Talvez a parte mais escura de mim seja justamente a que mantenho em silêncio.
Aquela onde ver sua ruÃna lavaria meu ego, fecharia a ferida e cobriria com mel o gosto amargo que sua presença, como terceira em um lugar feito para dois, deixou em mim.
Na maior parte do tempo, tranco essa parte a sete chaves. A parte feia. Sombria. Aquela que deseja que você pereça, que receba de volta o mesmo presente que entregou.
Em outros dias da semana, convenço a mim mesma de que espero que você tenha uma vida feliz e próspera. Não por bondade, talvez. Mas porque desejo que seu coração de fel não estrague o gosto da vida para mais ninguém. Porque, quem sabe, ao experimentar o duçor de ser inteira, você deixe de se alimentar das migalhas de corações partidos.
Mas não hoje.
Numa terça qualquer, meu coração feio e escuro deseja que você permaneça exatamente onde me deixou. Nesse limbo inóspito da dor. Nessa rachadura aberta na gentileza que eu acreditava ser maior do que a dureza da vida.
Eu, que sempre procurei enxergar alguma beleza nas pessoas, mesmo quando me feriam, não consigo olhar para você sem ver vermelho carmesim, sem sentir cheiro de ferro.
Talvez o erro tenha sido acreditar que, mesmo vivendo num mundo rude, eu poderia permanecer gentil. Que a delicadeza bastaria.
Ou talvez seja este o verdadeiro preço da esperança: descobrir que existe uma versão de nós que só nasce quando alguém pisa fundo o bastante para alcançar aquilo que julgávamos intocável.
Porque o que é este sentimento, senão a vingança da realidade contra minha insistência infantil em permanecer vulnerável?












