engolir todas as outras poesias de outros corações não me faria engolir o nó na garganta de não poder falar as minhas próprias. de não chegar ao início do pensamento, de sentir a pontada de algo vindo mas não deixar entrar porque se entra faz bagunça e bagunça faz estrago, coisa que eu já estou. só me reconstruo em poesia e é assim que eu manifesto o paradoxo de ter me acostumado a ser tão uma e agora ter que ser tão outra (tão pouco da de antes, que era tanto pra mim). é assim, me debatendo entre minhas próprias paredes de um existir cada vez maior mas com menor espaço pra conseguir sentir sem acabar por sentir muito, em ambos os sentidos que no fim dão num mesmo: o lado de dentro derramando por fora tentando não deixar pingar o que é chuva, feita pra pingar. crua em muitas tentativas de ser, a partir de pedaços que não se encaixam e vão caindo pelo caminho. o que sei é que a poesia de cada pedaço vai ficando e no final é só ela que resta; e sei também que o desenlace castiga tanto quanto o percurso até ele. sinuoso, árduo, febril, e comprimido num nó de garganta.