Toda Mulher Precisa de Uma Mãe
Dizem que todo mundo vem de uma mãe, e essa é a única verdade biológica que não se pode contestar. Mas a biologia é silenciosa sobre o que acontece depois do primeiro suspiro. Aprendi, da maneira mais árdua, que existir no corpo de alguém não garante a existência no coração dessa pessoa. Nem toda mãe nasce para ser colo; algumas são apenas a passagem, mas esquecem de nos avisar que o destino será o relento ou um teto cheio de goteiras.
Fui habitada pela promessa silenciosa de um amor que deveria ser abrigo, mas encontrei paredes frias e portas trancadas por dentro. O abandono de quem deveria cuidar é um tipo de luto de alguém que ainda está vivo, é uma ausência que ocupa um espaço apertado. É uma quebra de contrato que a gente não assinou.
Crescer com essa falta é como tentar ler um livro onde faltam as páginas principais. A gente se sente perdida, buscando o reflexo de um cuidado que nunca foi oferecido. Por muito tempo, procurei nos outros o cuidado que me foi negado na origem, até entender que a negligência do outro não era um veredito sobre o meu valor ou sobre a falta de permissão para viver no mundo.
Mas o abandono, embora doloroso, me ensinou uma liberdade que eu não pedi, que ainda não domino, mas vou: a de ser minha própria guardiã. Entendi que nem toda mãe existe para ser de um filho, e aceitar essa falta é o primeiro passo para parar de esperar o impossível: o abraço de quem não sabe oferecer conforto. Estou aprendendo a me olhar com a gentileza que me faltou. Estou sendo a mãe de mim mesma, cuidando das minhas feridas e me dando o direito de florescer, mesmo em solo seco. Meu próprio amor é, finalmente, o meu lugar seguro.
18/03/2026 17:10
Fonte: textosda-madrugada












