O gelo permanecia sobre as ruas. Muitas pessoas estavam congeladas ao chão, faces contorcidas pelo horror e pela dor. O céu começou a colorir-se lentamente de azul, todavia, o gelo permanecia inerte, como se nem mesmo todo o calor do mundo fosse capaz de derretê-lo.
A destruição de Wuldor tinha deixado Nova Iorque impossivelmente silenciosa. Thinker caminhava entre o gelo, vendo todas as vidas que tinham sido desperdiçadas no gelo. Sua mente, entretanto, só procurava uma pessoa: Mnemosyne. Procurava ardentemente o pensamento silencioso e comedido de sua deusa da memória.
A parte dele que ainda era Julian e a parte que insistia em ser Mark continuavam a atormentá-lo, falando o nome dela incessantemente. Mnemosyne. Mnemosyne. Mnemosyne. Quando Thinker tinha despertado, toda essa parte humana deveria ter ido para o ralo junto. Toda essas vontades, todas essas preocupações... Entretanto, elas tinham se tornado ainda mais fortes. Era como se até então toda sua vida tivesse sido assistida por uma televisão sem cores e, agora, finalmente pudesse ver a coisa real, pegar na coisa real. A matéria real do que significava vida.
Ouviu o pensamento de Mnemosyne, parecia estar sob uma barreira. Ele sorriu. Bastava-lhe saber que ela estava viva. Ela não tinha sido engolida pelo gelo. Agora ele podia resolver os outros problemas. Entrou pela porta de uma cafeteria cujo nome era Destino e desapareceu na escuridão.
Seria esse o fim?
Uma pessoa olhou para a porta em silêncio. Contemplou o desaparecimento daquele outro ser. Poderes, será que havia mais pessoas como ele, afinal? Ele ergueu as mãos, sentindo as chamas azuladas trepidarem por entre seus dedos, cantando a melodia suave da chama que trepida entre as brasas. Mesmo descongelando as pessoas, elas não voltavam, estava tudo perdido. A sua cidade estava destruída.
Ele tirou o capuz que cobria os cabelos loiro-platinados. Desenrolou o cacho que prendera por dentro da proteção do pescoço, deixando o cabelo descer até a altura de seu diafragma. Respirou fundo o ar frio e sentiu a pior das tristezas, estava tudo acabado. Reabriu os olhos azuis e a chama azulada trepidou mais uma vez em suas mãos.
“Aiden.” Ele virou-se para olhar quem o chamava. Outra pessoa, um pouco mais baixo do que ele, de pele sardenta, cabelos alaranjados vívidos, cortados pouco abaixo do queixo, chegou até ele, com vários casacos em punho. Ainda tinham as etiquetas penduradas, como se tivessem sido retirados da loja naquele momento.
“Taran, aqui não é mais seguro.” Ele sibilou.
“Todo mundo morreu... Eu... Eu... Eu não consegui fazer nada e...” A pessoa estava tremendo e se agarrou ao outro, soluçando.
“Você salvou a si mesmo, isso não é o suficiente?”
“Aiden! O que foi que aconteceu?” Os olhos verdes brilhavam com as lágrimas que estavam por cair.
“Essa é a nova era, Taran. A era dos poderes. O homem de Londres destruiu Nova Iorque, agora todos vão saber que existem mais pessoas como nós.”
“Isso é péssimo!” Taran gemeu.
“É muito ruim mesmo.”
“O que vamos fazer então?”
“Vamos sair daqui, Taran. Faça o que eu digo, alguma vez eu falhei com você, meu irmão?” Aiden estendeu a mão para o outro que fez um muxoxo.
“Certo. Para onde?”
“Para qualquer lugar que não seja aqui. Seja criativo, Taran.”
“OK.” E num piscar de olhos, os dois sumiram em meio a densa e fria névoa de Nova Iorque.
