Os ventos mais intensos iam e vinham no final daquela tarde mal iluminada, denunciavam descaradamente uma possível chuva em meados da noite, nuvens de diferentes cores cooperavam naturalmente para o clima, particularmente agradável, poderia até ser considerado seu preferido; nada melhor do que dormir ao som de gotículas de água chocando-se contra o solo e consequentemente, aqueles que se misturavam com o longo e agradável lago que se instalava bem no meio do mosteiro. Kanna decidiu substituir o tempo ocioso com um tipo comum de entretenimento, além de conceituado como arte, conhecido e herdado, o famoso Shodo. E dessa vez, preferiu praticar ao ar livre ao invés do cômodo fechado destinado para esses fins. Impossível mesmo foi se desvencilhar das inúmeras brincadeiras de Rin e Renmaru, que na maioria das vezes, eram presentes no intuito de chamar sua atenção. Em contrapartida, com o propósito de manter a concentração, decidiu incluí-los em suas atividades, deixando disponível pincéis, nanquim, alguns tecidos e papéis raramente especias.
Em meio aos próprios manuscritos, percebeu que as abóboras não se deparavam mais em sua companhia, e pior que isso, havia tinta onde não deveria, como por exemplo nas belas escadas de madeira que faziam parte da construção do Templo Xintoísta, e ao passo que a programação da limpeza estava sendo elaborada, acabou por seguir um rastro longo de tinta, mesmo que fossem apenas alguns respingos e pegadas. Suas vestes, ainda que clássicas e um tanto ofensivas para a maioria, diferiam do usual unicamente pelo fato do tecido ser mais fino, proporcionando um aspecto um pouco mais suave na aparência. Além de utilizar um outro mais comprido por cima, acinzentado, como uma espécie de avental; e assim como o chão de madeira, se encontrava relativamente sujo.
O rastro acabou por se distanciar minimamente das dependências do Templo, e quando voltou à consciência completa, estava bem próximo ao que antigamente fazia jus à uma trilha famosa, destinada particularmente para o território sagrado. Recolheu sutilmente do chão seu inestimado e atualmente, esquecido, pincel de bambu, fabricado diretamente da China. De maneira inevitável acabou manchando ainda mais suas mãos, considerando que o nanquim diluído deixara um aspecto mais repulsivo do que a pigmentação original. Não havia mais nenhum vestígio de tinta, portanto, presumiu ser o local onde os pequenos youkais haviam feito seus desenhos e até então, travessuras. Suspirou fundo, e ao dar as costas para o arvoredo, ouviu um ruído advindo do mesmo; movida pela curiosidade, por de trás de uma das árvores avistou um indivíduo. Era nada mais nada menos que uma bela garota, aparentemente, tomando consciência após um colapso. Imediatamente sentiu uma energia se dissipando pelo ambiente, tão forte que seu coração ameaçou a disparar. Impossível vestígios como aquele sumirem tão rapidamente assim, logo, as hipóteses começaram a surgir em seus pensamentos; será que havia presenciado algum tipo de portal? Por ora, o que mais preocupava-lhe era o comum visual humano. Apesar de tudo, estava receosa por precisar explicar que boa parte do rosto delicado estava repleto de desenhos incompreensíveis.
Felizmente, seus princípios e valores não a deixariam sair da situação constrangedora como se nada tivesse acontecido. – “V-Você está bem?” – Utilizou-se de um tom suave, a fim de não causar nenhuma impressão intimidadora.