CLOSED STATER TO @MÚCHÉN
WHERE: pátio central, próximo à ala do ocorrido.
WHEN: um dia após o ocorrido.
os mirantes pélagos de angelicce — aqueles orbes taciturnos que tudo perscrutavam como quem decifra oráculos dissolutos — arquejaram-se, com relutância quase litúrgica, ao vislumbre do viril cortejo que aproximava-se. o arrebitar leve do cume de sua narina denunciava não somente aversão, mas um asco refinado, anti-aristocrático, para com tamanha opulência juvenil; opulência estéril, desmerecida, insolente em sua própria facilidade. via-os como párias áureos — degenerados de um privilégio herdado, não conquistado — e, por isso mesmo, divergentes dela, criatura forjada em provações taciturnas, temperada no gélido das privações e na argamassa da própria audácia. eles tinham, mas não sabiam; ela, que lutara por cada fragmento de si, compreendia que nada é verdadeiramente possessão sem o sangue que o sustenta. por isso, assumia para si o dever — não voluntário, mas inexorável — de ser-lhes a mureta abrupta no meio do caminho, a sentinela inexorável que interdita o avanço dos que escorregam pela vida sem a mínima consciência da gravidade que os aguarda. sim, cabia a angel a função quase divina de torná-los dignos por meio da dificuldade; de derrubá-los do equino flavo, esse cavalo ilusório da segurança burguesa, e forçar-lhes a colisão abrupta contra a realidade que jamais se curva para os mimosos.
assim, um riso — embebido em escárnio, untado de veneno anti-aristocrático e cintilante como o brilho indecoroso de uma lâmina polida — zarpou-lhe dos carnais róseos. era sorriso que cortava antes de ser percebido; sorriso que poderia ofertar a uma vítima perplexa, que usaria como armadilha, que portaria como máscara. com uma languidez calculada, ergueu o calcâneo, o coturno reluzente e beligerante, e interceptou a passagem do maior dentre eles, premendo-o contra a mureta que rodeava o pátio, como quem sela o destino de um herdeiro despreparado. a garganta limpou-se num pigarro breve, quase teatral, antes que seu vocal — ornado de falsa inocência, de candura pérfida e risível — deslizasse, enfim, pelo ar. e naquele instante, a feminil parecia menos uma pueril e mais um presságio: um sussurro de advertência, uma penumbra que se diverte em dobrar o mundo ao seu feitio. “ os outros estão se contradizendo. cada um dá uma versão diferente da mesma noite. mas você… você não dá versão nenhuma. o silêncio também é uma confissão, sabia? ”
‧͙*̩̩͙❆ Havia quem dissesse que o "Grande Imperador" se perdera, que aquele que tomara seu lugar aos corredores de Saint Benedict Hall era outro, não ele. Manso, distraído, silencioso... Quase uma sombra do que significava sua antiga presença imperial. Ainda assim, poucos ousavam se aproximar, temendo acordar o monstro quando a paz lhes parecia tão mais reconfortante. Os vis inferiores testavam as águas, vendo se era truque, revelando-se hesitantes, prontos para recuar caso fosse artifício do vilão para atraí-los à claridade e esmagá-los quando se sentissem confortáveis – não aconteceu. Algumas vezes naquele dia os bajuladores se dirigiram ao Wang com interesse disfarçado; ignorados. Boatos já começavam a se formar que algo de errado acontecia, mas, para o rapaz, tudo o que se passava em sua mente era o momento em que sentira o mundo girar e, então, o que acordara com as mãos úmidas do visco que não era seu, com símbolos gravados em sua pele que ele não reconhecia... Sentia-se humilhado, angustiado, frustrado, feito de tolo por alguém que podia ser ninguém – espectro d'outro plano, como se fazia. Não acreditava...
‧͙*̩̩͙❆ Os passos foram interrompidos ao que viu a garota se pondo diante de si. Reconhecia-a mas não a reconhecia; um paradoxo que, simplificado, resultava no desdém de seu olhar até que ela começou a falar. "O silêncio também é uma confissão..." Repetiu o que ela havia dito, o olhar vagando à distância como se desmantelasse a frase, capturando dela apenas seu sentido enquanto as letras se desfaziam ao vento. "E o que confesso com meu silêncio?" Questionou-a, enfim, curioso sobre o que ela havia entendido com o nada que havia lhe direcionado até então. Para ser sincero, mal sabia quem era aquela à sua frente, apenas tinha noção de sua existência por ter feito parte do Clube de Literatura Clássica, ainda que, a Mùchén, ela não importasse, vista como mais um borrão dentre os rostos daquele lugar que como gente. Não fez questão de manter o nome salvo em suas recordações, então, naquele momento, ela era "você" – alguém que ele ainda cogitava resguardar com nome no futuro.
dentro do armário — esse sacrário estreito de mogno antigo, onde o ar parecia respirar em ciclos próprios — roswitha viu-se defrontada com uma verídica iminente e quase litúrgica: múchén, em sua totalidade enigmática, não era apenas viril, mas um mundo complexo de colores, palatos, eflúvios e texturas, cujas nuances a sua sinestesia captava como quem recolhe fragmentos de um vitral estilhaçado; e, apesar de jamais saber se possuía palavras suficientes para descrevê-lo, ainda assim tentava, como se essa tentativa — esse rito íntimo — pudesse auxiliá-la a compreendê-lo, a decifrar a penumbra que, de modo tão pérfido quanto sedutor, maculava sua própria luminescência, essa luz trêmula e astrosa que era ela mesma. o eflúvio dele — aquático, dilacerado por notas herbais delicadas, trazendo-lhe reminiscências de rios gélidos sob um céu de obsidiana — impregnava o recinto estreito, mesclando-se ao odor limpo das roupas finas, das sedas chinesas impecáveis, dos tecidos alinhados com disciplina quase monástica. a pureza daquela fragrância, que sobrevivia mesmo à reminiscência remota do fumo que ele jamais permitia adentrar seus domínios, lambeu-lhe a espinha como geada líquida, e por um instante — curto, mas pulsante — quase acreditou que sua fé antiga, sepultada entre catecismos gastos, pudesse regressar. pois alguém ligara para ele tão cedo, — um calafrio percorreu-lhe a espinha com o toque de uma língua de vidro — quase sentiu-se agradecida: aquela ligação ofertava-lhe segundos raríssimos para escapar — segundos que estendiam-se como escadas sinuosas, conduzindo-a para longe da vertigem que era estar envolta no mundo sensorial de wang. estar ali era naufragar devagar, entregue à maré revolta de sua presença; e embora parte dela ansiasse por manter-se à deriva, sabia que, quanto mais fundo descesse, menos provável seria regressar à superfície intacta.
quando, finalmente, ouviu o bater suave da porta — como um badalar de cardíaco amortecido — permitiu-se respirar. com esforço delicado, quase penitente, abriu a porta do armário com o menor ruído possível e arrastou-se de joelhos para fora, sentindo que submergia de volta ao mundo comum, cujas cores, ainda que pálidas, eram menos perigosas que a sinfonia sensorial que habitava aquele espaço confinado. mas, mesmo ao se erguer com langor, sentiu-o ali — presente, vívido, como memória muscular impregnada na cútis, como respiração que ainda pairava sobre seus pulsos. pronta para vasculhar seus pertences — movida tanto por curiosidade quanto por esse instinto antigo de profanação devocional — deteve-se. a chave permanecia na porta do mesmo modo em que fora deixada, e havia no ar uma presença obumbrada, quase espectral, como se o próprio armário guardasse um ser em sensações que se enroscava a ela apenas para atormentá-la. murmurou uma praga baixa, bagunçando os fios de ébano, antes de fechar a porta — e o gesto, lento, revelou-lhe o viril como uma aparição inevitável. seu riso — frágil, nervoso, com paladar de baunilha amarga e pânico — esculpiu-se nos carnais, conduzindo à sua faceta um rubor difuso, semelhante ao hematoma antigo de uma emoção mal curada.
“ hmm… pelo visto, errei o aposento. ” articulou, com vocal que se esforçava por soar frívolo “ definitivamente não é o de korn. ” tentou mentir; ou antes, tentou performar — usar o arsenal de seus artifícios artísticos para encarnar alguém apaixonada, quiçá sedutora, ainda que fugisse de korn como fugia de todos os que a miravam por tempo em demasiado. “ acho que acabei de estragar a surpresa matinal de alguém… ” disse, empurrando o lábio ínfero num beicinho estudado “ pode informar-me qual é o dormitório dele, por favor? ” seus mirantes — duas obsidianas em conflito — colidiram com os dele, e por um instante o edifício inteiro pareceu prender o fôlego. “ disse-me para ser mais autêntica… ” murmurou, com riso unilateral de rosácea velada “ pensei que este poderia ser um bom movimento, não? ” e, num sussurro que parecia pedido e ordem ao mesmo tempo: “ tenho pressa, wang. conceda-me o número do aposento. ” o solar, silencioso, escutou. e o silêncio acumulou-se como neve sobre telhados antigos.
‧͙*̩̩͙❆ O mais velho observou-a se arrastar para fora do armário, ainda indeciso sobre o que deveria pensar a respeito dela naquele momento. Por um lado, estava curioso para saber o que a trouxera até seu dormitório, ainda que soubesse que não poderia ser nada bom àquele ponto; por outro, o modo como ela se arrastara como animal para fora do guarda-roupas o fazia vê-la com certa repulsa – como quem olhava para um pervertido. Não disse nada num primeiro momento, apenas se manteve ali, com seu olhar dirigido a ela, ouvindo-a se explicar da pior forma possível; não havia lógica na desculpa que ela lhe direcionava, ainda que a informação de que ela tinha contato – qualquer que fosse – com Korn o deixava ligeiramente curioso. O cenho do homem jazia franzido, suas orbes escaneando-a como as de um robô, buscando por algo que nem ele sabia exatamente o que era, até, então, repousarem às dela. "Ela não foi convidada...", a voz declarou em sua mente, incitando a postura ofensiva a se expor – não, dessa vez não daria ouvidos ao delírio. "Foi por causa dela que você se perdeu...", depois da conversa dela que havia sido tomado pelo transe, era isso, "Elimine o que te enfraquece...", a frase era familiar, dita por seu pai anos atrás, quando ainda sentia o sabor férreo após os punhos adultos encontrarem sua massa juvenil. Cogitou se deixar levar pelo monstro, mas só por um instante, antes do delírio lhe tomar a lógica.
‧͙*̩̩͙❆ Por detrás dos olhos que a perfuravam, um novo brilho surgiu, divertido, não usual à figura fria do soberano, ainda que nenhum outro sinal daquilo se fizesse presente em suas feições. "Ah..." Exclamou simplesmente, mantendo-se entre ela e a porta, sem quaisquer brechas que ela pudesse explorar naquele momento sem ter que forçar seu caminho através do rapaz. "Por um momento achei que fosse saudade que a havia trazido até mim." Provocou, deixando a cabeça cair ao lado ligeiramente ao que se aproximou um passo dela. "-Não a culparia se o fosse... Agora que é minha, não poderia ser de outra forma." Comentou, relembrando-a do contrato que haviam selado em outro momento. Seu olhar se desviou a um dos amuletos e ele o capturou entre seus dígitos. "Se estava atrás de Korn, imagino que sejam para ele esses aqui..." Traçou os detalhes do objeto com seu indicador, cautelosamente, antes de voltar seu olhar novamente à garota. "Para que seria esse, então? Um talismã de fertilidade ou de amor eterno?" Caçoou, visivelmente diferente do que outrora mostrara a ela – como se não fosse realmente ele ali falando, apesar de deter todas as suas características. Inspirou fundo, retomando controle. Ainda era ele ali... Expirou discretamente. "Quer ajuda com sua mentira ou pretende continuar?"
a femínea o estudou — ou antes, o escrutinou, com aquela lucidez febril que apenas as almas dilaceradas possuem — pela primeira vez em que os próprios mirantes, turvos de lacrimais e alucinações, ousaram premiar-se aos dele. não o via, de fato; antes, percebia-lhe o vulto verídico, a persona obnubilada que se ocultava por detrás da máscara, como sombra que mosqueia ao ímpeto e se esquiva dos mirantes alheios — e sobretudo, dos dela. e não, não haveria de aceitar tal obumbrada farsa: não as mentiras, não o papel subalterno de joguete em mainças que jamais a compreenderiam. assim, quando com as luvas — mainças sombriamente alvas, geladas como marfim recém-lavado — envolveu-lhe a faceta, permitiu que o arrepio, serpentino e lúgubre, lhe ascendesse a espinha, lambendo-lhe o cerne com um frêmito de vertigem, fazendo-a estremecer em meio ao choro histérico que lhe saía com gosto ferruginoso, quase metálico. “ e se eu almejar mais que teu fascínio? ”, exalou ela, com o vocal como seda rasgada em água gélida. “ e se auspiciar tua ira — essa parte verídica que mosqueias — apenas para vê-la voltada a mim? ” soltou-o, enfim, com uma clemência falsária, uma brandura insossa que apenas denunciava exaustão. tentou empurrá-lo — ó gesto débil, maculado por seu temperamento fraturado — mas o movimento assemelhava-se antes a tapas suplicantes, carentes, tão carregados de significados indefiníveis que ela própria se encolhia diante do eco deles. odiou-lhe o riso, aquele som áspero que, ao tocar-lhe a boca, produzia um amargor de absinto; odiou a maneira como ele lhe revirava os mirantes, arrancando-lhes descrença como se arrancasse pétalas de uma flor enferma.
“ sorte. acaso. chame como quiser! ” o pensamento dela divagou — como quem afoga-se em corredeira de reminiscências — para os genitores, perguntando-se se ele seria forte o bastante para tirá-la deles. depois, tímida como lâmina prestes a falhar, pensou em korn, e ponderou se wang destruiria o próprio amigo para possuí-la. e o que era ela, afinal, senão o bobo da corte — aquela que diverte, que dança, que brilha para os outros? ele a queria por isso, não? não era distinto dos patriarcas dela; queria-a como instrumento, vulto útil, ornamento. a derrota veio como geada tardia: hiemal, inevitável. era como nadar, nadar, e nadar — e jamais tocar terra firme. onde quer que fosse, havia devastação. “ você é como eles ”, quebrou-se-lhe o vocal em soluço cavo, e a femínea, quebrantada, teria cedido aos joelhos, não fosse o apoio dele — apoio tão paradoxal quanto pérfido. s estrela — outrora incandescente — reduzia-se agora a uma fera domesticada, algo que deveria morder e arranhar, mas que sabia, no mais íntimo de seus ossos (ossos-pilares, ossos-sacrários), que ao fim de qualquer dia restaria uma coleira. truques para entreter. objeto para servir. propriedade alheia — nunca dela. ele não compreendia por que deveria deixá-la partir, por que sua morte era tão óbvia quanto neve no inverno. e era óbvio: ela jamais o perdoaria. isto estava escancarado nas íris obsidianas que o miravam com furor ígneo, um frenesi que lhe deixava febril, convalescente, pendida nos úmeros dele. “ eu. jamais. irei. perdoar. algo. como. você. ” rosnou, e os golpes — socos, tapas, pequenas mordidas febris — marcaram-lhe o peito, deixando vestígios rubros de batom, como selos de um sacrário profanado. “ não quero ser conivente. não quero ser lady macbeth. quero ser duncan. se me queres, faze comigo o que ele sofreu; empunha o punhal que levas oculto, e saltemos já ao ato II. ”
seu palmo, débil, lânguido, ergueu-se à face alheia, mal sustentado, como se fosse feito de porcelana fatigada. “ tornaram-te assim — não por escolha, mas por consequência — e eu… ah, como desejaria ser capaz de perdoar-te. mas não posso. não poderei. não é meu perdão que te falta. ” seu vocal, trêmulo, tornou-se veneno quando sussurrou: “ concordar contigo, múchén, seria aceitar que não mereço estar viva senão para ser o globo espelhado que reflete luminescência a todos. não há felicidade para mim. não há motivação. ” e lamuriou, deixando que a exaustão a carregasse como um rio subterrâneo. deixou-o prevalecer, porque para alguém como ela — fraturada, múltipla, esfacelada — autenticidade era palavra inexistente. tornar-se-ia o que ele quisesse e ele chamaria isso de autenticidade. “ o que desejares, wang. preliar contigo nada me conduz senão a dores antigas, penumbras que não quero revisitar. ” aquilo a feriu; claro que seria hipócrita. sua morte seria espetáculo; brilharia até no cair. e seus delírios febris, seus episódios de mania — sinais luminosos demais para qualquer um que ousasse mirar — eram perigos. e wang não apenas olhara. ficara. ouvira. orientara. escolhera-a. mas como explicar que ela era fragmentária, que quem era agora não seria depois? “ você se contradiz. como posso quebrar a gaiola quando queres que eu pertença a ti? és louco? ” egoísta — assim o julgava, lembrando-se de john reed, que maltratava por entretenimento. ele não era escolha segura, não para uma mente fatigada, manipulável, convulsa. mas lá estava ela, fingindo que podia enfrentar o mal que ele era. “ não anseio por desvantagens… não anseio pertencer ao que não me pertence. se tanto me queres, assombrar-te-ei em vida e morte. estarei em teus sonhos febris, em teus devaneios lúgubres, em teus delírios. serei penumbra e zéfiro. sei o que te move, o que fascina e atemoriza. ” amaldiçoou-o num sopro, os palmos escorrendo pela trama da veste alheia. então veio o formigamento — pequeno demônio elétrico que iniciava nos pés, escalava as pernas, tornava-a trêmula, glacial contra o peito dele. a visão escureceu, e ela, à beira do colapso, percebeu com terror suave que selara pacto com criatura que sabia cobrar. e antes que pudesse formular a súplica, o mundo, plúmbeo e sibilante, desfez-se.
ela caiu — como estrela tragada pela própria noite.