***
Mnemosyne estava com as duas mãos sobre a cabeça. Abriu os olhos, olhando para os lados, com medo de ter morrido por conta do mar de gelo que havia tomado a rua. Estava viva! Olhou para cima e viu uma imensa cúpula vermelha sobre ela. Olhou para os lados e viu várias pessoas assustadas ao seu redor. A cúpula sumiu repentinamente.
“Vocês têm que sair daqui agora. Procurem algum lugar para se protegerem, se esquentem, comam alguma coisa e depois tratem de fugir daqui, o mais rápido possível!” A voz era masculina, rouca, como se tivesse com algum problema na garganta.
As pessoas começaram a correr para todos os lados, mas Mnemosyne continuou sentada no chão, gelado, ainda atordoada.
“Espero que eles consigam ao menos sobreviver. Infelizmente não podemos cuidar deles.” A segunda voz também era masculina, mas muito mais compassada e comedida. Uma voz forte, parecida com a de um locutor.
Mnemosyne levantou-se, seu joelho estava sangrando e doendo e sua saia estava em frangalhos. Ela virou-se para olhar quem estava falando. Levou as duas mãos até a boca ao ver três homens atrás dela. Um deles tinha a pele acobreada, cabelos aloirados (pareciam mais queimados pelo sol do que propriamente loiros) e olhos escuros. O outro estava coberto por uma roupa cinza, sobretudo, capuz e máscara de esqui, tudo cinza; ainda assim era possível ver seus olhos igualmente cinzas por debaixo da máscara. O terceiro era a razão para o susto inicial: era um homem alto, atlético, com um porte bastante incomum dado ser puro músculo sob uma camada nada envergonhada de látex furta-cor. Os olhos de Mnemosyne passearam pelo corpo dele inteiro, assustada pelo fato do homem parecer ter sido esculpido em mármore negro. Os cabelos loiros, quase brancos, flutuavam em torno do rosto e sobre a cabeça. Os olhos azuis pareciam com as águas do Caribe e... O pior: era o homem dos noticiários. O homem que tinha destruído Londres e que estava destruindo Nova Iorque.
Mnemosyne caiu sentada e tateou o que estava sob seu corpo. Sua bolsa com seus diários; isso só tinha piorado a queda, agora estava com as coxas e os joelhos doendo. Soltou um gemido que estava entre o medo e a dor, sentiu as lágrimas correrem por seu rosto e não conseguia mais se mover.
“Calma, calma. Somos os mocinhos.” O homem moreno falou. “Sou Cage. Prazer. Deixe-me ajudá-la. Acho que você machucou seus joelhos no vidro.”
“Não me toque!” Mnemosyne bateu na mão de Cage, que se afastou alguns passos.
“Você não tem tato social algum, Cage.” O homem mascarado resmungou. Era dele a voz de locutor de rádio!
“Fala o cara que está parecendo um criminoso com máscara de esqui.”
“Está frio, tenho uma ótima razão para estar todo encapotado.” Ele reclamou.
“Saiam daqui!” Mnemosyne encontrou voz para gritar. “Vocês destruíram Nova Iorque! Seus... Monstros!”
“O que leva você a pensar que destruímos Nova Iorque?” O homem com voz de locutor perguntou.
Mnemosyne ergueu um dos braços, tremendo, apontando para o homem de collant preto. Ela sentiu a ânsia de vomitar, mas não tinha forças nem para esse ato reflexo.
“Hiver, ela me vê.” A voz do homem de collant era provavelmente a voz mais doce que Mnemosyne já tinha ouvido na vida. Não era a mesma voz do telejornal. Ele parecia uma criança, correndo até ela e se debruçando, agachado para olhá-la. Um gatinho, ele parece um gatinho – Mnemosyne tentou afastar esse pensamento enquanto ele estendia uma das mãos para ela.
A vontade de alcançar-lhe a mão era forte, tomo-a por completo e ela estendeu os dedos, tocando a palma da mão do homem de cabelos angelicais. Ele sorriu – um sorriso doce como glacê – e ela sentiu todo o frio ir embora.
