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A stress.fm esteve à conversa com Travassos, director artistico do Festival Rescaldo e responsavel pela editora Shhpuma.
Esta conversa teve lugar na Trem Azul, em Lisboa, no dia 10 de Fevereiro de 2014, na semana anterior ao festival arrancar.
Falou-se da história do Rescaldo, da programação desta séptima edição e da Shhpuma, selo que, com cerca de 10 discos editados, já tem um papel fundamental na área da edição discografica aqui por estas bandas.
O Rescaldo vai decorrer de 20 de Fevereiro a 1 de Março de 2014. Podes ver toda a programação AQUI
PLAYLIST:
Timespine (Adriana Sá, Tó Trips / John Klima) - interlace tonal centers / detail
10 000 Russos - Nikolai
Nuno Aroso - DOP2013 Athens
Killimanjaro - Killimanjaro
Joana Sá - Elogio da Desordem
Simão Costa - Pi
Foi nesse cenário que o jovem casal Carlo e Carmen Vidal teve seu bebê, uma menina adorável com um sorriso torto. Receosos que a vida naquele lugar pudesse influenciar negativamente a garota, eles resolvem picar a mula e sair do Bronx, indo morar em algum lugar onde não houvesse negros, judeus ou gays.
A criação da menina é rígida, e Carlo e Carmen não poupam esforços em ensinar seus valores à mocinha, que aos 10 anos de idade começa a se interessar por rock, sendo, contudo, veementemente reprimida pelo pai.
O tempo passa com a menina crescendo revoltada, e aos 16 anos de idade, ela faz as malas e se manda da casa dos pais com um cara que conheceu na rua, sem sequer olhar para trás. Moral da história: amor demais é pior que nenhum.
Triste, não é? Nem tanto. A tragédia que se abateu sobre a família Vidal é a letra de um dos maiores clássicos da era disco, intitulado There But For The Grace Of God Go I, gravado pela one hit band Machine. Lançada em 1979, a canção foi um sucesso estrondoso, de execução obrigatória nas lendárias boates da época, como o Studio 54 (foto abaixo). Na pista, a história de Carlo e Carmen era entoada em coro por gays, negros e judeus descolados, musicalmente unidos contra a caretice e o preconceito.
Contudo, a importância dessa canção vai além do seu sucesso de público. O contexto em que a música foi lançada é emblemático: no final da década de 70, eclodia na Europa e principalmente nos Estados Unidos um forte movimento anti-disco, capitaneado por músicos e fãs de rock, e não era incomum ver nas ruas pessoas usando camisetas com os dizeres “Death to Disco” e “Disco Sucks”.
Os detratores da cultura disco pregavam que a turma de calças boca de sino não passava de um bando de alienados, que só pensavam em vestir roupas da moda, se drogar e dançar até de manhã. O movimento punk, que surgia na época, engrossou o coro contra os disco lovers.
Mas havia algo mais por trás do que parecia ser apenas uma discussão cultural e estética. Uma legião de conservadores norte-americanos – que viam na cultura das discotecas um desvirtuamento dos valores familiares, onde negros, latinos e homossexuais celebravam um paraíso dançante de sexo e drogas – apoiavam com veemência o fim daquele hedonismo musical.
Esse sentimento culminou no evento que ficou conhecido como Disco Demolition Night. Idealizado por um DJ boçal de Chicago, a ideia era aproveitar o intervalo de um jogo de baseball para explodir caixas de vinis de música disco. Milhares de brancos raivosos compareceram, e quando começaram as explosões, invadiram o campo e quebraram o estádio todo.
A partir desse acontecimento, foi decretada a morte da cultura disco, e tudo o que se relacionava com ela passou a ser out. As boates fecharam e as rádios voltaram dedicar suas programações ao rock e à folk music.
Nesse contexto, There But For The Grace Of God Go I fica ainda mais interessante, já que a desgraça de Carlo e Carmen é também a vingança daqueles que o casal desprezava. A expressão que dá título à canção, ao que tudo indica, surgiu da boca de John Bradford, um reformista inglês do século XIV que, preso e condenado à morte, ao ver na cadeia um grupo de homens sendo levado à execução teria exclamado “There, but for the grace of God, goes John Bradford”, significando, a grosso modo, que a menos que Deus quisesse diferente, esse também seria o seu destino. Como Deus aparentemente não deu muita bola, Bradford foi queimado vivo em 1555.
Com o passar do tempo, a expressão ganhou uma conotação um pouco diferente, passando a ser utilizada para significar que o infortúnio de alguém hoje pode ser também o seu amanhã, já que nosso destino estaria nas mãos de Deus. E é justamente neste sentido que a canção deve ser entendida – inclusive é possível ouvir, durante sua execução (estou falando agora da música, esqueçam o John Bradford) um dos vocalistas dizer “It could happen to you! It could be me, it could be you!”, reforçando que a miséria de Carlo e Carmen Vidal poderia acontecer com qualquer um.
Mas não aconteceu com qualquer um: Carlo e Carmen, como a letra da música mostra, eram preconceituosos e conservadores – o que não deixa de ser irônico, já que, a julgar pelos seus nomes, tudo leva a crer que eram membros de comunidades ítalo-americanas e latinas do Bronx.
Essa maravilhosa tragédia musical foi, portanto, não apenas a vingança dos moradores do Bronx, como também dos amantes da cultura disco em todo o mundo. Vingança cujo sabor perdura ainda hoje, fazendo com que todos, indiscriminadamente, possam simplesmente dançar em paz.
Aqui está a música e abaixo a letra. Cante junto!
MACHINE – THERE BUT FOR THE GRACE OF GOD GO I
Carlo and Carmen Vidal just had a child
a lovely girl with a crooked smile
Now they’ve got to split
‘cause the Bronx ain’t fit
for a kid to grow up in
Let’s find a place they say
somewhere far away
with no Blacks no Jews and no gays
There but for the grace of God go I
Carmen and her family
left the dirty streets to find a quiet place overseas.