‧͙*̩̩͙❆ Não achou necessário dizer muito mais em meio às divagações que a Delacroix propunha, afinal, já havia vencido aquele embate, mesmo que ela relutasse e se debatesse – era dele no final, o prêmio que nunca havia cobiçado e a recompensa por sua falha como aquele que devia se distanciar. Havia-se feito humano para puxar das trevas uma outra que, como ele, nelas encontrava conforto, porque ela as deixara consumi-la momentaneamente; fraquejara como ser superior e essa era sua sina. Por isso, como o Pequeno Príncipe, o que cativara agora lhe pertencia, não por desejo mas por dever. "Não há o que ser feito, pois quebrarás a gaiola, porém, o mundo a mim pertence como é de herança a um vilão; sou obrigado a dominá-lo por natureza. Isso não significa que não será livre, só significa que terá liberdade sob mim em meu mundo, e é o suficiente." Respondeu como se apenas dissesse o óbvio; para o Wang era claro.
‧͙*̩̩͙❆ Observava-a se desmanchar diante de si com o olhar frio, implacável, como sempre. "Que seja. Assombre-me, aterrorize minha sobriedade. Entretenha-me em nossos momentos de convivência... Que tipo de soberano seria eu se não soubesse lidar com as peripécias de minha subordinada?" O sorriso se fez cínico no rosto de Mùchén, quase maldoso; mostrou a ela o que desejava mostrar antes de ver sua luz se apagar. Então, envolveu sua cintura com o braço, para que ela não fosse ao chão; sentia pena dela por tê-lo procurado, pois se não o tivesse feito não teria se feito alvo de sua vilania. O pensamento durou pouco em sua mente antes da tontura distorcer o ambiente; quão cômico seria o cuidador se tornar enfermo tão logo quanto tomara para si a responsabilidade? O delírio veio com um riso leve que logo se desfez ao que se esvaía a ciência. Apagavam-se os holofotes do drama contracenado e, com eles, fechavam-se as cortinas...
‧͙*̩̩͙❆ Como era de costume, Mùchén vestia suas roupas de treino, com os headphones posicionados para não ser incomodado. As mangas compridas cobriam as feridas contendo os símbolos que se expunham espaçados de forma desordenada pelos antebraços, que não saberia reconhecer se haviam sido autoinfligidos durante seu lapso de memória ou gravados em sua pele por outro alguém. Sua mente o condenava por sua crise de ausência temporária – era por ele ter sido fraco que ele havia sido dominado, afinal –, sentenciando-o ao sentimento de angústia e culpa persistentes. "Fraco...", o pensamento invadia sua mente com uma voz que não lhe pertencia, um alerta desnecessário de que não estava só em seu âmago, de que sua maldição hereditária o perseguia e perseguiria enquanto existisse – de que o demônio jazia inquieto e insatisfeito. "Se eu estivesse em controle, nada disso teria acontecido...", não dava atenção, mas era visível o sentimento crescente enquanto fazia suas repetições na máquina – a dor ajudava com o controle. "Ceda... Vamos...", repudiava a ideia, no entanto, cada vez mais, ela parecia seduzi-lo.
‧͙*̩̩͙❆ Estava tão concentrado em cobrir tudo o que dizia respeito aos braços que se esquecera dos ferimentos – arranhões e mordidas – que recebera antes disso; o vermelho em seu pescoço só foi notado quando escutou @chariotkorn o questionar acerca desse. Olhou-se no espelho e passou um dígito sobre a marca. "Fui atacado por um animalzinho que estou tentando domesticar..." Declarou, referindo-se a ela daquela forma, afinal, era dessa forma que devia continuar a tratá-la, como o vilão que a libertaria de suas amarras passadas, certo? Suas orbes novamente voltaram a encontrar o antigo amigo, cauteloso, temendo a si mesmo e, principalmente, temendo fracassar em afastá-lo na situação em que se encontrava mentalmente. Hesitou algumas vezes antes de questionar aquilo que desejava saber exatamente por tais medos, entretanto, decidiu perguntar mesmo que contraintuitivo. "Você está bem?" Ambos sabiam em relação a que o Wang se referia.
‧͙*̩̩͙❆ Quantas vezes já não atravessara aquele corredor? Do lado de fora, o céu alternava entre o diurno e o noturno, como se os dias passassem no tempo de segundos, assim que piscava. Dez, onze, doze, treze... Contava seus passos mentalmente, tentando se manter no real, apesar de sua mente questionar sua determinação. Ouvia passos, risos, sentia-se observado, mas, quando olhava, estava só, não havia ninguém ali. Ninguém humano... Quando voltou a olhar para o caminho que seguia, novamente se viu no início do corredor, sua contagem reiniciada, convicto de que desta vez conseguiria transpô-lo, mas a noite novamente caía, e, com ela, a lua surgia, chamando por ele, seduzindo-o à beirada do precipício. Sentiu-se leve por um momento, o delírio ocultando sua angústia, quase se entregou... Quase. Tinha que continuar andando, pois, se parasse por tempo suficiente, as garras escuras o alcançariam. Sua única saída era recomeçar. Um, dois, três, quatro... Quando haviam reformado aquele lugar? Cinco, seis, sete, oito... Sentiu algo tocá-lo o ombro e seu coração pulou uma batida. Acordou.
‧͙*̩̩͙❆ A respiração acelerada, ainda pesarosa do sono, e a confusão logo foram substituídos pelo alívio ao que suspirou. Levou a mão ao rosto para ter certeza de que não era outra ilusão de sua mente, esfregando seus olhos antes de olhar para quem o havia despertado de seu cochilo naquela sala em que faltavam cadeiras e lousa, em processo de reforma desde o início do ano letivo. Viu ali @jojodwrd, um dos rostos que havia presenciado a cena daquele dia junto dele, porém, que, diferente dele, havia sofrido as consequências institucionais do suposto delito. Perguntava-se se havia sido visível a quem o visse adormecido que sua mente formulava pesadelos para assombrá-lo, mas não o questionou. "O que veio fazer aqui?" Inquiriu, quase se esquecendo que haviam descoberto a chave porcamente escondida daquela sala juntos em outro momento; o local se tornara um refúgio para quando precisavam pensar em silêncio. Notou, então, o conflito que se apresentava no rosto da garota. Suspirou. "Vamos... Desabafe. Diga o que se passa em sua mente." Disse com simplicidade, oferecendo-se como ouvinte – não fazia isso por muitas outras pessoas, ela era uma das únicas.
‧͙*̩̩͙❆ Sua mente lhe pregava peças, pois seus fragmentos cada vez mais se desprendiam do principal, viajando a caminho da escuridão enquanto buscavam a luz perdida. Qualquer um que o tivesse visto pelos corredores de Saint Benedict Hall poderia atestar por fato que o Grande Imperador não estava em seu melhor estado mental; muitos temiam que aquilo fosse prelúdio de uma catástrofe... Talvez o fosse, afinal, agora se armava dois exércitos sombrios em suas cruzadas profanas pela conquista de uma única alma. A maldição sanguínea lutava contra a possessão, como se rejeitasse a ideia de dividir sua posse; o hereditário havia chegado primeiro, Mùchén era seu para dominar. Enquanto isso, no exterior, a persona soberana se tornara vazia, delirante, reflexiva, como se o olhar se perdesse ao vento, fazendo a postura arrogante dar espaço para a serena insanidade. Por vezes, podia jurar que ainda estava sentado em seu quarto, mas seus passos já o levavam a outros cantos; ria de si mesmo... Ria? Sim, o riso não se continha mais atrás da máscara...
‧͙*̩̩͙❆ ' Máscara...? ', a voz em sua mente zombou e, por um segundo, custou a entender, mas o fez. Onde estava sua máscara? Agora que parava para pensar, lembrava-se de tê-la visto quebrada, a desolação de outrora fazia as rachaduras evidentes, pressionava-as a se expandirem por toda a porcelana, ramificando-se, fazendo cair os pedaços ao chão, revelando seu rosto... ' Rosto? ' O que era aquilo que via no reflexo do ouro que ornamentava a catedral? Não era sua face, era constante e inconstante, sombras, escuridão, vazio, mas não enxergava alma alguma por detrás daqueles olhos, ela não lhe pertencia mais. Riu consigo mesmo, quase silenciosamente. ' Você está sozinho agora... ' Ou pelo menos estava sozinho figurativamente falando... Ouviu o questionamento de @temperancemeiling atrás de si e o riso desapareceu de súbito.
‧͙*̩̩͙❆ Dentre as tantas pessoas que o poderiam ter encontrado naquele momento, estava ali a única a quem não queria mostrar aquele lado. Esticou a manga de sua camisa social para esconder as ataduras em seus antebraços, escondendo os símbolos sombrios do segundo monstro que tentava se apossar de seu corpo, antes de se virar. "Não... Na verdade, odeio a ideia de estar aqui..." Então por que estava ali? Não sentia mais a necessidade de medir suas palavras depois de ouvir dela a forma como o via na festa. "Não sei por que meus passos continuam me trazendo a esses lugares..." A lugares onde poderia encontrá-la. ' Rejeite-a, ela não é bem-vinda... ', o sibilo soou à sua orelha. "Ainda guardou algo que deseja dizer...? Mais algum defeito que quer apontar? Achei ter sido claro da última vez, quando disse que não precisava mais vir atrás de mim..."
Para uma interação fechada com WANG MÙCHÉN, siga o passo-a-passo!
Escolha dentre as frases daqui, daqui, daqui ou daqui;
Selecione um lugar de SBH (Jardim | Corredores | Biblioteca | Catedral de São Bento | Refeitório | Dormitório | Outros ) ou um lugar de Durham (Restaurantes | Lojas | Praça | Bar | Outros);
Indique seu personagem.
Caso prefira algo diferente, siga o passo-a-passo!
Escolha uma palavra dessa lista + um emoji para representar a interação;
Selecione um lugar de SBH (Jardim | Corredores | Biblioteca | Catedral de São Bento | Refeitório | Dormitório | Outros ) ou um lugar de Durham (Restaurantes | Lojas | Praça | Bar | Outros);
CLOSED STARTER - @thcemperorofnothing
Where: dormitório masculino, aposento do mu.
When: posterior ao fatídico.
não que roswitha pudesse, com a firmeza das provas tangíveis, atestar o que lhe roçava a psique como um sussurro febril; ainda assim, o derradeiro fulgor de sua consciência conduzia-a a crer que estivera com múchén antes do que quer que se houvera perpetuado naquela saleta. e odiara-o — oh, odiara-o ainda mais — ao recobrar-se, quando o aromata ferrugíneo lhe maculava o palato com o travo acre de cinzas, presságios e desdita, uma fusão de gosto, eflúvio e reminiscências que lhe arranhava a alma. ela detinha a ciência íntima — aquela ciência instintiva que nasce do ventre do temor — de que algo suspeitoso ele mosqueara para si. juraria, com o fervor dos amaldiçoados, tê-lo divisado com as mãos tisnadas ocultas nos bolsos, enquanto todos os demais, atônitos, perscrutavam as lacerações: o comprimento, a profundidade, a irregularidade de cada sulco carmim. mas ele, não. ele permanecia ali, imperturbável, como se o caos que os circundava fosse apenas melodia distante. engoliu em seco; a sonância da própria deglutição soou-lhe áspera, quase metálica, como se tragasse um fragmento de armadura enferrujada. temia — com aquele pavor que tem eflúvio, textura e temperatura — que algo fora despertado, algo que atravessara o portal que outrora abrira-se para reclamar owen e conduzi-lo à morte ignominiosa. algo que regressara, ávido por mais sanguíneo. contudo, nem todos eram cordeiros sacrificialmente dispostos; e rosie, de maneira lancinante, sabia-o. tal-qualmente sabia que mùchén não figurava entre os inocentes. talvez fosse ele um artifício do mal, um joguete sinistro manipulado por mainças ocultas para fazê-los padecer.
aguardou, pois, pacientemente — como se o próprio tempo tivesse ganhado aromata de poeira antiga — até que o viril deixasse seu dormitório. apenas então pregou contra a porta os amuletos: um para conter, no interior, o que quer que o acompanhasse; outro para purificar o aposento; um terceiro, silencioso e vigoroso, para resguardar aqueles que cercavam o rapaz; e um último, feito de ervas e oração, para apartá-los do mal que os rondava como um anélito hiemal. no entanto, antes que pudesse evadir-se, ouviu passos — passos que tinham peso e ritmo de tempestade — e o vocal alheio, grave, invadindo o aposento como fumaça densa. num ímpeto, encolheu-se no interior do armário, deixando que as portas rangentes a ocultassem. ali permaneceu, reduzida a um fôlego contido, enquanto a sinestesia a golpeava por todos os flancos: ouvia cores, saboreava sons, sentia texturas de medo suspensas no ar, cada uma mais angustiante que a anterior. inferno… como escaparia dali sem ser colhida pelos apuros que já se insinuavam como garras invisíveis?
‧͙*̩̩͙❆ Sua mente trilhava um caminho perigoso para alguém como Mùchén, vacilando e oscilando entre o mundo real e o irreal, abraçando suas trevas como uma criança a se encolher contra suas pelúcias enquanto dorme; sentia-se ora em clareza completa, ora em nevoeiro denso. Enfurnar-se-ia em seu dormitório se não fosse obrigado a atender às aulas preparadas para a eminente finalização do ano letivo – ainda que, por conta de Owen, ainda tivessem algum tempo até o real encerramento. Preparar-se para o advento das provas era desnecessário frente à situação precária em que se encontrava – nunca precisara revisar matéria alguma para início de conversa, mas o motivo agora era outro –, pois outro demônio começava a se manifestar em seu mundo, um que não seria bem-recebido pelo que tinha em seu interior. Apenas uma maldição poderia controlá-lo, e sentia a herdada se impor em seu interior, como se o reclamasse como dela; na forma de leves delírios num primeiro momento, agora, já o fazendo questionar o que era real e o que não era... Pegava-se, vez ou outra, rindo, divertido com a realidade que se apresentava, como se a máscara aos poucos se quebrasse, mas, por detrás dela, não houvesse mais seu rosto , e, sim, o das criaturas sombrias que assombravam suas noites mais escuras e lutavam por controle de seu corpo.
