Acabei de assistir a Don’t Look Up e já digo que o filme é um soco na cara de todos, sem poupar nada e ninguém, uma crítica tão pungente e devastadora da sociedade atual quanto o cometa assassino “planet killer” cuja chegada iminente é anunciada e em princípio desacreditada.
Muitos o tem saudado como uma defesa intransigente da ciência acadêmica e uma condenação ao negacionismo e ao conspiracionismo em boa e oportuna hora, numa hora em que ainda haveria tempo, mesmo com tantas mortes, para que esses renitentes pecadores se “arrependam” e se convertam de vez em crentes e fiéis seguidores da Igreja do Covid, parem de questionar a existência do vírus e finalmente façam mea culpa e se rendam às vacinas. Sim, o cometa, que seria uma metáfora do vírus invadindo e destruindo um corpo, está perto, mas ainda não chegou, digo, para os que tiveram a sorte de não terem sido contaminados pelo vírus.
Seria apenas isso se ao longo do filme as críticas não atingissem também a própria ciência que se prostitui - quando o astrônomo Leonardo DiCaprio pretere a ciência pela mídia e cede ao assédio da jornalista Cate Blanchett, traindo sua esposa, bem como quando a candidata a PhD Jennifer Lawrence, ao ser fritada, cai no desbunde - e como o cometa vai devastando tudo pelo caminho: a política e o Estado - a presidente dos Estados Unidos Meryl Street só pensa em sua popularidade e seu assessor é um boçal -, os militares, a NASA, o show business, as mídias sociais e o próprio povo idiotizado que não passa de gado e massa de manobra.
Peter Isherwell (Mark Rylance), um bilionário da tecnologia poderoso, CEO da corporação BASH, que paira acima de todos como um deus e direciona as ações da presidente e da NASA, e que no fim é quem sela o destino da humanidade, é a perfeita encarnação dos novos “visionários” e “utopistas” do Vale do Silício, e assim quer ser encarado, rechaçando ser um “mero” empresário, quando assim é designado. O perigo maior para o mundo, alerta o filme, não é tanto o cometa, que poderia ter sua rota redirecionada a tempo não fosse justamente a intervenção de Isherwell, que persuade a todos de que com seus drones seria capaz de extrair seus valiosos minérios que não só o deixariam mais rico e poderoso mas por tabela acabaria com a humanidade, e sim esses loucos como Jeff Bezos, Elon Musk, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Larry Page, lembrando que metade dos homens mais ricos do mundo estão no Vale do Silício.
E quando todo o discurso do filme parecia a favor da ciência, eis que o final é de surpreender. A ciência e a tecnologia falham fragorosamente em deter o cometa, que surge nos céus como um instrumento apocalíptico e de justiça do próprio Deus, de quem todos, em sua soberba e prepotência, haviam se esquecido. Ciente, cientificamente, de que nada mais restaria a fazer, o astrônomo DiCaprio reata com sua esposa e retorna à sua velha casa e ao seio de sua família, morrendo junto com eles e com os amigos que o acompanharam, plácida e complacentemente, não sem antes realizar um ato de comunhão à mesa com direito à oração feita com a ajuda do namorado evangélico de Jennifer Lawrence. Mais conservador que isso, impossível.
Enquanto o mundo inteiro é implacavelmente arrasado, Isherwell e uma pequena elite, incluindo a presidente dos EUA e seu staff, deixa o planeta a bordo de naves espaciais que haviam sido prévia e preventivamente construídas para uma ocasião como esta. Então o filme terminaria dessa forma, com os responsáveis pelo fim da humanidade indo reiniciar as suas bobagens em outro acalentador planeta?
Eis então que 27.000 anos depois, isso mesmo, as naves pousam no que parece ser a nova versão do Paraíso, e os tripulantes, que haviam sido mantidos vivos criogenicamente, despertam de seus sonos milenares e saem nus em pelo para fora, encantados com o cenário de esplêndida beleza. E antes que tenham tempo de comemorar, logo são devorados pelos animais aparentemente dóceis e inofensivos que se acercaram das naves...
A questão final é: será que o filme foi feito, tal como muitos foram feitos antes da pandemia, para nos alertar e nos preparar para uma catástrofe semelhante que se avizinha? Há um filme dentro deste filme chamado Total Devastation, que Hollywood produzira às pressas para capitalizar a onda de expectativa quanto a chegada do cometa assassino. E tal como previra esse filme imaginado, no filme realizado a catástrofe realmente ocorre...
Se hoje em dia nada nem ninguém se salva, como no filme nada nem ninguém se salva, a não ser talvez a alma dos pecadores arrependidos, então é certo que o nosso pobre mundo já está condenado.