[25/05/2020] NOTAS
No último ano sonhei que estava em um bar.
Meus dois melhores amigos, frenéticos e impossíveis de serem parados, se aventuravam entre partidas de bilhar e conversas com estranhos. Meu ex também estava perdido em algum canto. Eu me fazia de maduro, fingindo que não me importava.
Eu me sentia pra baixo. Como sempre, toda vez que saio existe aquele momento de olhar pra longe, procurando a linha do horizonte, entregando um vislumbre por trás da máscara social.
Ainda carregava o peso do meu último namoro. As palavras pareciam marcadas na pele. O próprio toque ainda estava marcado.
Eu me sentia miseravelmente sozinho e ingrato por não conseguir acompanhar os demais. Lembrava de cada situação que me fez acreditar, pianíssimo, que eu não era o suficiente pra nada.
Brincava com as pontas dos dedos segurando o cardápio, uma mão no papel e a outra no próprio ombro, buscando algum conforto.
A comanda era de papel cartão. De um lado, a tabela de consumo. Do outro, uma gravura da Vênus de Botticelli. As linhas eram vivas, traçadas em rosa serpenteando até virar azul.
A luz fosforescente acima daquele balcão pequeno fazia tudo ganhar vida. O bar inteiro parecia a personificação da paleta bissexual, como um clipe da Dua Lipa.
Eu não conseguia tirar os olhos daquele cardápio. Achava aquilo de uma beleza excepcional. Saí de órbita.
O barman me trouxe de volta à realidade. Hora tão ocupado que eu mal conseguia enxergar seu rosto correndo de um lado pro outro, naquele momento ele estava com plena atenção em mim.
Lembro que sorria com a confiança de quem sabe exatamente seu lugar no mundo. Havia uma barba, num corte preciso, tamanho perfeito. Tipo de barba que não se pode reproduzir no mundo acordado, só no mundo das ideias.
Ele disse que eu estava me sentindo sozinho, mas não precisava daquilo. Que eu já havia gasto demais. Que não precisava tapar lacunas daquele jeito.
Eu tinha chegado acompanhado naquele bar, mas não precisava sair com a mesma pessoa.
Enquanto falava, desenhava na minha comanda por cima da gravura da Vênus: uma camiseta ¾ branca com mangas vermelhas, tênis, um jean aberto.
Então desenhou a porra de um pau gozando enquanto dizia que eu merecia um cara que me desse toda atenção do mundo e gozasse em cima de mim.
















