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sincerar
ser in ar
sem serifa
sin ser ar!
.
porque se você for embora
desaprendo a amar.
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@tchaucecilia
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sincerar
ser in ar
sem serifa
sin ser ar!
.
porque se você for embora
desaprendo a amar.
como será que se dá
a morte de um verão?
como será que pode
a tosse de um cachorro alto
exaurido de coisas da vida
tal qual um triste homem sentado num bar
usando redondo chapéu e
culpando a cerveja ruim pelos chifres?
cada tarde de um dia da semana no Brasil
carrega uma específica fragrância
de tarefa. exemplo a de quarta-feira
que tem cheiro bege
por não ser uma coisa ou outra.
e a de domingo
tem a aridez tão seca quebradiça
de um quarto mal-ventilado, trancafiado há semanas.
sinto um pavor de Novembro.
pavor de respeito como o
cachorro do começo que
apesar de conformado às funções da vida
(e mesmo por isso)
louva obediência ao dono
como um dog-ma.
Táxi
Tão linda a tarde. Tão belorizontina.
Tão cheia de indivíduos e projetos de arranha-céu.
Cada lixo na rua apronta ao vento um carrossel,
essa poluição marcadamente latina.
Penso essa cidade uma roça tão só.
A agonia com que trabalha o limpador de para brisas,
as poeiras que sobem, alérgicas rinites e corizas,
tão altas casas ruminando em pó.
Xô, xô, já.
Há chá? Ah.
Há ou não há?
É, não há. Só chá sem…
Sal!
Ah, vá.
Muito mal!
Meu próprio espelho já foi um cachorro.
Hoje tenho papéis para comprovar as tardes
em que copiosamente
agonizei para ser amorosa.
Regaram minhas antenas e patas
com clorofórmio azul-celeste de banheiro,
e fiquei uma mocinha muito
linda comportada tímida recatadinha
bem-educada promissora meiga muito madura
ilibada pura catequética
pudica chata conformada e linda!
Venham, então, retirar meus ossos
dos lugares não confortáveis
e disponham-nos ao canteiro
sobre os lírios e os amores-perfeitos.
Venham, então, arrancar meus dentes
das suas tortices cáries porcas
e disponham-nos ao canteiro
sobre os lírios e as flores-do-campo.
Ao menos soubessem que sou
um pequeno Atlas escondido.
Não tardem.
Solidão Auto-Provocada
Fase 1
Menina com cenouras no lugar dos cabelos
Fase 2
Terra da Guerra - Terra da Poesia
ou: Águas-turvas escorrem dos meus mansos olhos
Fase 3
Xispa
Fase 4
Com quantos decibéis se quebra um coração
Cão alado
Pequeno cachorro com asas,
salvação da minha vida
cheia de presépios e tábuas,
paredes armadas
- Ó Fada! -
exclama painho
por debaixo dos lençóis de linho,
poliéster chulo e almíscar algodão.
Era onde ele e minha mãe
nunca fizeram festas.
- Depressa, depressa,
esboçemos nós um sorriso alegre
de retorno à criança ruiva.
Ela não é boa com animais
de estimações,
ela não é boa com receitas
nem orações,
ela não é boa com crianças
nem nunca será.
Oremos por esta menina para que cresça em paz, esperançosamente.
Ela é boa em ficar sozinha
e telegrafar telepatias intensivas
a bichos estranhos,
alados e com rabos.
Aquela mulher histérica, cheia de sequelas
Você nunca teve um emprego;
nunca quis morrer por ter de ir ao trabalho todos os dias,
e nunca quis morrer por estar desempregada.
Você ainda é jovem e já é velha demais
para tantas, tantas coisas na vida.
Você não mede o desespero em algoritmos.
Você não sente vontade de chorar pela política.
(Mas você desperdiça os seus anos,
e de que adianta -)
Você ainda será uma santa,
uma vadia,
uma filha e uma esposa,
uma vagabunda, uma conservadora,
e tudo isso é a mesma coisa;
todas essas, a mesma pessoa;
você, e todos os dedos
apontados na direção do seu útero.
Para o ser humano
que um dia fui,
encarregada até os braços de metáforas
e perdendo o controle do choro,
porque nunca fui boa,
(ecoa: nunca fui boa, nunca fui boa, nunca fui boa)
Como uma criança de quatro anos,
os ruivos cabelos lindamente amarrados
e um coração magoado e formando crostas
por nunca saber chutar bolas
e amar os animais de estimação e as pelúcias.
Continuo existindo para você como uma órfã,
como uma mulher submissa e indistinta,
como uma cólica intensa e soberba,
como madrugadas mal-dormidas cheias de bichos amarelos que regojizam sobre nossas cabeças.
Para voltar e engolir fumaça e perder o tempo
me tornando cada vez mais
estranha a mim mesma.
Quão mais fácil seria a minha vida se eu
me autodeclarasse insana, uma freira
ou uma palhaça.
(São essas aproximadamente a
mesma santa coisa.)
Uma coceira que se espalha por mim
e, no espelho, um nariz
que não é exatamente meu.
Para cair nas graças de
braços ortodoxamente consoladores,
você precisa de sorte e destrambelho.
Sorte e destrambelho, eu disse:
me levem até o branco-esquecimento
do que nunca fui.
preciso sobreviver à raiva. preciso quebrar todo tipo de corrente do ódio e da destruição e preciso prová-los que posso sobreviver. preciso transgredir todo tipo de imposição que eles acham que impõem e transformar a minha vida no voo de um pássaro que chora anos perdidos em uma gaiola e a destruição da sua floresta original, mas que voa tão alto agora e desvia de pedras e de palavras horríveis. preciso ser tão subversivo e desvirilizante. preciso provar-lhes que consigo ser e sempre serei uma flor que explode todo tipo desregrado, respeitoso, tranquilo e inquietante amor.
Cartolina recortada
Tenho pequenos braços
feitos de papel
que se rasgam facilmente quando
molhados em gordas gotas
de chuva
Fardo/Ofício
Meu trabalho no mundo
é nunca receber um madrigal
sequer uma flor de alho ou cebola
mas sim distribui-los todos
com o carimbo de um sorriso
Nocturno chopiniano aos olhos teus
A noite, na praia,
é um fruto adjacente dos dias.
Quando o sol acasala
o mar, o oceano incha, grávido,
e faz o parto da noite.
A ilha não é mais de Neruda,
meu amor, a ilha é um pobre rascunho
que deus fez dos olhos teus.
E na embocadura de uma
península, Chopin toca o piano porque
se conhecesse os teus lábios,
cessaria de beijar as teclas.
Pequena menção de sábado
quem há de ser príncipe
nas suas fotografias
nunca foge à vida,
tampouco aos sonhos teus.
Validade?
vamos estipular um prazo,
e vamos viver temendo o Grande dia.
o Amor: é algo que devo deixar vir naturalmente
ou devo lutar por ele com todas as unhas e todos os dentes?
Às vezes
às vezes, me foge à memória
que, também, sou humana.
que possuo um corpo que possui
ossos que possuem certo
desejo de não serem estilhaçados.
que desejo ser amada,
que desejo ter uma casa,
que desejo amar com todas as forças
com todos os dedilhados de cordas de um violão.