‧͙*̩̩͙❆ Observou à porta de seu dormitório, após coletar alguns livros da biblioteca, os amuletos que não estavam ali há alguns minutos, estranhando sua presença ali, uma vez que não acreditava que seu colega de quarto fosse religioso... Agora que parava para pensar, a essa hora ele estaria em suas atividades extracurriculares. ' Estão te observando... ' A voz que sibilava à sua mente indicava a suspeita que foi anotada, mas não o demonstrou, imaginando que, se aquilo havia sido feito no interim em que deixou o dormitório, era improvável que o culpado tivesse deixado o local tão rapidamente – a menos que fosse obra de mais de uma pessoa. Deixou a mala de ombro com os livros emprestados sobre a cadeira de sua escrivaninha, calmamente analisando o cômodo sem alarde; seu olhar buscava nos lugares mais prováveis, afiado, como debaixo das camas, por sombras ou movimentação, espreguiçando-se para averiguar os cantos. Nada. Chegou à conclusão de que havia apenas um lugar em que essa pessoa poderia estar escondida... O armário. Puxou seu celular, como se houvesse recebido uma mensagem, logo o trazendo ao ouvido. "Alô?" Fingiu atender uma ligação. "Sim... Estou a caminho..." Respondeu a conversa imaginária e abriu a porta do quarto, fechando-a em seguida. Calou-se, caminhando a passos cautelosos até a parte de trás da porta do armário, aguardando que o intruso deixasse seu esconderijo, com os braços cruzados à frente do tronco. Wang se perguntava quem seria ousado o suficiente para invadir seus aposentos – a resposta só podia ser uma.
ali travava-se o embate — não mero dissídio, mas um prélio quase bélico, desses que o destino escreve com tinta espessa e negra. poderia uma estrela, frágil em fulgor e ainda assim cintilante, vencer um imperador? poderia seu lume, em tão doce ferocidade, cegá-lo por tempo demasiadamente longo para tolher-lhe o contra-ataque? a psique dela — débil, fragmentária, como vidro finíssimo que a mínima vibração poderia esfacelar — oscilava: ora a induzia a ponderar que sim; ora a diligência interna lhe devolvia, austera, o veredito de que não. o crânio pendeu junto a corpórea, e os cachos fartos, tumultuados, ébanos como crepúsculo isento de lunar, contrastaram com a cútis marmórea que quase exalava gelidez tátil ao mirar. “ outra divergência que há entre nós, ” proferiu, o vocal mesclando sabor de ferro e veludo. “ não credito que limites existam para o respeito, mas para serem rompidos. devemos vencê-los. e, se para isso devo trazer tua doce e sutil fraterna à prosa, não vislumbro mal algum. não insistas em dizer que há conveniência, quando nada de ti possuo. tens-me em mãos por sorte — apenas por isso. ” ansiava gritar-lhe covarde, denunciá-lo como aquele que esquivava-se das indagações mais árduas — embora soubesse que algumas verídicas eram amargas demais para serem digeridas; e, por vezes, era melhor a fome. “ não vejo-me perdoando algo tão evidentemente montado, moldado para tal propósito. não há intenção tua nisso. tal como eu, és marionete, movido por cordéis alheios; e aqui estás, exigindo que eu te louve como vilão, quando não passas de um pobre coitado digno de pena. ” o lábio — carnal, ínfero, rubro — avançou num beicinho sardônico, ironizando-o. e quando ele a impulsionou a tentar arrancar-lhe o sangue, ela tomou daquela proximidade que cintilava entre os corpos e, sem ponderar, cerrou os dentários ao redor da derme do colo alheio com força inteira. não era isso que ele ambicionava? que ela o usasse? que lhe provasse não estar diante de uma deidade, mas de um viril patético? “ não esperes de mim compaixão pelo monstro apenas porque sei que não és inteiramente mau. não esperes clemência de alguém a quem roubaste um momento de vulnerabilidade para arrancar informações — e a troco de quê? ” inquiriu, socando-lhe o peitoral com punho trêmulo.
“ temo discordar, ” continuou, e nela brotou um sorriso — não de candura, mas de quimera. “ vilões nascidos maus são mais fáceis de tolerar; pois, na vida real, não há causa. todos tendemos a perscrutar o caminho da autodestruição. isso virá até mesmo para tua fraterna que tanto ambicionas proteger. ” fora-se tornando risonha — uma femínea feita de sonhos quebradiços, tão demasiadamente feliz quanto as bonecas alinhadas em seu aposento; um riso mecânico, ensaiado, falaz. divertia-se com a provocação, com o ato de apertar os botões que o desalinhavam do eixo primário. ela o despia — não do vestuário, mas das máscaras, do controle, das contenções. possuía-lhe as vísceras intrínsecas, e isso não lhe inspirava temor, mas uma estranheza nebulosa: como na teoria do caos, cada frase parecia mover o mundo — ainda que o mundo fosse a bolha sufocante de saint benedict hall. “ em toda obra que me predispus a ler, os vilões são mosaicos romantizados, dignos de piedade e aptos à redenção. na vida real, porém, vemos o mal verídico: homens moldados por condições, sim — álcool, criação disfuncional, negligência — mas que, ainda assim, optaram por ser maus. veja richard speck: era mau por ser, por gostar da sensação. ” ponderou se era ingênua ou apenas fingia sê-lo — personagem deliberadamente esculpida para cativar e ludibriar. “ não me cabe o papel de vilã. e, ainda que coubesse, diria ser como alicent — quiçá circe — agindo por detrás de viris tolos como você, deixando-os crer que sou etérea, tola, inofensiva. ah, a grande dádiva feminil, já o dizia daisy buchanan. ”
mirou-o com orbes de obsidiana, incapaz de professar palavra por um átimo. os carnais entreabriram-se, sorvendo a atmosfera como palato que escuta, tentando perscrutar uma solvência para o que a tomara de assalto. premiu seus mirantes aos dele. “ seja franco ao menos uma vez. consegue? já passamos da fase das inverdades. 'majestades' como você raramente fazem algo sem propósito. ” a hostilidade salinizava-lhe o paladar, e o ar trazia um aroma agridoce que parecia, sinestesicamente, poder ser ouvido. entre as frestas, vislumbrava as rachaduras da persona dele; mas, diferentemente dela — que vertia falsa luminescência — o que dele escapava era penumbra: densa, insossa, pegajosa. não assustou-se. permaneceu firme, embora tão maleável quanto uma chama prestes a extinguir-se. “ animais criados em cativeiro não fogem, mesmo que a porta — ou, neste caso, a janela — esteja aberta. não pedi-te que te importasses comigo, sabias? quase morri, mùchén. encarei a morte face a face. e ainda aqui estou, bailando com ela, aguardando que leve-me. esta doença consome-me mais que meus captores, mais que meu temor de ti e do que de mim descobrirás. ” tornou a fitá-lo, desta vez com intensidade que quase a fazia cambalear. nos mirantes dele, vislumbrou alucinações: constelações e si mesma refletida nelas. “ viver é distinto de estar viva — muitos disseram-me. mas por que desejas tanto que eu viva? em que isso implica na tua existência? ”
a resposta veio como um tapa lançado contra a própria face: brinquedo. a palavra reverberou na psique, ecoando não só no vocal de mùchén, mas na de seus genitores. era isso que fora desde sempre: um artefato, uma distração, e quando seus truques cessavam, era descartada. talvez jamais houvesse havido preocupação verídica — afinal, era um fardo, e sabia. as lacrimais deslizaram-lhe pela faceta — não por temor, mas pela verídica visceral: ela lhe pertencia, ainda que soubesse quanto ele ansiava por seus laivos mais feios, partidos, ruínos. ele auspiciava sua ruína; e talvez fosse tudo o que ela poderia dadivar. trocara de captores; as correntes, agora, prendiam-se às palmos dele. a coleira em seu pescoço enrodilhava-se nos punhos do viril. “ és um cretino, ” murmurou. “ não diferes em nada do que já tive. és apenas mais um a ansiar possuir o que não deveria. estrelas não foram feitas para pertencer; somos breves — brilhamos até implodir. ” e riu — gargalhada histérica, cristalina e quebradiça. “ sou pessoa? sou verme? possuo máscara? é isso? ” as fronteiras entre real e irreal turvavam-se; não sabia se mùchén estava ali ou se era alucinação recém-chegada para atormentá-la. “ a mim não apetece o oblívio, sobretudo se vier na presença do vilão que o evoca. não quero que possuas meus segredos quando sequer sei os teus. isso mantém-me em desvantagem… até quando? ” divertiu-se, ainda chorosa. o verdejante em que repousava exalava a sonância terrosa de chão pós-chuva; sentia o hiemal atravessar a cútis em direção aos ossos.
ponderou a proposta dele. deixar que a lâmina da ideia a penetrasse, lenta, como punhal. aproximar-se do inimigo — essa era a arte ancestral: estar perto o suficiente para colher o que almeja-se e sobreviver ao golpe. ergueu-se sobre os cotovelos; o torso avançou em direção ao dele. deixou que o palmo enluvado encontrasse o dele; ergueu-se com dificuldade, mas em gestos graciosos. “ pedes-me demasiado, ” sussurrou. “ quando sei perfeitamente que não morrerias por mim, não viverias por mim, não abdicarías de tuas trevas para permitir que minha luz adentrasse. és injusto. ”
‧͙*̩̩͙❆ Mùchén optou por ignorar as palavras que saíam da boca dela acerca de sua irmã, não vendo como malícia, mas como equívoco; dádiva que ele daria apenas a ela e ali por seus próprios motivos. "Claro, fique à vontade, faça dos limites sugestão, não me importo, queime o mundo se desejar... Por que seria de meu interesse?! É isso que te faz interessante... Entretanto... Posso afirmar com certeza que não deseja minha ira sobre si... Contente-se com meu fascínio." Avisou uma vez mais, esperando que dessa vez ela se fizesse ciente de sua clemência, pois ela não parecia entender suas próprias circunstâncias. "Tenho-te em mãos por sorte?" O riso seco deixou a garganta como se contemplasse sua própria fortuna. "Tens sorte de eu tê-la em minhas mãos..." Reformulou a frase dela. "-Pois por tê-la em minhas mãos não preciso adquiri-la para mim, e por não precisar adquiri-la, não será necessário que eu destrua a ti e a quem antes a tinha." A persona vilanesca o disse com tom convicto, como se relatasse a ela o óbvio, e, para ele, o era, pois não via de outra forma sua atual situação. Escutou-a atentamente enquanto ela falava e não se desviou da mordida que ela deixou em sua pele, reagindo, mas não reclamando; contrário ao esperado, o que surgiu não foi raiva nas feições do mais alto, foi ânsia de submetê-la a si – permitia-se, assim, tomar para si o papel que ocultava a alma mais intensamente. "Isso! Mostre suas garras... Até mesmo animais domesticados ainda se dispões de presas. Seu pecado é acreditar em suas próprias palavras quando as profere. Eu, marionete? Como poderia sê-lo se sou quem dita enquanto os outros seguem, obedientes? És tola de ter pena de algo que não pode se redimir..." Declarou. "Nunca esperei de ti bons resguardos, muito menos retratei em mim algo menos que vil. Não preciso de sua misericórdia ou de seu perdão, apenas mostrei a ti a diferença dos monstros que habitam este mundo."
‧͙*̩̩͙❆ Por um momento, desejou tirar do semblante alheio o riso que se formava à força, no entanto, não era de seu feitio o agressivo, muito menos quando se tratava do sexo oposto; seria cavalheiro o suficiente para não ceder à violência quando a raiva borbulhava ao que ela caçoava de sua fraterna. Ouviu sua divagação silencioso, esperando que chegasse ao ponto final para expor suas ideias, afinal, não precisava se apressar em contrariá-la, tinha que permitir a ela escutar de sua própria teoria antes de fragmentá-la. "Eis o ponto em que seu entendimento sobre mim te falha... Eu nunca defendi a imagem do vilão digno de redenção, porque, para mim, esse tipo é tão fantasioso quanto aquele prole do maligno! O que retratei em mim foi exatamente a figura que acaba de emoldurar como 'verídico', um homem cujo passado o transformou em monstro, mas que não buscou a luz após vivenciar a escuridão; que se permitiu tornar-se um com as trevas e, assim, manifestou-se vilão." O tom era de quem corrigia, como um professor se dirigindo a um aluno. "No final, suas palavras entram em acordo com minhas afirmações, só não o enxerga por não querer se encontrar concordando comigo..." Deu de ombros. O riso, breve, sem graça como todos os outros, mas, aos poucos, se tornando um pouco mais digno do delírio que o puxava para o lado da insanidade vez ou outra. "Nunca pedi de ti que fosse vilã. Sua libertação não é suficiente para torná-la mais do que uma antagonista aos bons princípios, não necessariamente boa ou má, apenas... Você... É isso que quero de ti, autenticidade, no lugar de replicação. Deixe a mim o papel de vilão..."
‧͙*̩̩͙❆ Wang não admitiria tão prontamente, no entanto, ela tinha um bom ponto quando dizia que os tipos como o seu deviam suas ações a motivos, nunca agindo em sua falta, porém, não sentia a necessidade de expor-se perante ela daquela forma. "Se há ou não propósitos para minhas ações, por que isso te interessa tanto? Não basta que não voltemos a abordá-las?" Questionou. O caminho mais simples era aquele, mas sabia bem que alguém como ela não estaria disposta a abandonar suas razões e focar apenas no que viria a seguir – era, como ele, inquisitiva por natureza, ainda que ele ocultasse seu interesse em desdém e mentisse até mesmo para si. "Engraçado, me pareceu disposta a fugir de seu cativeiro naquela noite da pior forma possível... Alguns diriam que estava pronta até mesmo para fazer de sua saída um espetáculo vibrante. Quem diria que hipocrisia fazia parte de sua encenação..." Zombou. "Encare a morte face a face quantas vezes precisar, pois isso significa que ainda se mantém em um plano onde ela não a alcança." O olhar afiado já não emanava tanto frio, como se o gelo derretesse vagarosamente; impediu-se de ceder ao calor do compadecimento no momento seguinte. "Não implica. Como obra do 'detalhe' que há pouco comentei, decidi oferecer a ti uma chance de escolha enquanto muitos ditam o certo e o errado. Ofereço uma melhor saída que a janela que se faz aberta em armadilha e ilusão – melhor seria quebrar a gaiola de uma vez que se submeter ao risco de ser aprisionada novamente, não?" Seriedade recobria seu cenho, não como o frio de outrora, mas ausente de calor; neutro, contemplativo, acessando-a.
‧͙*̩̩͙❆ Observou as lágrimas dela correrem pela face, acostumado com aquela visão, afinal, se não fosse diante dele, perante quem ela ousaria despejar suas lágrimas? Se ela era dele, somente ele podia vê-la quebrar, certo? Para que pudesse, em outro momento, reconstruí-la ao perfeito que jazia em sua mente, mais forte, dádiva da solda dos fragmentos ordenada e precisa que apenas ele poderia oferecer. "Então brilhe e imploda, imploda e continue a brilhar, mas dure o bastante para entreter-me em vida até que eu me vá. Devo relembrá-la de que as estrelas que vemos hoje há muito já implodiram? Faça de sua memória rastro pelo universo, como elas o fizeram, pois de ti não desejo o oblívio, como diz, seria muito fácil..." Descartou. "És o que és, e se eu a disse humana, então, é o que és. Não será menos ou mais que isso enquanto couber a mim tal decisão." Decretou, inviolável, como se recitasse ordem divina em terra. "Por que se preocupa tanto com detalhes? Nunca estaremos em pé de igualdade, pois sou eu o vilão e você a mim pertence... Contente-se com a desvantagem, isso é símbolo de que ainda lhe resta luta."
‧͙*̩̩͙❆ Seu gesto foi aceito e, com isso, o contrato havia sido firmado, velado, ainda que ela se negasse a cumpri-lo futuramente. "Nada é justo nesse mundo. Quando diz que eu não viveria ou morreria por ti, retruco ao assegurá-la de que não preciso arriscar minha integridade para me certificar da sua. Às sombras que projeto, estará livre para ser genuína, para viver e para apreciar..." Teceu a visão de um novo mundo a ela, em que ela poderia encontrar não só o alívio como a si própria. "Tolos seriam os que teriam a audácia de tocar o que me pertence, afinal, sou, antes de tudo, aquele que temem os homens, as máscaras e os vermes." Seu código não servia apenas para regular suas ações, como também para mantê-los em cheque perante seus ideais, e sua doutrina já era lei aos corredores da universidade, e, logo, sua expansão se estenderia pelo mundo. "Ainda assim, ofereci a ti uma escolha e recebi de ti sua resposta. Não ouse se arrepender... Sua vida agora não é mais sua para destruir. Lembre-se disso..."
