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O perigo de se deixar ser engolida pela indústria do entretenimento
Publicado por: Catarina Mendes - Junho 2021, edição 0001
É noite de domingo e domingos são para descanso.
Eu fiz um pacto comigo mesma em que tiraria os domingos para não fazer nada além de rotina de autocuidado e me dar descanso.
Algo bem justo e mais do que necessário nos tempos em que vivemos. Um dos maiores atos de amor que poderíamos fazer com nós mesmas.
Pena que nem todo mundo pensa assim…
Bom, o fato é: não faz muito tempo que eu aprendi a duras penas que ou eu foco a atenção ao meu corpo físico, mental e espiritual ou eu não sobrevivo viva ainda nesse ano, o que me levou a tomar decisões muito importantes e sensatas como a de escolher bem no que gastar meu tempo e em como bem usa-lo.
Pois é, eu levei muitos anos para entender de verdade (ainda tô aprendendo) que o tempo é o meu recurso mais valioso. O nosso! Nos é dado para usarmos com sabedoria mas ao invés disso o que fazemos? Bom, eu vou chegar lá mais adiante.
Voltando para a noite de domingo, eu tinha 2 horas para me distrair com algum filme ou alguma coisa que me entretesse antes de ir dormir.
Não tava cansada, mas ainda me restava essa quantidade de horas até que eu pudesse dar meu dia por finalizado e ir ter minhas preciosas horas de sono, quando resolvi assistir a um filme que tava na sessão Minha Lista lá no Netflix, Monsieur e Madame Aldeman.
Eu tinha colocado ele na minha lista por um motivo bem estúpido.
Ainda trabalhava na distribuidora responsável pelo filme quando eu tomei conhecimento dele e, como amante do cinema francês que sou e por até então, naquela época, dar muita importância para o que os outros diziam a respeito de quase tudo nessa vida, eu acabei vendo alguns comentários sobre, da própria equipe da distribuidora, e acabei pensando: nossa, é um filme que eu não posso deixar de ver algum dia, parece ser daqueles você não pode deixar de ver antes de morrer ou do selo filmes que se você assistir vai te dar pontos na carteirinha de culta com rica bagagem.
bobinha…
Enfim, eu não queria assistir algo complexo, tava afim de assistir uma coisa leve mesmo, já que eu já tava prestes a ir dormir, algo como uma comédia romântica, por que não?
Resolvi colocar o filme pra ver e primeiro erro: ter ido pra Netflix, segundo erro: ter escolhido assistir ao dito filme e perdido 2 horas preciosas da minha vida consumindo algo chulo.
Na verdade, o maior erro que eu cometi, de todos os erros foi eu ter adicionado ele na minha lista sem nem mesmo ter visto o trailer e tirado minhas próprias conclusões. Eu apenas fui na opinião dos outros.
E foi esse um dos motivos que me levou a escrever esse artigo.
Monsieur e Madame Aldeman é um filme terrível. C’est vrai!
Terrivelmente bom pra quem gosta de filmes como esse, que por fora aparenta ser uma divertida história de amor, de um casal que se respeita e se ama e conforme o tempo vai passando a gente vai acompanhando a sua trajetória, se alegrando e se emocionando com sua história. Uma bem interessante e divertida que realmente rende uma comédia digna de ser documentada em telas, como ver um gostoso álbum de fotografias, quando na verdade você acaba percebendo que se trata de uma relação terrivelmente doentia.
Uma relação abusiva em que a madame em questão, pobrezinha, cega de amor por um homem completamente medíocre, inseguro sobre si mesmo e seus talentos, imerso numa síndrome do impostor mas com um enorme ego inflado, acabava sofrendo na mão dele humilhações diversas por estar completamente cega pelo que ela achava ser o seu verdadeiro amor. Mas ela sabia disso só não pensava em largá-lo, como se puxada por uma terrível força magnética.
Sem contar que era ela quem escrevia os livros do marido, fazendo ele crescer em sua carreira de escritor, chegando até a levar (ela) os prêmios, mas era ele quem recebia em seu lugar, e colhia os louros de sua profissão às custas da esposa, a qual ele fazia questão de tratar como um lixo, se mostrando sempre superior.
Ele a desprezava desde o dia em que a viu.
Esse filme me gerou grandes desconfortos especialmente porque 1. eu vesti a pele de Sara não há muito tempo atrás, em uma relação e me vi em várias cenas como um reflexo seu, doida de amores por uma figura completamente desprezível e insegura de si, mas com muita arrogância daquelas geradas por quem tem ego inflado como um boneco de posto de gasolina, e 2. eu senti uma profunda agonia e raiva pelo fato de que era ela a principal cabeça por trás do sucesso do marido e no entanto, ele morreu como O Grande Escritor (ohhh! gênio).
Me lembrou muito o Big Eyes (2014), que inclusive é uma história real sendo pincelada em tela de forma muito bem executada pelo Tim Burton. É praticamente a mesma história, só mudam os personagens e a localização.
Eu tenho vários pontos pra falar sobre esse filme deprimente, já que ele traz questões muito sérias, como as que citei acima, questões essas que merecem ser colocadas em pauta em todos os canais e veículos e cada vez mais, repetidamente, para que assim se torne algo absorvido em nossa sociedade tanto quanto aceitamos que 1+1 é igual a 2 sem nem questionarmos.
