“Baby, você é a razão da minha vida
Você traz sentimento a minha vida
Quero ter você perto de mim
Eu quero que você me ouça dizer
Ninguém precisa de você mais do que eu”
(You're The Inspiration - Chicago)
A reclamação poderia ter vindo de Cecília.
Ela é que tinha nos feito contratar o melhor pacote de internet disponível na região, e ainda assim sempre achava lento demais na hora de subir seus vídeos em seu canal.
Contudo, dessa vez, a reclamação vinha exatamente de uma das pessoas que menos usava internet naquela casa, perdendo apenas para a minha mãe.
Lua ainda não era muito adepta às redes sociais e utilizava a internet basicamente para questões ligadas ao trabalho ou em pesquisas para seus estudos.
Dessa vez, a aflição dela era para entrar no site da Universidade da nossa região, para onde ela tinha prestado o vestibular para o curso de Administração.
Nossos planos para um novo bebê tinham dado muito certo. Certo até demais. Lua estava grávida de gêmeos – um menino e uma menina – que nasceriam dali a algumas semanas.
As aulas começariam dali a pouco mais de um mês e por conta da licença maternidade ela perderia as primeiras aulas.
Mas queríamos todos que aquilo não fosse um problema.
Minha mãe e eu – e até mesmo Cecília – estávamos preparados para dar todo o suporte e apoio que ela precisasse para conseguir recuperar as matérias logo que pudesse iniciar as aulas.
Isso, é claro, se o nome dela estivesse naquela lista, garantindo que ela conseguira uma das vagas.
Eu não tinha qualquer dúvida a respeito disso. Lua tinha estudado muito, e era esforçada demais em atingir seus objetivos e realizar os seus sonhos. Aquele seria mais um.
Porém, queria que ela se sentisse confiante de que não haveria problema algum caso o nome dela não estivesse ali.
— Se não conseguir esse ano, pode tentar de novo no próximo — eu garanti. Estava de pé atrás da cadeira onde ela estava sentada, no escritório que montamos em nossa casa, com as mãos em seus ombros.
Ela estava tensa, e eu não queria que qualquer resultado fizesse com que ela duvidasse do tanto que era incrível.
— Mamãe passô? — a vozinha de Rael invadiu o escritório.
Olhei para trás e o vi entrar correndo, segurando algumas folhas de papel dobradas, sendo seguido por Cecília, que trazia uma mochila nas costas e o celular em mãos, preparada para filmar tudo, e pela minha mãe, que trazia em mãos uma xícara de chá.
— Ainda não conseguimos ver, filho — respondi, pegando Rael no colo.
— Mas ela vai passar! — Cecília garantiu.
— Se não, a gente vai lá reclamar, porque é armação!
— Armação pra mamãe? — Rael arregalou os olhos, fazendo uma expressão de surpresa.
— Ninguém vai armar nada para a mamãe — tratei de tranquilizá-los.
— A internet está lenta, mas logo teremos o resultado.
— Não está apenas lenta! — Lua reclamou.
— Ela não está funcionando! Olha, nenhuma página quer abrir.
Peguei meu celular, testando se ela estaria com a razão. Bem, ela estava em certo ponto.
A internet realmente não funcionava... mas apenas no computador. Carreguei o site da universidade, confirmando que a lista tinha acabado de ser divulgada.
— Amor, enquanto a página não carrega, eu preciso usar o banheiro por um minutinho e já volto, tudo bem?
Ela balançou a cabeça, sem tirar os olhos da tela do computador.
Dei um beijo em sua testa, coloquei Rael no chão e saí.
Enquanto passava pela porta, troquei olhares com minha mãe e meus filhos... eles sabiam muito bem o que fazer.
Talvez os hormônios do final de uma gravidez de gêmeos tivessem uma enorme influência naquela aflição que eu sentia, mas obviamente não era apenas aquilo.
Concluir o Ensino Médio era apenas uma parte do meu sonho, que era entrar em uma universidade.
Eu já sabia que sonhos não tinham prazo de validade, muito menos uma ordem certa ou um modo tradicional para acontecer.
A menina Luna, aos seus doze ou treze anos, sonhava em passar para uma faculdade, encontrar o seu príncipe encantado, se casar como manda o figurino, ter filhos, se formar e... ser feliz. Nessa ordem.
Meu príncipe tinha vindo quando eu já tinha o primeiro dos meus filhos, e trouxe a segunda consigo, nascida do ventre de outra mulher – a qual eu sempre teria um respeito enorme.
Não tive um casamento tradicional, mas o amor que Arthur e eu tínhamos um pelo outro e toda a história que construímos já me bastavam.
A felicidade tinha vindo em todas aquelas coisas, junto também com o maior bônus que eu poderia desejar, que era ganhar uma mãe já aos vinte e três anos de vida.
