COINCIDENCES? . #mexico #egypt #indonesia #pyramid #piramide #ultimaceia #jesus #jesuschrist #3doors #doors #wtf #omg #what #wow #egito #egipto https://www.instagram.com/p/Byl9-QRgtOO/?igshid=iiqo4vxs165s

seen from United States

seen from United States

seen from United States
seen from China
seen from Canada
seen from Brazil

seen from Costa Rica
seen from United States

seen from Singapore
seen from China
seen from United Arab Emirates

seen from United States

seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from United States
seen from China
seen from United States

seen from Canada
seen from Malaysia
COINCIDENCES? . #mexico #egypt #indonesia #pyramid #piramide #ultimaceia #jesus #jesuschrist #3doors #doors #wtf #omg #what #wow #egito #egipto https://www.instagram.com/p/Byl9-QRgtOO/?igshid=iiqo4vxs165s
Notas sobre o estudo e a memorização do último discurso de Jesus aos discípulos antes da sua morte, entre João 14 e 17
“(1) Não se turbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.”
Só o início deste último discurso de Jesus aos seus discípulos antes da sua morte já nos dá riqueza abundante. Só estes primeiros três versos já chegam para uma refeição completa. E ainda agora a conversa começou. A Palavra de Deus é inesgotável.
Jesus começa falando sobre o medo dos discípulos. Creio que não é possível entender este último discurso de Jesus se não valorizarmos que Jesus coloca o medo como um dos pontos incontornáveis. Talvez isto não queira dizer que o medo é um assunto importante porque os discípulos o trouxeram. Talvez seja mais o caso de o medo ser um assunto importante porque é Jesus que o traz. O que não deixa de ser curioso: Jesus trata do assunto do medo com os discípulos antes que os discípulos o sintam. Aliás, o medo só começará a ser mais prático na vida dos discípulos mais tarde nesta noite. Podemos extrair então esta lógica: antes de o medo ser nosso, Deus já o trata de antemão para nós. Assim somos animados a saber que quando passamos pelo medo, ele já foi previamente tratado por Deus. Não há medo no qual mergulhemos cujas águas não tenham sido preparadas antes pelo cuidado divino.
Se tivermos em conta que este é o último discurso de Jesus, em jeito de conversa derradeira onde as coisas realmente importantes são tratadas, encontrarmos nele o medo é sinal de que, como discípulos que somos de Jesus, temos de o aceitar como parte da nossa vida. Isto não significa que nos devemos render ao medo mas certamente significa que ignorar o medo é absurdo para o cristão. Encaremos o facto de que ser cristão não é ter uma palavra mágica para que o medo se vá embora, mas é ter de Deus um reconhecimento de que o medo existe mas que não o vivemos sozinhos.
E é aqui que as palavras seguintes de Jesus dão um consolo às primeiras, de o nosso coração não dever turbar-se. As palavras seguintes são: “creiam em Deus!” Respondam à ordem que vos dei de não terem medo com a fé que devem ter em Deus. Podemos extrair daqui que a fé em Deus é uma resposta ao nosso medo. Devemos ter fé em Deus também para que o nosso coração não fique perturbado. Há aqui uma finalidade para ter fé em Deus. Isto não significa que temos fé em Deus só para que não tenhamos medo, mas significa necessariamente que ao termos fé em Deus temos uma solução para o nosso medo. Tens medo? Confia em Deus!
O que se diz a seguir é de igual ou maior importância. Porque a seguir a Jesus mandar que os seus discípulos confiem em Deus, acrescenta que devem confiar nele também. E, como podemos calcular, a grande importância disto está relacionada com a ligação que é estabelecida entre a identidade de Deus e a identidade de Jesus. Hoje lemos isto nas calmas. Mas ouvir isto na altura e ler isto na altura arrepiaria os cabelos da ortodoxia judaica. Porque na prática o que Jesus está a fazer é, mais uma vez (e tendo em conta que este é o evangelho de João), afirmar que ele e o Pai são um. “Crede em Deus, crede também em mim” significa Jesus afirmar claramente que ele próprio é Deus.
Estamos habituados a conhecer histórias de pessoas corajosas, cheia de auo-confiança em si próprias para suplantarem os perigos que atravessam. E, de certo modo, podemos ficar entusiasmados e até consolados com relatos assim. Quem não gosta de se sentir seguro numa pessoa que, por sua vez, tem segurança em si mesmo? Mas também é verdade que estas histórias podem ser apimentadas com episódios em que até os auto-confiantes passam por dúvidas acerca das suas próprias capacidades. E quem os pode censurar? Aceitar a nossa humanidade significa reconhecer que até os mais fortes podem sentir-se fracos. E é neste ponto que as palavras de Jesus dizendo “crede também em mim” se tornam muito mais do que as palavras de uma pessoa com muita auto-confiança.
Jesus pode colocar-se ao lado do Pai porque Jesus é com o Pai algo que nenhum homem pode ser. O poder de Jesus ser um com o Pai dá-lhe a certeza que confiar no Pai é o mesmo que confiar nele próprio. Por isso Jesus afirma sem qualquer receio que os discípulos devem resolver o problema de terem medo junto com Deus Pai ao mesmo tempo que os esclarece que resolverem esse problema junto de Deus Pai é resolverem o problema junto de Deus Filho. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e também por isto é que o Espírito vai ter nesta conversa um lugar tão importante mais à frente. Ouvir esta conversa de Jesus é ser introduzido no universo da Trindade.
Depois do encorajamento a não termos medo, Jesus estabelece onde se encontram as bases desse encorajamento. A base é: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. E isto é interessante. O que nos deve levar a deixar de ter medo não é nenhum facto acerca de nós próprios, como por exemplo uma capacidade nossa qualquer que devidamente activada nos faria vencer sobre o nosso medo. O que nos deve levar a deixar de ter medo é um facto acerca de Deus, que neste caso é o facto de na casa do Pai de Jesus haver muitas moradas - haver moradas para mais além do próprio Deus (que é Pai, Filho e Espírito Santo). Nós somos chamados por Jesus a não ter medo porque há uma casa preparada para nós onde Deus tem a sua casa. O que nos deve levar a não ter medo não é uma protecção conquistada por nós mas uma protecção que Deus já construiu para nós. Porque a casa de Deus tem muitas moradas, não temos razão para ter medo.
Por outro lado, Jesus também explica que não brinca com coisas sérias, na medida em que se isto não fosse verdade, ele diria. A palavra de Jesus é digna de toda a confiança porque Jesus é a própria palavra encarnada. Jesus é o verbo através do qual todas as coisas que existem foram feitas. Ora, se estamos na presença da pessoa que é esta palavra criadora encarnada, obviamente Jesus não pode usar a palavra de uma maneira que não seja inteira e perfeitamente verdade. Podemos confiar no que Jesus diz porque Jesus é o que permite que alguma confiança possa existir no universo. O homem que é a própria palavra não pode usar a palavra para enganar outros homens.
E há outro aspecto ainda que fundamenta que Jesus nos mande não ter medo. Nós temos fundamento para não ter medo porque a casa de Deus tem espaço para nós e, mais ainda!, porque Jesus nos assegura que nos vai preparar lugar. Não é só facto de haver muitas moradas na casa de Deus. É o caso de, havendo muitas moradas na casa de Deus, haver uma que tem o nosso nome escrito. Jesus não só diz que há muitas moradas na casa de Deus como nos tranquiliza que lá haverá espaço para nós em concreto. Jesus vai preparar-nos lugar. Logo, a base para não termos medo aparece neste texto fundada primeiro num facto acerca de Deus que é ele ter muitas moradas na sua casa e, em segundo, a base para não termos medo aparece neste texto fundada no facto de Jesus preparar lugar específico para nós nesse grande complexo habitacional que é casa de Deus. Podemos dizer que somos chamados a não ter medo por aquilo que Deus tem e por aquilo que Jesus faz.
O que Jesus também estava a explicar aos seus discípulos nesta hora é que efectivamente ele irá em breve prepara-nos lugar. A base para não termos medo não é uma convicção abstracta mas uma certeza segura de que em breve Jesus estaria a fazer aquilo que prometia agora. Jesus é alguém que cumpre e por isso diz que vai e que de facto nos vai preparar lugar. Logo de seguida, explica que isso significa também que voltará e quando voltar seremos recebidos por ele e para ele. Estes aspectos são formidáveis e não devem ser tratados como pormenores.
Festejemos a coisa boa que é Jesus cumprir o que diz e termos segurança que ele vai fazer o que prometeu. Mas entendamos ainda que, além de Jesus fazer o que cumpre, o que ele cumpre significa não só sermos recebidos por ele mas sermos recebidos para ele. Jesus não é apenas um anfitrião agradável que nos recebe na casa que preparou para nós. Jesus é, neste sentido, a própria casa que nos recebe. Jesus é o meio e o fim. Jesus é o produto e o processo. O regresso de Jesus quer dizer que Jesus é o destino final de todas as coisas. Jesus não regressa apenas para ser o intérprete de um ponto importante da história. Jesus regressa para ser o sentido de toda a história. Logo, nós não esperamos Jesus para que então nos dediquemos então ao lugar que ele preparou para nós. As coisas são um pouco mais exigentes: nós esperamos Jesus para que quando ele regresse nos possamos dedicar inteira e perfeitamente ao próprio Jesus. Porque é isso que nos está a ser dito quando ele diz: “voltarei e vos receberei para mim mesmo”. Seremos recebidos não só por Jesus mas para Jesus.