Nós precisamos falar mais sobre isso para nos reeducarmos. Inclusive, por que que eu não vejo artigos ou comentários sobre esse filme que tragam essa perspectiva?
Por que ninguém tá comentando sobre isso?
Por que não há textos sobre isso?
Tá vendo? Esse fato em si já é um estudo à parte.
O fato é que depois de ter uma noite de sono perturbada por causa desse filme, eu tomei outra importante decisão: cuidar do que eu assisto, do que eu consumo, principalmente por ser uma amante fervorosa de produtos culturais e aí estão inclusos filmes, séries, livros, música…
Eu decidi olhar mais pro que eu ando consumindo e consumir conscientemente. A partir de todo o desconforto e reflexão, comecei a fazer uma investigação e percebi que tinha muita coisa que antes eu colocava as mãos pra cima e endeusava mas que na realidade são parte de opiniões de terceiros e não porque eu realmente e genuinamente gostava ou era algo que me agregava e me acrescentava, considerando minha trajetória, minha história, minha essência, meus gostos e meu propósito de vida/trabalho.
Mas isso vem depois de um trabalho de auto conhecimento grande, é fato.
Por isso eu te pergunto: Como tá sua relação consigo?
Você tem cuidado de si?
Já parou pra pensar que tem muita coisa que você assiste porque os outros falam, a mídia fala, os jornais falam, as revistas falam (ah, hello!), você viu no seu Instagram, você viu no site famosinho por divulgar listas de eventos e conteúdos descolados para conhecer, você viu o seu amigo ou amigo do seu amigo que nem é seu amigo de verdade falando…
Você passa a consumir esses filmes, séries, músicas, clipes, porque te falaram que era bom mas com base no que?
E você?
Realmente isso é pra você?
Isso encaixa com a sua essência?
Vale a pena você dar seu tempo para isso?
O que te agrada?
O que te acrescenta?
Se você pensar em você como um corpo que veio a esse planeta com uma finalidade e que seu corpo é o seu bem mais precioso junto com o tempo que você tem que é todo o seu tesouro (leia-se: dinheiro) que você tem, você desperdiçaria ele ou usaria de forma auto consciente?
Baseado nisso, o que realmente é digno de sua atenção?
E aí eu te faço mais perguntas: Você tem mesmo a necessidade de consumir esses produtos todos os dias? A cada segundo?
Você tem se dado tempo pra digerir?
O que você acha disso?
Chegamos em um ponto do capitalismo em que a única grande arma de dominação é através da indústria do entretenimento é aí que você vê a monetização de coisas que até então eram puramente educativas ou não tinham uma finalidade de serem comercializadas, como os conteúdos. Conteúdos de vídeo, textos e até mesmo música, perderam sua finalidade em si já que a mentalidade de hoje tem sido: tem que ter visualizações! Atrair leads. Tem que ter streaming! Taca streaming na lenda!
E assim os artistas vão virando cada vez mais reféns ou robozinhos dessa indústria terrível e tão deprimente quanto Monsieur e Madame Aldeman.
Eu poderia citar uma grande quantidade de artistas da própria indústria da música que se venderam para ela e atuam como seus cachorrinhos, se preocupando em lançar singles um atrás do outro para serem hits e ganharem não sei quantos milhões de streamings, e terem seus clipes vistos por não sei quantos milhões de usuários (tsc tsc), e sofrem do pior tipo de ansiedade que se pode ter: essa ansiedade por publicar e publicar sem parar, estar sempre na frente, lançar e lançar compulsivamente…
Não é a toa que desde o primórdio da era da internet isso já foi pauta principal de canções de diversos outros artistas, alguns bem consagrados e que hoje são os que permanecem fiéis em suas próprias letras.
Quando a qualidade perde espaço para a quantidade temos aí um problema gravíssimo porque a coisa perde sua finalidade, seu propósito e convenhamos, arte é para inspirar mas também para fazer pensar e causar transformações, discussões…
Como que se vai pensar ou desenvolver senso crítico sendo bombardeado de novidades a cada semana, a cada dia?
Uma novidade no Netflix todos os dias — saudades de quando Netflix era apenas uma novidade que poucas pessoas assinavam porque ainda tínhamos um pouco de dignidade.
Agora é completamente doentio, a coisa ficou doentia e é creepy entrar na plataforma e todo dia ter alguma novidade! A lógica de produção cultural virou literalmente a dinâmica de fritar pastéis na feira.
E aí eu te pergunto mais uma vez, você realmente acha que vale a pena?
Você está cuidando de você?
Prestar a atenção no que você assiste, lê e ouve, é tão importante quanto na periodicidade, ou também frequência, em que você digere essas informações.
E por que eu falo isso? Pelo simples motivo que nossa comunicação tem ficado cada vez mais defasada, se deteriorando aos poucos e de uma forma completamente assustadora.
É assustador ver a criatura em que nos transformamos, coletivamente falando, ao nos comunicarmos uns com os outros. Não temos mais tempo para ouvir, não temos mais tempo para áudios longos, não temos tempo não! Simplesmente não queremos saber. Queremos tudo pra ontem e quanto mais melhor.
E quem está nessa cama de gato, dançando conforme essa música, provavelmente está mais doente e em perigo do que quem pegou covid-19, porque esse é sim o vírus mais letal da humanidade, a cultura do imediatismo.
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