Esse ano a repercussão do tema transexualidade ganhou força total na mídia, diversos relatos de pessoas que se reconhecem como homem mesmo biologicamente sendo mulher, e vice e versa. Nesse mesmo ano eu me aceitei como um ftm (female to male ou de mulher para homem) e iniciei minha transição. Mas não é tão simples assim. Durante toda minha vida eu demonstrava sinais do que realmente sou atualmente, um homem. Me recordo de inúmeros fatos da infância que eu tentava me afirmar como um homem, mas um fato que me marcou muito foi quando eu tinha dez anos. Estava a brincar com alguns amigos e observava a fisiologia do corpo deles comparada a minha, naquela época não havia muita diferença, não visivelmente, mas eles tinham volume entre as pernas e eu não, para modificar isso, fui até minha casa e coloquei alguns tecidos dentro da bermuda, formando um certo volume, e assim eu fiquei feliz o dia todo, me sentindo o máximo, muito autoconfiante. Até que chegou a hora de dormir e minha mãe notou algo estranho e retirou os tecidos da minha bermuda, naquele momento me senti um ser frustrado e infeliz, não havia explicação para tal coisa pois ela ainda me via como uma criança normal, e era normal, meninas naquela idade querer se igualar aos meninos.
Eu crescia e aos doze anos tive minha primeira “monstruação” e foi o dia em que tive vontade de tentar suicídio, tamanho o desgosto diante daquela situação. E a adolescência me trouxe descobertas em relação a minha sexualidade, eu descobri que eu amava meninas, só que todos diziam ser errado isso, ainda mais eu, cresci em uma família extremamente tradicional, evangélica, sendo meus pais pastores. Minha mãe talvez sempre soube quem eu sou, mas sempre fez vista grossa. No decorrer da minha adolescência tive muitos amores, sobretudo, amei em silêncio por muito tempo uma colega de classe, que depois viria a se render aos meus sentimentos, correspondendo, aprendi tudo sobre minha sexualidade com ela, descobri diversas coisas, vontades, gostos e afins. Então eu me definia como lésbica, uma mulher lésbica, o que não me deixava muito à vontade tal definição, faltava algo.
Até ali eu ainda buscava uma “cura” para esse turbilhão de sentimentos que eu sentia, para esse sentimento tão intenso, era errado amar uma mulher sendo uma, mas também era errado me sentir homem, disputar força com meus amigos homens cisgenero. A cura eu buscava na religião dos meus pais, onde pessoas impunham as mãos em minha cabeça e expulsavam “demônios e impurezas” em mim, ouvia palestras, lia livros, tentava “resetar” minha mente, reconfigurar como os pastores me diziam, lavagem cerebral, era como se tivesse negando a mim, a minha existência naqueles atos, naqueles rituais, de fato, entre quatorze e dezoito anos foquei em meus estudos, onde era o meu refúgio, pelo menos por enquanto, o que durou até os dezoito anos, quando novamente me apaixonei fatalmente por outra colega de classe, desta vez um amor não correspondido.
Segui minha vida aceitando meu destino, minha natureza, enfim, minha sexualidade estava resolvida, mas algo em mim não me aceitava com as formas do meu corpo, não aceitava o fato de ter menstruação todos os meses, de ter aqueles seios, ser tratado no feminino, essa era a pior parte, na minha cabeça era muito errado, eu só não entendia o porque e ficava bastante irritado, questionava sempre a minha existência, não queria viver assim, daí vieram as três tentativas de suicídio, se era errado então Deus me fez predestinado ao inferno? Se o que eu sentia me fazia ser o pior dos seres humanos porque não acabar logo com isso de uma vez? Era uma dor, uma depressão que eu não conseguia mais socializar com meus pais, familiares, por vezes minha mãe tentava derrubar a barreira da minha bolha de isolamento para saber o porque de tanto choro, de tanta tristeza, mas, na verdade, ela já sabia, as mães sempre sabem mas grande parte faz vista grossa, não aceitam a realidade, não sabem encarar, devemos como filhos, entender, nos colocarmos no lugar deles, nenhum pai e mãe criam seus filhos para sofrer preconceito, correr o risco de ser morto a cada vez que sai a rua, simplesmente pelo fato de vivermos no país mais homofóbico e transfóbico do mundo, o país que mais mata pessoas que ousam ser diferente dos padrões da sociedade, sociedade essa que não sabe respeitar a individualidade de seus semelhantes.
Anos se passaram até chegar ao meu conhecimento sobre o processo de terapia hormonal e
transexualidade. O estalo veio, mas como o ser humano não é adaptado as mudanças, eu também tive medo, eu também não aceitei fácil. Foram alguns meses para me aceitar como um homem trans, até que não aguentava mais o grito da minha alma rejeitando o tipo de tratamento que recebia, minha aparência não passava de fato quem sou, um homem trans. Até que em junho de 2017 eu decidi encarar o processo de transição, decidi mas não iniciei de cara, faltava a coragem para enfrentar a realidade, falar com a família aos poucos, até eu mesmo me acostumar, é doloroso no início, mas após, ao se olhar no espelho a sensação de liberdade é indescritível, estou caminhando para o terceiro mês em transição e creio que nunca me senti tão realizado, não há nada melhor ao ser humano que se encontrar, que conhecer a si mesmo, hoje eu tenho paz e autorrealização, esta é a minha história, esta é a minha vida, e é apenas o início.