E que resultado podemos retirar do facto de sermos recebidos por Jesus e para Jesus? O resultado é maravilhoso e talvez a parte mais bela destes primeiros três versos. “Para que, onde eu estou, estejais vós também.” É difícil descrever a beleza destas palavras. Por um lado, estas palavras podem fazer-nos lembrar o texto de Rute e sua sogra de Noemi, quando a primeira assegura à segunda que a seguirá para onde quer que ela for. Certamente estas palavras lembram-nos, pelo menos, de que não há razão para ter medo se percebermos que fomos criados para estar onde o Criador está. Coisa maravilhosa! Fomos criados para estar perto daquele que resolveu que era uma boa ideia que existíssemos. O Criador não só pensou que havia utilidade em criar-nos; o Criador pensou que havia sentido em estarmos onde ele está. Isto só pode ser compreendido à luz de um grande e inexplicável amor de Deus por nós. Jesus mostra-nos que o carácter de Deus Pai é querer que estejamos onde ele está. Foi por causa deste desejo de comunhão que Jesus veio. Jesus está a explicar aos seus discípulos que a sua vinda só pode ser entendida mediante a chave de interpretação que é Deus amar-nos ao ponto de desejar a nossa companhia. Deus amar-nos, querendo-nos onde ele já está, é a única que resolve o nosso medo.
* Não há nada como estudar gradualmente a Escritura através da memorização. Depois de ter decorado este texto, reparei que o tinha entendido mal na parte “crede em Deus, crede também em mim”. É “credes em Deus, crede também em mim”. O que significa que Jesus não estava a chamar os discípulos para crerem em Deus mas que estava a constatar que isso já acontecia. Assim sendo, há consequências erradas que tirei do texto. Em rigor, Jesus não chama os discípulos a crer em Deus como antídoto de terem medo. Jesus parte da fé que eles já têm em Deus para chamá-los a crerem igualmente nele, no próprio Jesus. Isto porque o próprio Jesus é um com o Pai, como mais tarde vai ser explicando. Assim sendo, a ênfase é menos no facto de a fé em Deus ser um antídoto contra o medo, e a ênfase é mais no facto de crer em Deus acarretar necessariamente crer no próprio Jesus.
—
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.»”
Cabe-nos agora os versos 4 a 7. Jesus faz do verso 4 um convite a que os discípulos perguntem acerca do seu destino. Pelo menos, parece-nos que é uma sugestão. Isto porque o Mestre afirma que os discípulos sabem para onde ele vai mas logo de seguida Tomé pergunta acerca do lugar. Não temos informação bíblica de que Tomé representava nesta pergunta todos os discípulos. Mas não nos parece absurdo dizer que Jesus faz uma afirmação acerca do que os discípulos sabem, não tanto para constatar mas mais para provocá-los a, de facto, saberem mais do que sabem.
O certo é que se este dispositivo é mesmo o que acontece no texto, certamente funciona. Isto porque a partir da dúvida de Tomé, Jesus aproveita para dizer mais acerca do lugar sobre o qual fala. Que lugar é esse que supostamente nós devemos saber mas efectivamente não sabemos, questiona Tomé? E a resposta é surpreendente. Jesus diz que o lugar é menos um lugar e mais ele mesmo. Mais do que Jesus trazer o mapa que nos leva ao lugar do tesouro, Jesus é o próprio tesouro. Jesus é o caminho, a verdade e a vida. E ninguém vem ao Pai se não por ele. Jesus é a maneira de chegar ao lugar e Jesus é o próprio lugar. Jesus é o modo de chegar a Deus e Jesus é também Deus. Por isso este texto tem um vinco trinitário tão forte.
O vinco trinitário prossegue no que Jesus diz. O pretérito do verso 7 parece salientar a provocação de Jesus aos seus discípulos. Se vocês me conhecessem, conheceriam no fundo o destino que devem seguir que é o próprio Deus. A provocação parece existir porque Jesus insinua que os discípulos ainda não conhecem totalmente Jesus e mais grave ainda, se não conhecem totalmente Jesus também não podem conhecer devidamente o seu Pai que é Deus. E fica claro a imagem que Jesus tem acerca de si mesmo: ele é divino e um só com o Pai. Conhecer Jesus é conhecer o Pai. Isto mantém a unidade dentro da divindade, sem no entanto amachucar o espaço para as três pessoas diferentes que a trindade congrega.
Mas no próprio verso 7 parece haver um progresso, tendo em conta que do pretérito se para para o presente. “Desde agora o conhecei e o tendes visto”. Talvez aquilo que no passado permanecia vedado aos discípulos, não conhecendo eles realmente Deus por não conhecerem realmente o Filho, é agora revelado: ao terem Jesus à frente, têm o próprio Pai à frente. Estar diante da presença de Jesus é estar diante da presença de Deus. Não pode haver maior consolo e prémio do que este. Jesus, que no verso 3 lhes tinha dito que aquilo que ele ia fazer ao preparar-lhes lugar era assegurar que os discípulos estariam junto do Pai, diz-lhes que essa realidade do futuro é a realidade que no presente eles já tinham, por estarem da sua presença.
É certo que a presença concreta de Jesus só a teremos na glória quando contemplarmos o seu rosto. Mas estamos numa situação semelhante à dos discípulos quando lembramos que o Espírito foi enviado (assunto que mais tarde Jesus vai esclarecer) e, por isso, já gozamos da presença de Deus aqui. E essa presença de Deus é possível porque o Espírito Santo só podia ser enviado depois de Jesus fazer o que havia para ser feito, encarnando, morrendo e ressuscitando. Ainda que de modo diferente, já vivemos aqui a presença de Deus por conta de Jesus. A realidade dos apóstolos é uma realidade continuada por nós, membros da igreja.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai?»
Nestes dois versos está muito. No que Filipe diz podemos encontrar qualidade e defeito. Qualidade, porque para todos os efeitos Filipe deseja ver o Pai - Filipe busca Deus. Nesse sentido, podemos e devemos ficar inspirados com Filipe e recordar que não é possível ser cristão sem ser habitado por este desejo fundamental que é o de conhecer Deus. Quantas vezes a nossa fé se caracteriza mais rapidamente de outros conteúdos que não este coração que quer ver mais de Deus? O problema da indiferença nos cristãos é gravíssimo porque dá a entender que não está dentro deles o desejo pelo Pai. E não pode haver fé sem desejo pelo Pai. Demasiadas vezes o cristianismo tem sido confundido com uma posição moral que, tendo alguma pertinência, não precisa do desejo do Pai para existir. Demasiadas vezes o cristianismo tem sido confundido com uma posição intelectual sobre a existência que, tendo alguma pertinência, não precisa do desejo do Pai para existir. Se formos por esta lógica, podemos louvar o exemplo de Filipe. Filipe não quer ser apenas uma pessoa de moralidade ou do raciocínio correcto: Filipe quer ver o Pai. “Mostra-nos o Pai e isso nos basta”.
Mas, por outro lado, também há defeito no que Filipe diz. Se assim não fosse, Jesus não teria dito o que disse. E é bom reconhecer que, para todos os efeitos, Filipe não está a ser louvado por aquilo que lhe saiu da boca. Qual é então o defeito de Filipe? Se percebemos que Filipe diz pelas suas palavras que quer ver o Pai, podemos entender a partir das palavras de Jesus logo de seguida que Filipe não quer assim tanto ver o Pai como julga. Podemos mesmo ir mais longe e dizer que, a partir do que Jesus explica a seguir, Filipe não quis ver o Pai. Então é possível nas mesmas palavras de Filipe entender que sim, ele quer ver o Pai, e que não, ele não quer ver o Pai. Como assim?
Quando Jesus responde a Filipe, Jesus explica-lhe que Filipe já tem visto o Pai e não se apercebeu. Filipe tem visto o Pai precisamente a partir do tempo que começou a estar com Jesus. Um grande engano de Filipe é que Jesus já tem aquilo que deseja e não entendeu. Não entendeu porque não reconheceu em Jesus o próprio Deus Pai que deseja. E este é o engano dos enganos de Filipe: Filipe ainda não reconhece claramente Deus Pai em Deus Filho, Jesus. Por isso mesmo, Jesus tem de lhe explicar: “Filipe, quem me vê a mim, vê o Pai”. Não é triste que Jesus tenha de explicar isto?
Quando lemos a Palavra entendemos que a vida entre Jesus e os seus discípulos não é um mar de rosas. E isto aplica-se a nós, discípulos dois mil anos depois. Ser um discípulo não é uma coisa que se é a partir do facto de a nossa compreensão do Mestre ser perfeita. Isso dá para ver aqui mesmo. Filipe não entendia a coisa mais fundamental acerca da identidade de Jesus, que era o facto de ele ser um com o Pai, e ainda assim continuava efectivamente a ser um discípulo de Jesus. Parece-nos que podemos aprender alguma coisa com esta lição. O nosso discipulado não é fundamentado na perfeição do conhecimento que temos de Jesus porque com frequência falhamos em aspectos essenciais da identidade do nosso Senhor.
Por outro lado, este texto também nos mostra outra verdade desagradável acerca de nós próprios. Esta conversa entre Jesus e os discípulos, e entre Jesus e Filipe em particular, indica-nos que o facto de não reconhecermos Deus não tem a ver com ele não se dar a conhecer. O facto de não reconhecermos Deus tem a ver com mesmo quando ele se dá a conhecer, nós não o reconhecemos. Podemos dizer isto de outra maneira. Se as pessoas não encontram Deus na realidade à volta delas não é porque ele faz questão de se esconder bem escondidinho (apesar de sabermos em alguns contextos bíblicos que este elemento de Deus se ocultar também existe). Se as pessoas não encontram Deus na realidade à volta delas é porque até quando ele faz questão de se mostrar, elas não o vêem. Filipe via o Pai em Jesus e ainda assim não o reconhecia. É triste e o problema não estava em Jesus, que era incompetente a mostrar o Pai, mas estava em Filipe, que era incompetente em reconhecê-lo.
