Avistar o Geiko sem indícios de qualquer maquiagem em seu rosto podia ser categorizado como um milagre, era raro presenciar um momento que Jaerin estivesse livre das formalidades da Okiya Abe, e no final, ele sequer ligava para elas, tamanha a irritação que sentia no momento. Os dedos longos e esguios apertaram as últimas tragadas de um cigarro, encarando a droga como se o indivíduo que havia ousado irritá-lo estava bem ali a sua frente, mas infelizmente, não era o caso, e mesmo se fosse, não poderia abusar da paciência alheia considerando que a culpa era particularmente sua. Deveria saber que estava lidando com profissionais de jogatinas, que reviravam suas noites em partidas intermináveis de cartas, e o Geiko havia se animado tanto e estava tão confiante com suas habilidades, que acabou por estar sua preciosa adaga entre as notas altas. O coldre em sua coxa sentia falta de sua mediana companhia, usada especificamente para defesa naquelas ruas perigosas da ilha, e sem a sua adorada arma, Jaerin sentia-se nu. Nu, irritado e impaciente. As pálpebras, donas das íris azuladas, se estreitaram no mais perfeito e líquido ódio, enquanto seus dedos pressionavam o toco do cigarro contra o cinzeiro enfim, sendo o terceiro naquele intervalo enquanto esperava pelo tal de Ryu. Um contato seguro, foi o que disseram e Jaerin ousou acreditar, um tanto desesperado por conseguir sua amada de volta. Parecia uma situação simples de resolver, afinal, poderia simplesmente comprar uma nova e seguir com sua vida, sim, simples assim, isso se esta não tivesse sido um presente que o rapaz apreciava e muito. Somente por esse pensamento, o platinado se censurava mentalmente por ser tão estúpido ao ponto de escutar seu ego o tempo inteiro, e a saudades da sensação dos entalhes florais sob seus dedos só chegava a piorar e aumentar seu arrependimento, que provavelmente duraria uma vida inteira se o sujeito não fosse realmente confiável. Ele consegue fazer qualquer coisa, foi o que disseram também, mas roubar uma arma de jogadores aparentemente perigosos parecia uma missão no mínimo, suicida. Bom, sinceramente, não importava para o Geiko, ele apenas queria sua adaga de volta. Por isso, lá estava ele, sentado sobre um dos bancos próximo ao balcão do bar, onde o tal Ryu havia marcado religiosamente, vestido em um kimono vermelho que tanto não condizia seu tamanho, que as suas bordas deslizavam por seus ombros e o tecido sedoso deslizava pela única perna cruzada e que também balançava no ar, impaciente. Era realmente bom que ele aparecesse, e logo.