Era nosso ritual, todo ano desde que nos conhecemos, eu, Regina, Marcos, Isabela e Juan marcávamos de acampar em uma mesma fazenda alugada por um final de semana. Como sempre, no sábado a noite, acendíamos uma fogueira e ficávamos sentados ao redor dela aproveitando do calor.
Aquela noite não estava sendo diferente. As chamas crepitavam em meio ao barulho de nossas risadas e das histórias que contávamos alegremente, relembrando as coisas que tinham acontecido conosco e fazendo piadas sobre a vida dos outros. Mais uma noite comum no nosso grupo. Ou seria, até que um grito pavoroso quebrou toda a rotina.
- O que foi isso? - Perguntou Isabela que havia se levantado assustada com o som - Um grito?
- Parecia um grito - Respondi. Meu coração estava acelerado, mas eu fiquei sentado tentado parecer calmo para não piorar a situação.
- Veio do milharal, eu acho. - Juan falou e apontou para a área que ficava a mais ou menos 10 metros de distância de onde estávamos. Era uma plantação de milho enorme que pertencia ao dono da fazenda, entramos uma vez lá no ano anterior, mas foi durante o dia e mesmo assim ficamos perdidos.
- Você acha que a gente vai lá ver? - Perguntou Marcos olhando para o amigo.
- Nem morta, morro de medo. - Regina respondeu, recebendo um aceno de acordo vindo de Isabela.
- Thiago, o que acha? - Juan perguntou para mim, olhando firme nos meus olhos. Não queria que eles pensassem que eu fosse um medroso, então disse que deveríamos dar uma olhada.
- Ah eu não vou de jeito nenhum. Já nos perdemos lá uma vez, de noite então eu vou acabar sentando no chão para chorar. - Bebela começou a caminhar em direção à cabana dela e foi seguida por Regina
- De jeito nenhum que vamos deixar vocês aqui sozinhas. A gente não sabe o que ta por aí. - Marcos gritou para elas, interrompendo-as na mesma hora. As duas deram meia volta e juntaram-se a nós.
Cada um de nós pegou uma lanterna e um rolo de linha que tínhamos de emergência caso precisássemos fazer reparos em roupas ou nas barracas, mas usaríamos naquele momento para marcar nosso caminho pelo milharal. Então adentramos no local, tentando nos manter o mais próximo possível um dos outros. Isabela pediu para ir soltando a linha, disse que não confiava na gente e para deixá-la mais tranquila permitimos.
Andamos por alguns minutos, todos em silêncio, tentando ouvir qualquer outro barulho suspeito, entretanto as coisas estavam curiosamente silenciosas. Eu não ouvia nem mesmo o barulho do vento agitando a plantação ou dos animais noturnos. Naquela altura da caminhada já estávamos provavelmente no meio do labirinto criado pelos vegetais, quando Bebela fez com que parássemos de andar.
- Estamos fodidos, ai a gente vai morrer.
- O que foi? - Perguntei.
- Eu tinha amarrado a linha na cerca da entrada, aí eu ia vir desenrolando o fio sem risco dele ser arrastado pelo chão e perdermos o caminho. - Então ela apontou para o rolo em sua mão, mostrando que ela estava enrolando ele facilmente - Eu percebi que tava meio frouxa e comecei a puxar pra esticar, mas continuou vindo, a linha ta cortada.
- Você ta dizendo que arrebentou? - Regina agora parecia levemente aflita.
- Não, isso aqui foi feito pra remendar coisas de acampamento, precisa ser forte. - Ela então começou a puxar duas pontas do fio - É impossível fazer isso com as mãos, foi cortado.
Assim que terminou de falar todos nós ficamos em silêncio absoluto, até que Regina começou a chorar e repetir que a gente ia morrer, o que nos deixou incomodados. Então Juan e Marcos olharam um para o outro e assentiram com a cabeça, sem precisar dizer nada.
- Ei, Gi, calma, não precisa chorar, foi só uma brincadeira nossa, ta tudo bem. - Juan disse e os dois abraçaram ela para deixá-la mais tranquila.
- Pedi uma amiga minha que estava em um sítio aqui perto para nos ajudar a pregar uma peça em vocês. Ela daria um grito e a gente ia pro milharal pra deixar vocês assustados. Então ela veio antes e fez um caminho aqui, mandou por mensagem dizendo as ordens de direita e esquerda que virou, para encontrarmos ela no final e vocês verem que não era nada. - Marcos continuou a explicação do amigo, recebendo um tapa de Isabela em seguida.
- Vão se foder os dois, olha o que vocês fizeram, agora a gente ta aqui dentro com a menina morrendo de medo. E bom que vocês sabem voltar, porque seguir o caminho de linha já era.
- Sobre isso, não fomos nós que cortamos a linha, deve ter sido ideia da amiga do Marcos. - Juan explicou enquanto soltava Regina de seu abraço - Agora vamos pro ponto de encontro achar ela e ir embora daqui logo.
Seguimos eles com passos mais rápidos do que antes, loucos para sair daquele lugar. Não andamos muito mais do que dois minutos até chegarmos no local em que eles diziam ser o combinado. Assim que pisamos lá vimos a garota deitada no chão coberta de sangue. A princípio pensei ser só mais uma pegadinha, mas quando Marcos começou chamar a amiga dizendo que tinha acabado, e ela não se mexia, fiquei assustado.
O garoto, já sem paciência, resolveu usar as mãos para puxá-la, o que revelou um rosto incrivelmente mutilado e a parte da frente das roupas rasgadas, cheias de corte e ferimentos. A menina estava de olhos abertos, congelados em uma expressão de espanto. Demos um passo para trás, arfando desesperados. Marcos soltou o primeiro grito, nos unimos a ele em seguida.
Certo, eu adoro esse tipo de brincadeira, Marcos sabe disso, mas me mandar para o meio do mato já era outra coisa, até eu tenho medo disso. Fiz como o combinado, cheguei na fazenda e entrei rapidamente no milharal para ninguém me ver, então comecei a contar em qual direita e esquerda entrava respectivamente, anotando tudo no celular.
Cheguei em um lugar que considerava longe, mas perto o suficiente para ouvirem meu grito, mandei a mensagem com as informações para os meninos, puxei o ar e dei o melhor e mais tenebroso grito que podia dar na minha vida. Comecei a rir em seguida, imaginando a cara dos outros amigos de Marcos ao me ouvir.
Olhei para o lado e um homem estava à espreita, me observando. Fiquei tensa e dei um passo para trás. Os olhos dele pareciam vidrados, como se lessem cada centímetro do meu corpo. Ele se aproximou devagar e passou a mão no meu rosto, acariciando-o, eu não conseguia me mover, estava paralisada de medo.
- Eu nunca conheci uma garota como você, é muito bonita, sabia? - Ele então retirou um canivete do bolso e sorriu, me segurando fortemente com a outra mão - Infelizmente terei que matá-la.
- O que está esperando então? - Falei, sentindo uma súbita coragem para enfrentá-lo naquele momento, podia ser até mais uma brincadeira dos meninos.
- Curioso, você é a primeira que parece eufórica para isso. Acha que estou mentindo?
- Não. - Murmurei. Eu via nos olhos dele, era verdade. Iria gritar novamente, dessa vez de verdade, mas a lâmina dele veio primeiro na minha garganta.
- Vou acabar com você e depois vou atrás dos outros - Ele disse devagar quando caí no chão. A partir disso para mim foi só escuridão.