Surge depois um elemento que explica esta incapacidade de não reconhecermos Deus até quando ele se dá a conhecer. Esta incapacidade, mais do que uma incapacidade, é uma vontade de não encontrar Deus. As Escrituras explicam isto sobretudo no evangelho de João quando é dito que Jesus veio para os que eram seus mas o seus não o conheceram (João 1:10), sendo que esse não conhecimento é um amor maior pelas trevas do que pela luz (João 3:19). Esta é uma dura realidade acerca de nós que a Bíblia não tem vergonha de confessar. O nosso problema em não encontrar Deus não é o capricho de ele se fazer difícil a dar-se aos pecadores mas a teimosia de nos fazermos fáceis para o pecado.
Também é esta triste realidade que explica que quando tal acontece - quando os pecadores reconhecem Jesus como face do Pai - é porque a solução não foi trazida pelos homens mas pelo próprio Deus. O nosso amor ao pecado é o que torna graciosa a nossa conversão a Deus. Nós só reconhecemos Jesus como rosto de Deus quando acima do nosso desejo de permanecermos nas trevas, a luz brilha mais forte. E a luz só pode brilhar mais forte quando ela domina e derrota o nosso pecado. A iluminação de um pecador no escuro nunca é um acto dele próprio, mas uma invasão graciosa de Deus. Esta estrada de graça percorre toda esta conversa entre Jesus e os seus discípulos. Umas vezes é mais sonante, outras é mais mais silenciosa. Mas por cada falta de verdade dos discípulos, está a capacidade de Jesus não desistir deles mesmo quando as falhas deles deprimem qualquer um. Filipe não percebeu nada. Mas Jesus não desiste de Filipe. Porque Jesus sabe que a relação que tem com Filipe nunca esteve fundamentada na capacidade de Filipe mas na sua própria capacidade. Não foram os discípulos que escolheram Jesus, foi Jesus que os escolheu a eles (João 15:1). E isto traz-nos grandes consolos: até os nossos defeitos mais estúpidos e perversos têm solução quando o que deslinda é a atitude de Deus connosco, e não a nossa atitude com Deus.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras.»"
É interessante que Jesus defenda o caso de ser um com o Pai colocando tantas frases na negativa. A pergunta agora é: "não crês?", assumindo que a verdade de ser um com o Pai é suficientemente estranha para merecer alguma desconfiança por parte de quem a ouve. E como podemos contornar nós este facto? O cristianismo não é uma fé que se faça de encaixes ideais ou de respostas fáceis de responder às nossas perguntas (ou por vezes respostas para perguntas que ainda não arriscamos fazer). Se Jesus comunicou com os seus discípulos assumindo que a dificuldade de eles acreditarem nele era um facto incontornável, talvez nós hoje não devamos ficar assim tão distantes desta prática. E com isto não sugiro um elogio pós-moderno e fácil à dúvida, mas antes a ênfase na dificuldade que temos para lidar com a verdade.
Jesus estar no Pai e o Pai estar em Jesus, é bom que se lembre!, é das lições mais fundamentais acerca de entender quem Jesus é. Se nos recordarmos que esta conversa é a última que Jesus tem com os discípulos antes da sua morte, compreenderemos que nela há duas linhas a percorrer o que se diz: a primeira é acerca de quem Jesus é (e, ligado a isso, quem Deus é), e a segunda é acerca de quem são os próprios discípulos. Os discípulos só poderão ser alguma coisa em concreto a partir do facto de se manterem ligados a Jesus, como veremos mais à frente. Logo, interessa sublinhar os aspectos essenciais da identidade de Jesus. E um deles é este, de Jesus estar no Pai e o Pai estar nele.
Uma pessoa que rejeite a realidade trinitária que envolve o Pai estar no Filho e o Filho estar no Pai não pode, em consciência, dizer-se um seguidor de Jesus porque oblitera um traço de carácter que faz de Jesus Jesus. Se não se acreditar que Pai e Filho estão mutuamente um no outro, o Jesus que diz estas palavras é mentiroso e, consequentemente, não pode corresponder ao que aqui está a ser dito. Foi também por esta consciência firme que as primeiras heresias que colocavam em causa a Trindade foram tão assumidamente combatidas pela Igreja.
O que Jesus diz, não diz da boca para fora. "As palavras que eu digo, não as digo por mim mesmo". É oportuno lembrar que o verbo encarnado não verborreia. Quem criou tudo a partir da palavra, nã pode tratá-la como se ela servisse para nada. O cristianismo é a fé da palavra porque a palavra nunca volta vazia. A palavra é que dá origem à realidade, e não a realidade que dá origem à palavra. Logo, qualquer palavra que a Palavra encarnada diga, é uma palavra que compromete o Filho como o Pai. Entender a importância da palavra é entender que toda a Trindade está envolvida no processo de a palavra existir.
Uma das coisas que é destruída é a nossa teima em querer separar palavra da acção. Na Bíblia é certo que se reconhece que é possível usar a palavra como um pretexto para a não-acção (na Carta de Tiago, por exemplo). Mas ao longo de todas as Escrituras podemos encontrar um casamento entre discurso e prática e não o seu divórcio, tão típico dos nossos tempos pós-modernos em que as palavras são apreciadas meramente como jogos possíveis num mundo sem sentido. Para Jesus, o que ele diz é o que o Pai faz. O que sai da boca de Jesus é o que Pai obra. Todas as palavras de Jesus estão assentes nas mãos do Pai. Há uma relação perfeita e integral entre discurso e feito. Esta relação tem de modelar a visão que os cristãos têm da realidade.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras»."
Neste verso 11 a insistência de Jesus é tocante. Quando Jesus conversava com os seus discípulos havia espaço para muito ingredientes nessas conversas. Havia parábolas, havia avisos ou mesmo ameaças, havia consolos, havia explicações, havia perguntas, havia muito coisa mesmo. Um dos ingredientes que também há é essa insistência em forma de pedido. Mesmo quando parece que Jesus explica tudo muito explicadinho, há ainda oportunidade para que ele coloque o assunto que foi bem explicado em jeito de apelo. E isso devia comover-nos.
Devia comover-nos porque nos lembra que Jesus nos trata como filhos, e não meramente como alunos. O professor pode exigir onde o pai pode pedir. E Jesus pede constantemente. Pede mesmo tendo em conta que explicou. E o facto de Jesus pedir mesmo tendo em conta que explicou também nos alerta para o facto de que nós, pessoas que o ouvimos, somos mais do que apenas a nossa capacidade de compreensão. Se fôssemos máquinas de compreensão, não haveria necessidade do pedido. Mas, como diz James K. A. Smith, somos mais do que cérebros andantes. O nosso órgão superior de persuasão é o coração. E Jesus neste "crede-me" parece fazer um pedido directo ao coração daqueles que o ouvem.
Por fim, esse pedido é também revestido de pensamento. Jesus consegue combinar pedido e pensamento. Jesus pede que os discípulos o reconheçam como um com o Pai usando os seus cérebros. Como quem diz: se vos custa acreditar naquilo que vos estou a dizer, ao menos usem os vossos miolos reconhecendo que as coisas que eu faço correspondem às coisas que o Pai faz.
Creio que o objectivo de Jesus não é fazer a separação clássica entre falar e fazer, até porque a religião dos judeus e dos cristãos é uma religião em que fazer só é possível na medida em que Deus antes falou. Mas creio que podemos reconhecer neste texto que num mundo caído é possível falar sem fazer. E, nesse sentido, Jesus quer que aquilo que ele fala - acerca de ele e o Pai serem um - possa ser uma afirmação testada pelo facto de haver uma convergência no que se faz. Pelo menos acreditem porque quando me vêm a pôr a mão na massa podem topar que a receita que eu uso é a mesma de Deus. É bonito e corajoso este encontro entre pedido e persuasão.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai.»"
Que verso! Como é que uma pessoa faz justiça a tanto significado que aqui está?
Em primeiro lugar, e como nota simples mas refrescada pela tradução de Frederico Lourenço dos evangelhos (que estando tão ratada em tantos aspectos, tem ainda assim algumas virtudes importantes), vale a pena lembrar que no original grego a expressão "em verdade vos digo" será mais "amém vos digo". E por que vale a pena notarmos isto? Porque quer dizer que Jesus quando apresenta uma verdade tem menos um interesse em que nos seja acrescentada informação, veridicamente constatada, mas tem mais interesse em dizer-nos algo ao qual adiramos com a nossa vontade, ao qual possamos acrescentar o nosso amém. Na Bíblia, o objectivo de sabermos coisas é sempre o de aderirmos a elas, podendo (e devendo!) as coisas que sabemos servirem para a nossa transformação.
Mais uma vez, é isto que Jesus está a fazer quando nos diz "em verdade, em verdade vos digo". Quer dizer que Jesus quer dizer uma coisa que mude os seus ouvintes, e não apenas ocupe espaço mental independente do modo como eles vão responder de volta à verdade que Jesus vai partilhar. Logo, sempre que ouvimos "em verdade, em verdade vos digo" vindo da boca de Jesus, que tremam os nossos corações porque alguma coisa na nossa vida deve imediatamente preparar-se para mudar.
Em segundo lugar, vale a pena sublinhar que crer em Jesus é o ponto de partida para nos relacionarmos com ele. Não nos podemos relacionar seriamente com Jesus se não crermos nele. Nesse sentido, é impossível termos uma relação consistente com Jesus se não confiarmos nele ao ponto de a verdade que ele traz transformar-nos (e voltamos aos parágrafos anteriores). Como já dá para ver ao longo desta conversa, crer em Jesus é o chão para nos podermos relacionar com tudo o que ele diz.
