Wanna Take You Home Tonight | VinixKen
Era uma quarta-feira, acredite se quiser. Era tão incomum que Vinícius estivesse no clube em plena metade da semana que até ele se sentia esquisito. Mas aquele havia sido um dia difícil, tinha perdido um paciente na mesa de cirurgia para uma maldita hemorragia que ele até agora não sabe explicar como começou. Após muito tentar, teve que aceitar que não tinha mais como salvar o paciente e finalizar a cirurgia. Passou mais de duas horas sentado em sua sala resistindo à vontade de chorar e quebrar tudo, afinal não tem mais idade para esse tipo de explosão.
Para Vinícius, perder um paciente é a pior coisa que pode acontecer.
Enfim, depois de quase três horas de reflexão, foi obrigado a se recompor e ir embora do hospital. Pediu para todas as suas consultas do dia seguinte serem remarcadas, a única coisa que permaneceu em sua agenda foi uma cirurgia de transplante, que ele não é de deixar gente necessitada na mão. Foi para casa, se deu de presente uma lasanha, um banho, e então partiu para o Café Photo. Em plena quarta-feira.
Uma das melhores coisas que Vinícius fez na vida foi se associar ao Café Photo. Foi uma das coisas que ele também se deu de presente, mas no aniversário de 37 anos. Sabe como as pessoas costumam ter uma crise dos 30? A dele foi aos trinta e sete. E o Café Photo foi algo que o serviu como uma luva. Algumas pessoas chamam o Café Photo de puteiro de alta classe, mas o Vini discorda disso. O clima é completamente diferente, ele diria. O ambiente, as músicas, as dançarinas, até o bar. E é lá, onde ninguém o conhece (se você não contar um ou outro parceiro de profissão com quem ele se bate às vezes), que ele consegue se libertar de pudores sociais e esquecer por algumas horas da clínica, daquela cirurgia que não foi bem, daquela discussão com a mãe etc.
Ao se sentar no bar, recebeu olhares confusos do barman, que veio vê-lo após um par de minutos. – Doutor Vinícius, o senhor por aqui no meio da semana? – Ele perguntou, curioso, e Vinícius riu. – Foi um dia difícil, Tiago. Vamos deixar assim. Traz o de sempre. – Logo em seguida recebeu sua dose de whisky. Após consumi-la e mais duas outras, sentindo-se um pouco mais leve do que quando entrara, abandonou seu posto e decidiu procurar diversão entre as dançarinas daquela noite.
Era quarta-feira e ela foi a primeira que ele viu. Pela primeira vez. Todas as outras, Vini conhecia – Sandra, Tamara, Fabi... Umas mais que as outras. Mas aquela nunca estivera ali antes, pelo menos não nos dias que Vinícius costumava ir ao clube. Enquanto ela dançava, seu corpo se movimentando sensualmente de acordo com a música, seus olhos (puxadinhos) encontraram os de Vinícius por uma fração de segundo e ela piscou para ele, um sorriso felino em seus lábios pintados de vermelho. Foi mais do que suficiente para que uma nova obsessão se desenvolvesse no âmago do homem.
Por duas semanas ele foi ao clube religiosamente nas noites de sexta e sábado, mas a japonesa (“Geisha” era como a chamavam, Tiago o informou) dos lábios vermelhos não estava lá. O pior é que Vinícius não conseguia tirá-la da cabeça, e apesar de ter se envolvido com outra mulher naquele tempo, acabava sempre voltando a pensar na japonesa do Café Photo. Então ele finalmente percebeu que provavelmente nunca tinha a visto antes porque ela só trabalhava no Café durante a semana. Pareceu óbvio demais.
Na quarta-feira seguinte, Vini limpou sua agenda matinal do dia seguinte e foi ao Café, sem previsão de hora para voltar.
Geisha estava lá. Um pequeno sorriso vitorioso se espalhou pelo rosto de Vinícius quando a viu, logo ao chegar no clube. Ele foi logo falar com a organização, um pessoal que ele já conhecia bem, apesar de ser sócio há um tempo relativamente curto. Foi preciso muito convencimento (e alguns peixinhos, se me entende) para conseguir contratar os serviços da moça, visto que um outro cliente já a havia reservado naquela noite. Mas, enfim, conseguiu.
Na hora marcada, foi para a sala designada para eles e pôs-se a esperar ansiosamente pela chegada da moça.