‧͙*̩̩͙❆ Desde o ocorrido na festa, sua mente, já distante do são, havia obtido novo alvo de obsessão e paranoia – aquela mensagem deixada para trás na sala onde tudo aconteceu –; sentia que por todos os cantos de Saint Benedict Hall haviam olhos a observá-lo, como se não bastassem aqueles que sua mãe pagava para fazê-lo, silenciosamente. Seria aquele o fim que teria devido à maldição de sua família? Ou já não bastava o sangue demoníaco, ainda seria obrigado a ser assombrado por outra criaturas da noite? Em seu momento de distração acabou por se deparar, ao virar uma esquina apressadamente, com a figura da garota, amiga de sua irmã, com quem havia tido uma relação devidamente infortuna. Não culpava @sadedejustica pelas palavras que ela proferira, como se não o conhecesse, ele havia sido o babaca da história, admitia isso, e era até mesmo melhor que tudo fosse deixado para trás como se nada tivesse acontecido. "Não é um de que precise se recordar, fique tranquila." Respondeu, pronto para continuar seu caminho em direção ao dormitório quando algo o fez hesitar. "Você...-" Viu minha irmã? Ela está bem? Não aconteceu nada de estranho com ela nos últimos tempos? Eram tantos questionamentos por não estar em bons termos com sua irmã mais nova, mas novamente se parou em mesmo instante. Sentia que seria rude de sua parte continuar com a pergunta. "-Deixa quieto."
Lista dedicada às conexões estabelecidas e desejadas de [ WANG MÙCHÉN | THE EMPEROR ] em @theomenhq.
・⫘⫘⫘⫘⫘𝐎𝐏𝐄𝐍⫘⫘⫘⫘⫘・
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| ♥︎ 𝐑𝐎𝐌𝐀𝐍𝐓𝐈𝐂.
₊⊹˚𝄞 "𝐁𝐀𝐂𝐊 𝐓𝐎 𝐅𝐑𝐈𝐄𝐍𝐃𝐒" by Sombr (MUSE : ANY SKELETON | Ex-Relacionamento & Ausência de Encerramento) –
"How can we go back to being friends when we just shared a bed? How can you look at me and pretend I'm someone you've never met? It was last December, you were layin' on my chest, I still remember..."
Eles eram amigos de infância antes de tudo, quase inseparáveis, até que um riso distraído e um olhar diferente acabou por levá-los a um relacionamento ainda durante a adolescência, que durou por algum tempo antes de MUSE terminar com Mùchén sem aviso prévio, sem despedida formal, um adeus dito ao vento e sua partida em direção ao horizonte. O motivo? Nunca dito… Fato é que a ferida nunca se cicatrizou, pois não houve encerramento. Em Saint Benedict Hall, MUSE retorna à vida do Wang como se a amizade de outrora fosse a realidade atual e o laço romântico tivesse desaparecido por completo, mas como poderia ele aceitar se nem mesmo recebera uma explicação antes do abandono?
Reservado à Aristocracia ( F ).
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₊⊹˚𝄞 "𝐌𝐘𝐒𝐓𝐈𝐂𝐀𝐋 𝐌𝐀𝐆𝐈𝐂𝐀𝐋" by Benson Boone (MUSE : ANY SKELETON | Ex-Noivado & On/Off) –
"There's nothing colder than your shoulder when you're dragging me along like you do. Like you do! And then you switch up with no warning and you kiss me like you want it, how rude. How rude! But I kinda like it anyways, I don't mind if this is gonna take a million days, I know you'll come around to me eventually if you sit back, relax and join my company, my company..."
Mùchén e MUSE já foram unidos por um noivado arranjado pelos pais em outra época, porém, o noivado se encerrou tão subitamente quanto foi sugerido quando o patriarca da família se "acidentou" e veio a falecer. Eles mantiveram, entretanto, um relacionamento complicado por um tempo, uma amizade que tendia a alto mais, porém, que não deu frutos até o reencontro no instituto, onde se permitiram tentar um romance. Não deu certo. De cara notavam que não havia compatibilidade mesmo que houvesse o desejo, ora completamente frios e distantes, ora queimando-os por dentro, ardente.
Eram complexos por seus próprios motivos, mas não podiam dizer que não tentaram, diversas vezes começaram e terminaram, por vezes terminando até por esquecerem que mal haviam começado, sempre durando em média uma única semana, com o record registrado como troféu pelos dois em quase dois meses, que arredondavam de um mês e meio para cima. Na teoria, são perfeitos um para o outro, ainda assim, é como se algo não se encaixasse entre eles e acabasse por se tornar incômoda a convivência - talvez fosse por nenhum dos dois serem completos sozinhos. Ainda assim, quando o interesse desperta, não hesitam em demonstrar o afeto, que normalmente é correspondido com mesma intensidade, e, então, se veem cogitando mais uma tentativa...
Reservado à Elite da Alta Sociedade¹ ( F ).
[ 1 - O nicho do nicho do nicho! ]
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| ★ 𝐅𝐀𝐕𝐎𝐑𝐀𝐁𝐋𝐄.
₊⊹˚𝄞 "𝐓𝐇𝐄 𝐀𝐃𝐔𝐋𝐓𝐒 𝐀𝐑𝐄 𝐓𝐀𝐋𝐊𝐈𝐍𝐆" by The Strokes (MUSE : ANY SKELETON | Devoção & Lealdade) –
"They've been saying', ' You're sophisticated '. They're complainin', overeducated. You are saying all the words I'm dreaming, say it after me, say it after me... They will blame us, crucify and shame us. We can't help it if we are a problem, we are tryin' hard to get your attention, I'm climbin' up your wall, climbin' up your wall..."
MUSE e Mùchén se conhecerem por obra do destino e do acaso, frutos de dois mundos tão diferentes quanto a água e o óleo, e, como os dois líquidos, seria impensável que um acabasse por se misturar com o outro. Como qualquer outro, as primeiras impressões dela não foram favoráveis, ela via a tirania e a crueldade de outrem como ridículos, absurdos, exageros de uma mente que a fazia se questionar sobre os parafusos que já haviam se soltado. Ela via o mundo com olhos infantis, esperançosos, ingênuos, encontrando em SBH uma forma de se tornar alguém, determinada a deixa para trás o passado, sob a promessa de iguais direitos entre Apadrinhados e Legados... Farsa que logo se provou tal dentro dos corredores do instituto. MUSE se viu presa, humilhada, vendo o mundo desmoronar ao seu redor ao que os risos a condenavam em meio à multidão da elite internacional, encontrando o desespero de uma queda que a fez cogitar desistir de tudo ali mesmo.
Foi em meio ao tumulto, quando já havia desistido de sua tentativa fútil de explicar e contrariar, que Wang surgiu, varrendo consigo os risos divertidos como tempestade, fazendo as sombras surgirem consigo como assassinas dos comentários ofensivos. Quando percebeu, agora eram aqueles que a humilhavam de joelhos, uma vista surreal, algo que nunca imaginou possível, eles suplicavam por seu perdão, e seu salvador deu a você a escolha sobre seus futuros. A inocência de outrora se perdera em meio ao choque de realidade e ela agiu em crueldade equivalente, que nem mesmo reconhecia em si própria, e por um momento temeu que tivesse exagerado, porém, quando seus olhos encontraram os de Mùchén, ela não viu a crítico com que havia se acostumado, com que esperava se deparar, viu aprovação... Aprovação que se tornaria seu vício, sua sina velada, que se tornara ali mesmo sua motivação. Admirava-o com outros olhos desde então, aos poucos, a visão vilanesca a qual antes julgava sem hesitar, se tornava algo por que desejava lutar com unhas e dentes, pois era importante para ele. Seria esse seu ato de devoção àquele que agora enxergava em completa e verdadeira majestade...
Reservado a Bolsistas/Apadrinhados ( M/F/NB ).
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₊⊹˚𝄞 "𝐁𝐀𝐃 𝐆𝐔𝐘" by Billie Eilish (MUSE : ANY SKELETON | Compreensão & Aceitação) –
"White shirt now red, my bloody nose. Sleepin', you're on your tippy toes creepin' around like no one knows. Think you're so criminal. Bruises on both my knees for you, don't say thank you or please I do what I want when I'm wanting to. My soul? So cynical... So you're a tough guy, like it really rough guy, just can't get enough guy, chest always so puffed guy? I'm that bad type, make your mama sad type, make your girlfriend mad tight, might seduce your dad type. I'm the bad guy, duh?!"
Complementos um do outro, não no que tange ao benéfico, mas da forma mais destrutiva. Enquanto estão juntos, se tornam versões ainda piores de si mesmos, como se fossem amplificadores da escuridão um do outro, pois se entendem e, por isso, não têm que diminuir suas próprias sombras na presença do outro. Aqueles que veem o relacionamento deles de fora, não conseguem deixar passar a toxicidade que emana daquilo, como se o hostil interior recobrisse o ambiente em névoa venenosa. Suas conversas são fundadas em sarcasmo, desdém e irreverência que, eventualmente, sempre se torna lenha para o flerte provocativo, que nunca leva a nada, talvez até por reconhecerem que seriam o fim um do outro.
MUSE e Mùchén nunca questionaram o porquê de se manterem por perto - não suficiente para oferecer abertura, mas o bastante para que sofressem os efeitos da proximidade -, e, a esse ponto, já não ousavam sugerir o afastamento completo, ainda que, vez ou outra, passem tempo demais sem buscar a presença do outro, sem satisfações, desaparecendo e reaparecendo em cenas na vida um do outro. De certa forma, por se sentirem livres para liberar suas trevas um com o outro, são remédios de potente efeito terapêutico no processo de aceitação da desgraça um do outro, porque na presença do outro são capazes de ver a si próprios no ponto mais baixo. O que trará como resultado essa amizade construída no horrendo, o fim ou o recomeço?
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| ♡ 𝐔𝐍𝐅𝐀𝐕𝐎𝐑𝐀𝐁𝐋𝐄.
₊⊹˚𝄞 "𝐀𝐍𝐈𝐌𝐀𝐋𝐒" by Maroon 5 (MUSE : ANY SKELETON | Rivalidade Intelectual & Cobiça Inspiradora) –
"Yeah, you can start over, you can run free, you can find other fish in the sea. You can pretend it's meant to be, but you can't stay away from me. I can still hear you making that sound, taking me down rolling on the ground. You can pretend that it was me, but no, oh! Baby, I'm preying on you tonight, hunt you down eat you alive, just like animals, animals, like animals..."
Sempre existiu tensão entre eles, não de uma forma ruim, muito menos agradável, mas que os movia a desejarem estar um passo à frente do outro no xadrez de dez tabuleiros que jogavam em suas mentes, concomitantes, cada uma contando com relógio próprio, divididos igualmente entre situações de derrota inevitável e vitória esmagadora. Enquanto Mùchén se destacava pela performance impecável e disciplina feral, um prodígio de sua geração, - fazendo seu sangue ferver sempre que as classificações acadêmicas o destacavam em primeiro e a ele em segundo -, MUSE brilhava pela espontaneidade primorosa, algo que Wang despreza e, no fundo, inveja por hipocrisia inata em igual medida.
Ambos eram mestres em suas respectivas áreas, e não poupavam esforços para demonstrar seu talento inato. MUSE, do humano, do social, do prático, criando laços tão facilmente quanto os convencia de suas vontades; Wang, do lógico, do literário, da teoria, juntando sob si os estudiosos que o admiravam por sua excelência. Aos dois distribuíam-se aclamação e respeito equivalentes, inspirando diferentes públicos, em constante rivalidade silenciosa. Mais uma prova de conquista? Mais um título de honra ao publicado? A dança continuava ao que jogavam o jogo com as peças que tinham à sua disposição ansiando pela vitória...
Reservado a alunos do Curso de Política & RI ( M/F/NB ).
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₊⊹˚𝄞 "𝐀𝐍𝐗𝐈𝐄𝐓𝐘" by Doechii (MUSE : ANY SKELETON | Investigação & Importúnio) –
"Feel like I'm stuck in a maze, I just try not to feel too amazed, stand where I live 'till I lay in a grave. Sleepin' on me, been up for some days, like, how you gon' shit where you lay, uh? You keep the fame, I just wanna get paid, Jacques Cousteau with the wave, uh? Free all my friends, the Harriet way, like some times I feel like a slave to my feelings..."
Obcecado por histórias sombrias, escândalos internos e podres da elite da SBH, MUSE não poupava esforços para conseguir os detalhes, os "algo mais", aquilo que fazia suas manchetes se destacarem em meio às outras. Ela viu em Mùchén um prato cheio, misterioso e recluso, não por ser obrigado ao isolamento, mas por escolhê-lo, trágico e belo, o tipo exato que buscava, pois eram esses que guardavam os segredos mais picantes dentro da aristocracia. Dizia por experiência, seus palpites nunca a enganavam... No entanto, sempre falta algo quando tenta desvendar esse quebra-cabeça que ele se mostra ser, ele é meticuloso demais para deixar rastros que a levem tão facilmente aos seus segredos. Táticas que em outros funcionavam tão facilmente, nele pareciam falhar antes mesmo que desse o primeiro passo...
Ainda assim, alguém como MUSE não desiste fácil, tenta arrancar informações com perguntas veladas, fotos tiradas à distância, artigos insinuantes feitos para provocar reação que mostrasse qualquer coisa que deixava passar, mas ela não encontra algo que o obrigue a falar. O que ela não sabe é que esteve fadada a falhar desde o início, pois Mùchén tinha extrema aversão a ela, não por medo, mas por desprezo verdadeiro, pois não suporta quem tenta desmascarar monstros apenas para vender manchetes, famintos pela fama e não pela verdade. Para ele, eram esses os primeiros a se vender ao valor mais alto, a manipular as informações e, consequentemente, as massas com fatos forjados.
Reservado a membros do Clube de Jornalismo e Publicações ( M/F/NB ).
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₊⊹˚𝄞 "𝐁𝐋𝐎𝐎𝐃 // 𝐖𝐀𝐓𝐄𝐑" by Grandson (MUSE : ANY SKELETON | Ordem & Caos) –
"Look me in my eyes Tell me everything's not fine Oh, the people ain't happy And the river has run dry You thought you could go free But the system is done for If you listen real closely There's a knock at your front door We'll never get free Lamb to the slaughter What you gon' do when there's blood in the water? The price of your greed is your son and your daughter What you gon' do when there's blood in the water?"
No passado, uma aliança foi formada entre os dois, pois acreditavam que partilhavam de uma visão similar de mundo, de que era necessária mudança para que os fracos cessassem seu domínio parasítico sobre os fortes. As semelhanças cegaram Mùchén à verdade que só enxergou bem depois sobre MUSE, a qual o pintava como uma ameaça ao idealístico que envisionara, porque, contrário ao domínio pela destruição e a ascensão pelo próprio que ele almejava em seu mundo utópico, MUSE não ansiava, como ele, pelo regrado de um novo código, e sim pelo anárquico, pelo caótico, por um mundo em que a força - regida pelos três pilares, dinheiro, influência e poder - era a única coisa que importava, em que os "insignificantes" não tinham que se ater à posição e escalar por sua própria perseverança - como regia a doutrina do Wang -, e sim servir aos fortes em submissão completa, aceitar a violência que decorreria de sua condição, e encontrar seu sepulcro se não lhes fosse conveniente, sem oportunidades e sem direito de expressar opinião.
Para o imperial, MUSE era símbolo do mau pelo mau, da desordem desmedida, do cruel por capricho, tudo aquilo que Mùchén, como mau pelo ideal, repugnava, desprezível. A discussão afastou os dois, colocando um ponto final ao duo que aterrorizava até o mais corajoso e influente aristocrata de SBH à sua simples menção. O que restou era ódio mútuo, incessante, um pelo outro, por se fazerem opostos e obstáculos em todas as viradas para com o outro. Nenhum dos dois age diretamente contra o outro, porém, há a ameaça, pois sabem bem do que o outro é capaz, um impasse resultante do receio das repercussões do início de um conflito direto. Entretanto, todos sabem que a paz nunca é duradoura... Quanto tempo levará até que os dedos ao gatilho espasmem e as balas comecem a voar?
Reservado àqueles que se identifiquem com o arquétipo Caótico Mau ( M/F/NB ).
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| ☆ 𝐍𝐄𝐔𝐓𝐑𝐀𝐋.
₊⊹˚𝄞 "𝐓𝐎 𝐁𝐄 𝐀𝐃𝐃𝐄𝐃" by Artist (MUSE : ANY SKELETON | Desc 1 & Desc 2) –
"TBA."
TBA.
・⫘⫘⫘⫘⫘𝐂𝐋𝐎𝐒𝐄𝐃⫘⫘⫘⫘⫘・
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| ♥︎ 𝐑𝐎𝐌𝐀𝐍𝐓𝐈𝐂.
