“Run fast for your mother, run fast for your father
Run for your children, for your sisters and brothers
Leave all your love and your longing behind
You can't carry it with you if you want to survive”
Robin nunca foi realmente apegada a tradições ou datas comemorativas. Com parte da infância sendo vivida na estrada e o resto da vida em um acampamento pagão, podia-se dizer que o Natal nunca esteve muito atrelado as suas raízes. No entanto, aquele talvez fosse o primeiro natal em que a semideusa parecia compreender o verdadeiro significado da data e do que muito chamavam de “milagre de natal” para ela sem dúvidas havia acontecido alguns dias antes com o retorno de Sebastian.
A semana havia sido atarefada entre o cuidado com a recuperação do irmão gêmeo, que parecia praticamente recuperado se comparado ao dia de sua volta, e as atividades de conselheira, mas naquela noite tudo o que Alinsky queria era poder aproveitar a calmaria de seus pensamentos e a facilidade que era ter sua família reunida maia uma vez. Ainda que estivesse quase o tempo todo sentada junto aos meios-irmãos, ainda pôde aproveitar da companhia de Thorn, além de ter encontrado Ellie no começo da noite, trazendo ainda mais a sensação de que tudo parecia finalmente em seu devido lugar depois de muito tempo.
Após fazer mais uma oferenda ao pai, agradecendo mais uma vez por ter encontrado e guiado seu irmão gêmeo para casa, Robin seguiu para aproveitar o resto da noite. O riso frouxo nos lábios entregava que a tensão que por muito tempo fora constante nos ombros da filha de Hermes parecia finalmente ter desaparecido. Chegou a ver como Thorn havia levantado de supetão da mesa, acompanhando os passos do amigo até a saída do salão, mas não houve nenhum alarde que fizesse com que uma preocupação surgisse naquele momento. Talvez fosse apenas um contratempo.
Em determinado momento, tirou um pequeno envelope improvisado nas vestes entregando para Sebastian o presente de Natal. “Acho que já está mais do que na hora de você ter isso de volta... Vê se não perde de novo” brincou pressionando os lábios tentando conter o sorriso largo e cheio de expectativa, enquanto esperava que o irmão abrisse o envelope com o antigo colar que Robin havia guardado pelos anos em que ele esteve distante. Apesar de ter se tornado muito mais do que um acessório, Robin sentia que poderia deixar seu amuleto de lado agora que sua principal missão parecia ter sido cumprida.
Pouco minutos depois o silêncio que antes carregava apenas a brisa da noite festiva se tornou pesado, quando Robin ouviu o primeiro uivo.
Levantou-se de imediato, os olhos verdes atentos aos sinais ao redor, enquanto uma das mãos tateava os fios ruivos em busca do clipe/adaga. Os demais campistas já estavam inquietos, enquanto os sons de aproximavam. “Precisamos sair daqui” alertou ao irmão, dando a volta na mesa e já fazendo um sinal para que os mais novos se levantassem.
O primeiro lobo irrompeu pelo salão levando tudo o que estava pela frente, fazendo com que o salão se tornasse um verdadeiro pandemônio. O lugar que antes era preenchido por risadas, agora ressoavas gritos, urros de dor e o som agudo das armas se chocando. Robin investiu conta uma das criaturas que avançou contra o pequeno grupo de semideuses sobre sua supervisão, apunhalando o lobo pelo abdome quando este saltou em sua direção. Precisou se apoiar em uma das mesas próximas para não cair com o peso do animal. Preparou a postura defensiva, aumentando o espaço entre os pés para conseguir mais apoio, enquanto varria o lugar em busca de uma saída. “Bash!” gritou chamando pelo mais velho, fazendo uma ceno breve em direção a saída lateral do salão. Aquela seria sua melhor chance para tirar o maior número de campistas do lugar.
“Fiquem abaixados! Vamos abrir o caminho” disse em seguida virando-se par ao grupo que havia se formado perto de si, enquanto esperava que o loiro se preparasse para colocar aquele pequeno plano em prática.
O caminho deveria ser de pelo menos uns quatro metros, mas com todo o caos que os rondava parecia uma distância muito maior. Robin foi guiando os campistas enquanto Sebastian estavam na retaguarda. Uma das grandes vantagens de serem filhos de Hermes era a habilidade de se mover de forma ágil e discreta e aquela era a hora de aproveitar aquele dom. Ainda com a adaga em mãos, a ruiva seguiu o caminho se esgueirando e facilitando a passagem do restante do grupo, até que um semideus que lutava contra um dos lobos foi lançado contra eles. “Merda” esbravejou em um sussurro enquanto ajudava o outro a se levantar, Robin se moveu com agilidade, ainda com a adaga em mãos caso precisasse, e com ajuda conseguiu erguer duas mesas caídas, de forma que ficassem como um pequeno escudo contra os lobos.
Apesar de estar acostumada com o campo de batalha e dificilmente correr de uma luta, naquele momento sua posição de conselheira moldava seus atos. Sua função era tirá-los dali em segurança e por mais que Thorn a tivesse ensinado que a melhor defesa definitivamente ser ao ataque, estando com poucas armas como estavam, aquela não seria uma decisão inteligente.