“Não é você.” Ela balbuciou. “Você é... Apprivoiser? Moondancer? Não, nenhum desses é seu nome. Mas, você gosta quando chamam de Moon. Quem é você?” Ela afastou a mão e o homem levantou-se a frente dela.
“Pelos deuses. Ela sabe dessas coisas só de tocar no Moon?” O homem moreno – Cage – abaixou-se perto dela. “Moça, temos que sair daqui. Se o cara que destruiu tudo imaginar que alguém como você está aqui, ele provavelmente vai querer matá-la.”
“Você é completamente desprovido de filtro, Cage. Ela está apavorada e você fala em morte perto dela.” O homem de cinza balançou a cabeça. Ele tirou a máscara revelando as mandíbulas fortes e o rosto de traços leves, porém muito masculinos. Ele não tinha barba e o rosto claro acentuava os olhos cinza. Ele era loiro, loiro até nas sobrancelhas. “Venha, segure firme no meu pescoço, vamos levá-la para um lugar seguro.”
Ela estendeu o braço, sem pensar muito. Ele era muito bonito e com aquela voz, não podia ser desse mundo. Ele a segurou no colo (ainda por cima era forte!) e colocou-se a andar.
“Daí, você que é compromissado pega a mulher bonita no colo.” Cage protestou.
“Justamente porque eu sou compromissado, Cage. Ainda mais com o compromisso bem do meu lado, maravilhado com a moça que pode vê-lo. Logo, eu não vou ficar tentando me aproveitar da situação. Aliás, ainda que eu fosse solteiro, seria indelicado me aproveitar. Você tem que aprender a filtrar o que você fala, Cage.” O homem reclamou e Mnemosyne olhou para o homem de collant preto. Ah, então eles eram um casal. Não que isso fizesse muito sentido.
“Indelicado. Será que é isso que torna você...”
“Só mais uma palavra e eu passo a moça para Moon, só para poder fazer você engolir a tal palavra que você estava prestes a dizer.” Mnemosyne riu um pouco. Mesmo com a voz forte que ele tinha, era possível ver que ele estava brincando com o outro. “Eu sou Hiver. Pode me chamar pelo nome ou pela minha alcunha, Winter Shade.”
Mnemosyne arregalou os olhos. Em sua agitação ela quase caiu no chão, sendo aparada por Moondancer e Cage, que pareciam dispostos a se jogarem no chão a fim de evitar que ela sequer batesse no gelo.
“Winter Shade! Você tentou hacker a minha conta!” Ela exclamou, incrédula. Só podia ser muito azar mesmo! Estava no colo de um hacker!
“Memorylady?” Winter perguntou, com uma sobrancelha arqueada. “Definitivamente isso é uma curva fora do padrão. Que inesperado.”
“Caramba. É ela. Agora a gente tem mesmo que escondê-la. Se aquele maníaco sequer imaginar que...” Cage começou a atropelar as palavras, extremamente nervoso.
“Acalme-se, Cage. A criatura do seu sonho não precisa saber que a resgatamos.”
“Cult.” Ela falou, sem pensar muito. Talvez soubesse disso por estar tocando o pescoço de Winter Shade com as suas mãos. Estava inconscientemente bebendo das memórias dele. “Você estava procurando Cult. E me encontrou. Desculpe, mas você nunca iria descobrir minha senha.”
“Eu sabia que não iria descobrir porque você é metahumana. Estava óbvio quando eu tentei entrar na sua conta.” Ele respondeu, sem esboçar qualquer alarde.
“Você sabia...? Afinal o que...?”
