“ —- Você é nova, devia ser mais rápida que isso, Techy —- ” alfinetou desprovida de medo, a deusa era poderosa, mas algo nas interações que mantinham indicava à Dinah que não corria risco próxima à deidade, pelo menos não por enquanto. “ —- Faz minhas roupas pretas parecerem vindas direto do armário de um emo gótico —- ” o indicador bateu contra o cigarro da canhota, deixando as cinzas caírem no chão envolto de sombras. Diferente da deusa, Dinah trajava uma camiseta de linho branca, um casaco longo preto, calças jeans e um par de scarpins. Dona de uma rede de funerárias, a semideusa possuía dinheiro de sobra, mas preferia não gastar ele em peças extravagantes como as da garota. “ —- Combina com você —- ” observou o cigarro eletrônico, se comparado ao que mantinha entre os dígitos, a diferença de idade tornava-se cristalina. Isso não importava para a prole de Hades, lidava com adolescentes todos os dias na Doyle, e aprendeu que lidar com estes exigia uma paciência de proporções mitológicas, algo que cultivou com os anos. “ —- Esse é o lado bom dos vinis, livre de propagandas —- ” não sabia se a garota estava familiarizada com o formato antigo, mas utilizou este como uma espécie de brincadeira ao que Techy simbolizava. Possuía uma pequena coleção na sua casa, destinada as piores ou melhores noite que tinha, diferente do Spotify, que usava para as corridas matinais. “ —- Pensei que trabalhava sozinha —- ” tragou o cigarro uma última vez, jogando a bituca no chão, pisou nesta para extinguir os restos. “ —- Lido com jovens todos os dias, sei muito bem que adoram esse horário —- ” para esconder as mãos inquietas com falta do cigarro, Dinah enfiou ambas nos bolsos do casaco, protegendo-as da brisa gelada daquela noite. Dava toda sua atenção a jovem, desviando o olhar ocasionalmente, quando os gestos dela sobrecarregavam o olhar cansado da prole de Hades. “ —- Trinta e quatro anos? Uau, pode me passar o endereço da fonte da juventude? —- ” brincou, não estava surpresa com a informação, mas intrigada por está. “ —- Como isso funciona? Não é um pouco cansativo nunca crescer? —- ” Dinah repudiava a ideia de envelhecer demais, mas também não conseguia cogitar permanecer eternamente jovem como Techy. “ —- Outros semideuses estão cuidando dela, tirei alguns minutos para respirar, devo retornar daqui uma hora…. Não, até agora nenhum monstro saiu de lá, a espero que permaneça desta maneira —- ” fazia um bom trabalho escondendo o cansaço e a preocupação, mas ambos permaneciam no seu encalço, não importava quanto se afastasse da Doyle. “ —- Quem disse que estou olhando para o outro lado? Não é possível, mas me diga, alguma pista do massacre na Crimson Avenue? —- ”
a risada foi 𝐚𝐥𝐭𝐚. conhecia apenas uma mão de semideuses, e uma porção ainda menor de não intimados consigo. o problema de tais era que, em sua maioria, lidavam com deuses antigos. a imagem maniaca da deusa não ajudava, claro. não acreditava na carnificina dos antigos, e sim, nos novos tipo de violência e interações; restrito, pomposo e intocável não fazia muito seu estilo. ‘ shut up ! ’ a deusa disse entre risos quase ultrajados, tombando a cabeça para trás, demorando para se livrar do riso genuíno. ‘ combina com você ’ retribuiu a fala, ainda sorrindo. como uma perfeita adolescente, as lentes logo reviraram a menção de discos vinis, perdendo uma postura qual quase nunca tinha. 𝒖𝒈𝒉 . ‘ well it is oͮͣl̥͉̭d̠͎ͤ̈. f͎̤̠̪͈uc̋̒̔kiͯͧn͖̟̺g̃̃̒. n̙̠͈̂͂͊ͪ͊e̒ͩ̑wͦ̇̑s’ comentou um pouco irritada em sua voz digital. se dinah estivesse falando consigo a duas atualizações atrás, quando o vinil era uma novidade, talvez a conversa seria diferente ‘ insustentável ultrapassado, e... 𝚟𝚎𝚕𝚑𝚘 ’ a expressão de nojo enfatizada na última palavra era claro, como se relutante a exteriorizar tal palavra. o vermelho possível de se ver em suas lentes eram as inexistentes telas neons incandescentes, cada vez mais brilhante. sua voz também não havia regredido a humanidade, e o robótico anonimo era cada vez mais alto. uh-oh . 𝚙𝚎𝚛𝚒𝚐𝚘 𝚍𝚎𝚝𝚎𝚌𝚝𝚊𝚍𝚘 𝚍𝚎𝚜𝚎𝚓𝚊 𝚌𝚘𝚗𝚝𝚒𝚗𝚞𝚊𝚛 𝚙𝚛𝚘𝚐𝚛𝚊𝚖𝚊? tragou o vape mais vez, emitindo fumaças perfeitamente redondas ‘ eu não trabalho ’ deu os ombros. 