Meichi se viu nos olhos do rapaz. Uma figura distorcida pelas nuances de uma íris humana, mas ainda sim observou o seu maior medo: fraqueza. Era a única coisa que podia ver em si mesma naqueles poucos segundos que seus olhos encontraram. A ideia de viver sabendo que havia chego naquele ponto apoiava os sussurros que lhe faziam sentir vitoriosa por mais falso que fosse. Mesmo que tivesse apenas fechado os olhos em seguida, a criatura conseguia se ver. A dor em seu peito pareceu irrelevante, e por mais que as vozes não se calassem, conseguiu pela primeira vez desde o acontecimento escutar sua própria voz em sua mente. Os pensamentos impregnaram-se de ódio direcionado a si mesma. Com a língua sibilada, suas palavras saiam em gaélico primitivo. Se tivesse capacidade, estaria amaldiçoando-se, mas não passava de xingamentos que proferia para qualquer outro ser. Carregada pelo jovem ao seu lado, se encontrava em um transe âmago que piorava cada vez que seu exterior conseguia ver seu próprio reflexo em vidros estilhaçados pelo chão. O que um monstro faria sendo fraco? Uma criatura que precisou de virar-se sozinha durante toda sua existência agora estava sendo carregada por um desconhecido enquanto chorava. Em sua cabeça, nada mais restava, aquilo era definitivamente o fundo do poço para qualquer monstro que fosse.
As serpentes já se encontravam quietam, como se o ódio interno de Meichi tivesse as assustado. O medo de que a mesma acabasse com sua vida naquele mesmo instante. Mesmo em um momento de pânico, conseguiu ter controle de algo - si mesma. Quanto mais distante ficavam da fenda, menos controle as vozes ancestrais tinham sob Meichi, por mais que não se calassem em momento algum. A criatura tinha séculos de existência, sem ter estado em enorme risco por sempre garantir que aquilo nunca acontecesse. Era sua primeira vez se sentindo fraca, não podia desistir agora. Como a mesma havia pensado, era um ser com séculos de existência, conseguia criar força para lutar contra aquilo e vencer. Porém, apenas a reclamação do jovem ao seu lado acordou-a do transe em que se encontrava. — Oh, fuck. — Reconheceu então seu sangue tóxico derramando em uma quantidade maior do que poderia imaginar, fazendo com que retomasse sua consciência ao se sentir prejudicial a vida daquele que estava se arriscando para lhe ajudar. Meichi, pela primeira vez em séculos, estava realmente preocupada se era um problema. — Fucking wake the fuck up, you fucking bastard! — Gritou uma última vez para si mesma, juntando forças para tomar controle de seu corpo e conseguir caminhar sozinha. Seus passos agora estavam rápidos, por mais que embriagados, esbarrando-se em objetos jogados no chão enquanto começava a correr. Não se desequilibrava, e acima de tudo não soltava a mão do desconhecido, puxando-o para longe na esperança de não deixar com que o lugar não o afetasse tanto quanto estava lhe afetando. Durante seus passos, olhava para trás conferindo se, pelo menos, o garoto ainda estava em pé enquanto era puxado e, em momentos que avançava mais do que as penas do jovem, Meichi fazia questão de diminuir seus passos para que o outro pudesse acompanhar. Seu caminho evitava conflito com alguns outros seres vivos que estavam por ali, mas sentiu que não deveria fazer o mesmo com o garoto que havia lhe ajudado. Meichi não seria curada por semideuses, mas poderiam prevenir que o outro chegasse no mesmo nível de loucura daqueles que estavam se jogando em direção da fenda.
— Você não deveria ter feito isso. — Quando sentiu em uma distância confortável, Meichi começou a diminuir seus passos para que o corpo dos dois não colidisse. Parou enfim, virando em direção do outro. Foi então que sentiu o odor semi divino. Não fazia ideia porque de um semideus ter lhe ajudado. — Deveria ter se arriscado por alguém que faria o mesmo por você. — Apesar de ter experimentado diversos sentimentos novos em uma nova fração de sua vida, Meichi não sentia-se confortável com agradecimentos, ainda mais sem conhecer as pessoas e sem saber suas reais intenções. Sabia que suas escamas poderiam ser vistas em seus braços, assim como a pele branca viscosa abaixo de seus olhos e nenhuma névoa temporária impediria do semideus perceber. — Você está bem? Me diz se consegue ir para enfermaria sozinho. — O orgulho voltou batendo em sua porta, era ela quem teria dificuldade de se virar sozinha, porém não deixaria que um semideus pensasse que a vida de um monstro estava nas mãos dele. Pelo menos não quando esse monstro era ela.