“Leio padrões. Encontrar você no meio disso tudo, entretanto, foi um ponto fora da curva. Estou tão surpreso quanto você. Podemos chamar isso de ‘destino’, afinal certas nuances ficam completamente fora dos meus cálculos. Imaginava que você estava em Nova Iorque e diria que a razão de estarmos aqui seria a tentativa vã de encontrar outros como nós e talvez, apenas talvez, encontrar você. Mas, a tentativa e erro surtiu acerto, encontramos você. Vamos encontrar um lugar para cuidarmos de você com propriedade e mantê-la a salvo, se assim permitir, Memorylady.”
“Mnemosyne.” Ela interrompeu o monólogo do outro.
“A Deusa da Memória. Que pertinente. Sua mãe deveria ser uma senhora muito inteligente.” Winter Shade ofereceu outro dos seus belos sorrisos e Mnemosyne o segurou mais forte.
“Ela era.” Mnemosyne respondeu, um pouco triste.
“Aqui. Esse aqui é meu cafofo aqui em NY. Não que eu tenha muitos cafofos, só tenho esse e um em Parma.” Cage falou, batendo no gelo.
“Você também tem uma casa no Canadá.” Moondancer falou, com um sorriso sincero. Cage se pendurou no braço do homem loiro e começou a rir. Mnemosyne sorriu um pouco ao notar a afinidade de todos eles. Eram realmente amigos – algo raro de se ver, ainda mais em dias horríveis como esses últimos dias.
Moondancer aproximou-se da porta e tocou-a, fazendo com que o gelo derretesse por completo. Cage aplaudiu e passou a chave no ferrolho da porta. Subiram alguns lances de escadas até parar em frente a uma porta amarelada. Pelo brilho em algumas partes da porta, ela tinha sido dourada em algum momento de sua vida.
“Beleza, mi casa, su casa. Mas não tenho nada nesse apê, porque vocês sabem... Carrego tudo nessa mala aqui.” Cage bateu na mala que estava puxando.
“Monte ao menos um lugar em que eu possa colocar Mnemosyne e cuidar dos ferimentos dela.” Winter Shade falou e Cage prestou uma continência.
Ela ficou surpresa ao ver Cage puxar um sofá vitoriano de dentro da mala. Aquilo era impossível! Fisicamente impossível!
“Ele é um manipulador de realidade. A mala dele é uma caixa de probabilidade relativa, ou talvez de probabilidades infinitas. Esse assunto ainda padece de algum estudo. Você, por certo, entende o que eu acabei de dizer.” Winter Shade falou enquanto colocava Mnemosyne no sofá.
“Isso é muito poder!” Ela exclamou.
“Obrigado!” Cage fez uma reverência. Continuou na atividade de acender a lareira da sala, a fim de aquecer o ambiente.
“Eu sou um leitor de padrões e de probabilidades. Sou, basicamente, um buscador de internet em carne e osso. Sinto muito por tentar hackeá-la. Estamos fugindo de Cult igual a você.”
“Sem problemas.” Ela respondeu, com um meio sorriso. “E Moondancer?”
“O negócio de nome legal que eu entendo mais ou menos.” Cage respondeu.
“Chronokinese.” Winter corrigiu.
“Esse mesmo.” Cage pulou e deu um soco vitorioso no ar.
“Nunca conheci alguém que fizesse isso!” Mnemosyne exclamou. Winter estava com um anti-séptico em mãos, limpando as feridas de seus joelhos. Ela resmungou um pouco pela dor, mas deixou que ele limpasse. Era melhor tirar todo o vidro dos joelhos.
“Conhece agora. Você tem uma ótima memória, eu presumo.” Winter continuava tirando os cacos de vidro de seus joelhos.
“Eu meio que sou um computador humano. Faço backups e tudo mais.” Mnemosyne falou e depois colocou uma das mãos sobre a boca. Ela não devia estará falando tão livremente sobre seus poderes.
“Fantástico.” Winter falou, dando uma piscadela. Mnemosyne engoliu seco e olhou para Moondancer, invejando-o silenciosamente.