Em terceiro lugar, é importante dizer que crer em Jesus anda de mão dada com a capacidade de fazer coisas. Não fazemos coisas independentemente do facto de crermos em Jesus. Não fazemos para crer mas cremos para fazer. Também é esta ética que explica que nos salvemos pela fé, por aquilo que Jesus faz por nós e não por aquilo que fazemos por ele. É preciso crer nele (ter fé nele) para que então coisas possam ser feitas.
Em quarto lugar, a pessoa que crê em Jesus sabe de Jesus que vai poder fazer as mesmas coisas que ele faz. Como assim? Que descaramento é esse? Para tentar responder a estas perguntas naturais, é importante dizer que o texto não vai especificar que coisas são essas. O que deve iluminar as nossas perguntas. Quando Jesus diz que a pessoa que crê nele vai fazer a mesma coisa que ele faz, o objectivo não é descrever que coisas são essas mas simplesmente declarar que há poder dado ao que crê em Jesus para fazer as coisas que ele faz. Logo, um cristão sensato lê este texto e não tem uma lista das coisas iguais às que Jesus fez e que vai poder fazer, mas tem apenas o conhecimento da possibilidade de fazer as mesmas coisas que Jesus fez. Não temos uma descrição mas uma declaração.
Em quinto lugar, e na parte mais fantástica desta declaração de Jesus, é-nos dito que além de fazermos as mesmas coisas que Jesus fez, maiores ainda poderemos vir a fazer. O mais fácil é a nossa reacção ser de estranheza. Como é possível fazer coisas maiores que Jesus sendo que ela era homem mas também era Deus e nós não? Como é posível fazer coisas maiores que Jesus sendo que ele nos salva e nós não temos o poder para salvar ninguém? Como é possível fazer coisas maiores que Jesus se até as miseráveis coisas escassas que fazemos são no fundo coisas feitas pela sua graça? Esta declaração de Jesus parece inacreditável.
Certamente não saberei responder a estas questões. Mas ocorre-me a necessidade de começar pelo início: se Jesus disse que faremos coisas maiores do que ele fez, mentira não pode ser. Jesus não mente. Há uma verdade que aqui nos está a ser transmitida ainda que possamos não compreendê-la. Por outro lado, é importante dizer que há um "porque" que se segue e geralmente os porques servem para explicar o que se disse anteriormente. O porque que se segue serve para entendermos o sustento da afirmação que Jesus fez acerca de sermos capazes de fazer coisas maiores dos que as que ele fez.
O que diz esse "porque"? "Porque eu vou para junto do Pai". Então vamos por partes. O que explica que nós possamos fazer coisas maiores do que as que Jesus fez é o facto de Jesus regressar a Deus Pai. Há aqui muito sustento para as nossas cabeças e corações. Vamos a par e passo.
Um. Eu só posso fazer coisas maiores do que as que Jesus fez por causa de Jesus. Eu não faço coisas maiores do que Jesus fez por minha causa. Se assim fosse, o "porque vou para junto do Pai" não estaria aqui. Logo, há aqui um jogo paradoxal. Eu posso fazer coisas maiores do que as que Jesus fez porque Jesus é quem me dá a capacidade para tal regressando ao Pai. Quero ser cuidadoso com a linguagem mas sugerir então a formulação da ideia assim: eu posso fazer maior que Jesus porque Jesus é quem me dá essa capacidade de fazer maior do que ele, pelo facto de ir para o Pai. Eu posso fazer mais do que Jesus por causa de Jesus. Na verdade, eu posso fazer mais do que Jesus porque Jesus é mais do que eu, dando-me capacidade para fazer mais do que ele. Parece uma brincadeira mas parece também ser muito séria.
Dois. É a realidade da divindade de Jesus que estabelece o melhor da realidade humana. Podemos ir mais fundo ainda e dizer que é a realidade trinitária que segura o melhor da humanidade. O melhor da humanidade, aqui visto na possibilidade de os que crêem em Jesus fazerem maiores obras do que as que Jesus fez, só existe porque Deus é Pai, Filho e Espírito Santo e essa comunhão entre as três pessoas é o que despoleta os maiores feitos dos homens. Sem Trindade, nada de jeito pode ser feito por nós. É o que acontece na eternidade que faz acontecer o melhor no tempo.
Três. Qualquer coisa maior dos que as que Jesus fez feita pelo homens tem de apontar para Jesus. Não é possível um homem orgulhar-se de fazer alguma coisa maior do que Jesus fez sem dar a Jesus a glória por isso. Quem faz algo maior do que Jesus fez limita-se a reconhecer que, na prática, quem a fez foi Jesus porque é o facto de Jesus estar na presença do Pai que permite que a coisa seja feita. Logo, pessoas inchadas por obras que fizeram maiores que as que Jesus fez não podem existir. Ou seja, podem existir pessoas que efectivamente fazem obras maiores do que as que Jesus fez (sem haver descrição dada para elas neste texto) mas elas não podem existir sem afirmar que as fizeram pelo poder de Jesus. Todas as pessoas que fazem obras maiores do que as de Jesus assinam-nas com o nome de Jesus.
O que sai daqui é um amor imenso pelo facto de Jesus estar junto do Pai. O que sai daqui é um amor maior à comunhão que Jesus tem com o Pai do que o amor que temos às coisas que fazemos. O que sai daqui é o poder para fazer coisas que não tiram no nosso coração o lugar maior que está reservado à realidade trinitária de quem Deus é, na relação íntima entre Deus Pai e Filho presente em nós através do Espírito Santo. Logo, as pessoas que fazem as coisas mais extraordinárias, podendo ser até maiores do que as que Jesus fez, são pessoas que se destacam por amar quem Deus é mais do que amam aquilo que fazem. Pessoa que colocam a tónica naquilo que fazem não podem fazer coisas maiores do que as que Jesus fez. Pessoas que amam acima de tudo o Deus triuno podem fazer coisas maiores do que Jesus fez.
Que texto!
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos.»"
Como lidaremos com a verdade de Jesus nos servir a partir do ponto de dependermos dele? Porque é esta a base de ele dizer que vai fazer o que lhe pedirmos se o fizermos em nome dele. Mais uma vez, é um bonito paradoxo: Jesus serve-nos porque nós nos colocamos ao serviço do nome dele. É uma relação de amor, de reciprocidade e serviço mútuo. É também o que permite que digamos que efectivamente Jesus nos serve - não devemos ter medo de o afirmar. Mas qualificando que o serviço que Jesus nos presta depende do facto de confiarmos no nome dele. Jesus dá-nos o que queremos a partir de aceitarmos o querer dele confiando no seu nome.
E admirável é porque a ideia é repetida. Hoje temos fraca admiração pela repetição enquanto uso literário. E é pena. Porque na Bíblia uma repetição serve mesmo para enfatizar a verdade extraordinária do que se afirma. Os judeus gostavam de repetições e nós também devemos gostar.
Por outro lado, a afirmação final de Jesus (final nesta fase) é a de juntar o amor a ele ao facto de se fazer o que ele manda. Estamos sequiosos desta compreensão do amor. Amar não é essencialmente sentir, como o Romantismo nos ensinou. Amar é também um comportamento, a aceitação de que agimos em conformidade com o objecto do nosso amor. Não existe amor à Platão, puro num lugar qualquer inteiramente não-físico. O amor cristãos é das vísceras, é certo, mas também é dos braços, daquilo que se faz, daquilo que se age. Quem ama Jesus, faz o que Jesus manda. É simples apesar de não ser fácil.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós»."
A partir do verso 15 Jesus começa a ser ainda mais explícito, se é possível colocar a questão deste modo, no que diz respeito ao circuito da comunhão que deve acontecer entre Deus e os homens. Neste caso, Jesus tinha vindo até aqui a explicar que desejar ter comunhão com Deus é necessariamente ter de ter comunhão com o Filho. Mas agora os dois lados pedem um terceiro, para que haja um triângulo. E, nesta conversa, pela primeira vez Jesus vai invocar o Consolador - o Espírito Santo.
Há imediatamente algo pedagógico neste progresso. Não é possível desejar as vantagens de sermos habitados por Deus, habitação esssa aqui representada pelo Espírito Santo em nós, sem antes virmos do percurso que vai de Deus Pai para Deus Filho. E devemos ser sinceros: quantas vezes nós cristãos não desejamos pura e simplesmente ser investidos do poder do Espírito Santo sem termos grande paciência para a relação prévia e necessária com o Pai e com o Filho? A tentação de a igreja querer poder do Espírito sem amar devidamente o Pai e o Filho é maior do que gostamos de admitir. Desejar poder sem amor é fácil para almas tentadas como as nossas são.
Reparemos por isso na ordem devida das coisas. Se primeiro Jesus estabeleceu que ele estava no Pai e o Pai estava nele (no verso 10 e 11), só posteriormente é possível que, com esta base relacional entre os dois, o Filho peça ao Pai que o terceiro elemento do Espírito se envolva para que os discípulos possam ter a certeza que não estão abandonados por Deus. E não podemos esquecer, à medida que vamos lendo este texto, que uma das preocupações fundamentais de Jesus é assegurar que os cristãos não estão sozinhos quando Jesus regressa ao Pai. O elo do Espírito Santo é o que confirma esta companhia, companhia essa consoladora porque é feita em função de prevenir a tristeza natural pela partida de Jesus. A finalidade, não podemos esquecer!, é que "para sempre" permaneça a comunhão entre Deus e aqueles discípulos de Jesus. Tudo o que vai acontecer no futuro é assim porque o sempre assim o pede.
