O fim da tarde sempre lhe era mais agradável. Havia algo de reconfortante no momento exato em que os últimos raios de sol se recolhiam e a escuridão começava a se espalhar como uma amante fiel, tomando para si cada centímetro do mundo lá fora. Os olhos azuis encaravam a vista parcial do espelho de Treatan. Por mais que a curiosidade lhe cutucasse as costelas de vez em quando, Gayane não gostava da ideia de ver demais. Nunca confiara naquele tipo de poder — o futuro era traiçoeiro, e ela não queria o próprio destino enlaçado ao de um estranho por capricho do reflexo. Bebericou o chá com certa resistência. A careta foi inevitável. Depois da transformação, algumas coisas simplesmente perderam o sabor — e chá, por alguma razão específica, parecia sempre um castigo delicado. Foi então que viu Catalina, a princesa de Castilla, passando próxima ao quiosque. Havia algo em sua expressão — nos ombros tensos, no caminhar firme demais — que denunciava um aborrecimento. Gayane arqueou uma sobrancelha, interessada. ❝Catalina, querida, por que não se senta comigo?❞ Chamou, com a voz doce e clara o suficiente para alcançar a princesa sem soar invasiva. Havia no convite um tom leve, quase acolhedor — mas também um fiapo de autoridade que não podia ser ignorado. ❝Aconteceu alguma coisa?❞ Pegou a xícara com mais elegância do que gosto, os olhos sempre atentos. ❝Alguma das suas irmãs disse o que não devia outra vez? Sei bem como irmãs mais novas podem ser... problemáticas.❞ A sinceridade estava ali, embora cuidadosamente polida. Gayane falava como quem conhece feridas — e as nomeia com luvas de veludo. Ainda que imaginava que suas dores com uma das irmãs mais novas, estivesse bem distante de qualquer dor que a Bourbon pudesse ter com suas irmãs. ❝Mas, seja o que for...❞ concluiu, com um sorriso suave e olhos ligeiramente sombreados, ❝...tenho certeza de que existe uma maneira de resolver. Sempre existe. Basta querer o suficiente.❞