“Só eu que consigo pensar em várias maneiras como nós poderíamos dominar o mundo? Porque tipo, um cara que consegue saber o que vai acontecer, um cara que consegue estar e não estar, outro que carrega o mundo numa mala e uma mina que se lembra de tudo... Sei lá, acho que é uma combinação vencedora.” Cage parou de falar ao sentir todos os olhares caírem em cima dele. “Achei que seria uma boa ideia.”
“Acho que ninguém aqui tem inclinações megalomaníacas, Cage.” Winter riu um pouco. “Pronto, ainda não estão curados, mas se você quiser, o Moondancer pode dar um jeito nos seus joelhos.”
“Mas, ele não tem poderes só de percepção?”
“Chronokinese vai além do que é perceptível. Talvez não seja uma cura, apenas uma maneira de fazer o tempo retroceder. Fazer a coisa que se quebrou voltar a se tornar inteira. Se quiser tentar, tem essa chance agora, Mnemosyne.” Winter Shade abriu espaço para Moondancer que se debruçou sobre a moça, tocando-lhe os joelhos. Ela sentiu um breve momento de calor e depois foi tomada por uma alegria febril. Tudo isso passou muito rápido e ela finalmente olhou para Moondancer, surpresa pelo ato.
Seus joelhos estavam bons de novo. Ele era muito poderoso e, pelo visto, em nada destrutivo, ao contrário do homem que se parecia tanto com ele... Ela anotou tudo mentalmente e começou a traçar novos parâmetros de memória. Talvez eles pudessem ajudá-la com o outro livro... O livro que Julian a obrigara a escrever... Ela pegou a bolsa e tirou o livro lá de dentro; era tudo ou nada! Estendeu o livro de capa vermelha para Winter Shade, com os braços ainda tremendo.
“O que é isso?” Winter Shade perguntou.
“Eu não sei, achei que você podia me ajudar.” As palavras lhe saíram atrapalhadas.
“Tentarei com todas as minhas forças, Mnemosyne.” Ele respondeu num tom reverencial enquanto pegava o livro das mãos dela. “Você escreveu isso?”
“Não... quer dizer, sim. É a minha letra. Não são as minhas palavras.” Ela balbuciou.
“Estava imaginando como você poderia saber escrever em grego...” Ele falou, puxando algumas páginas. “Aramaico, Russo... Cantonês... Japonês... hmm.. Não sei qual é esse idioma, parece Hindi, mas não é hindu, mas tem a mesma raiz semântica.” Ele pausou. “Claro que sua memória podia guardar vários idiomas, mas presumo que deveria vê-los antes de saber quais são.”
“Julian. Julian escreveu. Quer dizer, não sei se é esse mesmo o nome dele. Eu acho que ele não é mais ele. Tudo é muito confuso.” Ela colocou as mãos sobre o rosto.
“Confusão parece ser o que mais persegue a gente.” Cage sussurrou, mas foi alto o suficiente para todos virar-se para ele. “Olha, até agora só vi coisas confusas demais mesmo.”
“Confusas. Perigosas.” Winter Shade estava mexendo em um laptop. “Nova Iorque foi oficialmente destruída, os poucos sobreviventes estão sendo resgatados pela guarda nacional.” O som dos F5 interrompeu a fala de Hiver. “Calamidade, mas, o perpetror deve ter se evadido. Perdemos a chance de vê-lo.”
“Vocês vieram aqui para ver... Aquele monstro?” Mnemosyne não conseguia esconder a expressão de alarde.
“Sim.” Cage respondeu. “Moondancer queria ter certeza que esse cara não se parecia com ele nem nada.”
“Você não se lembra de quem é... Por isso achou que ele poderia ter alguma resposta?” Mnemosyne perguntou retoricamente e continuou. “É perigoso. Ele não hesitaria em matá-lo.”