O restante do caminho até a saída do salão passou como um borrão. Robin empurrava os semideuses para fora enquanto voltava a atenção para Sebastian que vinha um pouco mais atrás. A adaga desferia golpes na tentativa de afastar as feras e feriá-las quando o ataque era mais violento. Sentia a cabeça latejar pelo choque com a mesa que os protegia de uma das investidas do lobo, que quase levou uma de suas irmãs, mas Sebastian foi rápido o suficiente para cravar a espada contra ele, ganhando tempo para a fuga, mesmo que a líder do chalé ainda tenha ficado desnorteada por alguns segundos.
“Os chalés não devem se seguros por enquanto” constatou para os mais velhos do grupo, parando Sebastian ao seu lado para se certificar que não havia nenhum grande ferimento, mas logo notando a extensão do ataque pelo acampamento e a forma com que os lobos investiam contra os semideuses, o objetivo parecia ser eliminar o mais número possível. “Os estábulos devem aguentar” propôs firme, o corpo tomado pela adrenalina, enquanto direcionava o grupo par ao lugar indicado.
Por um momento pensou ter ouvido a voz de Astoria, seguida da de Thorn, fazendo com que Robin cravasse os pés na grama por um momento, buscando o filho de Caos entre os outros campistas. A única coisa que ouviu entre o chiado das armas e os urros de combate foi algo como “você... o tempo todo” o que não lhe trazia nenhuma resposta sobre aquele embate. “Thorn” murmurou para o irmão gêmeo, os olhos atentos ao redor, aflita pela possibilidade de ele estar precisando de ajuda.
No momento seguinte sentiu o corpo ser emburrado pelo irmão gêmeo, que indicava o grupo que a aguardava um pouco mais a frente. Robin pressionou os lábios como se fosse incapaz de tomar uma decisão. Não queira se separar de Sebastian e não ter certeza de que ele estaria em segurança. Precisava saber se algum de seus amigos estava em apuros. Mas também não podia deixar sua responsabilidade e seu dever para com os campistas de lado.
Com uma troca de olhares breve, Robin soube que Sebatian havia tomado a decisão pelos dois e já partia para longe do grupo com a espada em mãos.
A semideusa então se focou no objetivo de chegar aos estábulos, correndo para o encontro do grupo que ainda a esperava, enquanto tentava pegar o caminho mais curto para o lugar, esgueirando-se entre as arvores para que não ficassem muito expostos. Como de costume em situações como aquela, a mão esquerda de Robin foi de encontro com o colar que sempre a acompanhava em busca de amparo, encontrando apenas o pingente restante, já que o outro estava com o dono original. Um suspiro escapou pelos lábios enquanto pediu pela proteção do pai nos pensamentos.
Chegando próximo ao riacho, a tarefa de ser discreto se tornava um pouco mais difícil pelos gravetos secos, pedras e a água que denunciariam facilmente a localização deles. “Shhh... Olhem por onde pisam, falta pouco agora” murmurou como alerta e incentivo para que mantivessem a esperança, mandando agora um outro campista na frente para ficasse na retaguarda. O silêncio com a batalha de fundo tornava a respiração deles mais alta, fazendo com que a tensão tomasse conta de Robin novamente. Estavam tão perto... Até que o som de uma das meias-irmãs se chocando com a água fez com que todos parassem abruptamente. Estáticos. Os olhos verdes se atentaram a qualquer sinal da presença de um lobo por perto, voltando o caminho para servir de escudo se necessário. Foi quando viu não só um, mas dois deles.
Os pés se firmaram no chão, a adaga firme em suas mãos, pronta para o ataque. Esperou se agarrando na esperança que eles pudessem simplesmente ignorá-los. Até que o primeiro lobo partiu na direção deles. “Vão, rápido!” gritou para que a deixassem se fosse preciso, já correndo na direção da primeira criatura, facilitando um ataque direto. Robin saltou com maestria na direção do lobo, a adaga esticada acima do corpo para que seu campo de alvo fosse maior. Chegou a sentir a lâmina perfurar a pele da criatura que urrou de imediato, mas em seguida seu corpo foi lançado contra o chão, arranhando boa parte da extensão de seu lado direito.
Foi só quando se reergueu que Robin notou que o segundo lobo havia investido surpreendentemente contra o primeiro. Os olhos encontraram os azuis acinzentados do animal e ela correu de imediato para recuperar a adaga ainda cravada no pelo do primeiro. A respiração arfou, mas o corpo se mantinha tensionado e em alerta com a possibilidade de ataque. Robin fez menção de dar o primeiro passo, mas uma voz familiar que pela primeira vez lhe trouxe alivio preencheu sua mente.
Rowan. Um riso nervoso escapou pelos lábios da semideusa, que baixou a adaga, recuperando o fôlego. “Você não poderia ter avisado antes?!” retrucou as palavras dele, limpando o sangue da arma na grama. “Está tudo bem, esse aqui tá do nosso lado” murmurou, erguendo as mãos em um sinal para que baixassem um pouco a guarda, ao se aproximar do grupo na companhia do lobisomem. “Agora vamos para aquele maldito estábulo” completou começando a sentir a pele arder pelo impacto contra o solo e a dor de cabeça voltar.
Uma vez no estábulo, o grupo afastou parte do feno para servir como cama, mas também como uma barreira visual caso alguém entrasse ali. Estariam seguros até que a batalha acabasse. Por mais aliviada que estivesse os pensamentos de Robin ainda estavam com aqueles que estavam fora do lugar, Sebastian, Thorn, Ellie e até mesmo Rowan e Brenna, esperando que o acampamento pudesse se reerguer mais uma vez.
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