Um quarto
Hoje me parece que já faz tanto tempo que aconteceu tudo o que já me aconteceu. A melancolia acompanha a volta do relógio que chega a esse quarto. Chegamos a um quarto de um século, pela primeira e única vez. O ciclo que se repete a cada ano. Eu resolvi mudar. Trocar meus versos pela prosa. Não que eu seja uma boa escritora mas eu tento me expressar. Aqui, guardo relatos da minha experiência emocional com o mundo nos últimos dez anos. E dessa vez resolvi frear as expectativas e frustrações para olhar pra dentro de mim e de tudo que vivi. Não espero mais homenagens ou demonstrações de afeto daqueles que passaram em minha vida e levaram consigo sorrisos meus. Guardo afetos e momentos em lugares privilegiados do meu coração. Estou aprendendo a me acolher e extrair o que há de melhor em mim. Tornar agradável a minha própria companhia. Por essa razão, hoje o que mais me importa é o que eu farei por mim. Já que eu carrego esse corpo de amor e angústias há um quarto de século. Sempre escrevi em uma linguagem muito subliminar e esperava que meus mistérios fossem desvendados por um amor tão idealizado. Toda essa bobagem fez eu chegar até aqui, onde busco o máximo de clareza. Estou mudando a cada dia e muitas vezes não consigo enxergar o resultado de cada tijolinho que já me propus a construir. Me firmo agora no presente sem deixar que o passado me assombre. Eu sou todo amor que já senti e ainda sou capaz de sentir. Eu sou toda a tristeza que já me derrubou e ainda derruba. Eu li que a vida é a história de como morremos, e eu imagino estar em um quarto do máximo que eu poderia viver. Mas esse futuro eu não posso prever em nenhuma função matemática. A idade é linear mas poucas coisas na minha vida seguem esse padrão. As ondas me representam muito melhor. Um quarto sempre foi tudo pra mim mas agora eu quero o mundo. Hoje eu quero o que me faz bem, o que faz sentido e me faz sentir viva. Deixar minha alma florescer, é tempo de ecdise. Mais um inverno que se completa para dar inicio a mais uma primavera. Os ciclos ocorrem dentro e fora de mim. Do meu fascínio eu sou grata por cada organela citoplasmática que me sustentou até aqui e as que me sustentarão até o dia de minha decomposição. Seremos eternos na natureza.