Esse Espírito Santo que vem é o Espírito da verdade. O facto de o Espírito Santo ser caracterizado pela verdade não é um detalhe de pouca importância. Parece que o facto de o Espírito Santo ser caracterizado pela verdade suscita que o mundo não queira nada com ele - nesse sentido, pode ser que o mundo não o recebe porque não o quer receber. Mas também é verdade que essa incapacidade de o mundo receber o Espírito tem a ver com ele não ter os meios de o detectar pela visão e conhecimento. O que sugere que receber o Espírito vai além dos meios naturais que temos para ver e conhecer coisas. Parece que receber o Espírito não tem a ver com meios naturais mas com meios sobrenaturais. O Espírito é recebido pedindo mais do que a simples visão e reconhecimento naturais de qualquer pessoa no mundo.
Por contraste, Jesus diz aos discípulos que eles podem conhecer o Espírito porque ele habita neles e estará com eles. Seria necessário eu ser mais entendido em grego para, sendo sensível aos tempos verbais aqui conjugados, perceber melhor a relação entre presente e futuro. Independentemente disso, parece ser no entanto seguro afirmar que o conhecimento que os discípulos podem ter do Espírito depende de o Espírito já estar entre eles. Colocando de outra maneira, o conhecimento que podemos ter de Deus depende de Deus já estar em comunhão connosco. Como assim? Sozinhos não conseguimos. Por nós próprios não podemos chegar até Deus. Só podemos chegar até Deus porque Deus chega até nós. O processo acaba sempre irremediavelmente dependente de Deus e não de nós.
O facto de o processo depender de Deus não é, todavia, um fatalismo bíblico. Lembremos que Jesus está a aumentar o conhecimento dos seus discípulos. Se Jesus fosse contra o facto de os discípulos poderem desenvolver o conhecimento que têm acerca de Deus, não lhes dava esta conversa toda. É, no entanto, necessário firmar os fundamentos no lugar certo: se Jesus pode aumentar o conhecimento dos discípulos em relação a Deus, é porque a presença de Deus já começou nos discípulos, precisamente no facto de Jesus estar entre eles. O conhecimento depende sempre da comunhão já iniciada por Deus e não por nós. Se enquanto cristãos podemos saber alguma coisa de Deus é porque Deus já tomou a iniciativa de estar connosco. E por isto mesmo é natural que a via se vá trilhando com mais conhecimento a partir da comunhão com Jesus. Jesus leva-nos ao Pai e agora leva-nos ao Espírito. Jesus é a garantia que temos acesso ao Deus eterno que é Pai, Filho e Espírito Santo.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me verei. Porque eu vivo, vós também vivereis»".
Tão simples e tão bonitos estes dois verso 18 e 19. Jesus não nos deixa órfãos. Jesus não é indiferente ao facto de desejarmos ser amados. Querer ser amado é uma necessidade natural de qualquer pessoa e Deus não é indiferente a ela. Podemos até dizer que essa expectativa que temos de ser amados foi criada em nós por Deus. Afinal, e como esta conversa de Jesus com os discípulos revela, é o facto de haver amor dentro do Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo, que o levou a criar-nos, para sermos pessoas tocadas por esse amor transcendente que pode estar em nós por conta deste circuito trinitário.
Logo, se não nos sentimos sozinhos, agradeçamos a Deus. Podermos ser acompanhados é um dom de Deus. Afinal, toda esta conversa entre Jesus e os discípulos também é um elogio à companhia. Deus quer acompanhar-nos. Deus não gosta que nos sintamos sem pai e sem mãe - o plano de Deus não é que vivamos abandonados sem amor. E Jesus trata deste assunto na vida daqueles que confiam nele. Os discípulos poderia ficar seguros de que, por Jesus se preparar para regressar para de onde veio, isso não significaria solidão neles.
"Voltarei para vós outros". Podemos ter a certeza que Jesus cumpre o que diz, como já nos disse antes no texto. A espera não é para aquele que tem fé um esquecimento. Se é certo que Jesus é claro ao dar-nos uma visão clara da realidade de que ele regressará ao Pai, isso não quer dizer que esse regresso ficará para sempre. Não. Jesus voltará - podemos e devemos estar certos disso.
Quando Jesus falava com os discípulos era um momento que se aproximava da partida de Jesus, sendo que isso implicaria que o mundo deixaria de o ver. No entanto, aquilo que o mundo não vê poder ser o que vemos nós. Como é que este dilema se resolve? Resolve-se pela frase seguinte em que Jesus diz que, porque ele vive, viveremos também. Vamos tentar ir por partes.
Para o que é crente, a visão é diferente. Nós vemos coisas que aqueles que não crêem em Jesus não vêem. O mundo não vê mais Jesus - Jesus regressou ao Pai deixando um túmulo vazio - onde é que ele se meteu, pergunta o mundo? Os que crêem, todavia, podem vê-lo na medida em que estão acompanhados do Consolador mencionado ainda agora. O Espírito Santo em nós faz, neste sentido, com que vejamos Jesus. O mundo não vê porque não tem o Espírito mas os que o tem podem vê-lo.
A base desta capacidade extraordinária que os crentes têm de ver Jesus não pertence, todavia, a eles mas é um dom que emana, parece pelo que o texto diz, de uma realidade que lhes é externa - Jesus está vivo. A ressurreição é o que permite que os crentes vejam coisas que os não-crentes não. Mais ainda. A ressurreição é o que permite que os crentes vivam coisas que os não-crentes não. Podemos ir um pouco mais longe e dizer mesmo que a ressurreição é o que dá já aqui aos crentes uma vida que é inalcançável aos que não crêem nela. Por isso, os crentes não têm que se orgulhar em relação aos não-crentes. Se os crentes vêem e vivem o que os não-crentes não vêem e não vivem, isso não tem a ver com a qualidade dos crentes mas com a qualide daquele que é crido. O que é especial em nós que cremos, é-nos dado e isso transforma-nos desejando que seja dado a muitos mais, sobretudo aos que ainda não vêem nem vivem aquilo que vemos e vivemos.
***
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me verei. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai e vós em mim, e eu em vós»”.
As anteriores palavras bonitas de Jesus ganham um poder de revelação aqui. A realidade de Jesus não nos deixar órfãos está em crescimento: já acontece agora mas no futuro será ainda mais completa. Por outro lado, essa realidade depende primeiro de Jesus estar no Pai e o Pai dele. Novamente, o que nos torna acompanhados por Deus não é primariamente o que acontece entre nós e ele, mas o que acontece nele mesmo. Não estamos sozinhos porque nos encontrámos com Deus. Não. Antes ainda disso, não estamos sozinhos porque há em encontro prévio a acontecer dentro do Deus que é uma Trindade. Por isso, até o fenómeno que cuida de nós - que é o de sermos acompanhados por Deus - é um fenómeno de origem transcendente. No cristianismo é sempre assim. Até quando somos os beneficiados (neste caso, pela companhia divina), só o somos por factos externos a nós próprios.
Ao mesmo tempo que nos é reafirmado que Pai e Filho estão juntos, é-nos dito que esse encontro entre eles antecipa o encontro entre o próprio Deus e nós. Só podemos encontrar-nos com Deus porque antes o próprio Deus possui um encontro dentro de si mesmo. E esse é o facto que parece conduzir todo este discurso na última ceia que Jesus toma com os seus discípulos. Esta é uma conversa em que o tema principal é a companhia. A companhia eterna que existe desde sempre dentro de Deus que se torna o chão de uma companhia que Jesus já iniciou na sua carreira com os seus discípulos, e que terá resultados igualmente eternos. Na prática, esta conversa que é de despedida é também uma conversa acerca do fim de todas as despedidas. Enquanto Jesus nos diz adeus, garante-nos que vai acabar de uma vez por todas com todos os adeuses.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele»."
O verso 21 é muito importante. Temos uma definição do que amar Deus significa. Numa época em que a palavra amor se tornou comum, rarifica um entendimento profundo dele. O nosso risco é amar com tanta facilidade que esvaziamos o significado do amor. Não devemos ter dúvidas que só uma religião como o cristianismo poderia ter contribuído para a celebrização da palavra amor. Nas outras religiões do mundo o amor não é uma parte tão essencial do crente com o Deus em que crê (ou com o mundo encantado em que crê). No entanto, se é verdade que o cristianismo teve um papel na celebrização do termo "amor", isso não significa que não possa ajudar a resgatar o seu sentido original e mais desafiador.
Ao contrário do que parece em muitos lugares do cristianismo evangélico, amar Deus não é fundamentalmente um sentimento. Certamente que amar Deus envolve também o que sentimos. Mas quando o amor é nas Escrituras apresentado, ele vai muito além daquilo que acontece no coração de quem ama. Nesse sentido, o amor cristão é pré-romântico. O amor cristão não depende dos conceitos literários dos últimos séculos para ser compreendido. O amor cristão não é essencialmente apresentado a partir de quem o sente. O amor cristão, como temos visto neste texto bíblico, é essencialmente apresentado a partir de factos externos à pessoa que o sente. O resultado é que o amor cristão antes de ser imanente, é transcendente. Antes de o amor cristão ser definido pelo que acontece dentro de nós, por o sentirmos, ele é definido por aquilo que acontece em Deus, independentemente de nós.
A pessoa que ama Jesus é caracterizada por ele próprio como alguém que faz alguma coisa. A pessoa que ama Jesus é uma pessoa que age de uma determinada maneira. Que maneira é essa como a pessoa que ama Jesus age? A pessoa que ama Jesus guarda os seus mandamentos - leva a sério o que Jesus manda fazer. Ou até podemos colocar de outra maneira. A pessoa que guarda os mandamentos (que os tem), essa sim!, essa é a pessoa que ama Jesus a sério. Podemos detectar no tom de Jesus um desejo de esclarecer. Parece até que Jesus compara várias pessoas que dizem amá-lo para, achando a pessoa que realmente o ama, destacá-la dos outros.