₊⊹˚𝄞 "𝐈 𝐋𝐈𝐊𝐄 𝐓𝐇𝐄 𝐖𝐀𝐘 𝐘𝐎𝐔 𝐊𝐈𝐒𝐒 𝐌𝐄" by Artemas (MUSE : THE JUSTICE at @sadedejustica | Relacionamento Temporário & Tóxico) –
"I like the way you kiss me, I can tell you miss me, I can tell it hits, hits, hits, hits... Not tryna be romantic, I'll hit it from the back just so you don't get attached, 'tached, 'tached, 'tached... Do I stress you out? Can I help you out? Does it turn you on when I turn you around? Can we make a scene? Can you make it loud? 'Cause I'm so proud, baby, I'm so proud of you..."
Foi apenas um envolvimento físico, silencioso, carnal, para ocupar noites intranquilas, quando os dois precisavam de companhia. Mùchén nunca prometeu nada, porém, Sade sempre quis mais, ambos sabiam disso, ainda assim, continuaram, pois era conveniente - um arrependimento que Mu carrega consigo, porque sabia que deveria ter encerrado tudo quando surgiram indícios dos sentimentos. O fim não foi dramático, foi vazio, mas necessário, tarde demais. Ela guarda rancor, mágoa, talvez para esconder que ainda sente, e isso circula, como apenas um rumor dentre tantos de algo que ambos negam sequer ter acontecido, pelos corredores da SBH.
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| ★ 𝐅𝐀𝐕𝐎𝐑𝐀𝐁𝐋𝐄.
₊⊹˚𝄞 "𝐄𝐕𝐄𝐑𝐘𝐓𝐇𝐈𝐍𝐆 𝐈 𝐖𝐀𝐍𝐓𝐄𝐃" by Billie Eilish (MUSE : TEMPERANCE at @temperancemeiling | Zelo & Irmandade) –
"And you say, 'As long as I'm here, no one can hurt you. Don't wanna lie here, but you can learn to. If I could change the way that you see yourself you wouldn't wonder why you hear they don't deserve you' "
Ela é sua âncora silenciosa, sempre foi, a luz a que se agarra, ainda que mantenha distância segura, temendo contaminá-la com sua escuridão. Meiling é a pessoa por quem Mùchén mataria... E matou... A relação deles é feita de ternura e medo, de culpa e devoção. Ele esteve lá para protegê-la sua vida inteira, mesmo que ela não soubesse disso, um mártir que se sacrificou silenciosamente por ela sem ousar deixar que ela percebesse as rachaduras que se formavam, porque ela já o salvava todos os dias apenas por existir em seu mundo. Nunca abriria sua boca para reclamar da sentença que servia por dois, pois a verdade sobre a punição severa traria tumulto àquele sorriso que desejava defender mais que qualquer outro. Verdade que a retratava como fruto de traição, a qual escutara pela primeira vez, em meio ao som de sua própria respiração dolorosa, escapar balbuciada pelo patriarca alcoolizado, enquanto sofria a pena corpórea que não era dele, mas que tomava para si por ela. Entendeu ali por que tratavam sua chegada como tão milagrosa, filha de sua mãe, porém, não uma Wang como ele. Lá no fundo, ele agradecia a quem quisesse ouvir por ela não ter o sangue amaldiçoado correndo em suas veias, pois isso significava que não era destinada a carregar a mesma sina que ele, entretanto, nunca ousaria contar a ela esse segredo.
Tinha medo da incerteza corrompê-la, ela não precisava saber, o patriarca há muito já havia morrido, portanto, sua identidade estava segura, era sua irmã por completo, não por ligação ao genitor, mas porque era assim que a via, seu tesouro mais querido, e nada mudaria isso. Por ele, ela sustentara a narrativa do “acidente” do patriarca, e essa cumplicidade forjou entre os dois uma irmandade trágica, baseada em rubro derramado, mesmo que a influência de sua mãe impeça que se aproximem mais do que distância segura para mostrar ao mundo a fachada de família perfeita e unida. Nada importa a Mùchén se puder dar a ela uma vida proveitosa, nem mesmo seu próprio fim, nem mesmo a manipulação de sua mãe, que explora essa sua fraqueza e a usa como forma de controlá-lo. A única opinião que o afeta verdadeiramente é a dela, afinal... Por esse mesmo motivo odeia tanto a progenitora, por ousar tecer seus fios macabros e a comandar com seu veneno. Por ela se tornara vilão, em busca do mundo perfeito, construído para que ela pudesse manter a bondade e inocência sem que se aproveitassem de sua boa vontade, e, por ela, faria disso realidade. Nem que tivesse que destruir esse mundo inteiro para isso...
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₊⊹˚𝄞 "𝐔𝐍𝐖𝐑𝐈𝐓𝐓𝐄𝐍" by Natasha Bedingfield (MUSE : TWO OF PENTACLES at @jojodwrd | Afeto & Alento) –
"Release your inhibitions, feel the rain on your skin. No one else can feel it for you, only you can let it in. No one else (no one else) can speak the words on your lips, drench yourself in words unspoken, live your life with arms wide open. Today is where your book begins..."
Não se pode dizer que são conhecidos de longa data, mas desde que se viram pela primeira vez em SBH estão ligados um ao outro pelo fio do destino. Primeiro, Mùchén tentou afastá-la, como fazia a todos os outros, expeli-la de sua zona de conforto para que, como os outros, visse apenas o que ele desejava mostrar; a fachada vil e cruel que usava como máscara em hipocrisia. Entretanto, assim que se dispôs a fazê-lo, pela primeira vez em anos hesitou... Hesitou, pois nela viu retrato falado de sua irmã mais nova, ou de como a enxergava, pelo menos, uma figura que era resultado de suas circunstâncias, seu psicológico igualmente violado, ainda que de uma forma diferente da que sua irmã sofrera. Jolene despertou nele seu lado super protetor, quebrando tantas barreiras consecutivas que restou a ele aceitar que agora ela reclamava um canto confortável em sua tempestade, um dos poucos onde a devastação não alcançava. Mu obrigou a si mesmo aceitar, sob pretexto de evitar esforços desnecessários, a mesma desculpa que usava para sua irmã mais nova, por coincidência - ou talvez nem tanto.
De certa forma, a relação dos dois era como uma troca de favores... Jolene preenche a solidão desoladora que Mùchén sente por ser obrigado a manter-se distante daquela que mais preza, de sua irmã, enquanto Wang oferece a ela o conforto à sua sombra de que sua mente necessita. Vivem em simbiose benéfica, apoiando um ao outro em tempos difíceis enquanto se curam de suas feridas - ainda que o chinês se negue a admitir que sentirá sua falta quando ela estiver pronta para partir do Inverno que ele moderava em sua presença para o Verão de outras cenas. Ninguém entende como ela conseguiu cair na graça do vilão, talvez nem mesmo Jolene saiba o motivo por que o ombro amigo proibia os desastres naturais que o compunham de surgirem desmoderados em sua presença. Fato era que ela havia cativado a fera em afeto platônico, e isso bastava para manterem a relação de respeito mútuo pela distância prescrita um ao outro em contrato não-verbal como necessária para a harmonia, ainda que já ao alcance de um braço...
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₊⊹˚𝄞 "𝐓𝐇𝐄 𝐍𝐈𝐆𝐇𝐓 𝐖𝐄 𝐌𝐄𝐓" by Lord Huron (MUSE : THE CHARIOT at @chariotkorn | Amigos de Infância & Distanciamento) –
"I am not the only traveler who has not repaid his debt. I've been searching for a trail to follow again, take me back to the night we met (...) I had all and then most of you; some and now none of you. Take me back to the night we met. I don't know what I'm supposed to do, haunted by the ghost of you. Oh, take me back to the night we met..."
Os dois se conheceram por interesse dos progenitores, criando laços, cada qual com suas próprias ideias em mente, aproveitando-se da idade semelhante dos filhos para incentivar aproximação e, então, utilizar isso como propulsor do relacionamento entre as famílias. Os Wang, imperiais, ligados à política em relação inseparável, extremamente interessados em fazer conexões com o mundo Olímpico, uma vez que a China era um dos países que mais se importava com o esportivo e com a competição internacional; Os Veerapol, importantes e influentes internacionalmente pelos esportes, atletas e representantes do mundo esportivo da Tailândia, o primeiro encontro foi marcado como uma reunião de negócios, e os garotos se conheceram à mesa de jantar de modo completamente diferente um do outro. Mùchén, temendo as represálias de qualquer equívoco, mostrava sua melhor fachada de elegância e educação, enquanto Korn não sofria com o medo de ser criança e podia se portar como tal - ainda que dentro dos limites da alta sociedade. De certa forma, o chinês invejava o pouco a mais de liberdade que era concedida ao outro, mas nunca vociferou aquele pensamento infantil. Fato era que, sem necessidade de intervenção formal dos progenitores, eles acabaram por se dar bem e continuaram a relação próxima nas diversas vezes que se encontram a partir da data. Por mais que a personalidade de Korn e suas ações, por vezes, insensatas e impulsivas - dignas de uma criança da idade deles -, fizessem com que Mu se estressasse muito mais vezes do que era saudável ao coração de qualquer um, por medo das repercussões de serem descobertos pelos mais velhos.
As ideias que o tailandês sugeria, como a de assaltar a adega de seu pai e beber com seus muitos 14 anos de sabedoria, sempre vinham acompanhadas de um plano, claro, mas enquanto ele detalhava a empreitada, esse era qualificado e categorizado por Mu apenas com o valor da contagem de quantos socos e chutes receberia se fossem pegos. Nunca recusou, entretanto, também nunca contou a ele de sua circunstância familiar. Com Korn, teve várias primeiras experiências, principalmente com coisas ilegais ou proibidas pelos progenitores - e até pela sociedade, muitas vezes -, e foi por causa dele que descobriu algo que escondia até os dias atuais dos olhos e ouvidos alheios, não por medo ou incerteza, mas por motivos que só ele entendia ou sabia: sua sexualidade. Foi algo inocente, uma pergunta sobre isso, uma troca de olhares, mas suficiente para que a dúvida ficasse. Uma das partes mais cruéis de perder sua humanidade, para Mùchén, foi ter que abandonar, aos poucos, seu amigo mais próximo, enquanto dizia a si mesmo que era melhor assim, que seria melhor para Korn que ficasse longe de seus demônios. O que terminou em sofrimento foi reaberto em ferida quando voltaram a se reencontrar em SBH, porém, o tempo havia passado, já não eram as crianças de outrora, mesmo se quisessem ir atrás um do outro, não saberiam por onde começar...
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₊⊹˚𝄞 "𝐈 𝐖𝐀𝐍𝐍𝐀 𝐁𝐄 𝐘𝐎𝐔𝐑 𝐒𝐋𝐀𝐕𝐄" by Måneskin (MUSE : SEVEN OF SWORDS at @leacallhn | Boa Influência & Má Influência) –
"I wanna be your slave, I wanna be your master. I wanna make your heartbeat run like rollercoasters. I wanna be a good boy, I wanna be a gangster, 'cause you can be the beauty and I could be the monster. I wanna make you quiet, I wanna make you nervous. I wanna set you free but I'm too fucking jealous. I wanna pull your strings like you're my Telecaster, and, if you want to use me, I could be your puppet. 'Cause I'm the Devil who's searching for redemption, and I'm a lawyer who's searching for redemption, and I'm a killer who's searching for redemption. A motherfucking monster who's searching for redemption..."
Eles são astros que se contradizem ao existir em mesmo plano, como o simbólico do Sol e da Lua. Eleanor é energia, paixão e inspiração, o astro solar que dispersa a todos seu calor, aquela que traz consigo os sorrisos e o acalento; Mùchén é esgotamento, desolação velada e indiferença, como o lunar por que rogam as línguas magoadas e a que descrevem como aquém de si os que se deixam levar pela angústia existencial. Dois seres traçando caminhos paralelos em direções opostas, e, ainda assim, o destino fez questão de uni-los em um mesmo ambiente, como se algum ser entediado movesse-os como marionetes de mundos separados a um único para seu entretenimento.
Por algum motivo, ao invés de se expelirem, o que seria esperado, como polos opostos, se atraíram fortemente, ainda que o Wang tivesse feito de tudo para afastá-la, vendo nela perigo alarmante à sua fachada vil, sem sucesso, pois o carisma de Eleanor abrira espaço forçado para encontrar sua antipatia forjada, como se tentasse curá-la inconsciente ou conscientemente. Eventualmente, aceitaram seus desafios, ele o de confrontar aquelas chamas com sua nevasca, ela o de derreter o gelo com seu calor. Qual influência se sobressairá resta a eles decidir por si próprios...
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| ♡ 𝐔𝐍𝐅𝐀𝐕𝐎𝐑𝐀𝐁𝐋𝐄.
₊⊹˚𝄞 "𝐑𝐈𝐕𝐀𝐋𝐑𝐘" from The Next Step (MUSE : THE WHEEL OF FORTUNE at @zoolvni | Desavenças & Irritação Mútua) –
"If you want a rivalry, check yourself before you start a war. If you want a rivalry, be careful what you wish for. If you want a rivalry, lay your weapons down on the floor. If you want a rivalry, bring it on (bring it on)..."
As constantes brigas e discussões que ocorrem na Equipe e Boxe têm, quase sempre, os dois como protagonistas. Para eles, foi assim desde o início, uma forte inimizade forjada em mútuo incômodo, ainda que Mùchén tendesse a ignorar a ela e às suas tentativas de provocá-lo, pois sabia que se permitisse que a irritação o atingisse, acabariam por destruir um ao outro não apenas no âmbito físico. Fato é que a causa não é culpa única de um ou do outro, mas do conjunto que surgiu à promoção do chinês ao cargo de Capitão anos atrás, fazendo com que o grupo, antes local de liberação de estresse e de repouso confortável àqueles que desejavam fazer parte de alguma extracurricular como forma de adornar e ornamentar seu currículo, mas que não queriam se esforçar verdadeiramente pela recompensa recebida, sofresse uma grande transformação sob o punho firme e o olhar afiado do novo Capitão. Os treinos se tornaram mais intensos em busca da forma ideal para cada indivíduo, para que se fizessem guerreiro dignos de títulos em competições, não o motivo do riso de seus adversários, e as correções se fizeram uma constante.
Muitos não gostaram de como o cargo foi repassado a ele pelo antigo portador do título, no entanto, não havia retorno ou contestação, até porque ele tinha a habilidade para liderar, imbatível em sua categoria e rigoroso em sua vistoria. Não era claro se o desconforto de Zolani surgira da mudança ou se por ser alvo da atenção de Mùchén mais do que outros, talvez porque ele enxergava algum potencial escondido nela que não fazia questão de admitir em voz alta, tivesse desenvolvido o ranço para com sua forma de orientar o grupo que liderava, do qual ela fazia parte ainda que o feminino e masculino se separassem no geral; a atenção fria e, por vezes, aquém do arrogante, não contribuía para tornar tudo aquilo mais palatável, também. Como se não aprendesse sua lição, ou simplesmente desejasse ignorar as ofensas e desavenças, Wang retornava de novo e de novo ao seu encontro, e disso decorriam as discussão e as brigas com direito a desafios a que nenhum dos dois fazia questão de dar continuidade por conta da clara diferença de altura e peso que faziam grande diferença no esporte a favor do Capitão. Ela, teimosa demais para ceder ou se submeter, ele, não vendo a importância de suavizar e ignorar; os conflitos começavam a se tornar presentes até mesmo fora do ginásio...
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₊⊹˚𝄞 "𝐃𝐄𝐂𝐎𝐃𝐄" by Paramore (MUSE : THE MOON at @langleyness | Suposições Infundadas & Ignorância) –
"The truth is hiding in your eyes, and it's hanging on your tongue, just boiling in my blood... But you think that I can't see what kind of man that you are, If you're a man at all, oh, I will figure this one out on my own (...) I think I know, oh, there is something I see in you, it might kill me, but I want it to be true..."
O que tiveram sempre foi superficial, não passavam de rostos figurantes na trama do outro, suas interações se limitando a um olhar perdido que encontrava o rosto desconhecido e logo voltava a focar no que lhe era de interesse, abandonando a recordação daquela pessoa por completo... Ou era para ser assim. Para Mùchén, ela sempre foi só mais uma face em meio à multidão, alguém que não era de seu interesse, que eventualmente sumiria em borrões como fizera com as faces de seu passado, cobrindo-as para que não se fizessem presentes em sua lembrança. Para Harriet, no entanto, ele se tornara alvo de um desgosto que poderia ser considerado infundado, fruto da imagem que reclamava como sua de vilão, cuja arrogância que ela via como justificativa nunca realmente havia sido dirigida diretamente a ela, ainda que pudesse tê-lo sido indiretamente.