Os esforços físicos produzidos quando tinha tão pouca energia pareciam estar levando sua consciência para longe tão rápido quanto os sussurros malditos que a invadiam. Yujin buscava forças sem saber de onde para que pudesse continuar naquele arrasta-empurra que levaria os dois para longe da fenda. Durante o processo, o mundo a sua volta parecia girar em câmera lenta e qualquer outro sentido se tornou irreal, levando-o novamente a onda de entorpecimento produzida pelo cérebro numa tentativa desesperada de autoproteção. Lá no fundo, Yujin conseguia sentir o peito ardendo, como se gotículas de fogo líquido tivessem se instalado em sua pela nas áreas tocadas pelo sangue da garota, mas que aos poucos ia sendo amenizada pelo próprio sangue em refrigério.
Quando Yujin cogitou a possibilidade de que suas pernas não aguentariam mais carregá-los e que falhariam, deixando-os ali nas mãos da sorte, a mulher em seus braços pareceu aos poucos retomar consciência e controle do corpo. Ouviu os gritos ofensivos dela sobre si mesma antes de sentir a silhueta começar a se debater entre seus braços numa tentativa de se livrar do aperto; Yujin teria resistido, temeroso de que ela voltasse para a fenda ao invés de se afastar, porém não tinha potência o suficiente para resistir. Assim que o laço ao redor daquela foi liberado, sentiu a mão ser tomada e passou então a ser guiado pela vítima que tentava salvar. Os papéis estavam sendo trocados, afinal.
Sem os puxões que levava da garota, o semideus temia que pudesse ter desistido e permanecido imóvel pelo resto da noite. E, apesar das pernas longas, Yujin teve dificuldade em acompanhar a mais baixa na corrida; grato que ela tivesse, por diversas vezes, olhado para trás a fim de se certificar de sua presença e assim diminuído o ritmo. Por fim, quando atingiram uma distância consideravelmente segura, a correria foi diminuindo até um caminhar rápido e, finalmente, até que parassem de frente ao outro. Yujin tinha o peito em brasa, sem saber ao certo se era devido ao esforço dos pulmões em inspirar ar ou se pelos ferimentos externos causados pelo ácido. A camiseta agora estava coberta por pequenos furos e úmida de sangue semi-divino. Se curvou sobre o corpo, cansado, e apoiou as mãos nos joelhos. — O que? — A voz saiu fraca, acompanhada da expressão lívida e suada de plena confusão. Não entendia porque estava sendo repreendido daquela forma, especialmente ali e agora. — Eu não fiz isso esperando alguma coisa em troca, só... — Inspirou fundo assim que a voz falhou, logo antes de continuar com potência renovada. — Só fiz o que qualquer um faria. O certo! — Ergueu a cabeça pesada para encarar a figura na sua frente, vendo-a de verdade pela primeira vez. O tecido de pele no corpo feminino parecia ser uma espécie de capa, pois, nos pontos em que havia derretido devido ao sangue ácido, era possível ver uma segunda camada de pele exposta; mais escura e grossa, como se fosse escamas. Além disso, abaixo dos olhos bonitos e castanhos, a pele era gelatinosa e branca. O que ela seria? Monstro ou semideusa?
Yujin quase não ouviu a pergunta direcionada a si, ocupado como estava ainda encarando a imagem incomum diante de seus olhos; tentando identificá-la e então digeri-la com cuidado. — Ãhn, eu tô bem! — Afirmou com a cabeça para dar ênfase, também desviando o olhar da outra quando se deu conta de que estava sendo invasivo e que, provavelmente, a deixaria desconfortável com aquilo. Yujin ergueu o corpo pesado com lentidão, ficando ereto. — Consigo andar sozinho, não se preocupe. — Puxou a gola da camiseta e olhou sob esta; não identificando muita coisa lá embaixo além de um líquido grosso e escuro que pintava seu peito. Puta merda, como dói! Deixou o tecido se grudar novamente ao sangue para que voltasse a atenção para a garota. — Espero que você tenha mudado de ideia sobre a enfermaria, já que nós dois parecemos precisar ir até lá. — Indicou as partes de pele derretidas que cobriam o corpo dela. — Não precisa ter medo, sabe? Ouvi dizer que a pele de um certo peixe é muito boa para esse tipo de queimadura. É rápido e nem deve doer nada. — Tentava de alguma forma convencê-la que o melhor para a saúde de ambos era ir até a enfermaria e que, se fosse o caso dela, não existiam motivos para temer agulhas ou qualquer outro procedimento. — Mas aqui é uma colmeia de semideuses, com certeza devem ter métodos mais práticos, rápidos e indolores. Então... você vem comigo?