Esta distinção provoca-nos. Primeiro, porque hoje temos medo de distinções entre pessoas. Tornou-se mais fácil dizer que no fundo, no fundo, todos amamos Jesus à nossa maneira. Mas Jesus não parece afinar por esse diapasão. Jesus parece tomar como importante dizer às pessoas que ama, neste caso os discípulos, como é que eles podem saber mesmo o que significa amá-lo. Jesus não sustenta o amor a Jesus na intenção dos homens, mas Jesus diz que o verdadeiro amor a ele é aquele demonstrado pelo como os homens se comportam. Amar Jesus é, neste sentido, muito mais do que uma emoção: é uma acção.
O resultado é que a pessoa que ama Jesus é colocada no tal circuito de amor divino prévio, que faz com que o Pai entre na equação. Amar Deus Filho despoleta que Deus Pai nos ame de volta. Recordemo-nos do impacto chocante que isto teria para pessoas educadas a que nenhum homem se poderia comparar com Deus. Jesus assume que é um com Deus - Jesus assume que ele próprio é Deus. Logo, o facto de Deus Pai amar é simultâneo ao facto de Deu Filho amar também. Por isso, a pessoa que guarda os mandamentos de Jesus é amada por Deus Pai e por Deus Filho, duas pessoas de um mesmo Deus.
Mais ainda: Jesus amará de volta a pessoa que já o ama porque pratica os seus mandamentos, sendo que quando isso acontece é porque o Pai também já faz parte desse processo amante, e Jesus vai manifestar-se a essa pessoa. Quando Jesus ama alguém, manifesta-se a essa pessoa. Logo, amar Jesus, que é a mesma coisa que amar Deus, envolve um processo dinâmico em que quanto mais amamos, mais conhecemos aquele que amamos. Jesus manifestar-se à pessoa que o ama e que por ele é amado significa sempre que essa pessoa verá Jesus mais manifestado a ela. Por isso, fica implicado que quanto mais amas Jesus, fazendo o que ele manda, mais de Jesus vais conhecer. Pela negativa, podemos dizer que quanto menos fazes o que Jesus manda, mais certo é que não o amas e que menos dele vais saber, porque ele não se manifestará como era o plano dele com as pessoas que o amam a sério fazendo o que ele manda.
Um resultado prático e triste do nosso contexto actual, carregadinho de supostos amantes de Jesus é que, na verdade, isso é mentira. Uma boa parte das pessoas que diz amar Jesus não o ama. Como sabemos? Porque as palavras de Jesus, que era uma pessoa interessada em esclarecer os seus discípulos acerca de como podem distinguir pessoas que realmente o amam das pessoas que não o amam, são claras para sabermos que quem não faz o que Jesus manda é porque não o ama e não vive numa relação em que cada vez sabe mais dele. Antes pelo contrário, quem diz que ama Jesus sem fazer aquilo que ele manda é na verdade uma pessoa que não o ama e que pouco sabe dele, porque Jesus não se está a manifestar nele.
Uma última implicação é que, por politicamente incorrecto que seja, na Bíblia o assunto de distinguir entre quem ama Jesus a sério de quem não o ama é importante ao ponto de Jesus querer esclarecê-lo junto dos seus discípulos. Uma grande parte das vezes é usado o argumento que a preocupação em saber quem é cristão de quem não é revela a pequenez de quem quer saber. Mas podemos dizer, como base neste texto, que a preocupação de saber quem realmente ama Jesus não pode ser assim tão mesquinha, a menos que o próprio Jesus se tornasse mesquinho ao abordá-la com os seus discípulos. Simplificando: se o fundador do cristianismo - Jesus Cristo - deu importância a saber distinguir quem o ama de quem não o ama, levando o tema na última conversa que teve com os seus discípulos antes de morrer, provavelmente é sinal que os discípulos de Cristo depois de ele ter ressuscitado devem continuar a levar o assunto a sério.
Isso não deve significar que nos colocamos no lugar de conhecer as coisas que não nos são dadas conhecer. Mas quer dizer, pelo menos, que valorizamos coisas como juntar o amor a Deus à prática dos seus mandamentos. E um valor como esse vai tornar-se solidamente um critério para o modo como reflectimos sobre a nossa vida e sobre a vida dos outros. Nesse sentido, manter uma perspectiva romântica do que significa amar Jesus é não querer saber do que Jesus nos diz, enquanto seus discípulos. Amar Jesus romanticamente é correr o risco de não amá-lo e perder uma leitura correcta da realidade comunitária do que ser discípulo de Jesus quer dizer.
***
"(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele». (22)Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: «Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?» (23) Respondeu Jesus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. E viremos para ele e faremos nele morada.»"
Neste texto é interessante que haja diálogo. Ficamos a saber que quando Jesus falava, havia perguntas por quem o ouvia. Sendo este um facto simples, é um facto importante. Nós, que somos hoje discípulos de Jesus dois mil anos depois, deveremos estar conciliados com a existência de diálogo e de perguntas sempre que Jesus é dado a conhecer através do nosso discurso. Certamente que isso não deve querer dizer que perguntar por perguntar é o melhor modo de dialogar com o ensino de Jesus - aquilo que receio que em grande parte caracterize o nosso tempo. Mas quer dizer que dialogar com o ensino de Jesus pressupõe dúvidas e perguntas que, idealmente, serão respondidas por ele mesmo.
Agora é Judas, não o Iscariotes, que pede um esclarecimento a Jesus. Se tivermos de o refrasear, eu faria assim: Jesus, qual a origem dessa ideia de que te manifestas a uns (neste caso, nós os teus discípulos) e não a outros (neste caso, o mundo)? E creio que a necessidade de reflectirmos nesta frase é que, em grande parte, ela continua a pesar sobre os nossos ombros. Numa cultura dada ao conceito de que todas as pessoas são iguais e que, por inerência, devem ter o mesmo tipo de oportunidades, a pergunta de Judas é feita de uma maneira ainda mais intensa: por que razão é que te hás-de mostrar a uns e não a outros, Deus? Podemos ir mais avante e questionar a justiça dessa diferenciação de Jesus se aproximar de uns e não de outros. Porque é de aproximação, neste caso, de manifestação, que se está aqui a falar. Qualquer intimidade de Deus com uns acarreta uma não-intimidade com outros. O texto reconhece esta distinção.
Vejamos a resposta de Jesus. Jesus explica que o facto de ele se aproximar de uns, manifestando-se a eles, e não se aproximar de outros, não se manifestando ao mundo em geral, está ligado ao amor. O amor é um aspecto diferenciador. Como assim? Jesus responde que há pessoas que o amam e que esse amor por Jesus se manifesta no facto de estas pessoas guardarem a palavra de Jesus, que significa fazer aquilo que ele manda (como já falámos anteriormente). Mais ainda, e relembrando um raciocínio que Jesus vinha a desenvolver: as pessoas que amam Jesus, e que mostram esse facto obedecendo ao que Jesus diz, são amadas de volta pelo Pai - provando que Jesus é Deus e que a finalidade do amor vai para o lugar da sua origem, Deus Pai. O amor começa e termina em Deus; nós somos apenas envolvidos nele.
Deus Pai e Deus Filho vêm até aos que o amam e fazem morada nessa pessoa. Nesse sentido, cada cristão torna-se uma casa de Deus porque Deus habita nele. Nós somos morada do próprio Criador. E somos morada do Criador porque fomos envolvidos por Jesus no amor que ele já tem com Deus Pai desde sempre. Nós não somos casa de Deus porque construímos para ele um lugar. Nós somos casa de Deus porque, ao sermos colocados dentro do trânsito amoroso e eterno que existe dentro de Deus, tornamo-nos mais um dos lugares onde esse amor transcendente se manifesta. A imanência que nos é dada - termos Deus dentro de nós, tem a tal origem transcendente.
Agora não esqueçamos que estávamos a desenvolver a ideia de que Jesus está a dar uma resposta à pergunta de Judas, que quer apurar a razão de haver uns aos quais Jesus se manifesta e outros que não. A ideia ainda não está terminada nos versos sobre que falamos agora, mas a ideia já foi iniciada - a razão porque Deus se manifesta a uns e não a outros está no facto de o amor ser o que caracteriza Deus e o modo como ele nos alcança. Logo, e neste sentido, o amor é um factor que também diferencia homens. Por outro lado, e ainda dentro deste amor, está a obediência como o amor real manifestado. A obediência não aparece necessariamente como a origem do amor que temos por Deus (numa lógica de amo porque obedeço), mas como manifestação desse amor (obedeço porque amo). Na fé, a obediência não é o facto iniciador de amarmos Deus, mas a obediência é o facto que confirma que o amamos mesmo. Tudo isto porque, como nos foi dito, é o amor de Deus que chega até nós e não o nosso amor que chega até Deus. Somos cristãos pela graça e não pelo mérito.
***
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus:«Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele». (22) Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: «Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?» (23) Respondeu Jesus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. E viremos para ele e faremos nele morada. (24) Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. E esta palavra que estais ouvindo não é minha mas do Pai que me enviou. (25) Isto vos tenho dito, estando ainda convosco. (26) Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito».”
