Cheguei do trabalho hoje, coloquei a chave em cima da mesa e fui rumo ao banheiro do meu quarto. No caminho a campainha tocou, era o entregador do galão d’água que eu pedi. Fui tirar o dinheiro da carteira para pagá-lo e de repente caiu uma carta que estava bem dobradinha. Isso foi um gatilho! Meus olhos começaram a querer inundar, minha respiração ficou mais ofegante e meus ombros nunca pesaram tanto como pesaram naquela hora. Eu paguei o entregador e fechei a porta imediatamente, corri para o quarto me escorando pelas colunas da casa e foi quando eu senti o primeiro pingo de lágrima rastejar em direção minha boca. Eu havia jogado todas as coisas que pudessem ser gatilhos de lembranças dela, pois eu sabia que doeria muito todas as vezes que eu viesse lembrar, pois junto com as lembranças, eu tinha também a culpa. Eu tentei me concentrar ao máximo para não chorar, para enganar essa dor, porém não teve jeito, ela veio. Eu tinha ganho essa carta quando eu ainda nem se quer tinha dito que a amava; ganhei essa carta na época em que era confortável para mim deixá-la sozinha em casa para ir curtir com meus amigos; ganhei essa carta na época em que ela chorou para eu ser mais atencioso com ela, mas eu só soube dizer que se tivesse ruim para ela o meu jeito de ser, a porta estava aberta.
Foram tantas vezes que eu deixei claro que se ela saísse da minha vida, não faria a mínima diferença, mas porque eu tinha certeza que no fundo ela nunca sairia, afinal, ela não tinha forças para isso, já que me amava tanto. Mas um dia, ela avisou que estava saindo da minha vida e assim fez. Eu claro que não acreditei, porém, os dias foram passando e nada dela voltar. Então, eu fui atrás dela e de longe eu vi que ela ainda era a mesma, aquela que me olhava com um amor intenso. Fui chegando perto dela e ela disse, “Desde já saiba, que nada que você diga, fará eu voltar. Acabou! ”, foi nesse momento que eu comecei a me preocupar de verdade, ela nunca havia dito nada do tipo, assim, na minha cara. Eu comecei a pedir para ela parar de graça, que eu a amava e que então, por favor, me perdoasse... ela foi firme como nunca, os olhos dela se encheram de lagrimas, ela respirou fundo e pediu para eu ir embora. Apesar de eu ter visto no olhar dela o quanto ela me amava, eu senti nas duras palavras dela uma vontade verdadeira de seguir em frente com sua decisão e desde então eu perdi a mulher da minha vida. Foi nesse dia que eu aprendi que não era só os homens machistas, agressivos e narcisistas que perdiam quem eles diziam amar, como também os imaturos. Por mais que eu tivesse tomado todo o cuidado para não cair em nenhum gatilho, não teve jeito, a vida continua por si só, fazendo eu colher o que plantei, não porque eu era um homem ruim e sim porque nem se quer homem eu procurei ser. Ela esteve lá, esperando eu procurar amadurecer, mas eu continuei vivendo de forma confortável como menino... até que ela cansou. Hoje, eu só consigo pensar que a carta que eu não dei valor quando recebi com amor, acabei dando valor com a dor.