𝚜𝚒𝚜𝚝𝚎𝚖𝚊 𝚗𝚘𝚛𝚖𝚊𝚕𝚒𝚣𝚊𝚍𝚘, 𝚙𝚛𝚘𝚐𝚛𝚊𝚖𝚊 𝚛𝚎𝚝𝚘𝚛𝚗𝚊𝚗𝚍𝚘 𝚊 𝚗𝚘𝚛𝚖𝚊𝚕𝚒𝚍𝚊𝚍𝚎. não era uma mentira. além das tarefas como deusa, qual tomavam todo seu ser, não era necessário um ofício para sobrevivência como outros deuses, e apesar de saber do que a semideusa falava, não considerava o que fazia um trabalho, e sim... bom...viver. ‘ e eu sou uma coletivista, dinah. por favor, eu estou com todos o tempo todo. e deuses modernos são mais ligados do que você pensa ’ sociabilidade não era seu forte, sem alguma dúvida, porém tente viver sozinha na sociedade atual. era coletiva, como todos os deuses modernos. o que era de diversos deuses se não pela tecnologia? o quão bem sucedido seria o deus da publicidade sem a mídia? ‘ ah sim, sua creche de semideuses. it’s very cute. não acha um pouco conflitante com o seu outro trabalho? ’ relembrou, com a mente especificamente pousando num especifico semideus coreano. esperava que o mesmo fosse bem tratado. poucas situações despertavam 𝐟𝐮́𝐫𝐢𝐚 divina em si, atormentar seus poucos abençoados amigos era uma dessas. a garota se distraiu rapidamente, rindo de forma leve com a pergunta da outra ‘ just be the mankinds greatest achievement, obviously ’ completou em uma insolência. ‘ como funciona? ’ repetiu a pergunta, torcendo os lábios e procurando em seu hardware, uma maneira simplista de explicar conceitos complexos ‘ me deixe colocar assim então: não é um pouco cansativo envelhecer todo ano? ’ perguntou sorrindo em ironia ‘ é a natureza da tecnologia (...) é a minha natureza ’ riu com a palavra ‘ ...sempre mudando ’ o suspiro seguido poderia ser considerado cansado, porém, a garota queria apenas acrescentar um toque humano de dramatização ‘ eu estou evoluindo e me renovando a todo momento, nesse exato segundo existe bilhões de atualizações ocorrendo no meu hard drive, sem contar no download do meu próximo update. minha self made bomba relógio de reboot. ’ ergueu as sobrancelhas animada ‘ acontece a cada trinta ou cinquenta anos dependendo do tipo de atualização e é um sacooooo ’ jogou a cabeça para trás relembrando de toda ressaca colossal no dia seguinte de um update, ou a horrível sensação psicótica de descontrole antes desses. o 𝚋𝚞𝚐 inevitável para qualquer atualização ‘ eu to avançando com o tempo ’ disse de maneira casual ‘ com vocês ’ apontou o dedo sem esticar muito o braço e fechando um dos olhos, como se mirando a outra, logo o movendo para todos os outros seres visíveis. era raro ver algum ali com os olhos foras de telas, seja as almas sozinhas ou aquelas que compartilhavam algo no celular com uma companhia. existia aquelas que se encontravam em ligações, tirando fotos ou se localizando. os poucos que não possuíam um aparelho em mãos, o guardavam nos bolsos ou bolsas. nem mesmo iria entrar no âmbito das caixas de som, maquinas de cartão de crédito e telas dentro de cada imóvel ali. aquela era sua era, indiscutivelmente. techy estava em todo lugar ‘ eu sou antiga dinah, já tive muitas idades e ainda vou ter muitas outras, mas minha aparência raramente muda. a tecnologia é sempre nova, não é? chame do que quiser, precise do que for telégrafo, telefones de fio, wifi, robôs... você sempre vai ter a visão de uma garota, não mulher. uma garota. porque é isso é exatamente o que eu sou ’ terminou a frase em um sorriso automático, satisfeita com a explicação padrão e extremamente simples ‘ ah claro... você é uma ótima líder dinah, sua existência e a existência daquela buraco... não é uma coincidência’ pelos lábios de qualquer ser mistico as palavras pareceriam mágicas, proféticas até. por ser techy, aquilo não soava melhor do que uma fofoca velha e um pouquinho entendiante qual reproduzia ‘ é design! ’ completou ‘ c’mon eu acabei de pedir um uber eats, já deve estar chegando. você não é vegana é?’ já sabia a resposta. no caso havia cruzado informações de outrem em sua data e seu padrão alimentício disponível no momento em qual pedia comida pela sua rede enquanto conversava com a mulher ‘ ugh, provavelmente devia perguntar para os amigos da sua mãe. você viu que coisa arcaica ’