“Sabemos disso. Em parte, estou deveras contente por termos nos afastado desse destino.” Winter Shade levantou os olhos, observando a mulher de cabelos negros. “Acredite, eu não gostaria de um triste fim. Estou satisfeito com o meio do caminho.”
Era algo bastante profundo, na verdade. Mnemosyne não resistiu a sorrir, afinal, era bastante incomum que uma pessoa falasse coisas tão espirituais sem estar se aparecendo.
Moondancer se aproximou de Winter Shade e, como se aquilo fosse corriqueiro, o último ofereceu espaço para que o primeiro se recostasse a ele. Os dois ficaram ali, enquanto Winter Shade permanecia a digitar incessantemente sob o olhar de Moondancer. Mnemosyne não recolheu o sorriso, a naturalidade do ato lhe trouxe bastante conforto, como se o mundo estivesse completamente bem, como se Nova Iorque não tivesse sucumbido... Era a utopia!
“Vamos ficar hoje aqui?” Cage interrompeu o sereno silêncio.
“Preciso perceber o novo padrão.” Hiver respondeu. “Ele, o homem que destrói, deveria ter permanecido em Nova Iorque, mas algo fez com que ele mudasse de caminho. Ele destruiu tudo muito rapidamente, não esperou, como se tivesse sido apanhado por uma armadilha.” Ele ponderou e parou a digitação, olhando para Mnemosyne. “Mnemosyne, o quanto você conhece Cult?”
“O suficiente para saber que tudo isso pode ser culpa dele.”
“Ilustre.” Winter Shade recostou-se a Moondancer e esperou que Mnemosyne explicasse.
“Ele... Ele não é uma pessoa. Eu não sei o que ele é, na verdade.” Ela pausou. “Mas, ele é capaz de destruir tudo para conseguir o que quer. Eu escapei porque Julian me tirou de lá.”
“Julian também é perigoso.” Hiver sentenciou. Mnemosyne piscou algumas vezes, de maneira surpresa. Ele realmente podia ler os padrões, estava observando as conjecturas e analisando todas as informações. “Imagino que ele deve ter lhe falado isso. Surpreendente, talvez seja parte do plano dele.”
“Você acha que ele planejou tudo isso? Inclusive que nós nos encontrássemos?”
“Talvez. Veja bem, é um ponto completamente fora de expoente, uma coisa que eu não esperava. Isso não acontece com frequência, apenas grandes poderes conseguem interferir em minha zona de probabilidade.” Hiver esticou-se. “Por ora, gostaria muito de poder descansar.”
“Durma, meu querido.” Moondancer falou, com um sorriso. “Acredito que todos possam aproveitar o sono, estarei tomando conta de vocês.”
“Excelente.” Cage grunhiu, espreguiçando-se. Ele tirou um travesseiro da mala e jogou-o para Winter Shade, que o apanhou no ar. Puxou outro para si e mais outro, que lançou para Mnemosyne. Com isso, lançou um curto beijo para ela e deitou-se do lado de Moondancer. “Se eu roncar, não me acordem. Estou precisado desse sono.”
Mnemosyne riu um pouco e olhou para Moondancer que acenou com a cabeça como se a encorajasse a dormir. Ela aceitou o encorajamento, estava muito cansada, no final das contas.
“Se quiser dormir aí no sofá, ok. Mas se quiser se esquentar aqui com a gente, pode vir. Fica do lado do Winter Shade, porque ele claramente é moonsexual.” Cage falou, num tom de piada. Recebeu um olhar reprovativo de Winter Shade e um sorriso de Moondancer.
Ela gargalhou, sentindo a liberdade para tanto. Era uma ótima ideia ficar mais perto da lareira. Aproximou-se de Winter Shade que, ofereceu-lhe parte da coberta. O calor era gostoso e abraçou-se de leve às cobertas.
“Mnemosyne, nós vamos cuidar de você.” Hiver proferiu.
E Mnemosyne sentiu no fundo de seu coração que podia confiar no homem com os olhos da cor do inverno.