O verso 24 aplica de um modo simples a consequência negativa de quem não faz com Jesus aquilo que deve ser feito. Quem não se relaciona com o que Jesus diz, não colocando esse discurso em acção, e assim confirmado que na prática o ama, é porque, lá está!, não tem amor por ele. Esta frase tão simples é provavelmente das mais chocantemente úteis para os nossos tempos, prósperos a fazer afirmações precoces de amor, não as tornando consistentes naquilo que o amor torna consistente: uma vida transformada visível em acções concretas, acções essas que são consequência de amar Jesus. Naturalmente, quem não ama Jesus permanece incólume às palavras dele, não fazendo aquilo que Jesus manda fazer. E permanecer indiferente às palavras de Jesus é sinal de que se passa ao lado do que é fundamental acerca dele.
E a autoridade de Jesus para afirmar estas coisas procede do Pai. Numa primeira vista pode parecer que Jesus sacode a água do capote, em jeito de "se não gostam do que estou a dizer a culpa não é minha mas de Deus Pai, que inventou tudo isto!" Mas a afirmação de Jesus deve ser mais bem entendida tendo em conta a referência constante de que ele está em união perfeita com Deus. Logo, se de quisermos aprender uma lição destas palavras, em vez de se desculpar, Jesus coloca na linha da frente a harmonia com o Pai. Não gostar do que Jesus diz é não gostar do que Deus Pai diz. Não está em causa lidar com o discurso de Jesus independentemente do facto de o discurso de Jesus ser também o discurso de Deus.
O verso 25 coloca-nos em trânsito para o lugar onde conheceremos mais sobre o consolador que foi prometido. Jesus diferencia o tempo em que falou aos discípulos do tempo em que o Espírito Santo vai falar. Nesse sentido, há uma diferença. Mas essa diferença deve ser aceite tendo em conta que o Espírito é enviado pelo Pai em nome do Filho. Aquilo que é distinto em Deus pertence paradoxalmente à igualdade qualitativa de pessoas na Trindade. Deus relaciona-se com os homens numa diversidade que sublinha a harmonia trinitária.
Nessa diversidade, cabe ao Espírito Santo o papel de ensinar e lembrar. Ensinar aquilo que, por um lado, Jesus não ensinou e que pertence a uma época nova em que a Igreja, na ausência física de Cristo, é guiada pelo Espírito. E cabe ao Espírito Santo o papel de lembrar tudo o que Jesus disse. Podemos dizer que nós, que habitamos nesta época em que a Igreja é guiada pelo Espírito, temos necessariamente de ser um povo que valoriza o ensino e a memória. Valorizar o ensino é aceitar que dependemos do Espírito. Valorizar a memória é também aceitar que dependemos do Espírito. Aplicando isto de uma forma bem simples, podemos dizer que igrejas que não valorizam o ensino e a memória são igrejas que não dependem do Espírito e que se afastam de Jesus, porque o Espírito é o modo de permanecermos unidos a Cristo na sua ausência física.
Há pelo menos dois movimentos nesta missão que o Espírito tem de ensinar e lembrar. O primeiro, do ensino, pode ser visto como de expansão. O Espírito, no que ensina à igreja, vai além do que Cristo ensinou. Claro que este "ir além" pressupõe sempre uma fidelidade ao ensino de Cristo. O segundo, da memória, é um movimento de concentração naquilo que Cristo ensinou - um regresso. Os movimentos de expansão e regresso estabelecem uma harmonia na qual a igreja de Cristo deve permanecer.
***
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus: «Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele». (22) Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: «Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?» (23) Respondeu Jesus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. E viremos para ele e faremos nele morada. (24) Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. E esta palavra que estais ouvindo não é minha mas do Pai que me enviou. (25) Isto vos tenho dito, estando ainda convosco. (26) Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (27). Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração nem se atemorize.»”
É interessante que pegado ao assunto do Espírito Santo venha o assunto da paz que Jesus nos deixa. Esta associação permite-nos pensar que com o Espírito Santo vem a paz, paz essa que, sendo deixada por Jesus, não é uma paz qualquer, à qual os discípulos já pudessem estar habituados. Esta paz é uma paz diferente.
Logo, não dá para querermos que a paz que nos diz respeito, enquanto cristãos, seja uma paz avaliada segundo os padrões do mundo. Podendo ser uma aplicação bem simplista destas palavras de Jesus, ocorre dizer que um dos nossos grandes problemas é esperar que Deus nos dê uma paz parecida com as outras pazes que temos sentido no mundo. A paz de Deus é diferente e não pode ser igual às outras.
Talvez o maior problema que os cristãos hoje têm no assunto da paz que querem sentir seja o de esperarem por um tipo de paz que em grande parte corresponde à paz que o mundo lhes costuma dar. E não dá para tornar a paz que Jesus deixa igual às pazes que o mundo nos tem dado. Logo, uma das perguntas úteis para quem estuda este texto é: até que ponto é que me tenho conciliado com as pazes do mundo de um modo que, quando posso me envolver com a paz de Jesus, a rejeito? De que maneira é que as pazes do mundo me têm intoxicado ao ponto de ter medo da verdadeira paz que Jesus me dá?
Apesar de neste texto Jesus não elaborar muito a partir destas perguntas que fazemos, uma coisa fica clara: o facto de ele nos dar paz deve ser suficiente para que o nosso coração não fique conturbado. E talvez desta afirmação dê para fazer um novo teste - vivo atemorizado? Se sim, será que isso quer dizer que ainda não provo a paz que Jesus prometeu deixar? Se Jesus associa a paz que deixa ao pedido que não vivamos assustados, será que o nosso susto constante é resultado de não sermos ainda verdadeiramente tocados pela paz de Jesus?
O texto parece sugerir que a paz de Jesus pode chegar a um lugar onde a paz do mundo não chega, que neste caso é a ausência do medo. Falando a partir da experiência de uma pessoa amedrontada que sou, é sinal que o medo que sinto ainda é o reflexo de uma paz de Jesus que ainda não experimento devidamente.
***
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus: «Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele». (22) Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: «Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?» (23) Respondeu Jesus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. E viremos para ele e faremos nele morada. (24) Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. E esta palavra que estais ouvindo não é minha mas do Pai que me enviou. (25) Isto vos tenho dito, estando ainda convosco. (26) Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (27) Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração nem se atemorize. (28) Ouviste(s) que eu vos disse: vou e volto para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu.»”
Jesus continua a insistir. O que Jesus teima em dizer é o que Jesus vai fazer. Não se pode separar o discurso de Jesus do que Jesus faz, fez ou fará. Neste caso, é importante notar que o que os discípulos têm a ganhar do que Jesus lhes diz é, mais uma vez, terem a certeza de que Jesus regressará para eles. Toda esta conversa de Jesus tem uma mensagem nuclear: Deus quer ter comunhão connosco e ser discípulo de Jesus é ter a garantia de que essa relação não pode ser quebrada, nem pela morte.
Por outro lado, devemos notar que Jesus coloque frases condicionais. As condicionais, como "se me amásseis", tornam o discurso mais rugoso. Para a nossa sensibilidade moderna pode até ser irritante que Jesus esteja sempre a colocar em causa o amor que os discípulos têm por si - não seria mais fácil se esta conversa assentasse simplesmente numa lógica de que Jesus ama os discípulos e os discípulos amam Jesus? No entanto, não é essa a lógica que conduz o texto.
Este discurso de Jesus não é sobre Jesus constatar que os discípulos o amam. Este discurso é sobre Jesus assegurar-lhes que não serão abandonados e que o amor que Jesus lhes têm, sendo consequência do amor que o Pai lhe tem e que lhes chega através do Espírito Santo, é a garantia desse não-abandono. Logo, não é absurdo que Jesus coloque constantemente em causa o amor que os discípulos lhe têm uma vez que esse amor não é o ponto fundamental que Jesus está a afirmar aqui. Entre Jesus assumir que certamente os discípulos o amam e a partir dessa certeza conversar com eles, e Jesus assumir que certamente ele os ama a eles e na conversa colocar em causa se esse amor também existe de eles para ele, Jesus opta pela segunda. Por isso, este discurso, sendo acerca de amor, não é um discurso fácil. Aliás, sempre que a Bíblia fala sobre o amor, fá-lo com muita exigência.
Jesus insinua que os discípulos não se alegram com a ida dele para junto do Pai e que esse facto revela que, na prática, o amor que os discípulos lhe têm não é assim tão bom. Como assim? Jesus está a querer dizer que amá-lo significa desejar que ele esteja junto do Pai, ainda mais do que desejar que ele fique connosco. Parece que há uma maneira de desejar que Jesus não nos deixe, para ir para junto do Pai, que é uma maneira de não amar Jesus. Podemos ir mais longe e sugerir que há um modo de desejarmos a presença de Jesus que é não amá-lo. Isto porque a pessoa que realmente ama Jesus deve alegrar-se no facto de Jesus voltar para o Pai.
Que grande tarefa encontramos aqui: devemos treinar o nosso amor por Jesus baseando-o em alegrarmo-nos no facto de o Filho poder estar em comunhão plena com o Pai. Se amarmos Jesus de um modo que o retira dessa comunhão plena, não o estamos a amar convenientemente. Amar Jesus separando-o do Pai não é amá-lo. E aqui talvez valha a pena colocar uma pergunta: de certo modo, não caímos todos neste pecado quando destacamos Jesus do Pai, por exemplo atribuindo-lhe, ainda que conscientemente, uma personalidade mais agradável do que a do Pai? Quando ganhamos preferências por alguma das pessoas da Trindade, estamos a amar mal a pessoa pela qual temos a preferência. Amar Deus é desejar a comunhão de todas as pessoas da Trindade entre si. Amar Deus é amar a Trindade na sua harmonia.