Na verdade, existiam outros bônus. Dois filhos além do planejado – que já eram incrivelmente amados e esperados; um negócio bem-sucedido com minha escola de equitação; e era óbvio que dentre todos esses sonhos já estava subentendido que eu teria um lar, mas aquela fazenda conseguia ir além disso. Era o meu pedacinho de paraíso na terra.
Passar em uma faculdade e me formar seriam a peça que me faltava. E eu pretendia seguir buscando aquilo, ainda que não passasse dessa vez.
Mas, por Deus, como eu desejava passar! Não parava de atualizar a página.
Dona Kátia me entregou uma xícara de chá para que eu me acalmasse, mas sequer consegui tomar um único gole, tamanha era a minha aflição.
Até que, finalmente, a página carregou.
Fui descendo a lista, até chegar à letra L. Apesar de minha família me chamar de Lua e de esse ser o nome com o qual eu me sentia verdadeiramente eu, meus documentos ainda constavam o meu nome de batismo, então fui até a lista de “Lunas”. Havia cinco.
— Passei! — gritei, aflita. — Eu passei! Entretanto, não houve nenhum único grito ao meu redor.
Arthur ainda não tinha retornado do banheiro, mas dona Kátia, Rael e Cecília ainda estavam ali, não estavam?
Girei a cadeira para procurar por eles no cômodo e vi que Cecília tinha aberto sua mochila e tirava dela pétalas de rosa, que jogava pelo chão. Pensei que aquela era uma comemoração meio estranha para alguém que passou em uma faculdade e ia perguntar o motivo daquilo quando uma música instrumental começou a tocar vinda de algum lugar.
Olhei para a porta no momento em que ela se abria e o ar me faltou por um segundo.
Arthur voltava, já com uma roupa diferente da que usava antes.
Agora estava com calça e camisa social, como se estivesse preparado para uma ocasião especial.
Novamente: aquilo não seria um pouco demais? Eu tinha passado no vestibular, mas ainda não era o dia da minha formatura.
Então, ele se ajoelhou diante de mim, me dando uma grande dica do que pretendia fazer.
Meu coração pareceu parar de bater por alguns instantes, voltando em seguida com força total.
Dona Kátia pegou o celular das mãos de Cecília e se afastou um pouco, com a câmera voltada em nossa direção e com seus olhos – já mergulhados em lágrimas – fixos ao visor, o que me indicava que estava filmando.
Já Cecília, pegou um dos papéis das mãos de Rael, deixando outro com ele. Cada um se posicionou em um dos lados de Arthur e abriram os pequenos cartazes, cada um deles com uma parte da mensagem:
Mamãe, você aceita......se casar com o nosso pai?
Arthur abriu uma caixinha diante dos meus olhos, exibindo um lindo anel. Então, começou a falar: — Sei que você disse uma vez que não precisa das formalidades de um casamento tradicional, com um vestido de noiva, bolo, buquê, daminhas e tudo o mais.
Mas eu prometi a mim mesmo que vou realizar todos os sonhos da pequena Luna, que se tornou Lua, mas não perdeu a sua essência. Isso, é claro, se você disser sim.
Se eu dissesse sim? Haveria alguma outra resposta possível?
— Sim! — praticamente gritei, ainda mais alto do que quando vi meu nome na lista da faculdade. — Sim, sim, sim, mil vezes sim!
Ele colocou o anel em meu dedo e se levantou, dando-me um beijo digno de cena de cinema. Ou das novelas que dona Kátia nos fazia assistir com ela todas as noites.
As crianças vibraram, dona Kátia chorava, enquanto agradecia a Deus por aquele momento. E eu senti até mesmo os gêmeos se movendo agitados em minha barriga, mostrando que também estavam presentes naquela ocasião tão especial.
Quando afastou os lábios dos meus, Arthur me abraçou e falou ao meu ouvido: — Sei também que não se importa com a ordem dos acontecimentos, mas eu quis que pelo menos algo seguisse os seus planos iniciais. Sabe, primeiro entrar na faculdade, depois o casamento.
Senti algo diferente naquele momento.
Mas não algo emocional, e sim físico. Minha bolsa estourou, mostrando que os bebês pretendiam vir ao mundo antes do planejado. Talvez quisessem comemorar com a gente.
Arthur correu comigo para o hospital – na verdade, a família inteira.
Horas depois, já tínhamos nossos dois novos pacotinhos nos braços.
Eles também não seguiram a ordem que eu tinha planejado para os sonhos da minha vida, mas eu seguia acreditando que não era preciso ter um ordenamento ou um prazo para nenhum sonho.
E, assim como nem todos os sonhos eram para sempre, muitos surgiam aos poucos em nosso caminho.
As ordens se invertem, as prioridades mudam... às vezes uma vida inteira muda, como foi o meu caso.
Mas eu sabia que o essencial estava ali comigo: a minha família.
O restante viria aos poucos, ao seu tempo.
Bastava que eu seguisse o meu coração.
A web chegou ao fim. Dedico esse Capítulo final as minhas leitoras lindas…