu possa existir por inteiro, sem precisar me encaixar à força. Se há um modo de viver do que me atravessa sem me adoecer no processo. Já tive formações, já mudei de rumo, já questionei tudo de novo. A sensação de estar sempre recomeçando, sem chão firme, sem resposta certa, me angustia. Mas talvez esse vazio que arde também seja espaço fértil.
Eu não sou um rótulo. Não sou apenas a ansiedade que me visita. Não sou as projeções de desconhecidos. Eu sou travessia. E ainda que às vezes pense em desistir, algo em mim insiste, mesmo pequeno, mesmo frágil, mesmo em silêncio.
Quero encontrar formas de estar no mundo que não me esmaguem. Quero poder criar, escrever, imaginar. Quero ganhar meu sustento com dignidade, mas sem ter que abandonar minha delicadeza no caminho. Quero um futuro que me abrace ou que pelo menos me escute.
Hoje, tudo que posso prometer a mim mesma é: vou seguir experimentando. Talvez eu crie outro caminho, um que ainda não existe. Talvez eu falhe. Mas entre o medo da falha e o vazio da paralisia, escolho arriscar.
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Com afeto, coragem e cansaço,