Intenções não importavam quando a razão era deixada de lado pelo amargor, e fato era que ela o via como um babaca, como o alvo de sua atenção menos gentil. Enquanto isso, do outro lado da cerca, o Wang ainda custava a notar sua presença, ocupado demais com seus próprios problemas para sequer se importar com os dela; um inimigo a mais ou a menos era detalhe para ele. Nessa cena, duas almas se encontravam em desencontro: a primeira, atendo-se ao preconceito isento de evidências não-circunstanciais, escolhendo crer que a figura que escolhera odiar sem razão real era digna de tal desgosto porque ela o dizia; a segunda, ignorante aos olhos que desejavam seu mal, não se esforçando para esclarecer maus entendidos com a desculpa de que não se importava. O destino que as aguardava, mútua destruição ou desenvolvimento pessoal? Só o tempo ditaria...
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| ☆ 𝐍𝐄𝐔𝐓𝐑𝐀𝐋.
₊⊹˚𝄞 "𝐋𝐎𝐕𝐄𝐋𝐘" by Billie Eilish (MUSE : THE STRENGTH at @verlorenruhe | Conhecidos em Harmonia & Neutralidade Confortável) –
"Oh, I hope some day I'll make it out of here, even if it takes all night or a hundred years. Need a place to hide, but I can't find one near, wanna feel alive, outside, I can't fight my fear. Isn't it lovely, all alone?"
Eles se conhecem, mas só o suficiente para saber o nome um do outro. A interação deles é sempre a mesma: um aceno breve no corredor da SBH, um “Boa tarde.” formal, uma troca de olhares neutra durante algum evento do curso. Nunca é desconfortável, mas também nunca ultrapassa essa barreira mínima. Liberti não tem medo do Wang, apenas mantém uma distância respeitosa, como alguém que entende que há muros ali que ninguém pediu para escalarem, de ambos os lados, suas defesas contra as circunstâncias que os tornaram quem eram. Mùchén, por sua vez, não vê motivo para se aproximar ou afastar, não há hostilidade e não há afinidade, apenas a convivência social padrão, educada, previsível. É uma relação que poderia crescer, talvez, em outro tempo ou outro mundo, ou até mesmo nesse, se um dia permitissem... Não aconteceria...
Pelo menos não estava no plano de nenhum dos dois, afinal, cada um se mantinha à sua distância por seus próprios motivos, mas ambos concordavam silenciosamente que era melhor assim. À vida atual de Mùchén, onde cada laço tem custo e consequências, a neutralidade confortável entre os dois é quase um alívio, talvez Ruyan se sentisse da mesma forma, pois também tinha suas cicatrizes do passado. Eram diferentes, mas suas diferenças os uniam em semelhanças que não esperavam que teriam um com o outro. Pelo menos no desinteresse alheio em ultrapassar aquelas barreiras poderiam encontrar alguma paz...
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₊⊹˚𝄞 "𝐒𝐍𝐀𝐊𝐄𝐒" by PVRIS (MUSE : JUDGEMENT at @judg3ment | Desentendimento & Manipulação) –
"It’s time we had a discussion 'bout your sorry production. Mask your shade and corruption, grinning teeth lack seduction. Know the crime you committed, I forget not forgive it. Don’t you dare get it twisted I'm nice but I can get wicked..."
A história já antiga se iniciava no primeiro ano como veterano de Mùchén, quando acabou por ser encarregado com a função de receber e guiar os novos membros do Clube de Literatura Clássica. Um desses novos membros era Elian, que enxergou a relativa proximidade ocasionada pela diligência e paciência de Mu como proximidade, vendo nele um acesso fácil à alta sociedade de SBH. Equivoco que viria a compreender apenas quando encontrou o primogênito imperial punindo outros estudantes da universidade, Legados, e, como forma de elevar seu próprio status perante os outros dos círculos mais altos, pôs-se como figura amiga do chinês, tentando persuadi-lo como forma de mostrar que podia controlá-lo à fronte daqueles que queria impressionar... Um grande fracasso... Pois Mu nunca o havia considerado como amigo, sequer mais que um conhecido, um colega de clube a quem havia cedido seu tempo por função imposta sobre si. O acesso de raiva que há pouco tinha como alvo os dois ajoelhados, prostrados com a testa ao chão, diante de si, agora se dispersava a Eli em punição por se mostrar cobra por trás da máscara. Aquilo consolidou a distância entre eles, ainda que Elian, em audácia admirável, insista em usar seu nome como se fossem próximos em conversas com outros estudantes - longe dos ouvidos de Mùchén, é claro.
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₊⊹˚𝄞 "𝐁𝐎𝐍𝐄𝐒" by Imagine Dragons (MUSE : THE STAR at @agznela | Transtornos Psicológicos & Desconfiança Equivocada) –
"My patience is waning, is this entertaining? Our patience is waning, is this entertaining? I got this feeling, yeah, you know, where I'm losing all control, 'cause there's magic in my bones. I got this feeling in my soul, go ahead and throw your stones, 'cause there's magic in my bones..."
Não foi planejado, o acaso os uniu em uma noite em que as vozes se fizeram altas demais para Roswitha se manter no controle de seu próprio ego¹. Por sorte, ou nem tanto, Mùchén estava lá quando aconteceu, quando o surto dominou sua mente e a fez delirar em psicose, e ele viu nela os pedaços partidos que espelhavam o que também guardava em si, a insânia que por vezes se misturava à persona que apresentava. Equivalente, entretanto, essencialmente diferente, pois o seu extravasava pelas rachaduras e explodia ao ambiente, enquanto o dela entrava pelas frestas e implodia internamente. Não por menos, cedeu à fraqueza que não conseguia matar dentro de si nem com seus piores venenos e suas mais afiadas lâminas, fruto de um coração grande demais para alguém que já não o desejava, que o repudiava e que, se pudesse, o descartaria. Não apenas naquela noite, como nas que seguiram o surto, foi ele quem cuidou dela - nem sempre próximo o bastante para ser percebido, mas sempre a observá-la, sem perceber que se fazia responsável por ela por vontade própria -, pois via nela a ilusão de remendar a si.
Acalmou-a quando era necessário, trouxe conforto como pôde e a escutou... Esse foi seu pecado... As coisas que ouviu eram causa e alvo do temor dela, porque agora ele sabia demais, sabia de coisas que não deveria saber, e isso a assustava, piorava as crises e as ideações, e aquele que se fizera responsável não mais podia abandonar o que se dispusera a reconstruir... Não podia? Em outros tempos, talvez não tivesse hesitado em se desfazer da carga que impusera sobre si ao estender a mão, no entanto, Mu em sua hipocrisia jogava a culpa de sua fraqueza em Owen, como se a influência do positivo afetasse seu negativo. Enquanto isso, mais e mais Rosie se fazia certa da desconfiança que tinha pelo que se denominava abertamente vilão, quem não a teria? E se ele abrisse a boca? Não o ia, mas ela não entedia isso... Para a Delacroix ele era uma bomba prestes a explodir, aguardando o toque to relógio indicar o momento certo, como qualquer suas defesas estivessem baixas. Por isso ela o atacava, sempre em ofensiva, para que não fosse pega de surpresa pelo sorrateiro... A realidade contrastava expectativa outra vez, pois ela se fazia ainda ingênua à natureza do vilão que Mùchén idealizara para si, cargo do vil e do horrendo, sim, mas nunca da moral fraca que regia os vermes, até porque seu código era outro, aperfeiçoado sob imagem de seu credo. Quem sabe um dia ele pudesse fazê-la enxergar seu mundo...
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₊⊹˚𝄞 "𝐘𝐎𝐔 𝐒𝐇𝐎𝐔𝐋𝐃 𝐒𝐄𝐄 𝐌𝐄 𝐈𝐍 𝐀 𝐂𝐑𝐎𝐖𝐍?" by Billie Eilish (MUSE : THE WORLD at @3xblair | Possibilidade de Chantagem & Oportunidades Irreais) –
"Bite my tongue, bide my time, wearing a warning sign, wait 'til the world is mine. Visions I vandalize, cold in my kingdom size, fell for these ocean eyes. You should see me in a crown, I'm gonna run this nothing town. Watch me make 'em bow, one by one by one..."
Poucos entendiam Mùchén. Isso era frase por si só, sem necessidade de explicação, pois ele não jogava pelas regras do jogo que a alta sociedade seguia diligentemente - enquanto lhes convinha, ou até encontrarem uma forma de distorcer as entrelinhas. A imagem da aristocracia era sagrada, isso era de conhecimento geral, até porque aparências eram tudo o que importava à alta sociedade; fazer parecer era, muitas vezes, mais importante até que possuir ou ser. Não era à toa que quando a oportunidade se apresentava de conseguir um podre de alguém daquele círculo - uma foto, um print, qualquer evidência sequer -, qualquer um a agarraria de bom grado para ganhar para si algo, mesmo que apenas um contato naquele meio. Com Blair não foi diferente, a fotografia era prova do abuso de poder, de punição tirana por status, ou pelo menos parecia aos olhos meramente observadores daquela em terceiro plano.
Com aquela imagem, ela havia assegurado para si uma válvula de escape, um método de chantagem caso fosse necessário usá-lo, a prova magna de um ato terrível cometido por alguém da elite - do nicho do nicho, além de tudo! Era a mais afortunada, de certo... Ou o seria se não se tratasse, especificamente, do "Grande Imperador", Wang... Contrário às máscaras que se faziam peças no tabuleiro social, ele era pária, absoluto, considerando-se supremo e vilão principal, uma mancha em sua imagem importava tanto a ele quanto as vidas insignificantes dos vermes que tanto o bajulavam, pois mesmo se causasse um desastre irreversível e cruel ainda seria absolvido de alguma forma, fosse por dinheiro, influência ou poder. Blair guardava a foto como se aquilo a protegesse de tudo, sem saber que gastava seu tempo crendo que ele faria de tudo pelo bem das aparências como os outros tantos dali. Por fortuna do destino ela tinha o mínimo de consciência própria e não havia usado aquilo em malícia, pois o último que o fizera agora devia estar jogado em alguma ruela sob o relento, arrependido, suplicando pelos centavos que restavam para sua refeição, esquecido e abandonado. Como seria revelada a verdade a ela? Em alívio de ter-se moderado ou em desespero vendo sua vida construída caindo aos pedaços diante de si, inevitável? Ou será que ela seria a primeira a fazê-lo sangrar? Só o destino poderia dizer...
existiam momentos na vida em que jojo sentia como se estivesse entorpecida, ausente de qualquer sentimento ou emoção suficientemente intensa para fazer sua pele esquentar ou seu corpo vibrar, fossem elas positivas ou negativas. era como se uma camada invisível e sólida varresse seu interior, espantando todas as sensações que a tornavam humana, enquanto outra camada densa se formava sobre sua pele, impedindo que novas emoções entrassem e fizessem morada. para muitos, a ausência de grandes sentimentos poderia soar como alívio ou até solução para qualquer problema, mas para jojo, se tratava apenas de uma sensação de vazio incômoda, beirando a apatia, onde deixava de reagir a qualquer mínimo estímulo colocado diante de si — e isso, de certa forma, era deprimente.
tinha se sentido assim dias atrás, mas a festa conseguiu puxá-la de volta para a superfície, e tudo que jojo queria era se sentir humana novamente. "o que nós pretendemos fazer!" o incluiu, pois gostava muito de mù e queria vê-lo animado também. "podemos beber e dançar muito, que tal?" sugeriu com animação, pegando o cardápio de bebidas como se ali estivesse a resposta para todos os problemas do mundo. "ou cometer alguma loucura... mas estou sem ideias para coisas loucas." disse em tom divertido, erguendo o olhar para encará-lo com certa expectativa.
‧͙*̩̩͙❆ Mùchén sorveu mais um gole demorado do líquido negro com singelos feixes carmesim de que bebia, um dos drinks temáticos daquela noite, cujos componentes não conseguia apontar com exatidão, mas no qual identificava ao menos o gosto de café - eis a tintura preta - e, talvez, um pouco de conhaque, em infusão com algo doce, que contrastava com o amargos e a acidez dos grãos. Não era sommelier, tampouco se fazia passar por tal, no máximo, sabia diferenciar uma garrafa de boa qualidade de outra duvidosa, no entanto, ao menos o básico dos sabores era de sua alçada reconhecer; fato era que não se importava tanto com o que bebia, porém, usava a análise detalhada dos temáticos como desculpa para ocupar sua mente, distraindo-a de sua própria posição, da escolha que deveria tomar uma vez mais, que retornava como assombração para atormentá-lo mesmo que outrora tivesse tomado sua decisão. Os fatos daquela noite realmente o fariam questionar sua antiga disposição?
‧͙*̩̩͙❆ O ânimo recuperado da garota que em seu último encontro se apresentara tão inconsolável era reconfortante... Reconfortante por quê? Se importava dessa forma com ela? Ouviu-a, mantendo o silêncio, como era de praxe, nunca ousando interromper quaisquer que desejassem se prolongar no diálogo, respeitando, claro, apenas os que o respeitavam em equivalência. "Sabe bem que não é de meu feitio me permitir aproveitar esse tipo de evento..." As orbes que repousavam no líquido de seu copo enquanto movia em círculos simples a taça para fazer a centrípeta criar um pequeno e belo redemoinho que fazia dançar o negro e o rubro, ainda que não se misturassem em um; seu olhar deixou o copo ao fim das palavras, buscando o dela. "Mas posso fazer exceção por uma noite." Decretou sua decisão, para não permitir que outro alguém perdesse o brilho como ele havia perdido por detrás do disfarce que a maquiagem de sua fantasia proporcionava. "Quanto a loucuras... Não sou contra um pouco de caos para tornar tudo mais divertido... Quais seriam os limites que não está disposta a cruzar?"
tw: ameaça, recaída, surto psicótico, alucinação, e mais.
a femínea arquejou o dorso da mainça fronte aos carnais, mosqueando o riso que sombreava-lhe. deixou que o crânio tombasse em adjacência a corpórea, os mirantes turvos a medirem-no em um mirar sardônico. " e o seu é subestimar-me. se há uma errática que nos difere é que não estou atado a uma coleira e fadado à penumbra de alguém… lembro-me disso em alguma história… peter pan tentando pregar a própria sombra em si mesmo, é o que você e sua fraterna fazem? " não poderia pensar mais aquém aquilo. força era, claro, necessária para tomar algo, para vencer, mas apenas ela não manteria nada. fraquezas foram feitas para serem exploradas, para além, quanto mais permeava por dentre as rachaduras, mais temia defrontar-se com apenas sombras, mas sim um espelho. " e você seria essa figura absoluta? é um tanto árduo distinguir se estamos nos referindo a você ou a ideia de um vilão que cria um mundo ideal para um ser indefeso. " o veneno era como fel, veludoso e adocicado, o gargalhar denota a histeria, possui a sonância dócil de um delírio onírico e ela sequer compreende o porque o faz. " oh, perdoe-me, vossa majestade, não recordava-me estar diante um à uma deidade, seria uma pena se eu o fizesse sangrar para provar o contrário, não? " a ameaça vem velada, envolta em seda, tomada em laçarotes que mosqueiam a intenção, quiçá os orbes vidrados que continham mais ideias de como tê-lo aos geolhos e prantos, provando-o o quão humano ele é. a crueldade de roswitha nunca seria uma corrosão crível, porque ela exista por um propósito, e por isso aprendera a agir por detrás das cortinas quando o show encerra-se ou, entre um ato e outro. como a morte de ducan, cujo os espectadores não veem, apenas subentede-se. " conheço o verídico mal e ele não é como você, não… não faria o que fez por mim. porque eu convivi com o 'absoluto maldito' por vinte e dois anos e nem mesmo ouvi um ' você está indo bem ' ou ' orgulho-me de você '. "
" penso que há muito romantizaram o vilão, o verídico vilão, aquele que é mau porque nasceu assim e não um que fora moldado. é demasiado fácil perdoar estes, não? " ela não poderia discordar tão plenamente quanto ao momento, o herói poderia ser o mártir exímio, mas jamais traria o mundo abaixo por uma causa a qual acredita, jamais derramaria sanguíneo inocente, na típica escolha entre um e um milhão, o herói sempre escolher-se-ia como cordeiro sacrificial. a femínea fora esculpida por vilões e isso a tornara cativa, seus captores não possuíam afeto por ela, mas ela, céus, padeceria por eles se fosse pedido, se isso significasse agradá-los, porque perdera-se, porque era uma peça, ou melhor, um artifício a ser usado quando necessário, não era o que diamantes deveriam fazer? brilhar? roswitha era a distração. e a comprovação veio na solvência que zarpara dos carnais do viril, ainda que não ansiasse por entreter, parecia ser o que fazia, e a ansiedade curiosa lhe diligenciava a inquirir com mirantes aquosos: " que detalhe ? " o palmo valgo envolvera a faceta, o polegar adulando a derme em uma carícia quase onírica. " você ainda não compreendeu, não é? se alforriar-me, se as amarras caírem, não serei solta, serei um túmulo. mas enquanto sou o pássaro criado em uma gaiola aurífica, sigo as regras, danço conforme a sonância, performo minhas ações, atraio atenção, necessito dela, porque isso… isso faz com que eles gostem de mim. " mentira. não para si, mas para ambos. mentira a quimera pueril de genitores que poderiam amá-la por mais do que era ou fazia. as lacrimais tornam-se abundantes, cálidas, ígneas, e a faceta, onde a maquiagem arruina-se, metamorfoseia-se em uma rosácea.
