the embrace by ron hicks (american, 1965-)
minha mente vagueia, num sopro de insanidade
àquele dia que o pôr do sol se tardou em se despedir
e deu lugar a uma lua minguante,
que outrora assistira ao teu partir sem piedade
um gatilho para recair num torpor de ilusões,
que o teu universo me submete a enfrentar,
um surto de deleite que me domina o corpo e arde minha alma,
implorando para em meus versos te eternizar
quando nossos rostos se encontraram
e nossas respirações entraram em harmonia,
sintonizando com as nossas vozes entrecortadas
pelo doce suspiro do prazer
quando seu beijo quente e vagaroso
deparou-se com os meus lábios agitados
e amansou-me sem pudor,
então eles ali decidiram se perder
as palavras sussurradas no silêncio,
cortado vez ou outra pelo teu ou meu suspirar
e que não só despe-me em sentimentos
como também os fazem pulsar
numa tentativa desesperada de me recordar,
de tornar a tua presença real,
delineei os teus traços e acariciei os teus cachos
e te apertei forte com medo de que fosse escapar
como não sucumbir a vontade de fotografar em minha memória
cada minucioso detalhe teu
e narrar cada segundo que nessa tarde se sucedeu?
como esquecer o teu semblante angelical adormecido
enquanto teu corpo se entrelaça ao meu
e minha cabeça em teu peito descansa?
ânsia de manter a visão do teu rosto enfim sereno,
dos teus olhos e longos cílios,
de reviver cada milímetro do teu toque
e de aquecer a tua angústia até leva-la a morte
quão injusto é ter que em meio a tímida alvorada despertar
desses devaneios de um passado tão próximo e irreal
sem ter o teu peito para adormecer
e o teu corpo para abraçar?
e se numa tarde de primavera o sonho se repetir
como num inverno gélido que se foi e que fez-se abrasante
espero que não seja apenas um reflexo do outono em que floresceu
e que me deixou só, a questionar a lua minguante