Púlpitos e corações abertos
Em meados do mês de julho do ano passado, o Movimento Mosaico de Goiânia lançou uma campanha que fazia o seguinte questionamento: "Qual pobreza a sua riqueza supre?" E eu gostaria de começar esse texto com essa pergunta.
Quando se trata de Missão Social, Ação Social ou qualquer que seja o título na área social, sempre acaba sendo um tema bastante complexo e controverso. É assistencialismo ou não? Fazer ação social ou não? É necessário que a igreja tenha uma área específica para isso? O que é Missão Social?
Um milhão de questionamentos brotam, várias críticas e poucas ações concretas mas, me desculpe, eu não pretendo responder todos esses questionamentos.
Quando olhamos a questão da pobreza ou do pobre/necessitado à luz da Bíblia, notamos que nos idiomas originais, seja no Hebraico ou no Grego, são utilizadas várias palavras diferentes que descrevem tipos de pobreza diferentes que, por sua vez, demandam atitudes e ações diferentes.
Começando com o Antigo Testamento, gostaria de citar 7 palavras do Hebraico que demonstram diferentes tipos de pobres ou necessitados. A primeira é “ANI”, pobreza causada por aflição e opressão (utilizada em Isaías 3.14). A segunda seria “EBYON”, necessitado e dependente, alguém que não consegue viver independe dos outros (utilizada em Deuteronômio 15.4 – 11). A terceira é “RASH”, empobrecidos por espoliação (2 Samuel 12.1 – 5). A quarta é “MACHSOR”, que é alguém dado a bebidas e outros hábitos danosos (Provérbios 6.10 e 11, 21.17). A quinta é “DAL”, um pobre frágil e fraco (Amós 5.11). A sexta é “RAEB”, o faminto (Ezequiel 18.5 – 7). E a última, a sétima, é “CHELKAH”, que em sua raiz significa escuro ou infeliz; é aquele pobre infeliz ou deprimido na mente (Salmos 10.14).
E quando partimos para o Novo Testamento, na passagem de Lucas 21.2-4, a famosa passagem da Viúva Pobre, nós notamos que são utilizadas 3 palavras diferentes referindo-se à mesma pessoa:
“Viu também certa viúva pobre [mbuwkah] lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre [ptokos] deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza [husturema] deu tudo o que possuía, todo o seu sustento. ”
E é com base no Novo Testamento, na palavra “PTOKOS”, que eu gostaria de te levar a uma reflexão.
O ptokos é o mendigo que não tem segurança e é depende dos outros, mas é de extrema importância notar que não é utilizado apenas ao fisicamente necessitado, mas também se estende aos necessitados em espírito.
Na passagem de 2 Coríntios 8.9, o apóstolo Paulo escreve “pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre [ptokos] por amor de vós” e, em Mateus 5.3, no Sermão do Monte, Jesus diz “Bem-aventurados os humildes [ptokos] de espírito, porque deles é o reino dos céus. ” Ou seja, vemos que o ptokos pode ser tanto em comida, quanto em espírito.
E é por esse motivo que eu comecei o texto com a pergunta: "Qual pobreza a sua riqueza supre?"
Eu acredito em uma visão de igreja que está atenta à necessidade do mundo (no sentido de pessoas), que entende que a pobreza ou a necessidade possui diversas raízes diferentes e precisam de tratamentos diferentes.
Nós, como igreja, precisamos entender a Missão Social em um sentido macro, amplo. Precisamos entender que é vital a pregação do evangelho sim, mas que além de pregar o evangelho e exortar o erro em AMOR, cada tipo de pobreza demanda de nós uma atitude correta e urgente.
Para embasar isso, poderíamos nos atentar a passagem de Atos 6 e 7, a passagem em que são escolhidos 7 homens para cuidar das viúvas, entre eles Estêvão. Aqui, é interessante notar os requisitos para a tarefa: boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria. E vemos que Estêvão era "cheio de fé e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo” (Atos 6.8), ou seja, ele concomitantemente não se atinha apenas ao Social e também não se esquecia dessa função.
E esse deve ser o nosso modelo de ação. Jamais devemos negligenciar a pregação, o evangelho e uma vida em retidão, mas os nossos olhos também não podem se fechar às necessidades de quem está à nossa volta.
Que não apenas os nossos púlpitos, mas também os nossos corações estejam abertos aqueles que nos rodeiam.


