" demônio menor " balbuciou entre soluços, auspiciando que ele pudesse silenciar as vozes, que ele pudesse fixá-la ali, ao agora, ao presente, que a irrealidade fosse apenas um epítome e não algo por ela conhecido. rosie não recordava-se de como era respirar, afobando-se em meio a sensação de asfixia, divergente do que seu imaginário conduzira-a a pensar, não era como afogar-se. era acre. doloso. e haviam lacrimais. muitas. " você disse que sou humana, " arfou, um dos palmos na garganta, demonstrando o quão árduo era respirar; " e aqui lhe provo que também és. preocupado com uma tola que prefere jazer em seus braços e assombrá-lo por uma eternidade à feri-lo como meus captores tendem a fazer ". era doloso e metálico o palato de sentir a absorção das auras, porque a energia dele a consumia, a ruína dele mesclava-se a dela e não apenas a corrompia como conduzia-a a ruína. tudo ao derredor tende a evidenciar-se em distorção, tão irreal e longínquo, no entanto, um gemido baixo zarpa de seus carnais quando os dígitos enlaçam-se e puxam-na, acompanhá-lo é impossível e os tropeços somam-se a ausência de respiração, no entanto, a sensação de que tudo isso era apenas uma ilusão não tendia por abandonar-lhe a psique. o vozerio a sussurrar-lhe, vá, faça. sequer contempla os mirantes que volvem-se aos dois, mas ela simplesmente não consegue acompanhá-lo, por vezes indo ao chão e erguendo-se pela força d'outrem, no entanto, os estímulos pararam, havia sepulcro, o máximo que o crepúsculo poderia lhe proporcionar. fora ao solo, os geolhos e os palmos, de cócoras, os distais lutando para desatar a amarração do corset do vestido. " você. chamou. eu. humana. agora. somos. pessoas. ? " inquiriu de forma lânguida, sôfrega e tomada por arfares.
venetia rodopiou, deitando-se sobre o verdejante abaixo de si, umedecido pelo orvalho. " há quando diz-me que és vil e vilão, devo temer que alguém como você possua informativos sobre mim… estes que sequer recordo-me. " os orbes turvos miravam-no por dentre as lacrimais, arquejando um dos palmos em um convite sepulcral, pois, se isto era irreal, uma alucinação, ela poderia deitar-se ao lado de seu demônio particular. ao menos, até que o choro a induzisse ao sono.
tw: insanidade; delírios; menção a sangue e a criaturas & outros.
‧͙*̩̩͙❆ Muitos outros já haviam sofrido em suas mãos por desfiarem a ordem velada que permeava as interações com o Grande Imperador. As ondas calmas, apesar de poderosas, jaziam inafetadas por ofensas e insolências, porém, maremoto resultava da mera menção à família, mesmo que por comentário inocente, afinal, a chave que destrancava a Caixa de Pandora sempre seria aquela forjada pela dor de sua inocência arrancada, dilacerada, cujo valor se fazia equivalente à fraterna. "Sugiro que reprima sua ânsia pela retórica, pois anteriormente já havia decretado os limites de paciência e conveniência." Alertou com simplicidade, o imponente disfarçado nas entrelinhas como um aviso de erupção. Abandonou o assunto dessa forma, não cedendo à hipotética metáfora que brotara do imaginário fértil da Delacroix. "Quem mais, senão o ideal, criado e moldado para tal função? Se não eu para me encarregar do honorífico, não há outro que igualmente detenha a motivação e a determinação para tornar real o mundo envisionado." Os delírios falavam por si só como factuais, como a herança a ele guardada após a tempestade que a ele deu vida, o próprio monstro nascido em agonia e tortura em meio às gargalhadas do demônio, como a Criatura e Frankenstein. "Se acredita ser capaz de tirar de mim o visco rubro, por que não tenta? Não seria a primeira, muito menos a última..." Desdenhou, entretido com a ideia de vê-la encontrar o obstáculo ilusório que se apresentava em seu desinteresse perante à sociedade. "O mal com que conviveu é aquém daquele que me moldou em escuridão, por isso não vê em mim o que enxerga nele, pois a criação não equivale ao criador, ela o supera de forma a progredir a evolução." Descartou a ideia por ela proposta de que não se comparava, pois realmente não havia comparação, ele era o aperfeiçoado, eles, a base rudimentar.
‧͙*̩̩͙❆ "O vilão hobbesiano de que fala peca por existir em realidade, pelo menos de forma absoluta como o criado e moldado, pois aqueles verdadeiramente maus, que nascem e vivem em trevas, deveriam ser alvo de escárnio por escolherem o caminho da destruição para si sem efeito ou causa." Desdenhou em sua reflexão, incapaz de conceber que alguém ousaria cruzar os limites sem conhecê-los, sem tê-los sentido em pele, sem o toque da insânia. "Por que alguém optaria pelo maligno se isso não foi a ele apresentado de antemão? Como um vilão pode ser realmente vil sem ter o grotesco infligido sobre sua carne? Eu sinto pena, não medo, de alguém com tais convicções, pois seu limite é claro por ser obra de ingenuidade, ou transtorno, ou um pouco de cada." A cabeça balançava em negativa à ideia. "Não há mérito em um título pelo qual não se sangra, afinal, qual objetivo desejaria alcançar alguém que atiça a chama sem nunca ter congelado ao relento?" O riso escapou quase divertido... Quase... Pois logo o frio tomou dele sua emoção uma vez mais. "O nefasto ao parto é apenas um verme, como todos os outros que vemos por esses corredores, mesquinho e oportunista, desejando para si tudo sem motivo e sem razão." Repudiava aquela visão, pois um ser de caos pelo caos era tal qual um palhaço entretendo um circo, nada mais que um inseto a ser pisoteado por não ter seus credos forjados em sua visão de mundo. "Melhor serviria morto, esmagado diante da realidade que o devorará inevitavelmente que antagonizando em palco principal a norma social." Não poupava palavras para rejeitar o vilão por ser, pois para ele o papel carregava um sentido muito maior do que apenas a maldade nele implícita.
‧͙*̩̩͙❆ "Como eu disse, minha vontade basta, ela é causa justa para qualquer consequência... Se fosse apontar o que exatamente a despertou, no entanto, seria obrigado a admitir que não sei... Por isso desejo descobrir." Mentira que tecia em tom doce e sincero, prole do oculto, restrito apenas aos seus pensamentos, da semelhança que nela enxergava como espelho de sua sina, ainda que a julgasse fraca por ser submissa à roda do destino. No fim das contas, ele também era fraco, não? Se não fosse fraco não estaria quebrado, teria se remontado, coletado seus pedaços e os remendado como alguém melhor faria. Se fosse forte não seria obrigado às trevas, não seria medido à imagem crua daquele indivíduo, do ser que o criara como monstro, do antigo patriarca, que a ele deixara como herança a maldição que carregava em sangue... Um dia já havia sido submisso, não se lembrava? Talvez ela também pudesse experimentar da autonomia tirana em prol de expurgar o mundo do que lhe foi causado. "Cruel como a adoração parece ser sua única razão... Basta. Não gasto minhas cordas vocais com aqueles que se fazem surdos, cegos e mudos, criando suas próprias prisões, enquanto a janela ao lado está aberta para o horizonte... Se se libertar será túmulo? Qual o sentido de viver uma vida cuja alternativa é a morte?" O riso sem graça acompanhou o zombar ingrato, assim como o olhar desapontado. "Se ainda está viva, viva... Ninguém o fará por você e, por mais que ditem os credos, dou a ti a certeza agora: não haverá outra oportunidade."
‧͙*̩̩͙❆ Mùchén nunca admitiria sua própria hipocrisia em voz alta, culpado era seu coração por persuadi-lo antes que sua mente proferisse um "basta", deplorável era, pois se fazia vulnerável a si próprio e, assim, a ela. Digno do sepulcro por suas próprias medidas, devorado pelos vermes que ousassem vestir a máscara que lhe afetava, ainda que nenhum tivesse descoberto sua fraqueza. "Preocupado? Não pode um vilão ter cuidado com seus brinquedos? Ainda é alvo de meu interesse e razão de meu entretenimento. Ainda não permiti que encontrasse o sepulcro que tanto julga destino único de sua libertação... Ainda não a corrompi, não a tentei a ceder, a soltar as amarras que não te aprisionam, as quais você mesma segura com medo de se desprender... Será minha, sob minha providência, até que se faça dispensável, pois esse é o absoluto." O monólogo cruel não tinha significado algum perante a realidade, no entanto, servia de fachada para sua falha letal. Por tanto, como se para provar seu ponto, o brusco e o rude se uniram ao que a arrastou, isento de culpa ou arrependimento por sua agressividade; sigiloso novamente se fazia o coração. Agora, em exterior, não devia a ela explicações, afinal, o que ela questionava era simples, óbvio, pelo menos na mente perturbada pela amálgama do vil e do insano que reivindicara não apenas como seu como também como sua lei, ainda assim, sentiu-se inspirado a repassar a ela o determinante. "Nessa sociedade há vermes, há máscaras, há humanos e há heróis e vilões; 'pessoa' não é sinônimo de 'humano' assim como 'máscara' não implica o 'verme', qualquer um pode ser pessoa assim como qualquer ser pode estar atrás da máscara, porém, nem todos ainda o são... Saber categorizá-los é o princípio que rege o código a que devoto minha vilania." Em seu mundo ideal, aquele que detinha título soberano se tornava juiz, júri e executor dos penitentes que ousavam tentar se locomover entre posições através de meios irregulares.
‧͙*̩̩͙❆ Observava de seu ponto elevado a figura da garota que a ele decidira assombrar, que por ele havia sido adotada como fonte de seu fascínio e que, por tal, o havia amaldiçoado em reflexo próprio, e de onde estava, sentia-se como um verdadeiro vilão a observar a derrocada de mais um tolo que ousou lhe cruzar o caminho - por que, então, sentia que havia, em meio àquilo, perdido? "Sim, sou vil e vilão, e exatamente por isso uma mera humana não se faz digna de tanto esforço. O que contou ou deixou de contar não importa, a insignificância é a bênção às recordações de outrora cedida..." Decretou. Suas orbes escuras trilharam caminho à palma ofertada, porém, não houve menção alguma, em seu ser, de aceitá-la. "Você diz ser sepulcro o fim da adoração, que não sabe como viver por si sem a graça e a atenção, então, garanto a ti uma concessão como vilão principal: viva por mim... Mostrarei a ti quão grandiosa e bela é a visão que tornarei real. Farei bom uso de uma ave obediente." Ousou oferecer sua mão, contrário ao sepulcro que a dela representava, em misericórdia, uma contrato que roubava dela sua alternativa autodestrutiva, afinal, se sujeita a ele então não seria sua a vida para destruir, sua palma apenas distante o bastante da dela para fazê-la se esforçar levemente caso a aceitasse.
Por um breve segundo, Helena só o encarou. Não com surpresa, tampouco com a curiosidade de momentos atrás, mas, sim, com aquela estranha familiaridade que se instala quando alguém diz exatamente aquilo que você não queria ouvir. Incapaz de sustentar o olhar diante do que lhe fora dito, ela virou parcialmente, mexendo-se inquieta no assento ao lançar por sobre o ombro um olhar ao quadro atrás de si. Sentia-se extremamente incomodada pelas palavras de Mùchén sobre cores pesadas e corações sangrando. Como um encontro casual no jardim com alguém que só trocada cumprimentos ensaiados no passado, tinha acabado numa conversa tão profunda sobre sentimentos e arte? Não era o que ela tinha planejado, nem o que costumava permitir, mas, mesmo assim, não recuou. Não dessa vez. E então, sem perceber, novamente seus olhos castanhos estudavam Mùchén e ela aceitava a mão que ele lhe oferecia.
— Eu… não prometo nada — disse ela após pigarrear de leve, soltando a mão alheia enquanto se colocava de pé. — Nem sobre o quadro, nem sobre a quantidade de copos. — O olhar deslizou rápido até a tela, como se aquilo ainda a puxasse por um fio invisível pela última vez, antes de enfim seguir pelo caminho do jardim em direção ao restaurante. As palavras dele sobre terminar o quadro sem pressa ainda ecoavam em sua mente. Ele realmente acreditava naquilo. E, por algum motivo irritante, Helena se indagava se deveria acreditar também. Mas empurrou esse pensamento para depois. — Você provavelmente não deve se lembrar de mim. Eu… costumava ser amiga da sua irmã — começou, de modo a impedir que o silêncio se instaurasse. — Bom, na verdade, minha irmã era amiga dela. Eu só era parte do pacote. — Helena logo corrigiu, soltando um riso baixo enquanto balançava a cabeça, percebendo que o costumava ser um drama no passado, parecia tão bobo agora. — De qualquer forma… é curioso. Nunca imaginei a gente discutindo arte, cores e tudo o que elas escondem por trás. Você passa uma imagem bem diferente, sabia?
‧͙*̩̩͙❆ O Wang não se pronunciou sobre as palavras que ela proferiu, em relutância ao voto de que terminaria o quadro, afinal, a escolha era dela, sempre seria, e era ela quem deveria se agarrar à oportunidade de um recomeço a partir do fim. No final das contas, cabia a ela escolher afundar no desespero do vazio ou nadar em busca da superfície e da esperança; ele mesmo tinha feito essa escolha há muito tempo e falhado em encontrar algo que o motivasse a bater seus braços e pernas... Não se arrependia de ter encontrado nas profundezas um lar, pois de lá ainda enxergava sua luz, entretanto, não imaginava que outro alguém fosse capaz de viver em meio às trevas inescapáveis sem se perder no caminho. Recolheu a mão oferecida quando ela a abandonou, com um assentir leve de sua cabeça, enfim, ao que ela deu voz ao subentendido e acrescentou a quantia de copos como conjunto. "Vou ficar te devendo confirmação de que consigo te acompanhar em todos." Declarou, sincronizando sua rota à dela assim como a velocidade em que seguia pelo trajeto ao restaurante, sem pressa, usando do silêncio que tomou o ambiente por algum tempo para ponderar sobre sua disposição, sobre o motivo por que não sentia a necessidade de afastá-la naquele momento. Incapaz de apontar uma resposta convincente a ele mesmo... Mùchén era complexo demais, até mesmo para ele próprio, tanto que imaginava que eventualmente seria engolido por seus paradoxos, pelo coração gentil que escondia atrás do Grande Imperador que se tornara sua máscara de escolha, mas que se fundia em amálgama ora discreta ora completa com a persona em evidência. Era difícil dizer quem era ele e quem não o era...
‧͙*̩̩͙❆ Quando ela quebrou o silêncio, as orbes escuras voltaram a fitá-la, deixando o horizonte que outrora usava como ponto de reflexão, para que o olhar repousasse sobre as belas feições da garota que o acompanhava. O passado era obscuro, mas, agora que ela tecia a imagem, conseguia ver através dos borrões que escondiam os rostos de duas figuras que um dia se aproximaram da mais nova, que à época pouco dera atenção pela diferença de idades e porque, naquele tempo, não era sua função se aproximar. Repudiava os dias em que sua personalidade e suas ações eram regidos por outros, pelas vontades dos progenitores, no entanto, tinha que viver com o passado que permitira ser construído para si. Na mente moldada de seu antigo eu, se sua irmã já as havia cativado, não precisava se esforçar para fazê-lo, seus progenitores não demandavam dele que o fizesse, afinal, para sua mãe - que era quem mais se importava com os laços que os filhos criavam ou deixavam de criar -, bastava que não arruinasse o que Meiling tão facilmente construía; ele era a mancha que não deveria ousar tingir o tecido tramado. "Não creio que minha irmã tenha pensado dessa forma a seu respeito em algum momento..." Era sua sincera opinião, porque não a via como alguém que fazia tal distinção, porém, mesmo que fizessem parecer ao mundo que eram próximo, não o eram, ainda que ambos desejassem, no fundo, ser mais como irmãos de verdade, pois desde cedo entendera - ou fizeram que fosse entendido - que sua maldição não deveria cruzar a linha das sombras em direção à luz que dela emanava, e ele se certificava disso, mantendo distância segura daquela que mais amava no mundo, até mais do que a si próprio, para que não fosse motivo de sua queda. Ela milagre, ele maldição...