Daí que seja especialmente triste que estas mesmas palavras de Jesus sejam usadas para quebrar a harmonia trinitária. Já conhecemos a acusação típica de grupos heréticos acerca de o próprio Jesus dizer aqui que é inferior em relação ao Pai. Por isso, vale a pena reflectirmos sobre o que está aqui a acontecer.
Em primeiro lugar, é útil compreender o contexto desta conversa. Mais do que ser uma conversa que trata acerca do relacionamento trinitário divino, esta é uma conversa que trata acerca do relacionamento de Deus com os discípulos a partir do relacionamento trinitário divino. Ou seja, a maior preocupação de Jesus neste discurso não é instruir os seus discípulos sobre a Trindade, mas instruí-los sobre a sua natureza de discípulos, consequente aos factos trinitários.
Em segundo lugar, é útil compreender que a afirmação de que o Pai é maior do que Jesus serve de justificação para que os discípulos se alegrem pelo facto de Jesus se preparar para regressar a ele. Ou seja, porque o Pai é maior do que eu vocês devem ter alegria que eu regresse para ele. O argumento de Jesus não é estabelecer que o Pai é maior do que ele, mas é, a partir de o Pai ser maior do que ele, tornar lógica a alegria que os discípulos devem ter pelo reencontro de Pai e Filho. A aparente superioridade do Pai não é afirmada per se mas a partir do encontro entre ele e o Filho. O importante aqui não é a distinção entre pessoas da Trindade mas o encontro entre elas. Voltando um pouco ao que já se disse, se Jesus fala na importância de os discípulos se sentirem consolados porque a relação que eles têm não vai ser quebrada porque o Pai e o Filho estão numa harmonia que lhes chegará através do Espírito Santo, não parece muito lógico que a moral que tiremos daqui seja a distinção qualitativa entre pessoas da Trindade mas, bem pelo contrário, a sua harmonia.
Logo, parece razoável afirmarmos que apesar de literalmente o sentido nos parecer de uma distinção qualitativa (em que é dito que o Pai é maior do que o Filho), num sentido mais global entendemos que o discurso acentua a igualdade qualitativa trinitária. Descontextualizado este verso pode ser usado para afirmar o contrário do que parece ser a preocupação contínua de Jesus ao longo de todo este discurso.
***
“(1) «Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. (2) Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito, pois vou preparar-vos lugar. (3) E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo; para que onde eu estou, estejais vós também. (4) E vós sabeis o caminho para onde eu vou.» (5) Disse-lhe Tomé: «Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho?» (6) Respondeu-lhe Jesus: «Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai se não por mim. (7) Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto.» (8) Replicou-lhe Filipe: «Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta». (9) Disse-lhe Jesus: «Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Quem me vê a mim, vê o Pai. Como dizes tu: mostra-nos o Pai? (10) Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. (11) Crede-me que estou no Pai e o Pai em mim. Crede ao menos por causa das mesmas obras. (12) Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e outras maiores fará porque eu vou para junto do Pai. (13) E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. (14) Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos. (15) E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, (17) o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque ele habita convosco e estará em vós. (18) Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros. (19) Ainda por um pouco e o mundo não me verá mais; vós, porém, me vereis. Porque eu vivo, vós também vivereis. (20) Naquele dia vós conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós. (21) Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele». (22) Disse-lhe Judas, não o Iscariotes: «Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo?» (23) Respondeu Jesus: «Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. E viremos para ele e faremos nele morada. (24) Quem não me ama, não guarda as minhas palavras. E esta palavra que estais ouvindo não é minha mas do Pai que me enviou. (25) Isto vos tenho dito, estando ainda convosco. (26) Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (27) Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração nem se atemorize. (28) Ouviste(s) que eu vos disse: vou e volto para junto de vós. Se me amásseis, alegrar-vos-íeis de que eu vá para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. (29) Disse-vos agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós creiais. (30) Já não falarei muito convosco pois aí vem o príncipe deste mundo e ele nada tem em mim. (31) Contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamos-nos daqui.»”
No verso 29 Jesus reconhece que a verificação de uma profecia não é uma coisa má. Se Jesus diz que lhes diz para que eles acreditem quando acontece, significa que não é mau nós aceitarmos profecias com uma expectativa realista de as termos como inteiras somente quando se concretizam. Isto não quer dizer que um crente é um empírico mas significa que a atitude que se pede de alguém que segue Jesus não é uma credulidade, independente da veracidade dos factos, mas uma fé iluminada pela integridade divina, que promete e cumpre o que promete.
Nesse sentido, podemos dizer que crer e acontecer andam juntos para o discípulo de Jesus. Isso não acarreta que aquilo em que cremos acontecerá no nosso tempo, mas definitivamente significa que aquilo em que cremos há-de mesmo acontecer. Se crêssemos independentemente de acontecer, não creríamos a sério. Sendo uma frase que parece apenas de passagem, é uma frase importante. O que Jesus diz, diz porque é sério e quando acontecer o que Jesus disse, devemos crer ainda mais. Novamente: crer e acontecer andam juntos.
O verso 30 oferece-nos alguma urgência. O tempo está a passar e o que há para acontecer, vai acontecer mesmo. Neste caso, o comportamento de Jesus para com os discípulos aparece algo condicionado pelo facto de Satanás se preparar para entrar em cena. Há um ordem assumida e os acontecimentos, não sendo robotizados pela ordem prévia, sucedem-se em função do plano que foi urdido pelo próprio Deus. A predestinação não é uma razão para que os eventos estejam desprovidos da sua autenticidade, mas que a autenticidade se submete também à predestinação é um facto. Jesus não tem como falar muito mais porque aproxima-se a hora de Satanás.
A expressão de que "Satanás nada tem em mim" é valente. Faz lembrar os filmes americanos: "he's got nothing on me". Apesar de Satanás ser o príncipe deste mundo, ele não tem poder contra o Verbo. Jesus é o Verbo que, como afirma este evangelho, veio para os seus e os seus não o receberam. Se seguirmos esta linha de raciocínio, Jesus também lida com o mundo declarando que não faz parte dele. É irónico que o verso mais conhecido da Bíblia no Século XX seja um deste evangelho declarando o amor de Jesus pelo mundo (João 3:16) mas seja simultaneamente ignorado que, neste mesmo evangelho (e nos outros escritos de João), o mundo apareça maioritariamente como o oposto da missão de Jesus. Neste caso, o mundo é aqui o lugar que pertence a Satanás e nem tanto a Deus. É como se Jesus dissesse que Satanás até pode mandar nesta tralha que o mundo é mas isso não afecta nada porque Satanás em nada tem propriedade sobre Jesus.
No verso final, o 31, as palavras de Jesus são esclarecedoras. Sendo estas palavras finais colocadas em contraponto ao facto de Satanás ser como que proprietário deste mundo, Jesus esclarece que a sua missão é deixar claro a este mundo, que está sob a posse de Satanás, que aquilo que Jesus faz tem um objectivo último. Aquilo que Jesus faz tem um objectivo último. Que objectivo é esse? Jesus faz o que faz para que o mundo saiba que ele ama o Pai e que faz como o Pai lhe ordenou. Ou seja, podemos ir mais longe e resumir que, à luz deste texto, Jesus veio ao mundo para mostrar que ama o Pai e que se comporta obedecendo-lhe, como reflexo desse amor. Notemos a estreita ligação entre amor e obediência, em todo este capítulo 14 estudado.
Se quisermos experimentar alguma polémica, que seja bênção na nossa sede da palavra, diríamos: Jesus não vem ao mundo para provar que ama o mundo. Jesus vem ao mundo para provar que ama Deus Pai. É verdade a afirmação de João 3:16, que Deus Pai envia o Filho porque ama o mundo, na perspectiva que ama aqueles que chama. Mas essa verdade tem de ser vista comunicando com esta verdade que, superior ao amor mais global de Deus pelo mundo, está o amor mais particular do Filho pelo Pai (e vice-versa). Uma vez mais somos lembrados que é o amor intra-trinitariano que despoleta o amor entre Deus e os homens. A realidade mais básica é a do amor dentro de Deus que, consequentemente, provoca o amor entre Deus e os homens e o amor entre os homens.
Jesus termina esta parte deste importante discurso colocando na base aquilo que na base tem de estar. O ponto de partida é Deus para que, chegando aos homens, a Deus se possa regressar. Todo este circuito de Jesus (do Pai para ele, e, pelo Espírito, para nós) tem o propósito de exemplificar na união entre amor e obediência que Deus é o próprio objectivo. A lógica é radicalmente teocêntrica e quando o homem a ela chega, a Deus se tem de render.
O texto termina com a preparação para o que se segue. É meio abrupto e tem graça, nesse carácter de Jesus tomar as rédeas da necessidade de dirigir os discípulos aos passo que se segue. vamos, pessoal!
Pensem num quadro que dá trabalho para fazer . Santa Ceia 60x150 que vai morar na casa da Elizângela em Contagem MG - #andrezakatsani #lastsupper #santaceia #ultimaceia #quadroscoloridos #pinturaemtela #arte #arteemtela #quadrospersonalizados #telaspersonalizadas #jesus #naif #artenaif
Somos mais que uma banda somos amigos.. #ultimaceia #ulc #bandaultimaceia
Sei que hj nao foi nosso melhor dia, mas tbm sei que ele agr faz parte da nossa historia , e tenho certeza que mais dias como esses virão pois se fosse facil qualquer um subiria naquele palco e faria melhor....Muito prazer somos a banda ULTIMA CEIA.. #ultimaceia #ulc (em Sao Francisco Xavier - SFX)
Essa é a proxima do nosso repertorio ......#bandaultimaceia #ultimaceia #rock #killinginthename #rageagainstthemachine (em Sao Francisco Xavier - SFX)
Ensaio #ultimaceia #boméquandofazmal #matanza