‧͙*̩̩͙❆ "Por que fala de sua amizade no pretérito?" Questionou exclusivamente ele, não a ‧͙irmã que ela citara, curioso sobre o que poderia ter acontecido para resultar em distanciamento, até porque não tinha quaisquer laços com sua a outra parte - muito menos sabia do destino que a acometera. Não teve que ponderar muito sobre o próximo assunto abordado, afinal, era natural que ela pensasse daquela forma, ele nunca se abria ou mostrava o que não tivesse diligentemente se programado a apresentar. "Em outro momento eu não teria sequer cogitado discutir arte com outro alguém, admito... Então, não a culpo por pensar assim..." Comentou, conhecendo a si próprio melhor do que ninguém, reconhecendo a distância a que se mantinha dos outros por escolha própria, a forma por que optara em sua busca por autopreservação, não apenas do que havia restado de sua humanidade, como também da destruição que, em sua mente, era derivada de sua mera presença - que feria a todos que estivessem ao seu redor. "Que tipo de imagem eu passo?"
tw: recaída, surto psicótico, menção à medicação, ameaça, pensamentos su*cidas.
os mirantes de obsidiana encontravam-se premidos naquele sombreado de riso que persistia em permanecer sob os carnais alheios, fazendo-a odiá-lo ainda mais, ao menos, era o que dizia para si mesma. no entanto, o que vislumbrava em seus orbes não era uma persona vilanesca, um auspício por actos vis, mas um infante que vivera em solitude pelo escoer de décadas, que fora negligenciado por àqueles que deveriam protegê-lo e amá-lo, mas ela o compreendia de uma forma dolorosa, porque ela perdia-se como ele, porque ela sabia o preço de viver dentro de um arquétipo, porque ela também ruía quando ninguém estava a mirar. era como diziam, aos primogênitos dadivava-se os deveres e aos próximos o afeto. aspirou lentamente, o eflúvio dele mesclando-se com a situação, fazendo-a recordar-se de um mar em vaga, o recolher das ondas apenas para sentir o quebrantar destas contra si quando ateve-se as sentenças alheias. “ é o que pensa de mim? ” um riso nasalado zarpou de sua narina arrebitada. “ eu jogo conforme as cartas mandam, estamos em um espécime de 'show and tell', e se não consegue ver as cordas em seu bordejo, devo acrescentar que há algo trágico em você, uma ingenuidade que quase faz-me sentir pena, pois sei quem sou e a que lugar pertenço que papel desempenho e o caminho que devo trilhar. ” a femínea podia inalar o visco ferruginoso e sanguíneo da ferida exposta a qual ela fincava o distal, pois, seu sadismo a fazia ser assim, passivo-agressiva. “ mas quem penumbra faz-se e sombras habitas, o que trilhas? apenas persegue quem brilha? por isso mosqueia-se por detrás da fraterna, devo supor? infelizmente, não nasci para estar atrás de ninguém. ” tudo com múchén era desta forma, como se fossem maré e lunar, bastava o mover de um para que o outro movesse-se em perfeita sincronia, mesmo que para ferirem-se.
o palmo arquejou-se o indicador apontara para o peitoril, os carnais espaçaram-se, mas ao perceber a jogada retesou, deixou com que a ira fosse absolvida por seu ser, porque fora estúpida, porque recorrera à ele quando deveria ter apenas feito o que os vocais em sua psique a incitavam. “ não é porque viu-me em uma crise, que conhece todas as facetas que aqui habitam. ” sorriu, este riso amplo, adocicado e veludoso, tal-qualmente o vocal. roswitha não era como ele, tampouco poderia. fora concebida para brilhar, e era inaceitável máculas em seu ser etéreo e solar, quiçá divino, e, ainda sim, ali estava ela, em meio ao sacrilégio, deixando os piores laivos de si transcenderem as barreiras apenas acarear o profano e evidenciar que poderia ser tão penumbra quanto, e em uma jogatina de escuridão, ela venceria, porque… como poderia mensurar isso em meras sentenças? crescera em ambos os tabuleiros?! “ e pensas que wang é? ” inquiriu com um quê sardônico, o crânio declinando-se em adjacência enquanto os carnais torciam-se em uma elevação unilateral. “ eles podem temê-lo, múchén, mas eu não poderia importar-me menos, sei que sangra como eu, para além, tem demônios como eu, e deve ter segredos… quando esta jogatina tornar-se justa, irei lhe avisar como procederemos. ”
“ porque… porque… porque… ” murmurou em meio um riso unilateral, “ tudo necessita ter um por que, não? porque você é um babaca que ama brincar de ser vilão. porque isso lhe garante uma vantagem sobre mim e deixa-me clausurada em teus palmos. porque não o conheço e não confio em você! ”, deixou com que as sentenças zarpassem em uma verídica alcalina, “ pensa que falta-me intelecto, quando estamos em posições igualitárias, se eu soubesse algo de um oponente, deixaria para usar tal cartada no momento ideal e não apenas por usar, você não é sádico, embora pense que sim por crer ser algo a ser temido ”, o facto de tê-la tão responsiva era um indicativo que aulia a recaída, venetia aprendera a ser submissa e sorrir, não a contra-atacar, isto era a mania, ou, na pior das hipóteses, um surto psicótico por estar de volta, o que a gatilhava? bem, o local em que estavam, a ausência de owen, a presença de múchén, eram estímulos em demasia se contasse com os ruídos, as luminescências em diferentes escalas de intensidade.
a colisão fora como se plutão tentasse esmagar júpiter, absurdamente risível para o maior, e dolorosamente frustante para o planetoide. arquejou o queixo, mirando em uma seriedade convicta, quase como se a lucidez visitasse sua psique por um ínterem de segundo. “ sempre devemos nos preocupar com vilões, eles são piores. discordo veementemente de você, pois heróis permitem que aqueles com quem preocupam-se morra se isso significar não derramar uma única gota de sanguíneo, enquanto, os vilões não estão aí para as regras, tecem as suas próprias. ” concedera ao viril sua atenção ou parte dela, era demasiado árduo centrar-se n'algo quando os vocais sussurravam em seus tímpanos, e os mirantes vislumbravam a irrealidade. “ minhas circunstâncias? ” gargalho com a isenção de humor. “ meu patriarca amaria ouvir este termo. ” os mirantes perscrutaram os dele, enquando os dígitos enrolavam-se nas melenas da nuca com mais força, necessidade e precisão, puxando com graça ao sorrir como se detivesse tudo sobre controle. “ por que não abandonou-me, então? ”
designou-se a perpassá-lo, mas o úmero à fronte a fizera estagnar. ao volver a faceta para ele, a corpórea seguiu o gesto, coleando-se ao espelho ao tê-lo tão demasiadamente próximo, o palmo vago passando a coçar e arranhar a derme do pescoço como se o incômodo fosse um verme a rastejar por baixo da cútis, mas as luvas impediam-na de ferir-se daquele jeito. “ eu não sou algo para entreter-se quando o mundo lhe soa enjoativo. estou exausta de pessoas que como você chegam à mim apenas com 'eu', 'eu', 'eu', ” o riso quebrantouçou-se em um soluço, “ quando deixará de ser sobre vocês? quando poderei ir para longe disso tudo? quando terei a alforria de recuperar minhas asas e voar para longe? ” a cada passo dado, mais árdua tornava-se sua respiração, uma lacrimal solitária rolou pela faceta ao sentir o toque, não percebera o que fazia até vislumbrar os fios presos ali, fazendo-a arfar. “ não, não, não. ” murmurou em solitude, perdida, pois em sua psique não havia mrgem para surto, sua agenda milimetricamente calculada não poderia ser desfeita por mais dias de turbidez. “ você pode crer ser o vilão, wang, mas não é o da minha história, jamais lhe darei tanto poder. ” sussurrou quando a tez encontrou o peitoril e as lacrimais passaram a escorrer em gotículas fartas e cálidas, trazendo a cútis caramelo um tom de rosácea, o palmo com o qual arranhava-se - ou tentava - cerrou-se e ela passou a deferir socos contra ele, tão fracos quando as paredes erguidas com a medicação. “ múchén… eu não… eu não estou ficando louca, acredite em mim.. eu sei que pensa que sou um ser caricato, mas não há insanidade que habita em mim, temos… temos que sair daqui, o chão… ele não está como deveria… e há esses pontos brilhantes atrás de você… por favor, se não vier comigo, deixe-me ir… eu preciso… ” do que ela precisava? sair? silenciar o vozerio? silenciar à si mesma para sempre?
‧͙*̩̩͙❆ As expressões alterosas permaneciam em seu semblante enquanto a via difamar sua persona diante de si, inemotivo, frio, sem quaisquer indícios de que isso o afetasse, até porque não afetava. Opinião alheia nunca importara, principalmente quando os motivos pelos quais teciam críticas eram tão facilmente rebatidos pelo credo implacável o qual seguia como dogma de sua auto consagração, de sua penitência em forma de coroa. "Seu erro é imaginar que somos iguais enquanto contempla de forma tão ingênua o título cujo conceito peca em reconhecer..." Suas visões do vilão não coincidiam no intrínseco, destoavam uma da outra como se água encontrasse o óleo, para ele. "-Exploram as fraquezas de seus inimigos apenas aqueles cuja força não é suficiente para sobrepujar e subjugar os tolos que entram em seu caminho. Esses não são dignos do título de vilão, meramente antagonistas em papel secundário à figura absoluta." Apresentou sua definição, insana, deturpada, fruto de uma mente perturbada como a que confrontava em batalha naquele momento. "Não somos equivalentes, pois eu destruo com minha própria lâmina, não com uma emprestada. Não te culpo por pensar assim, no entanto... Afinal, você é apenas humana." Zombou de sua disposição, pois não havia espaço no palco principal para dois vis igualitários, e por sua ânsia pelo agrado ela nunca seria tão cruel quanto ele em suas ações. "Um dia entenderá que o babaca que você acredita que brinca de ser vilão na verdade é o mais próximo do absoluto maldito que irá conhecer..."
‧͙*̩̩͙❆ Mùchén escutou ao que ela tecia a imagem de conhecedora, de sábia perante a diferença entre o heroísmo e o vilanesco, o sorriso surgiu em resposta às palavras. "Vilões não jogam pelas regras exatamente porque não são estultos a ponto de favorecer qualquer outro quando não convém às suas ambições e aos seus desejos..." Disse, desdenhando da ideia de honra e dignidade que ela parecia querer aplicar ao símbolo da revolta que se caracterizava no vilão, caçoando da tentativa de se medir o vil pela régua do idealizado. "De certa forma, o herói é muito mais imprevisível, pois ceder sua confiança a ele significa se tornar objeto de seu martírio, um peão que ele prontamente descartaria pelo bem maior, enquanto o cativo do vilão é o lugar mais seguro onde se pode encontrar uma pessoa, pois dele já seria esperado o abandono e, ainda assim, ele seria o único a deixar o mundo queimar em prol de seu próprio egoísmo." Rebateu com simplicidade, induzindo-a a pensar melhor sobre as alianças que desejava criar. Observou o teatral dramático que ela demonstrou ao escutar o termo que utilizara e a indagação quanto ao detalhe não comentado de não ter feito dela produto descartável digno de abandono, mas o sorriso voltou inocente e doce em seu rosto, quase nauseante. Por que não a havia abandonado? Não era óbvio? "Por detalhe, é claro..." Suas feições logo retornaram ao sombrio quando a escutou se referir a ele como um entre vários, despertando nele o alvoroço interno de ser comparado a figuras indignas, entretanto, aguardou que finalizasse seu clamor por libertação antes de responder. "Não entendeu até agora meu ponto? Somente quando parar de se fazer alvo do capricho alheio e se mostrar ser de consciência própria que se verá livre das amarras que a prendem..."
‧͙*̩̩͙❆ Manteve o silêncio enquanto aguardava que ela absorvesse sua própria situação, que percebesse o que a mente causava à carne, calado, observando-a se debater, indefesa, contra o inevitável factual. Soltou a mão quando ela contemplou seu autoflagelo, suplicando à sanidade que retornasse, não podia oferecer isso a ela, por mais onipotente que se fizesse, a batalha interna era sagrada, o único solo consagrado onde não podia pisar o corrupto demônio que se apresentava em sua maldição. "Criaturinha tola..." Disse, isento de hostilidade. Essa era sua resposta à recusa dela de se permitir criar, em sua história de trevas, um culpado profano - a origem de todo o mal -, de fazê-lo, como tantos outros faziam, vilão, para que pudessem a ele atribuir suas inseguranças, incertezas e a causa de suas ações mais obscuras. Por que ela não aceitava seu presente? Por que lutava contra a misericórdia do fôlego e do suspiro que concedia ocultos em sua execração? Era tola, em sua mente, por fazer dele humano, quando poderia muito bem dele fazer sacrifício em prol de si própria. Os golpes contra seu tórax não machucavam, não buscavam ferir, mais um ato de tolice quando o vilão permitia tão prontamente que fizesse dele seu alvo, quando havia a ela comandado que partilhasse de sua dor consigo... Ainda assim ela se restringia, fosse consequência dos medicamentos ou de sua ausência, zombando de sua boa vontade, e isso o enfurecia, não por ódio, mas por frustração, por não ser suficientemente vil para o cargo a ele determinado desde os primórdios de sua criação.
‧͙*̩̩͙❆ O limite de sua contribuição já cedia ao cenário do delirante, do psicótico e do oscilante, da bela insanidade que outrora contemplara em si próprio sob o luar intenso de outras noites, mas que, no olhar de outrem, causava revolta, pois o seu era origem da desordem, da destruição e da transgressão, enquanto o dela era fim de tudo isso. O que dele partia, a ela alcançava, como se fossem duas faces de uma mesma moeda, separados pela exteriorização e interiorização, pelos espectros distintos que se completavam numa dança macabra, em que ele expelia seu caos e ela absorvia o dela. Não respondeu os indícios da recaída, não negou suas afirmações, mas também não as reafirmou. "Agora deseja que eu vá contigo..." Reconstruiu sua frase à própria interpretação, mas não aguardava resposta para suas palavras forjadas. Seus dígitos voltaram a agarrar com firmeza a mão enluvada, as orbes hesitando em se distanciar das delas apenas por um segundo antes de trilharem caminho pelo corredor pelo qual retomava suas passadas, apressadas, ignorando reclamações que decorressem do bruto, em busca da saída, do ar fresco da do relento do lado de fora do prédio antigo, não a liberando de suas garras até que o som da música interna somado às vozes que sussurravam pelo corredor escuro dessem vez à quietude da noite. "O chão é terra e a iluminação é natureza, não há mais perigo para pessoas como nós sob o luar..." Proclamou, parte de suas palavras relatando o óbvio, mas que para uma mente ferida podia ser a diferença entre a realidade e a ilusão.
‧͙*̩̩͙❆ O Wang manteve as costas voltadas a ela por mais um instante, certificando-se de sua presença apenas pelo sensorial, atendo-se aos detalhes da movimentação, das correntes de ar, do som das passadas à grama verde e dos indícios de respiração, então, voltou a se encará-la, seu olhar observando seus trejeitos cautelosamente, como se calculasse para si mesmo algum valor, não em julgamento, mas em curiosidade. "Descanse e se recupere... Não há mais sentido em continuarmos nossas discussões." Decretou, não deixando transparecer o cuidado que mantinha sigiloso nas entrelinhas, pronto para se encaminhar a outro ambiente e deixá-la sozinha quando algo dentro dele o fez hesitar em sequer dar o segundo passo para longe dali, aquele coração mole que ainda batia em seu peito mesmo que já o houvesse alertado de seu despeje incontáveis vezes.